De Lênin ao leninismo

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Por OSVALDO COGGIOLA*

Considerações por ocasião dos 100 anos da morte de Lênin

1.

Em A Era dos Extremos, Eric Hobsbawm definiu Lênin como “o homem com maior impacto individual na história do século XX”. O homem, como se sabe, foi o dirigente principal (mas não único) da Revolução de Outubro, cuja sombra pairou e paira sobre o mundo. Seu mito foi o inspirador do fantasma que perseguiu o século, o da “revolução comunista mundial”, usado para justificar guerras e massacres sem paralelo na história.

Na Rússia, berço do “fantasma comunista” e “país de passado imprevisível”, foi na pena dos mesmos autores que encontramos interpretações diametralmente opostas sobre Lênin. É o caso de Dimitri Volkogonov, quem sustentou, ao longo de anos, a versão “oficial” soviética, apresentando o bolchevismo como um “bem absoluto”, surgido da cabeça de Lênin. Em contrapartida, Leon Trotsky era apresentado como a encarnação do mal, inimigo de Lênin do início ao fim (mas ocultando isso durante um breve período), e inimigo do socialismo por conta do imperialismo.

Numa trilogia consagrada aos personagens mais importantes da história da URSS,[i] Dimitri Volkogonov mudou completamente de campo: o bolchevismo era agora o “mal absoluto”, surgido do gênio (demoníaco) de Lenin. Quanto a Stalin e Trotsky, eram “irmãos inimigos”; o primeiro um filho legítimo de Lênin. Volkogonov interpretou tendenciosamente frases, nas quais “nota por nota, carta por carta, Lênin, o semideus venerado durante 62 anos, inclusive por mim, aparece não como o guia magnânimo da lenda, mas um tirano cínico, disposto a tudo para tomar e conservar o poder”. “Semideus venerado”: essa era a qualidade de Lênin na “história oficial” da URSS. Um praticante ocidental da história-folhetim, no esteio da reação anticomunista pós-soviética, intitulou um seu trabalho “Lênin, a causa do mal”.[ii]

O “leninismo” foi criado por ocasião da morte de Lênin como uma doutrina supostamente infalível, capaz de garantir, mediante sua “aplicação”, a vitória da revolução socialista. Um século depois, sobre o terreno desbravado e também devastado por revoluções vitoriosas e derrotadas, por guerras e contrarrevoluções sangrentas, convém se deter sobre as condições que forjaram o homem, e também sobre as que presidiram a doutrina que inspirou o chamado “movimento comunista internacional”. Bukhárin resumiu: “Marx deu principalmente a álgebra do desenvolvimento capitalista e da ação revolucionária; Lenin acrescentou a álgebra de novos fenômenos de destruição e construção, assim como a sua aritmética. Decifrou as fórmulas da álgebra de um ponto de vista concreto e prático”.[iii]

Isso num país em que, no resumo de Trotsky, “havia muito tempo que a queda da monarquia era a condição indispensável para o desenvolvimento da economia e da cultura da Rússia. Mas faltavam as forças para levar adiante essa tarefa. A burguesia aterrorizava-se diante da revolução. Os intelectuais tentavam organizar o campesinato à sua volta. Incapaz de generalizar os seus esforços e objetivos, o mujique não deu resposta aos apelos da juventude. A intelectualidade armou-se de dinamite. Toda uma geração se consumiu nesta luta”. O que incluiu o irmão mais velho de Lenin, Alexander Ulianov, populista, executado pelo regime czarista por conspiração contra o monarca, sem que nenhum atentado fosse realizado contra ele.

Membro da geração revolucionária seguinte, Lênin começou sua carreira no POSDR (Partido Operário Socialdemocrata da Rússia) combatendo, no velho populismo russo (inclusive sua vertente dinamiteira), sua pretendida via específica, “oriental”, para o socialismo, baseada na sobrevivência da comunidade agrária russa (o mir). Era equivocado sustentar a possibilidade de realizar um socialismo russo baseado na comunidade rural, como fizeram os narodniki, já que o desenvolvimento capitalista havia criado uma diferenciação social dentro das comunidades rurais. A aldeia estava processo de dissolução, dando lugar, por um lado, à propriedade agrária capitalista e, pelo outro, aos assalariados agrícolas. Seu diagnóstico sobre a dissolução da antiga comunidade rural (confirmado pela pesquisa histórica ulterior),[iv] exposto em diversos trabalhos, em especial em O desenvolvimento do capitalismo na Rússia, seguiu as pegadas da luta política de Plekhánov contra o populismo, resumida em Nossas divergências.[v]

Lênin acrescentou uma valoração diferenciada do movimento dos camponeses, que apontava para o ponto nodal da estratégia revolucionária, a aliança operário-camponesa. No Programa agrário da socialdemocracia, afirmou: “O erro de certos marxistas consiste em que, ao criticar a teoria dos populistas, perdem de vista seu conteúdo historicamente real e legítimo na luta contra o feudalismo. Criticam, e com razão, o ‘princípio do trabalho’ e o ‘igualitarismo’ como socialismo atrasado, reacionário, pequeno-burguês e esquecem que essas teorias exprimem o democratismo pequeno-burguês avançado, revolucionário; essas teorias servem de bandeira à mais decidida das lutas contra a velha Rússia, a Rússia feudal. A ideia de igualdade é a ideia mais revolucionária na luta contra a velha ordem de coisas do absolutismo em geral e contra o velho regime feudal e latifundiário de posse da terra em particular. A ideia de igualdade é legítima e progressista no pequeno-burguês camponês, porque expressa a aspiração à repartição”.

Para Lênin, “a questão agrária constituía a base da revolução burguesa na Rússia e determinava a particularidade nacional dessa revolução”.[vi] Os objetivos que punha para a revolução burguesa eram: república democrática, assembleia constituinte, e governo revolucionário provisório no regime da ditadura democrática dos operários e camponeses. O meio para realizar tais objetivos seria a insurreição popular armada. Segundo Lênin, o partido deveria promover uma revolução de operários e camponeses, e esta, ao realizar a revolução democrática, ainda que preparando o terreno para a revolução socialista, não poderia escapar, pelo menos por algum tempo, ao destino de revolução burguesa.

Trotsky, membro da geração sucessiva, entendia que o proletariado teria de buscar o apoio dos camponeses, mas não poderia ficar só nisso: ao completar a revolução burguesa, o proletariado seria inevitavelmente induzido a realizar sua própria revolução, sem solução de continuidade. A questão, já polêmica, do programa da revolução se imbricava com a da organização, que deu origem ao bolchevismo, identificado com Lênin.

O papel político de Lênin na virada do século foi o de colocar as bases para a organização de um partido operário unificado, depois da dispersão dos grupos participantes do congresso de fundação do POSDR em 1898. Uma espécie de unidade existia através da referência aos socialistas exilados, liderados por Plekhánov. Mas “até então o grupo de Plekhánov havia se preocupado principalmente do problema de orientação teórica, pelo motivo de não existir nenhum partido político que se identificasse com a teoria de Marx e que procurasse difundir essa doutrina entre as massas populares”.[vii]

Em Nossa Tarefa Imediata, de 1899, Lênin definia que “o partido não deixou de existir; apenas se recolheu em si mesmo, para reunir forças e encarar a tarefa de unificar a todos os socialdemocratas russos em um terreno firme. Realizar essa unificação, elaborar as formas convenientes, deixar de lado definitivamente o fracionado trabalho localista: tais são as mais imediatas e essenciais tarefas dos socialdemocratas russos”. Como surgiu, nessas condições, o bolchevismo, a grande criatura política de Lênin?

Contra a interpretação a-histórica, foi apontado que “são três as organizações habitualmente designadas como ‘partido bolchevique’: (i) o POSDR, entre 1903 e 1911, no qual muitas frações disputavam a direção; (ii) a fração bolchevique no interior desse mesmo partido; (iii) o POSDR (bolchevique) finalmente fundado em 1912, que receberia importantes reforços, especialmente aquele da ‘organização interdistrital’ de Petrogrado com Trotsky, antes de ser o partido bolchevique vitorioso em Outubro”.[viii]

O bolchevismo foi uma corrente surgida de disputas ideológicas e políticas, de cisões e de fusões, mas com uma continuidade. Foi Lênin quem se encarregou, cedo, de relativizar os princípios políticos e organizativos do Que Fazer? (de 1902), considerado (erradamente) a carta fundacional do bolchevismo, como sendo os de um “novo tipo” de partido. O termo “bolchevique” teve, no início, o significado de maioria (do II Congresso do POSDR, de 1903). Escrevendo em 1907 um prefácio à reedição de seus trabalhos, Lênin criticou os exegetas do Que fazer?, que “separam completamente esse trabalho de seu contexto em uma situação histórica definida – um período definido há muito tempo ultrapassado pelo desenvolvimento do partido”, precisando que “nenhuma outra organização senão aquela liderada pela Iskra podia, nas circunstâncias da Rússia de 1900-1905, ter criado um partido operário socialdemocrata tal como aquele que foi criado… Que Fazer? é um resumo da tática e da política de organização do grupo da Iskra em 1901 e 1902”.

Essa tática e essa política não se consideravam originais, mas uma versão, nas condições russas (severa repressão, ausência de liberdades democráticas e de democracia política), dos princípios da II Internacional, em especial do SPD alemão, do qual já dizia em 1883 o chefe da polícia alemã, que “os partidos socialistas do estrangeiro consideram-no como o exemplo que deve ser imitado em todos os seus aspectos”.[ix] Lênin propunha uma organização de revolucionários, conspirativa e centralizada, que fosse ao mesmo tempo uma organização operária, com ampla margem para o debate interno, mas com plena unidade de ação. Se o primeiro aspecto foi enfatizado, foi por entrar em choque com os partidários de um partido “laxo”, que os bolcheviques não consideravam adaptado às condições russas.

Para Lênin, o revolucionário “não deve ter por ideal o secretário do sindicato mas o tribuno popular, que sabe reagir contra toda manifestação de arbitrariedade e de opressão, onde quer que se produza, qualquer que seja a classe ou camada social atingida, que sabe generalizar todos os fatos para compor um quadro completo da violência policial e da exploração capitalista, que sabe aproveitar a menor ocasião para expor suas convicções socialistas e suas reivindicações democráticas, para explicar a todos e a cada um o alcance histórico da luta emancipadora do proletariado”.

