Decifrando a diplomacia de Donald Trump

Imagem: Jon Tyson
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Por KANWAL SIBAL*

Sua diplomacia é um paradoxo: gestos de paz e ameaças belicosas coexistem em um cálculo pragmático que reconfigura alianças, desestabiliza aliados e negocia diretamente com rivais

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometeu durante sua campanha eleitoral que não comprometeria a América com qualquer guerra, argumentando que o envolvimento em conflitos estrangeiros enfraqueceu o país de várias maneiras. No entanto, a política externa de Donald Trump contém muitas contradições.

O foco principal de Donald Trump durante a campanha, e logo após assumir o cargo, foi acabar com o conflito na Ucrânia. Entretanto, ele ordenou posteriormente uma ação militar contra os houthis do Iêmen e, de forma mais provocativa e ilegal, contra as instalações nucleares do Irã – algo que os EUA nunca tinham feito, apesar de anos de tensões com Teerã.

Washington continua sendo cúmplice da destruição de Gaza por Israel, do bombardeio do Líbano e da ocupação de partes da Síria. Trump também enviou uma frota de navios de guerra para a costa da Venezuela, depois de oferecer uma recompensa de 50 milhões de dólares por seu presidente.

Ao mesmo tempo, Donald Trump tem sido ousado ao envolver-se com a Rússia e pressionar pelo fim do conflito na Ucrânia, ignorando a profunda hostilidade em relação a Moscou no seio do establishment político dos EUA, e até mesmo entre seus próprios conselheiros. A cúpula Trump-Putin no Alasca foi um evento dramático que causou pânico na Europa e marginalizou Zelensky. Membros da “coalizão dos dispostos” europeia – determinados a apoiar Zelensky com armas e fundos para prolongar o conflito – correram para Washington para pressionar Trump a não os ignorar, a não ceder às exigências russas e a assegurar que fossem incluídos nas negociações sobre garantias de segurança para a Ucrânia.

A retórica de Donald Trump, e a dos europeus, centrou-se ostensivamente num cessar-fogo para impedir o derramamento de sangue, mas, na verdade, foi para quebrar o ímpeto da Rússia, aliviar a pressão sobre a Ucrânia, permitindo-lhe reagrupar-se e reconstruir suas defesas. Depois do Alasca, contudo, Donald Trump voltou-se para a posição da Rússia de dar prioridade a um acordo de paz – para grande consternação tanto da Europa como da Ucrânia.

A Europa foi humilhada por Donald Trump. Para as potências europeias, ser excluídas das decisões sobre sua própria segurança é desalentador, com grandes implicações para seu prestígio global. A imagem dos líderes europeus alinhados no Salão Oval diante de Donald Trump, sentados como se ele estivesse presidindo uma reunião de equipe, foi devastadora para França, Alemanha e Reino Unido em particular.

Donald Trump deixou claro que a adesão da Ucrânia à OTAN está fora de questão e que os EUA não enviarão tropas para o terreno. Putin advertiu no Alasca contra a interferência europeia, da qual Grã-Bretanha e França, no entanto, deixaram sinais ao anunciar sua disponibilidade para enviar tropas após um acordo de paz. A Rússia rejeitou a ideia dos países da OTAN enviarem uma “força de manutenção da paz” para a Ucrânia, e esta continua sendo uma questão controversa.

Em relação às garantias de segurança, a Europa e a Ucrânia querem compromissos no estilo da OTAN, à semelhança do Artigo 5. Mas o campo ocidental está dividido. Os EUA sugeriram oferecer cobertura aérea, enquanto a Rússia insiste em que qualquer garantia deve incluí-la e ser subscrita pelo Conselho de Segurança da ONU. As garantias não podem, argumenta Moscou, ser dirigidas contra a Rússia, mas devem ser estruturadas em parceria com ela – outro ponto espinhoso.

Quanto às concessões territoriais, a recusa de Volodymyr Zelensky em ceder é um obstáculo crucial. Sua sobrevivência política depende disso. Para Moscou, a incorporação de quatro antigas províncias ucranianas na Federação Russa não pode ser revertida.

Mesmo enquanto busca a paz, Donald Trump tem feito ameaças periódicas de sanções severas contra a Rússia. Ele afirmou ter perguntado a Zelensky se ele atacaria Moscou caso recebesse mísseis de longo alcance, e disse ter avisado Putin diretamente que ataques contínuos poderiam forçar os EUA a bombardear Moscou – uma ameaça que ele acredita que Putin não descartou totalmente.

Donald Trump estabeleceu prazos curtos para uma reunião entre Putin e Zelensky, com ele próprio como mediador. O ministro das relações exteriores da Rússia, Lavrov, reitera que a cúpula exigiria uma preparação cuidadosa, como é normalmente o caso, e também questionou a legitimidade de Zelensky para assinar um acordo de paz, dada a ausência de eleições. Putin, falando em Pequim, apelou publicamente a Zelensky para que mantivesse conversações em Moscou, mas Kiev rejeitou a proposta.

Contrariamente à sua postura pacifista, Donald Trump aprovou 90 bilhões de dólares em vendas de armas dos EUA – financiadas pela Europa e destinadas à Ucrânia –, assim como um pacote de 825 milhões de dólares, incluindo 3.350 mísseis de longo alcance.

Ele também aumentou indiretamente a pressão sobre a Rússia, apontando para a Índia. Antes da cúpula no Alasca, Donald Trump anunciou uma tarifa adicional de 25% sobre a Índia pela compra de petróleo e equipamentos de defesa russos, além da tarifa anterior de 25% imposta ao país. Em 27 de agosto, as tarifas de 50% de Donald Trump contra a Índia entraram em vigor.

Trump disse que a nova tarifa tinha como objetivo sinalizar à Rússia que ele poderia sufocar suas receitas de petróleo bloqueando compradores importantes como a Índia. Ele afirma que essa pressão ajudou a trazer Putin ao Alasca.

O secretário do tesouro dos EUA, Scott Bessent, e o conselheiro de comércio, Navarro, elevaram as compras de petróleo da Índia a uma questão importante entre os EUA e esse país, acusando Nova Deli de especulação, de agir como uma “lavanderia” para o Kremlin e de possibilitar a guerra. Eles chegaram a rotular o conflito na Ucrânia como “a guerra de Modi” e afirmaram que “o caminho para a paz passa por Nova Deli”.

Essa retórica exagerada, que visa prejudicar as relações entre Índia e Rússia, não conseguiu influenciar Nova Deli. A Índia recusou-se a ceder à pressão de Trump.

Na sexta-feira, Donald Trump fez mais uma publicação enigmática no Truth Social. “Parece que perdemos a Índia e a Rússia para a mais profunda e sombria China. Que tenham um futuro longo e próspero juntas!”, disse ele. Se interpretada literalmente, a publicação sugere que os EUA concluíram que as relações entre a Índia e os EUA se deterioraram irremediavelmente. Nova Deli, que até agora se absteve de retórica diplomática que levasse a uma maior deterioração das relações, e que reafirma não estar fechando as portas para futuras interações positivas com os EUA, acompanhará de perto qualquer possibilidade de novas medidas coercitivas contra si.

Quanto à Rússia, o estilo de Donald Trump é único, e Vladimir Putin parece considerar que vale a pena trabalhar com ele de forma pragmática. Para Moscou, há muitas vantagens: a aproximação de Donald