Em resumo, um partido operário e também profissional. Essa ideia seria mantida em todas as fases do bolchevismo, inclusive nas mudanças de programa. A partir dela, combinada com circunstâncias específicas, o bolchevismo foi se perfilando como uma corrente política diferenciada nas correntes socialistas, inclusive internacionais, para além das intenções de seus fundadores. Lênin mudou, não uma, mas várias vezes sua apreciação acerca da natureza da revolução russa, mas nunca a ideia de que seu protagonista central seria o proletariado industrial, elaborada na década de 1890 em polêmica contra os narodniki (populistas): “A classe operária é o inimigo coerente e declarado do absolutismo, e só entre a classe operária e o absolutismo não é possível qualquer compromisso. A hostilidade de todas as outras classes, grupos e estratos da população em relação à autocracia não é absoluta: sua democracia está sempre olhando para trás”.

É para e com essa classe operária que o bolchevismo se propôs construir um partido. Foi em virtude de sua eficácia nisso que o bolchevismo se constituiu e vingou. No princípio, é provável que os companheiros de Lênin não entendessem o sentido profundo de suas propostas. Seu conceito da organização e da disciplina constituía, no entanto, uma política eficaz na tarefa de unificar os comitês socialistas clandestinos, cujo número aumentava rapidamente na Rússia, com a direção da Iskra, situada no exterior. Muitos comitês se opuseram. A “questão do partido” (e de suas frações) nasceu da divergência entre Lênin e Martov, no II Congresso do POSDR, a respeito do primeiro artigo do estatuto. Martov propunha: “É membro do POSDR quem aceita o seu programa e sustenta o partido, materialmente ou mediante uma cooperação regular desenvolvida sob a direção de um de seus organismos”. Ao que Lênin respondeu: “É membro do partido quem aceita seu programa e sustenta o partido, materialmente ou através da sua participação pessoal na atividade de um de seus organismos”. Divergência, aparentemente, mínima.

No congresso socialdemocrata de 1903, o “segundo”, a maioria bolchevique foi na verdade minoria nas votações imediatamente anterior e posterior ao voto dos estatutos: “A formulação mais elástica de Martov, que, em oposição a Lênin, não considerava que a ‘colaboração’ devesse constituir um requisito em uma organização do Partido, foi aceita por 28 votos contra 23. Após a retirada de sete delegados, Lênin passou a constituir uma maioria de 24 contra 20, de modo que conseguiu a admissão de sua própria lista de candidatos ao Comitê Central… A vitória durou pouco, pois o resultado foi a divisão da direção do Partido em duas frações [bolcheviques e mencheviques].

Os postos dirigentes da Iskra retornaram a homens que se converteram em adversários ideológicos de Lênin, que logo se uniram a Plekhánov. Lenin preparou a fundação de seu próprio periódico; Vperiod (Avante) foi lançado no final de 1904”.[x] Os bolcheviques constituíram sua fração e convocaram o seu próprio congresso como III Congresso do POSDR (Londres, 1905). O bolchevismo, como se vê, surgiu de uma série de crises e reviravoltas políticas, não de um projeto pré-existente acabado.

2.

Um divulgado dicionário político, porém, considerou o leninismo como “a interpretação teórico-prática do marxismo, em clave revolucionária, elaborada por Lênin num e para um país atrasado industrialmente, como a Rússia, onde os camponeses representavam a enorme maioria da população”, atribuindo à “teoria do partido” de Lênin “claras raízes populistas” e situando-a simultaneamente como uma variante “esquerdista” do revisionismo bernsteiniano.[xi]

A polêmica organizativa na socialdemocracia russa encobria uma divergência em torno a que tipo de partido (parlamentar ou revolucionário) para que tipo de atividade (eleitoral ou revolucionária), para que tipo de época (pacífica ou revolucionária). O que pareceu ser, inicialmente, uma diferença em torno aos métodos para construir um partido operário na Rússia, concluiu revelando-se como uma divergência acerca do programa e da época histórica mundial, que cindiria o movimento operário internacional, tendo Lênin e o bolchevismo como pivô da cisão.

Lênin foi o principal organizador do II Congresso do POSDR, considerado o verdadeiro congresso de fundação do partido. Ele foi fruto de uma série de vitórias políticas prévias: “Quando em 1903 celebrou-se o Congresso, três batalhas ideológicas já haviam sido travadas e resolvidas, que formaram a base do programa do partido unanimemente adotado pelo Congresso. Frente aos narodniki, o POSDR considerava o proletariado e não os camponeses como o agente da revolução futura; frente aos ‘marxistas legais’, predicava a ação revolucionária e negava qualquer compromisso com a burguesia; frente aos ‘economicistas’, sublinhava o caráter essencialmente político do programa do partido”.[xii] A luta contra os economicistas¸ resumida por Lênin em Que fazer?, era um patrimônio comum do partido, incluídos os futuros adversários do suposto ultra centralismo contido nesse texto.

No Que fazer?, Lênin afirmara que “o desenvolvimento espontâneo do movimento operário marcha precisamente para sua subordinação à ideologia burguesa, porque o movimento operário espontâneo é trade-unionista (…) Tudo o que inclinar-se perante a espontaneidade do movimento operário, tudo o que seja diminuir o papel do ‘elemento consciente’, o papel da socialdemocracia, significa fortalecer a influência da ideologia burguesa sobre os operários”. Mas, ao mesmo tempo, definia que “o elemento espontâneo não mais do que a forma embrionária do consciente. E os motins primitivos refletiam já um certo despertar consciente”.

Ou então: “A classe operária tende espontaneamente para o socialismo, mas a ideologia burguesa, a mais difundida (e constantemente ressuscitada sob as formas mais diversas) é aquela que mais se impõe espontaneamente aos operários”. O texto e suas consequências suscitaram uma polêmica que ressoa até hoje. Ele propunha um novo fundamento (só parcialmente antecipado por Kautsky) para o partido político operário.

Em 1904, Rosa Luxemburgo usou sua pena contra o “ultra centralismo” leninista em Questões de Organização da Socialdemocracia Russa: “Não é partindo da disciplina nele inculcada pelo Estado capitalista, com a mera transferência da batuta da mão da burguesia para a de um comitê central socialdemocrata, mas pela quebra, pelo extirpamento desse espírito de disciplina servil, que o proletariado pode ser educado para a nova disciplina, a autodisciplina voluntária da socialdemocracia”. Acrescentando que “o ultra centralismo preconizado por Lênin parece-nos, em toda a sua essência, ser portador, não de um espírito positivo e criador, mas do espírito estéril do guarda noturno. Sua preocupação consiste, sobretudo, em controlar a atividade partidária e não em fecundá-la, em restringir o movimento e não em desenvolvê-lo, em importuná-lo e não em unificá-lo”. Na concepção luxemburguista, “a socialdemocracia não está ligada à organização da classe operária: ela é o próprio movimento da classe operária”.[xiii]

A resposta de Lênin[xiv] foi simples: as críticas de Rosa foram polidamente respondidas, uma a uma, afirmando que “o que o artigo de Rosa Luxemburgo, publicado em Die Neue Zeit, dá a conhecer ao leitor, não é meu livro, mas outra coisa distinta”, e dizendo, em essência, que “o que defendo ao longo de todo o livro, desde a primeira página até a última, são os princípios elementares de qualquer organização de partido que se possa imaginar; (não) um sistema de organização contra qualquer outro”. Lênin, portanto, não se autoproclamava inventor do “centralismo democrático”.

Em 1904 também, Trotsky publicou uma brochura (Nossas Tarefas Políticas) em que, à par de uma série notável de ataques pessoais a Lênin (inaugurando uma prática desconhecida dos socialistas russos: Trotsky se justificaria mais tarde referindo-se à sua “imaturidade” – testemunhas da época, como Angélica Balabanova, afirmaram que inexistia afinidade pessoal entre os dois homens)[xv] também acusava o bolchevismo de pretender instaurar “a ditadura do partido sobre a classe operária”, do comitê central sobre o partido, e do chefe sobre o comitê central.

Ao lado dos truques polêmicos, Trotsky se livrava também a exercícios futurológicos: “As tarefas do novo regime serão tão complexas que não poderão ser resolvidas senão através de uma concorrência entre diversos métodos de construção econômica e política, através de prolongadas ‘disputas’, de uma luta sistemática não apenas entre os mundos socialista e capitalista, mas também entre muitas tendências dentro do socialismo, que surgirão inevitavelmente assim que a ditadura proletária trouxer dezenas de novos problemas. Nenhuma organização forte e ‘dominante’ será capaz de suprimir essas controvérsias. Um proletariado capaz de exercer sua ditadura sobre a sociedade não irá tolerar nenhuma ditadura sobre si mesmo. A classe operária terá nas suas fileiras alguns punhados de inválidos políticos e muito lastro de ideias envelhecidas do qual terá que se desfazer. Na época da sua ditadura, assim como hoje, terá que limpar a sua mente de falsas teorias e experiências burguesas, e purgar suas fileiras dos charlatões políticos e revolucionários que só sabem olhar para trás. Mas essa intrincada tarefa não pode ser resolvida pondo por cima do proletariado um punhado de pessoas escolhidas, ou uma única investida de poder”.

Trotsky havia rompido com Lênin no Congresso de 1903. Retrospectivamente, apresentou essa ruptura como “subjetiva” e “moral”, vinculada com um assunto que não implicava nenhum princípio político. Lênin propôs reduzir o número de redatores da Iskra de seis para três. Estes deviam ser Plekhánov, Martov e ele mesmo. Axelrod, Zasulich e Potresov deviam ser excluídos. Queria que o trabalho editorial da Iskra fosse mais eficaz do que havia sido nos últimos tempos; “a “Trotsky, essa tentativa de eliminar, da Iskra, Axelrod e Zasulich, dois de seus fundadores, parecia-lhe sacrilégio. A dureza de Lênin suscitou sua repugnância”.[xvi]

No Congresso, Trotsky falou contra Lênin apenas em relação a dois pontos da ordem do dia: parágrafo 1 dos estatutos do partido e eleição dos órgãos centrais do partido. Trotsky não se contrapôs às teses do programa do partido preparadas por Lênin. Pelo contrário, neste item ele defendeu Lênin.[xvii] Em sua autobiografia Trotsky não se referiu ao seu folheto de 1904; depois do Congresso de 1903, ficou momentaneamente vinculado aos mencheviques, com os que rompeu depois. Durante a década posterior, foi um partidário da “conciliação” das frações (não sem alguns sucessos, também efêmeros) o que alimentou a lenda de um Trotsky “antibolchevique”, embora se aproximasse do bolchevismo sendo tão membro do POSDR quanto Lenin, numa época em que a divisão formal do partido não tinha sido consumada.

Contra Trotsky, Lênin afirmou que “esqueceu que o Partido deve ser apenas um destacamento da vanguarda, o dirigente da imensa massa da classe operária, que no seu conjunto (ou quase) trabalha ‘sob o controle e sob a direção’ das organizações do Partido, mas que não entra inteiramente, e nem deve, no ‘Partido’”[xviii] (as aspas – irônicas – são de… Lênin). Partido, vanguarda operária, classe operária, não se identificavam (como faziam, segundo Lênin, Trotsky e Rosa Luxemburgo) embora se influenciassem mutuamente. Em 1905, o bolchevismo era um partido da vanguarda operária, sua composição era de quase 62% de operários (e quase 5% de camponeses)[xix]: esse era o partido dos “revolucionários profissionais”.

Três lustros depois, Lênin ironizou seus críticos: “Afirmar que a Iskra (de 1901 e 1902!) exagerou na ideia de uma organização de revolucionários profissionais é como dizer, depois da guerra russo-japonesa, que os japoneses se faziam uma ideia exagerada das forças militares russas, e que se preocuparam demais, antes da guerra, em lutar contra essas forças”.[xx]

Muitos viram em Nossas Tarefas Políticas uma profecia sobre o destino do bolchevismo e da revolução. Para Isaac Deutscher, que criticou os ataquespessoais do trabalho, este era também “assombroso” por conter “grandes ideias” e “sutil perspicácia histórica”.[xxi] Para E. H. Carr, “o processo (futuro) foi previsto muito detalhadamente por Trotsky, que em um brilhante panfleto publicado em 1904 anunciou uma situação em que ‘o partido é substituído pela organização do partido, a organização pelo comitê central e finalmente o comitê central pelo ditador’”.[xxii] Pierre Broué criticou o “pedantismo” de Nossas Tarefas, suas invectivas contra “Maximilien Lênin”, afirmando que Trotsky considerou, mais tarde, o trabalho como “um documento terrivelmente molesto acerca do qual observou a maior discrição”, e se perguntou porque, nas circunstâncias da sua publicação (ruptura de Trotsky com o menchevismo) ele “não renunciou à sua publicação”.[xxiii]

Lênin respondeu à comparação com Robespierre afirmando que “o jacobino ligado indissoluvelmente à organização do proletariado que tem consciência dos seus interesses de classe, é justamente o socialdemocrata revolucionário”. [xxiv] A crítica mais forte se referia ao fato de que Lênin havia sustentado que a intelectualidade revolucionária desempenhava um papel especial no movimento revolucionário, dotando-o da perspectiva socialista que os operários não alcançariam por si mesmos. Trotsky via nessa opinião uma negação das capacidades revolucionárias da classe operária e a aspiração da intelectualidade de manter o movimento operário sob sua tutela. O socialista polonês Makhaivski sustentava opinião semelhante sobre o “socialismo russo” em geral.[xxv]

Trotsky afirmou que, no Congresso, “todo meu ser protestava contra a impiedosa supressão dos veteranos. Da indignação que senti provém a minha ruptura com Lênin, que teve lugar de certo modo sobre um terreno moral. Mas isso era só aparência. No fundo, nossas divergências tinham um caráter político que se manifestou na questão da organização”.[xxvi] Nossas Tarefas Políticas estava “dedicada a Pavel Axelrod”. Hoje parece claro que “tanto Trotsky como Luxemburgo foram injustos com Lênin quando retiravam as posições do Que fazer? de seu contexto histórico concreto e atribuíam a elas um caráter universal”.[xxvii]

Trotsky se pronunciou, bem depois, sobre o seu trabalho “maldito”, sem arrependimentos: “Em uma brochura escrita em 1904, cujas críticas contra Lênin careciam frequentemente de maturidade e justeza, há no entanto páginas que fornecem uma ideia bem fiel do modo de pensar dos komitetchiki dessa época (…) A batalha que Lênin sustentaria um ano depois, no congresso [III Congresso, abril de 1905], contra os komitetchiki arrogantes confirma plenamente essa crítica”.[xxviii] É esse o aspecto explorado pelos historiadores que afirmam que “(em 1903) Lênin já estava convencido de que era o revolucionário profissional, e não as massas, as que tinham a chave para a vitória do socialismo”.[xxix]

A posição de Lênin, que conduziu ao surgimento das frações, nada teve de uma impulsão súbita: era a continuidade de uma luta política e ideológica que o tinha como protagonista desde a década de 1890. A luta contra o populismo, o Que fazer?, a delimitação do menchevismo, foram suas diversas fases, não baseadas num fetiche estatutário: Lenin aceitou, no Congresso de reunificação (bolcheviques + mencheviques) de 1906, a redação menchevique do artigo 1o dos estatutos…

Este e outros episódios permitem questionar a visão retrospectiva do bolchevique Zinoviev: “Em 1903 já tínhamos dois grupos claramente separados, duas organizações e dois partidos. Bolchevismo e menchevismo, como tendências ideológicas, já estavam formadas com o seu perfil característico, depois evidenciado na tormenta revolucionária”.[xxx] No Congresso de Londres de 1905 (bolchevique), Lênin empreendeu a batalha pelo recrutamento e promoção de trabalhadores que não eram “revolucionários profissionais”, mas apenas militantes operários: índice de um conflito com os komitetchiki, os “homens de comitê”.

Nadezha Krupskaïa, esposa de Lênin, relatou em suas memórias a batalha entre Lênin e Rykov, porta-voz dos “clandestinos”: “O komitetchiki era um homem cheio de segurança… não admitia nenhuma democracia no interior do partido… não gostava de inovações”. Segundo ela, Lênin mal conseguiu se conter “ouvindo dizer que não havia operários capazes de formar parte dos comitês”. Ele propôs incluir obrigatoriamente nos comitês uma maioria de operários. O aparato partidário era contrário; a proposição de Lênin foi derrotada, um fato que Pierre Broué relacionou com “o espírito de seita que deixou os bolcheviques longe dos primeiros sovietes, nos quais muitos deles receavam uma organização adversária”.

A revolução de 1905, já em andamento, testemunhara a formação dos conselhos operários, eleitos pelos trabalhadores nos próprios locais de trabalho. Os delegados eram em todo momento revogáveis pelos seus eleitores. Sindicalizados ou não, politicamente organizados ou desorganizados, os proletários de Petersburgo, Moscou, Kiev, Kharkov, Tula, Odessa e de outras aglomerações industriais criavam uma nova forma de organização de massa, que aparecia como o contrário das assembleias parlamentares com as quais a burguesia ocidental exercia sua dominação de classe. Sua transformação em órgãos de governo, porém, ainda não era projeto de nenhuma corrente política.

A tradição revolucionária da classe operária russa teve peso decisivo na revolução de 1905; a greve de janeiro de 1905 estava intimamente ligada à explosão de outra greve geral, em 1904, em Baku, no Cáucaso. Esta, por sua vez, foi precedida por outras grandes greves que aconteceram entre 1903 e 1904, no sul da Rússia, que tiveram como antecessora a grande greve de 1902, em Batum. Podemos identificar o início dessa série de greves naquela que foi empreendida pelos operários têxteis de São Petersburgo entre 1896 e 1897.

Desde finais do século XIX, Rússia virara um epicentro da revolução europeia: o POSDR, no seu congresso de 1903, adotou um programa “onde figurava, pela primeira vez na história dos partidos socialdemocratas, a palavra de ordem de ditadura do proletariado, definida como a conquista do poder político pelo proletariado”.[xxxi] A luta de classes na Rússia ganhava um perfil próprio, de vanguarda, no cenário internacional; a socialdemocracia russa não era a simples projeção do socialismo europeu em “terras selvagens”.

Na revolução de 1905, o problema dos sovietes afetou a todas as frações do POSDR: “Sem atender à cooperação de muitos operários bolcheviques nos conselhos, a posição de princípio dos órgãos dirigentes bolcheviques variava entre uma rejeição radical e uma aceitação meio desgostosa desses ‘corpos alheios’ à revolução. A posição dos bolcheviques com respeito aos sovietes era diferente segundo os locais e estava sofrendo transformações; o próprio Lênin não chegou a um juízo definitivo sobre seu papel e importância, apesar de ter sido o único que, entre os bolcheviques, se esforçou para examinar a fundo esse novo fenômeno revolucionário e agregá-lo a sua teoria e tática revolucionárias.

Durante a greve de outubro os operários bolcheviques participaram na formação do Conselho de Deputados Operários de Petersburgo, assim como os outros operários. Nos primeiros dias de existência do soviete, quando este atuava como comitê de greve e ninguém sabia realmente que papel ele desempenharia no futuro, os bolcheviques se opunham a ele de forma benévola. Mas isso mudou quando, ao terminar a greve de outubro, o soviete permaneceu em pé e começou a evoluir no sentido de um órgão de direção política da classe operária. A maior parte dos bolcheviques fixou abertamente sua oposição ao soviete; eles elaboraram, nos comitês federativos formados por representantes de ambas as frações do POSDR, uma resolução na qual se recomendava a aceitação oficial do programa da socialdemocracia, já que organizações independentes ao estilo do conselho não podiam guiar uma orientação política clara e seriam perniciosas”.[xxxii] O partido que se projetaria ao mundo como vanguarda do “poder soviético” se opôs, inicialmente, à função dirigente ou governamental do soviete. Não houve um “Lênin genial” para impedir isso.

3.

Para a maioria dos historiadores marxistas existiu um vínculo entre o Que fazer? e o “sectarismo bolchevique”. Paul Le Blanc afirma que “o sectarismo potencial que (Rosa) Luxemburgo havia notado nas concepções de Lenin, manifestou-se claramente desde 1905”.[xxxiii] Para Ernest Mandel “é evidente que Lenin subestimou no decurso do debate de 1902-1903 os perigos para o movimento operário que podiam surgir do fato de se constituir uma burocracia no seu seio”.[xxxiv] O teste da revolução, e sua derrota, produziram novas crises e realinhamentos políticos.

Durante a reação posterior a 1905, bolcheviques e mencheviques dividiram-se em três frações cada um: os “liquidadores” (Potressov, Zasulich), o centro (Martov, Dan) e os “mencheviques de partido” (Plekhanov) entre os segundos; os “vperiodistas” (Bogdanov), os “leninistas” e os “conciliadores” ou “bolcheviques de partido” (Rykov, Nogin), entre os primeiros. Se 1903 não foi a “data mágica” do bolchevismo, 1906 (congresso de reunificação) não foi a grande hora da conciliação perdida (Lênin declarou que “até a revolução social, a socialdemocracia apresentará inevitavelmente uma ala oportunista e uma ala revolucionária”); os bolcheviques mantiveram um “centro clandestino” no partido unificado; enfim, 1912 (quando os bolcheviques se separaram em definitivo dos mencheviques) não foi o “partido final”, pois antes de 1912 Lenin se reconciliou com Plekhánov e formou um bloco no POSDR com os “mencheviques do partido” contra os “liquidadores”, com o objetivo da manutenção de um aparato clandestino. É sobre essa posição que se constituiu o POSDR (bolchevique), com uma ala revolucionária e outra “oportunista”…

Entre crises e disputas acirradas entre frações, os problemas políticos da socialdemocracia russa se situavam em nível superior aos das outras seções da II Internacional, impregnadas pelo reformismo e o eleitoralismo. Sua particularidade não tem a ver com uma suposta teoria acerca do “Partido, com maiúscula, (que) constitui a grande e ambígua contribuição russa à história contemporânea”, também chamada de “o Partido: uma entidade meta-política totalmente diversa de tudo que tinha sido visto até então na variada cena dos movimentos socialistas europeus”, considerada como o nascimento de uma nova variante antropológica: o homo bolchevicus! [xxxv]

Resulta fácil apontar o dedo para a confusão de bolcheviques e mencheviques sobre o papel dos sovietes; os próprios dirigentes destes estavam confusos a respeito: “Mesmo quando do segundo congresso (dos sovietes), a 28 de outubro, nenhum membro dessa assembleia sabia muito bem a sua função, se eles constituíam um comitê central de greve ou um novo tipo de organização, semelhante a um organismo de autoadministração revolucionária”.[xxxvi]

A evolução de Lenin foi descrita de modo irônico por Moshe Lewin: “Desde a sua obra escrita no exílio siberiano, Lenin tinha a tendência de ver capitalismo atrás de cada carreta russa. A revolução de 1905 o levou a nuançar suas ideias: o capitalismo estava ainda fracamente desenvolvido, as forças liberais eram embrionárias e tímidas”.[xxxvii] Ainda assim, para Lenin a revolução continuava sendo “burguesa no sentido de seu conteúdo econômico-social.

O que significa: as tarefas da revolução que está ocorrendo na Rússia não ultrapassam o âmbito da sociedade burguesa. Nem mesmo a mais plena vitória da atual revolução, isto é, a conquista da república mais democrática e a confiscação de toda a terra dos proprietários pelos camponeses, abalará os fundamentos da ordem social burguesa”. Mas, dessa tese, Lênin não derivava a conclusão de que o motor principal da revolução seria a burguesia, como queriam os mencheviques, porque a revolução ocorria no momento em que “o proletariado já começou a tomar consciência de si como uma classe particular e a se unir numa organização de classe autônoma”.

Em setembro de 1905, durante a “primeira revolução russa”, Lênin afirmou que “da revolução democrática começaremos logo a passar, na medida das nossas forças, das forças do proletariado consciente e organizado, à revolução socialista. Somos pela revolução ininterrupta. Não nos deteremos a meio caminho”. Lênin, no entanto, limitava o alcance imediato da revolução ao horizonte democrático-burguês. Segundo Trotsky, ele “queria dar a entender que, para manter a unidade com o campesinato, o proletariado se veria obrigado a prescindir da colocação imediata das tarefas socialistas durante a próxima revolução. Mas aquilo significava para o proletariado renunciar à sua própria ditadura. Consequentemente, a ditadura era, em essência, do campesinato, mesmo que dela participassem os operários”.

Citemos as palavras confirmatórias de Lênin, pronunciadas no Congresso de Estocolmo do POSDR (de 1906) ao replicar a Plekhánov: “De que programa estamos falando? De um programa agrário. Quem se supõe que tomará o poder com esse programa? Os camponeses revolucionários” Confundia Lenin o governo do proletariado com o governo dos camponeses? “Não” – dizia ele, referindo-se a si próprio – “Lênin diferenciava marcadamente governo socialista do proletariado do governo democrático-burguês dos camponeses”.

Trotsky já defendia a revolução permanente, cuja perspectiva era que “a vitória completa da revolução democrática na Rússia apenas se concebe na forma de ditadura do proletariado, secundado pelos camponeses. A ditadura do proletariado, que inevitavelmente poria sobre a mesa não apenas as tarefas democráticas, mas também socialistas, daria ao mesmo tempo um impulso vigoroso à revolução socialista internacional. Apenas a vitória do proletariado do Ocidente poderia proteger a Rússia da restauração burguesa, dando-lhe segurança para completar implantação do socialismo”.

Era uma divergência de alcance estratégico: “O bolchevismo não estava contagiado pela crença no poder e na força de uma democracia burguesa revolucionária na Rússia. Desde o princípio reconheceu a significação decisiva da luta da classe operária na revolução vindoura, mas o seu programa se limitava, na primeira época, aos interesses das grandes massas camponesas, sem a qual – e contra a qual – a revolução não teria podido ser levada a cabo pelo proletariado. Daí o reconhecimento provisório do caráter democrático-burguês da revolução e de suas perspectivas.

Por isso, o autor [Trotsky] não pertencia, naquele período, a nenhuma das duas principais correntes do movimento operário russo”. Para ele, “o proletariado, chegado ao poder, não deve limitar-se ao marco da democracia burguesa senão que deve empregar a tática da revolução permanente, ou seja, anular os limites entre o programa mínimo e o máximo da socialdemocracia, passando para reformas sociais cada vez mais profundas e buscando um apoio direto e imediato na revolução do Oeste europeu”. [xxxviii]

Na medida da evolução das posições, uma convergência se desenhou desde o V Congresso (de Londres) do POSDR: “O fato mais notável do congresso foi o isolamento dos mencheviques diante da convergência de posições de Lênin, Rosa Luxemburgo e Trotsky. Tratava-se de uma convergência objetiva, sem qualquer acordo, e não isenta de consideráveis discrepâncias, entre Lênin e os bolcheviques, por um lado, e Rosa e Trotsky, por outro”.[xxxix]

A historiografia soviética pós-Gorbachev teve tendência a minimizar os desacordos Lênin-Trotsky pré-revolução (assim como o stalinismo, antes, os exagerou até a mentira deslavada): “Esses desacordos não possuem muito significado quando os consideramos sob uma perspectiva histórica. Isso compreende a questão da revolução permanente que sempre foi levada a proporções exageradas, após a morte de Lênin. De fato, depois de 1916, Lênin nunca mais destacou esta questão”. O mesmo autor destaca que “artigos de Trotsky foram publicados em revistas dirigidas por Lênin”.[xl]

As divergências estratégicas continuaram. Elas se acirraram depois do “Bloco de Agosto” (bloco “pela unidade do POSDR”, encabeçado por Trotsky, com participação menchevique) de 1912, quando os bolcheviques se engajaram na via da construção de um partido independente. Durante 15 anos, Lenin e Trotsky se dispensaram, por escrito, insultos variados (“medíocre”, “advogado de segunda classe”, disse Trotsky sobre Lênin; “caluniador barato”, “tocador de balalaika”, “fingido”, “ambicioso”, revidou este), o que Trotsky, retroativamente, atribuiu à imaturidade a ao “calor” da luta de frações.

Em pleno período de reação, Trotsky precisou o alcance das divergências: “Se os mencheviques, partindo da seguinte concepção: ‘nossa revolução é burguesa’, chegam à ideia de adaptar toda a tática do proletariado à conduta da burguesia liberal até a conquista do poder pela mesma, os bolcheviques, partindo de uma concepção não menos abstrata, ‘a ditadura democrática, mas não socialista’, chegam à ideia de uma autolimitação do proletariado, que detém o poder, a um regime de democracia burguesa. É verdade que entre mencheviques e bolcheviques há uma diferença essencial: enquanto os aspectos antirrevolucionários do menchevismo se manifestam desde o presente, em todo o seu porte, aquilo que há de antirrevolucionário no bolchevismo não nos ameaça – mas a ameaça não é menos séria – senão  no caso de uma vitória revolucionária”.[xli] O que admite uma dupla leitura: (1) Trotsky põe o bolchevismo num plano histórico e político superior ao menchevismo; (2) ele também não deixava de opinar que havia no bolchevismo aspectos antirrevolucionários, o que não era pouca coisa.

4.

Nos concentramos aqui na polêmica Lênin-Trotsky pelo papel de ambos os dirigentes na Revolução de Outubro e na história ulterior. Antes disso, durante mais de um quarto de século, Lênin participou de polêmicas com numerosas correntes do socialismo russo e internacional (até o socialista argentino Juan B. Justo criticou a teoria leninista do imperialismo) e foi, sem dúvida, o pivô dos debates políticos no movimento operário de seu país. As divergências programáticas entre bolcheviques, mencheviques e “trotskistas” se evidenciaram claramente com a revolução.

Para Rudi Dutschke, “só a compreensão da revolução burguesa de 1905 nos permite aproximar-nos, através das concepções econômicas de Lenin, às raízes do centralismo democrático como tipo de partido”.[xlii] Na medida em que, inicialmente, todas as frações estavam de acordo sobre a natureza burguesa da revolução russa, as divergências não apareciam claramente. Num primeiro momento, a revolução de 1905 e sua repressão pelo czarismo aproximaram os bolcheviques dos mencheviques: ambos acreditavam na necessidade de uma etapa “democrática burguesa” previa à revolução socialista. No entanto, revelou-se, entre 1907 e 1908, que enquanto os mencheviques acreditavam que a burguesia poderia conduzir e concluir essa etapa, os bolcheviques afirmavam que apenas o proletariado e os camponeses poderiam cumprir a tarefa da etapa democrática burguesa.

As divergências foram superadas, não por completo, na prática (a Revolução de Outubro foi identificada com os nomes de Lênin e Trotsky) e pela assimilação política dessa prática. Pensar as divergências políticas como uma anormalidade, e a homogeneidade como um ideal a ser atingido, significa negar o próprio pensamento e seu motor (a contradição). Sem a revolução, é provável que algumas dessas polêmicas tivessem se estendido ad infinitum.

Em sua autobiografia, Trotsky foi bem parco a respeito: “Cheguei a Lênin mais tarde que outros, mas por meu próprio caminho, tendo atravessado e refletido sobre a experiência da revolução, da contrarrevolução e da guerra imperialista. Graças a isso, cheguei a ele mais firme e seriamente que seus ‘discípulos’” (notar as aspas). Ao que o historiador stalinista Léo Figuères respondeu: “Cabe perguntar se Trotsky teria podido unir-se ao bolchevismo em 1917 no caso em que todos seus discípulos (sic, sem aspas) tivessem seguido seu caminho, abandonado e combatido Lênin depois do II Congresso”.[xliii] Se tal coisa tivesse acontecido, o bolchevismo não teria existido. Figuères, como bom stalinista, considerava o bolchevismo como uma corrente de “discípulos” de Lênin, ou seja, em termos religiosos.

No plano internacional, nada é mais contrário à verdade do que a lenda cunhada por Stalin em Fundamentos do leninismo: que os bolcheviques teriam agido, desde 1903, em prol da cisão com os reformistas na Internacional Socialista. Foi com grande luta que Lênin conseguiu ser reconhecido representante do POSDR (junto com Plekhánov) desde 1905, no Birô Socialista Internacional (BSI) cargo que manteria até a I Guerra Mundial. Nesse marco se produziu o “Congresso de Unidade” russo de 1906. Em 1907, no Congresso Socialista Internacional de Stuttgart, a moção sobre a atitude e o dever dos socialistas em caso de guerra (“utilizar a crise provocada pela guerra para precipitar a queda da burguesia”), foi apresentada conjuntamente por Lênin, Rosa Luxemburgo e o menchevique Martov.

Quando em janeiro de 1912 a conferência (bolchevique) de Praga consumou a cisão com os mencheviques, Lênin não a apresentou no BSI como a ruptura entre reformistas e revolucionários, mas dos defensores do “verdadeiro partido operário” contra os “liquidadores” (partidários de um partido apenas “legal”), e defendendo “o único partido existente, o partido ilegal” (informe de Kamenev, representante de Lênin, no BSI de novembro de 1913).

Em 1912, os bolcheviques lutaram para se impor como representantes do POSDR no Congresso Socialista Internacional de Basileia. Já em 1914 (antes da guerra), devido ao isolamento internacional dos bolcheviques (inclusive em relação à ala esquerda da Internacional Socialista, cuja dirigente Rosa Luxemburgo se aliara aos mencheviques e ao “Bloco de Agosto” liderado por Trotsky), os bolcheviques admitiram uma nova e infrutuosa “conferência de unificação”. Lênin já era consciente da projeção internacional da “cisão russa” e, depois da capitulação dos principais partidos da Internacional Socialista diante da explosão da guerra em agosto de 1914, proclamou desde finais desse ano a luta por uma nova Internacional, a Terceira.[xliv] Três anos depois, em 1917, na Rússia, o bolchevismo foi o ponto de confluência dos revolucionários.

Lenin, em plena guerra imperialista (finais de 1915) acusou Trotsky, apesar de ambos pertencerem à chamada “esquerda de Zimmerwald”, a ultraminoritária fração internacionalista do socialismo internacional: “A teoria original de Trotsky toma emprestadoaos bolcheviques o apelo à luta revolucionária decisiva e à conquista do poder político pelo proletariado e, aos mencheviques, a negação do papel do campesinato. Este, parece, dividiu-se, diferenciou-se, e seria cada vez menos apto para ter um papel revolucionário.

Na Rússia, uma revolução ‘nacional’ seria impossível, ‘vivemos a época do imperialismo’, e ‘o imperialismo não opõe a nação burguesa ao antigo regime, mas o proletariado à nação burguesa’. Eis um exemplo divertido das brincadeiras que podem ser feitas com a palavra ‘imperialismo’. Se, na Rússia, o proletariado já se opõe à ‘nação burguesa’, então ela está na véspera de uma revolução socialista. Nesse caso, a ‘confiscação dos latifúndios’ (colocada por Trotsky em 1915) é falsa e não se trata de falar de ‘operariado revolucionário’, mas de ‘governo operário socialista’. O grau de confusão de Trotsky se vê na sua afirmação de que o proletariado encabeçará as massas populares não proletárias! Trotsky nem pensa que se o proletariado consegue levar as massas não proletárias para a confiscação dos latifúndios e a derrubada da monarquia, isso será a realização da ‘revolução nacional burguesa’, a ditadura democrático-revolucionária do proletariado e do campesinato”.

E Lênin concluía que “Trotsky ajuda de fato os políticos operários liberais, os quais, negando o papel do campesinato, recusam levar os camponeses para a revolução”. À luz da obra de Trotsky, pode-se dizer que a acusação de Lênin era falsa, embora se apoiasse em elementos ainda fracos da formulação da “revolução permanente”, que Trotsky se encarregará de precisar em trabalhos posteriores (isto sem falar em que, de fato, a Rússia se encontrava “na véspera de uma revolução socialista”). A própria guerra fez nascer outras divergências: sobre o “derrotismo revolucionário” (que Trotsky, junto a vários bolcheviques, não aceitava), sobre os “Estados Unidos da Europa”…

Mas o trabalho internacionalista comum, na esquerda de Zimmerwald, não deixou de criar os elementos da unidade política futura. A convergência, que se produziu em 1917 foi, em primeiro lugar, política, a luta por construir o instrumento da revolução, o partido. Ainda no momento da unificação, porém, Trotsky redigiu um documento, no qual se incluía uma “frase com a qual assinalava, em matéria organizativa, ‘o estreito espírito de círculo’ dos bolcheviques…. Os operários interdistritais conservavam uma grande desconfiança em relação ao comitê de Petrogrado (do bolchevismo). Escrevi então que ‘ainda existe o espírito de círculo, herança do passado, mas para ele diminuir, os interdistritais devem deixar de levar uma atividade isolada’”.[xlv]

Anos depois escreveu que “sem pertencer a nenhuma das duas frações durante a emigração, o autor subestimava o fato fundamental de que nas divergências de opiniões entre os bolcheviques e os mencheviques figuravam, de fato, um grupo de revolucionários inflexíveis por um lado e, pelo outro, um agrupamento de elementos cada vez mais desagregados pelo oportunismo e a falta de princípios. Quando estalou a revolução em 1917, o partido bolchevique representava uma organização centralizada forte, que havia absorvido os melhores elementos entre os operários progressistas e entre a inteligência revolucionária”.[xlvi]

Na véspera da revolução russa, Lênin, em palestra pronunciada na Suíça, por ocasião do aniversário do “Domingo Sangrento” de 1905, afirmou que, talvez, só as gerações futuras conseguiriam testemunhar a vitória revolucionária, a mesma que levou o bolchevismo ao poder menos de um ano depois…[xlvii] Trotsky reafirmou que “o desacordo mais importante entre Lênin e eu durante esses anos consistia na minha esperança de que uma unificação com os mencheviques impulsionaria a maioria deles na via revolucionária. Lênin tinha razão sobre essa questão fundamental. No entanto, deve-se dizer que em 1917 as tendências à ‘unificação’ eram muito fortes entre os bolcheviques”.[xlviii]

5.

A Revolução de Outubro de 1917 foi precedida pela Revolução de Fevereiro, que não foi o fruto da conspiração de qualquer partido político. 1917 foi chamado pelo presidente francês Poincaré o “ano terrível”, o terceiro da Guerra Mundial, depois de um rigoroso inverno europeu. Para milhões de homens, era o fim das ilusões patrióticas de 1914, transformadas em massacres de combatentes em “ofensivas” que custavam centenas de milhares de vidas; dificuldades de abastecimento, com fortes aumentos de preço, atingindo o operariado de todos os países; a “paz civil”, defendida pelos sindicatos e partidos operários nos países beligerantes, resultara no questionamento de todas as conquistas operárias (ritmos de produção, horários, condições de trabalho, direitos reivindicativos); o desgaste do material, das máquinas, do aparelho econômico, haviam provocado uma crise em todos os países.

A Rússia era o país que, de longe, sofrera as piores consequências da guerra, tornando mais agudas e insuportáveis suas contradições históricas. A Revolução de Fevereiro provocou a queda do czarismo e abriu um período de crises políticas que concluiu com o “golpe de Estado” de outubro, que levou ao poder aos bolcheviques, nessa altura já majoritários nos sovietes de operários, soldados e camponeses. Lênin, como já fartamente exposto em toda a historiografia, esteve no centro desses acontecimentos, que foram o ponto culminante de sua carreira política e alteraram o destino do mundo, justificando por si só a assertiva inicialmente citada de Hobsbawm.

O partido bolchevique que tomou o poder em outubro de 1917 ano era a prolongação do partido nascido em 1912 e da fração posterior a 1903. Era, no entanto, também diverso. Nos meses de aguda crise política, recrutara amplamente entre as jovens gerações de operários, de camponeses e de soldados: a organização clandestina que contava em janeiro 25.000 membros, contava com quase 80.000 quando da conferência de abril, e 200.000 no VI Congresso bolchevique, em agosto: os velhos bolcheviques e os komitetchiki eram uma minoria de 10%.

As adesões englobavam grupos operários não definidos em relação às frações e querelas anteriores à guerra: a Organização Interdistrital, que não possuía mais de 4.000 membros, teve três de seus membros eleitos para o Comitê Central. O congresso de agosto de 1917 constatou a convergência de diversas organizações ou grupos; seu fundamento sólido era o POSDR (bolchevique) de Lênin, no qual desaguaram os “riachos revolucionários” aos quais se referiu Radek.[xlix] Dois anos após a Revolução de Outubro, Lênin escrevia: “No momento da conquista do poder, quando foi criada a República dos Sovietes, o bolchevismo atraía tudo o que havia de melhor nas tendências do pensamento socialista mais próximo”.[l]

Lênin convergiu com a teoria de Trotsky[li] a partir de sua própria teoria. Nas Teses de Abril, o programa histórico da “virada”, Lênin partiu da “conclusão da fase burguesa da revolução”. Se o que impedira a tomada do poder pelo proletariado em fevereiro de 1917 fora só sua insuficiente consciência e organização, isto significa que não existia uma “revolução nacional” separada por uma etapa histórica da revolução proletária. O bolchevismo foi, graças a isso, o instrumento político do “segundo estágio” da revolução.

Foi Trotsky, em Lições de Outubro (de 1924), quem fez o balanço crítico necrológico da fórmula leninista de “ditadura democrática”: “Inteiramente revolucionária e profundamente dinâmica, a colocação do problema por Lenin era radicalmente oposta ao sistema menchevique, segundo o qual a Rússia só podia pretender repetir a história dos povos avançados, com a burguesia no poder e a socialdemocracia na oposição. No entanto, na fórmula de Lenin, certos círculos de nosso partido não acentuavam a palavra ‘ditadura’, mas a palavra ‘democrática’, em oposição à palavra ‘socialista’. Isso significaria que na Rússia, país atrasado, só se concebia a revolução democrática. A revolução socialista deveria começar no Ocidente e nós só poderíamos ingressar na corrente do socialismo seguindo a Inglaterra, França e Alemanha”.

A “virada programática” do bolchevismo ficou clara no balanço feito pelo próprio Lênin, poucos anos depois da vitória de outubro de 1917: “Para consolidar para os povos da Rússia as conquistas da revolução democrático-burguesa tínhamos que ir mais além, e assim o fizemos. Resolvemos os problemas da revolução democrático-burguesa no decorrer do processo, como um ‘subproduto’ de nossas atividades fundamentais e genuinamente proletárias, revolucionárias socialistas. Sempre dissemos que as reformas democráticas – dissemos e demonstramos com os fatos – são um subproduto da revolução proletária, ou seja, socialista. Esta é a relação entre a revolução democrático-burguesa e a revolução proletária socialista: a primeira se transforma na segunda. A segunda resolve de passagem os problemas da primeira. A segunda consolida a obra da primeira. A luta, e apenas a luta, determina até que ponto a segunda consegue se impor-se à primeira”.[lii] O “novo bolchevismo” dominou o Congresso (agosto de 1917), que materializou a fusão e teve a presidência de honra de Lênin e Trotsky (ausentes devido à repressão de julho), sendo este último eleito para o CC com 131 de 134 votos possíveis.

O ingresso de Trotsky e seus partidários, além de outros grupos, foi decisivo para a realização da “virada histórica” do bolchevismo, que assumiu seu nome definitivo de Partido Comunista. A convergência política se produziu em momentos em que, segundo o memorialista menchevique Sukhanov, “as massas viviam e respiravam com os bolcheviques, estavam inteiramente nas mãos do partido de Lenin e Trotsky”.[liii]

Refletindo retrospectivamente, Trotsky lembrou que: “Aconteciam entre Lenin e eu violentos choques, pois nos casos em que eu estava em desacordo com ele sobre um problema grave, eu levava a luta até o fim. Esses casos, naturalmente, ficaram gravados em todas as memórias, e os epígonos muito escreveram e falaram dele mais tarde. Mas são cem vezes mais numerosos os casos em que nós nos compreendemos um ao outro com meias palavras, e em que a nossa solidariedade assegurava a passagem da questão no Politburô sem debate. Lenin apreciava muito esta solidariedade”.[liv]

Vitoriosa a revolução, o bolchevismo, antes de circunstâncias precisas (uma guerra civil sangrenta, sustentada pela intervenção de 14 potências estrangeiras, e o isolamento internacional do país) não era o “partido único da revolução”. Durante a Revolução de Outubro, quatro anarquistas eram membros do Comitê Militar Revolucionário. Um marinheiro anarquista de Kronstadt liderou a delegação que dissolveu a Assembleia Constituinte. Ao mesmo tempo, porém, era clara a hegemonia bolchevique. Comitês de fábrica surgiam em toda parte, rapidamente tornavam-se fortes e eram dominados pelos bolcheviques.

De 30 de outubro a 4 de novembro, realizou-se em Petrogrado a primeira Conferência Russa de Comitês de Fábrica, onde 96 dos 167 delegados eram bolcheviques.[lv] Ainda assim, “durante a primeira semana de dezembro de 1917 realizaram-se algumas manifestações a favor da Assembleia Constituinte, isto é, contra o poder dos sovietes. Guardas vermelhos irresponsáveis atiraram então contra um dos cortejos e fizeram alguns mortos. A reação perante esta violência estúpida foi imediata: em doze horas, foi modificada a constituição do Soviete de Petrogrado; mais de uma dúzia de deputados bolcheviques foram demitidos e substituídos por mencheviques… Apesar disso, foram precisas três semanas para acalmar o ressentimento público e permitir o chamamento e a reintegração dos bolcheviques”.[lvi]

Trotsky foi explícito no reconhecimento da superioridade do papel de Lenin na revolução: “Se eu não estivesse em 1917 em Petersburgo, a Revolução de Outubro teria acontecido do mesmo modo – condicionada pela presença e a direção de Lenin. Se não estivéssemos em Petersburgo nem Lenin nem eu, não teria havido Revolução de Outubro: a direção do partido bolchevique teria impedido que ocorresse… Se Lenin não estivesse em Petersburgo, não haveria chance de que eu conseguisse que as altas esferas bolcheviques resistissem. A luta contra o ‘trotskysmo’ (isto é, contra a revolução proletária) estaria aberta a partir de maio de 1917, e o desfecho da revolução teria sido um ponto de interrogação. Mas, repito, com Lênin presente, a Revolução de Outubro teria de qualquer maneira chegado à vitória. Pode-se dizer o mesmo, em suma, da guerra civil”.[lvii]

Em relação ao partido, Trotsky se referiu às velhas questões organizativas em termos que retomavam, quase ponto por ponto, os termos que Lenin usara para criticá-lo três décadas antes: “A direção não é um simples ‘reflexo’ de uma classe, ou o produto de sua livre criação. A direção se forja no processo dos choques entre as diferentes camadas de uma determinada classe. Uma vez assumido o seu papel, a direção se eleva acima de sua classe, ficando exposta à pressão e influência de outras classes… Um fator importantíssimo da maturidade do proletariado russo, em 1917, foi Lenin, que não caiu do céu. Ele personificava a tradição revolucionária da classe operária. Para que os seus postulados pudessem abrir caminho entre as massas, tinham que existir quadros, ainda que limitados; tinha que existir a confiança dos quadros em sua direção, uma confiança baseada em toda a experiência passada”.[lviii]

O bolchevismo não foi só o produto de um conjunto de individualidades, de suas lutas políticas e ideológicas, mas da história do movimento operário e da revolução, através de um gigantesco confronto de ideias, programas, táticas, organizações e homens. Nos primeiros anos da revolução, o bolchevismo não tinha problema em admitir sua virada de 1917, como o demonstra um artigo de Molotov (depois homem do aparelho de Stalin nos mais altos cargos estatais) de 1924: “Deve-se dizê-lo abertamente: o partido não tinha nem a clareza de visão nem o espírito de decisão requeridos pelo momento revolucionário. Não os tinha porque não possuía uma clara atitude de orientação em relação à revolução socialista. Em geral, a agitação e toda a prática do partido revolucionário careciam de uma fundamentação sólida, já que o pensamento ainda não havia avançado até a conclusão audaz da necessidade de uma luta imediata pelo socialismo e pela revolução socialista”.[lix]

A vitória da revolução soviética significou o naufrágio de todos os partidos que tinham apostado, contra o absolutismo, em regimes burgueses, desde uma monarquia constitucional (o partido constitucional, KDT) até uma democracia parlamentar (a quase totalidade dos partidos socialistas, excetuado o bolchevismo). Foi, sobretudo, de Lenin que vieram os esforços no sentido de preservar, nessas condições, um quadro político pluripartidário. Num quadro instável, foi estendido um ramo de oliveira aos partidos socialistas excluídos do poder. Os mencheviques reuniram uma conferência de cinco dias, em Moscou, no final de outubro de 1918. A eclosão da guerra civil e a ameaça ao regime soviético levaram-nos pelo caminho do compromisso. A conferência aprovou uma série de teses e resoluções reconhecendo a Revolução de Outubro como “historicamente necessária” e como “um fermento gigantesco que tinha posto o mundo inteiro em movimento”, renunciando a “toda cooperação política com as classes hostis à democracia”. As tentativas de colaboração com os anarquistas (que Lenin chegou a definir como “nossos melhores aliados”, chegando a se entrevistar amistosamente com seu célebre dirigente ucraniano Néstor Makhno) afundaram no meio às peripécias da guerra civil, que testemunhou violentos enfrentamentos entre o Exército Vermelho e o “Exército Negro” da Ucrânia.  

6.

A política de conciliação não resistiu a prova dos acontecimentos, num quadro de contrarrevolução interna e intervenção externa, ambas violentas. A guerra civil transformou, primeiro, os bolcheviques em “partido único de governo”, com o atentado dos SR (socialistas revolucionários) de esquerda, que participavam do governo soviético, contra Lenin (embora Fanny Kaplan, sua autora, insistisse em ter agido por conta própria) e os assassinatos de Uritsky e Volodarsky, dirigentes bolcheviques: “Os acontecimentos do verão de 1918 deixaram os bolcheviques sem rivais nem comparsas como partido dominante no Estado; e possuíam na Tcheka um órgão de poder absoluto. Persistia, contudo, uma forte relutância em usar esse poder sem restrições. Não tinha ainda chegado o momento para a extinção final dos partidos excluídos. O terror era, nesta altura, um instrumento caprichoso e era normal encontrar partidos, contra os quais tinham sido pronunciados os mais violentos anátemas e tomadas as medidas mais drásticas, continuarem a sobreviver e a gozarem de de tolerância. Um dos primeiros decretos do novo regime tinha autorizado o Sovnarkom a encerrar todos os jornais que pregassem ‘aberta resistência ou desobediência ao Governo Operário e Camponês’ e a imprensa burguesa deixou de existir. O jornal menchevique de Petrogrado, Novyi Luch, foi suprimido, em fevereiro de 1918, pela sua campanha de oposição ao tratado de Brest-Litovsk. Não obstante, reapareceu, em abril, em Moscou, com o nome de Vpered e continuou durante algum tempo a sua carreira sem interferências. Publicavam-se em Moscou jornais anarquistas muito tempo depois da ação da Tcheka contra os anarquistas, em abril de 1918”.[lx] A guerra civil varreu todos os compromissos entre o bolchevismo e sua oposição política.

Lenin se opôs a considerar essa situação como ideal, evoluindo na sua apreciação da natureza do poder soviético instaurado na Rússia. Em 1918, escrevia: “A luta contra a deformação burocrática da organização soviética fica garantida pela solidez dos vínculos existentes entre os sovietes e o povo, pela flexibilidade e pela elasticidade desses vínculos. Os pobres nunca consideram os parlamentos burgueses como instituições suas, inclusive na república capitalista mais democrática do mundo. Os sovietes, pelo contrário, são instituições deles, não alheias às massas de operários e camponeses”.[lxi]

Já em 1921, no decorrer da polêmica sobre os sindicatos, Lenin se referiu ao Estado soviético como “um Estado operário com a particularidade de que no país não predomina a população operária, mas a camponesa e, em segundo lugar, um Estado operário com uma deformação burocrática”.[lxii] A passagem da deformação para a degeneração burocrática foi um processo político e social, resumida por Christian Rakovsky: “A situação de uma classe que lula pelo poder e a de uma classe que detém o poder é diferente [. .. quando uma classe toma o poder, uma parte dela transforma-se em agente desse poder. Num Estado socialista, onde a acumulação capitalista está proibida, esta diferença começa sendo funcional, e depois transforma-se em social”.[lxiii]

Cinco anos depois da Revolução de Outubro, o isolamento da revolução, a penúria econômica, o cansaço das massas populares e o esvaziamento dos sovietes foram acompanhados, de modo inevitável, pela diferenciação de uma camada burocrática privilegiada do partido, nessa altura partido único do Estado. A luta contra a burocratização do Estado e do partido foi, também, “o último [e fracassado] combate de Lenin”.[lxiv]

Na crise provocada pela questão nacional georgiana (contra a política o chauvinista grã-russa da nascente burocracia, e de Stalin em especial, ele próprio georgiano) e no testamento político de Lenin (que propunha a destituição de Stalin do posto de secretário geral do partido) se revelaram as linhas mestras desse combate. Trotsky aceitou formar um bloco político com Lenin contra a burocratização, o que não significava que esse bloco tivesse garantida a sua vitória por antecipado, pelo peso do prestígio de ambos dirigentes.[lxv]

Trotsky escreveu, na sua autobiografia: “A ideia de formar um ‘bloco’ Lenin-Trotsky contra a burocracia, somente Lenin e eu a conhecíamos. Os outros membros do Birô Político tinham apenas vagas suspeitas. Ninguém sabia nada a respeito das cartas de Lenin sobre a questão nacional nem do Testamento. Se eu tivesse começado a agir, poderiam dizer que iniciava a luta pessoal para ocupar o lugar de Lenin. Eu não podia pensar nisso sem arrepios. Pensava que, mesmo saindo vencedor, o resultado final seria para mim uma tamanha desmoralização que me custaria muito caro. Em todos os cálculos entrava um elemento de incerteza: o próprio Lenin e seu estado de saúde. Poderá ele manifestar sua opinião? Sobrar-lhe-á tempo para tanto? Entenderá o partido que Lenin e Trotsky lutam pelo futuro da revolução, e não que Trotsky luta pelo posto de Lenin enfermo? A situação provisória continuava. Mas a protelação favorecia os usurpadores, pois Stalin, como secretário geral, dirigia naturalmente no período do interregno toda a máquina estatal”.

Lenin tentou tornar pública sua ruptura com Stalin nos últimos dias de 1922, pouco antes de ficar afastado da política pela doença. Como Comissário das Nacionalidades, Stalin tinha imposto um governo submisso à Geórgia manu militari, invadindo-a em fevereiro de 1921 e destituindo o governo menchevique encabeçado por Noah Jordânia, não só contra a vontade da maioria da população, mas também dos bolcheviques georgianos. Lenin manifestou-se numa “Carta ao Congresso”: “Penso que, neste episódio, a impaciência de Stalin e seu gosto pela coerção administrativa, bem como o seu ódio contra o famoso ‘chauvinismo social’, exerceram uma influência fatal. A influência do ódio na política em geral é extremamente funesta. O nosso caso, o de nossas relações com o Estado da Geórgia, constitui um exemplo típico da necessidade de usarmos o máximo de prudência e mostrarmos um espírito conciliador e tolerante, se quisermos resolver a questão de modo autenticamente proletário”.

E, referindo-se diretamente a Stalin: “O georgiano que se mostra desdenhoso quanto a esse aspecto do problema, que descaradamente lança acusações de social-nacionalismo (quando ele mesmo é um autêntico social-nacionalista e também um vulgar carrasco grã-russo), esse georgiano, com efeito, viola os interesses da solidariedade proletária de classe. Stalin e [Felix] Dzerzhinski [criador e chefe da Tcheka] devem ser apontados politicamente como os responsáveis por essa campanha”. A questão georgiana sinalizou a transformação da URSS, criada em 1922, de um projeto de livre federação de repúblicas socialistas (com direito explícito à separação) em uma “prisão dos povos”, que explodiria 70 anos depois.

7.

Lênin morreu em janeiro de 1924, depois de um ano de complicações crescentes de saúde – em parte derivadas do atentado contra a sua vida em 1919 – e de quase total afastamento da política ativa. Nos últimos meses de sua vida, suas preocupações, registradas no seu “Testamento”, provocaram constrangimento quando lidas ao Comitê Central; a reunião às vésperas do XIII Congresso que resolveu pelo não afastamento de Stalin resolveu também divulgar o documento apenas a alguns delegados. Seguiram-se uma série de provocações e insultos contra Trotsky, tendendo a polarizar o cenário político: o objetivo era propor uma incompatibilidade entre “leninismo” e “trotskysmo”.

Com a morte de Lenin, Stalin passou, de maneira rápida, a apresentar-se como o legítimo herdeiro desse “leninismo”, definido como um conjunto de doutrinas, definidas de maneira vaga, mas infalíveis, que distinguiriam a “linha oficial” do partido das “heresias” de seus críticos. O pensamento aberto e mutante de um método revolucionário se transformava no sistema fechado e imutável de um interesse conservador e contrarrevolucionário.

O adjetivo (“teoria leninista da…”) foi substituído pelo substantivo (o leninismo) usado, inicialmente, contra Trotsky e a Oposição de Esquerda (criada em finais de 1923) e, depois, como doutrina oficial da URSS e da Internacional Comunista. Em poucos anos, o sumo sacerdote do novo sistema único de “pensamento” e, sobretudo, coerção política acrescentou, naturalmente, o “stalinismo” ao cânone doutrinário das novas Sagradas Escrituras. O inimigo de todos os esquemas e ideias definitivas, Lenin, foi deturpado e apresentado como pai fundador do Grande Esquema Definitivo, ao mesmo em que seu corpo foi obscenamente embalsamado, como relíquia religiosa, para exibição pública, fato que sobrevive até o presente.

Os partidos comunistas foram “bolchevizados”, disciplinados burocraticamente, para ser transformados em aparelho de integração da nova burocracia na ordem mundial, o que precipitou o mundo, novamente, num cenário dominado por contradições inter-imperalistas que conduziram à maior catástrofe da história humana.

Endeusada num “mundo socialista” de pés de barro, a figura de Lenin foi qualificada, depois do fim desse “mundo”, como o maior vilão da história humana, por publicistas recrutados nas fileiras dos antigos endeusadores, reciclados em representantes de um anticomunismo histérico pelos ideólogos de um capitalismo autoconfiante, mais selvagem do que nunca. Na medida em que essa autoconfiança se derrete à luz da crise histórica do capital, a trajetória de Lenin reemerge, cem anos depois, na sua verdadeira dimensão: não a da criação de um “ismo” para consumo e legitimação de seitas conservadoras “de esquerda”, mas a de um momento incontornável do pensamento crítico-dialético, única base para a ação revolucionária, contra um mundo em que o desdobramento cada vez maior da barbárie, neoliberal, fundamentalista, eco-destruidora e neofascista, só deixa o socialismo como alternativa viável para a sobrevivência da humanidade. Nesse nosso contexto histórico, é preciso desembalsamar o pensamento e a ação de Lenin, como momento exemplar, e até o presente não superado, da transformação das ideias revolucionárias em força material.

*Osvaldo Coggiola é professor titular no Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de Teoria econômica marxista: uma introdução (Boitempo). [https://amzn.to/3tkGFRo]

Notas


[i] Dimitri Volkogonov. Le Vrai Lénine. Paris, Robert Laffont, 1995; Staline. Paris, Robert Laffont, 1994; Trotsky. The eternal revolutionary. Nova York, The Free Press, 1996. Volkogonov foi mais longe: “Lenin é o verdadeiro pai do terror vermelho, e não Stálin” – uma afirmação óbvia: quando o terror foi adotado como método de luta transitório pelo poder soviético, Stálin era ainda personagem política secundária.

[ii] Paul Mourousy. Lénine. La cause du mal. Paris, Perrin, 1992.

[iii] Nikolai Bukharin. Lenin Marxista. Barcelona, Anagrama, 1976.

[iv] Dorothy Atkinson. The End of the Agrarian Land Commune. Stanford, Stanford University Press, 1983.

[v] Samuel H. Baron. Plekhanov. The father of Russian Marxism. Stanford, Stanford University Press, 1963.

[vi] Luciano Gruppi. O Pensamento de Lenin. Rio de Janeiro, Graal, 1979.

[vii] Christopher Hill. Lenin. Buenos Aires, CEAL, 1987.

[viii] Pierre Broué. Observaciones sobre la historia del partido bolchevique. In: Maximilien Rubel et al. Partido y Revolución. Buenos Aires, Rodolfo Alonso, 1971.

[ix] Georges Haupt. Parti-guide: le rayonnement de la social-démocratie allemande. L’Historien et le Mouvement Social. Paris, François Maspéro, 1980.

[x] Leonard Shapiro. Bolcheviques, in: C. D. Kernig. Marxismo y Democracia. Madri, Rioduero, 1975.

[xi] Domenico Settembrini. Leninismo. In: Norberto Bobbio et al. Dicionário de Política. Brasília, UnB, 1986. A tese da origem terrorista-populista da concepção leninista de partido, é amplamente difundida: Alain Besançon. Los Origenes Intelectuales del Leninismo. Madri, RIALP, 1980; René Cannac. Netchaïev, du Nihilisme au Terrorisme. Aux sources de la révolution russe. Paris, Payot, 1961. Que a ação política num país não possa prescindir de suas tradições político-culturais é óbvio: Que Fazer? tomou seu título de um romance de Nikolai Tchernichevski, escrito em 1862 quando seu autor se encontrava preso na fortaleza de Pedro e Paulo, em São Petersburgo. Segundo Orlando Figes, “o romance de Tchernichevski converteu mais homens para a causa da revolução do que todas as obras de Marx e Engels juntas (o próprio Marx aprendeu russo para poder ler o livro)”.

[xii] Edward H. Carr. Estudios sobre la Revolución. Madri, Alianza, 1970.

[xiii] Rosa Luxemburgo. Partido de Massas ou Partido de Vanguarda. São Paulo, Ched, 1980.

[xiv] Em artigo enviado a Kautsky para ser publicado no Die Neue Zeit, órgão da socialdemocracia alemã, sendo recusado, e só dado a conhecer em 1930.

[xv] Angélica Balabanova. Mi Vida de Rebelde. Barcelona, Martinez Roca, 1974.

[xvi] Isaac Deutscher. Trotsky. El profeta armado. México, ERA, 1976.

[xvii] A. V. Pantsov. Voprossy Istorii. Moscou, 1989, 7/10; Brian Pearce (org.). Minutes of the Second Ordinay Congress of the RSDLP (1903). Londres, New Park, 1978.

[xviii] V. I. Lenin. Oeuvres, vol. VI, Paris, Éditions Sociales, 1964.

[xix] David Lane. Las Raices del Comunismo Ruso. Un estudio social e histórico de la socialdemocracia rusa 1898-1907. México, Siglo XXI, 1977.

[xx] V. I. Lenin. Prefazione alla racolta “Na 12 Let”. In: Che Fare? Torino, Einaudi, 1971.

[xxi] Isaac Deutscher. Trotsky, cit.

[xxii] Edward H. Carr. The October Revolution. Before and after. Nova York, Alfred A. Knopf, 1969.

[xxiii] Pierre Broué. Trotsky. Paris, Fayard, 1988.

[xxiv] Sobre o “jacobinismo” leninista, ver: Jean Pierre Joubert. Lénine et le jacobinisme. Cahiers Leon Trotsky, no 30, Paris, junho 1987.

[xxv] Jan Waclav Makhaiski. Le Socialisme des Intellectuels. Paris, Points, 1979.

[xxvi] Leon Trotsky. Ma Vie. Paris, Gallimard, 1973.

[xxvii] Ernest Mandel. Trotsky Como Alternativa. São Paulo, Xamã, 1995.

[xxviii] Leon Trotsky. Stalin. Biografia. São Paulo, Livraria da Física, 2012.

[xxix] Adam B. Ulam. Os Bolcheviques. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1976.

[xxx] Grigorii Zinoviev. History of the Bolshevik Party. From the beginnings to February 1917. Londres, New Park, 1973.

[xxxi] Pierre Broué. Le Parti Bolchevique. Paris, Minuit, 1971.

[xxxii] Oskar Anweiler. Los Soviets en Rusia 1905-1921. Madri, Zero, 1975.

[xxxiii] Paul Le Blanc. Lénine et Rosa Luxemburgo sur l’organisation révolutionnaire. Cahiers d’Étude et de Recherche no 14, Paris, 1990.

[xxxiv] Ernest Mandel. A Teoria Leninista da Organização. São Paulo, Aparte, 1984.

[xxxv] Enzo Bettiza. El Misterio de Lenin. Barcelona, Argos-Vergara, 1984.

[xxxvi] Avraham Yassour. Leçons de 1905: Parti ou Soviet? Le Mouvement Social no 62, Paris, janeiro-março 1968. Logo depois da revolução Trotsky já escrevia que “o conselho de deputados operários nasceu para a realização de um objetivo: no curso dos acontecimentos criar uma organização que represente a autoridade, livre da tradição, uma organização que possa abarcar todas as massas desagregadas sem a imposição de obstáculos organizativos, uma organização que possa unir as correntes revolucionárias no interior do proletariado e controlar por si própria uma iniciativa de maneira capaz e automática e, o que é mais fundamental, uma organização à qual se poderia dar vida em 24 horas”.

[xxxvii] Moshe Lewin. Illusion communiste ou réalité soviétique? Le Monde Diplomatique. Paris, dezembro 1996.

[xxxviii] Leon Trotsky. Tres concepciones de la revolución rusa. In: Balance y Perspectivas. Buenos Aires, El Yunque, 1974.

[xxxix] Vittorio Strada. A polêmica entre bolcheviques e mencheviques sobre a revolução de 1905. In: Eric J. Hobsbawm (org.). História do Marxismo. Vol. 3, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984.

[xl] Vladimir I. Billik. In: Komsomolskaia Pravda. no 33, Moscou, agosto 1989.

[xli] Leon Trotsky. Nos différends. In: 1905, Paris, Minuit, 1969.

[xlii] Rudi Dutschke. Lenin. Tentativas de poner a Lenin sobre los pies. Barcelona, Icaria, 1976.

[xliii] Léo Figuères. Le Trotskysme, cet Antiléninisme. Paris, Éditions Sociales, 1969.

[xliv] Georges Haupt. Lénine, les bolchéviques et la IIè Internationale. L’Historien et le Mouvement Social. Paris, François Maspéro, 1980.

[xlv] Leon Trotsky. Lecciones de Octubre. De Octubre Rojo a mi Destierro. Buenos Aires, Baires, 1973.

[xlvi] Leon Trotsky. Resultados y Perspectivas, cit.

[xlvii] Ver o texto da conferência em: V. I. Lenin. 1905: Jornadas Revolucionárias. São Paulo, História, 1980.

[xlviii] Leon Trotsky. Autobiografía. In: El Testamento de Lenin. Buenos Aires, El Yunque, 1983.

[xlix] Karl Radek. Las Vias y las Fuerzas Motrices de la Revolución Rusa. Madri, Akal, 1976.

[l] Numa conferência pronunciada em 1932, em Copenhague, Trotsky fez um resumo da história do partido operário na Rússia: “Em 1903 teve lugar a cisão entre mencheviques e bolcheviques. Em 1912 a fração bolchevique tornou-se definitivamente um partido independente. Ensinou-nos durante doze anos (1905-1917) reconhecer a mecânica de classe da sociedade nas lutas e nos grandiosos acontecimentos. Educou quadros capazes, quer de iniciativa quer de disciplina. A disciplina da ação revolucionária apoiava-se na unidade da doutrina, nas tradições de lutas comuns e na confiança numa direção experimentada. Assim era o partido em 1917. Enquanto a ‘opinião pública’ oficial e as toneladas de papel da imprensa intelectual o desprezavam, o partido orientava-se segundo o curso do movimento de massas. A formidável alavanca que esse partido manejava firmemente introduzia-se nas fábricas e nos regimentos. As massas camponesas voltavam-se cada vez mais para ele. Se se entende por nação não os privilegiados, mas a maioria do povo, isto é, os operários e os camponeses, o bolchevismo transformou-se, no decorrer do ano de 1917, no partido russo verdadeiramente nacional”.

[li] É o que sustentou em sua carta de despedida da vida Abraham Ioffé, dirigente soviético que se suicidou em junho de 1927, em pleno processo de ascensão do stalinismo: “Durante mais de vinte anos lutamos juntos, desde a revolução permanente, Mas eu sempre pensei que faltava a você a inflexibilidade, a intransigência de Lenin, a sua resolução de ficar sozinho, se necessário, na sua posição, prevendo a maioria futura, quando todos tivessem reconhecido a correção do caminho por ele escolhido. Você teve sempre razão politicamente, e eu já disse que escutei várias vezes Lenin reconhecer que em 1905 não era ele, mas você, quem tinha razão”.

[lii] V. I. Lenin. Obras Completas. Vol. XXXV, Buenos Aires, Cartago, 1968.

[liii] Nikolai N. Sukhanov. The Russian Revolution 1917. A personal record. New Jersey, Princeton University Press, 1984.

[liv] Para Jean-Jacques Marie (Staline. Paris, Seuil, 1967), inclusive quando “Lenin solicita (no seu Testamento) que Stalin seja eliminado do cargo de secretário-geral, ele questiona apenas o seu caráter, não o seu valor”.

[lv] Y. M. Gorodetsky. A Revolução Bolchevique. In: AAVV. História do Século XX, São Paulo, Abril Cultural, 1976.

[lvi] John Reed. Dez Dias que Abalaram o Mundo. São Paulo, Companhia das Letras, 2010.

[lvii] Leon Trotsky. Diário do Exílio. São Paulo, Edições Populares, 1980.

[lviii] Leon Trotsky. Clase, Partido y Dirección. Buenos Aires, El Yunque, 1974 [1940].

[lix] In: Ernest Mandel. Sobre la História del Movimiento Obrero. Barcelona, Fontamara, 1978.

[lx] Edward H. Carr. A Revolução Bolchevique 1917 – 1923. Lisboa, Afrontamento, 1977, vol. 1.

[lxi] V. I. Lenin Seis teses acerca das tarefas imediatas do poder soviético (março 1918). https://www.marxists.org/portugues/lenin/1918/04/26.htm

[lxii] V. I. Lenin. La crisis del partido (19 de janeiro de 1921). Obras Completas, vol.32, Moscou, Progreso, 1983.

[lxiii] Christian Rakovsky. Os perigos profissionais do poder (agosto 1928). Tradução: Marcio Lauria Monteiro https://www.marxists.org/portugues/rakovski/1928/08/06.htm

[lxiv] Moshe Lewin. Le Dernier Combat de Lénine. Paris, Minuit, 1980.

[lxv] V. V. Juravlev e N. A. Nenakorov. Trotsky et l’affaire géorgienne. Cahiers Léon Trotsky n° 41, Paris, março 1990.


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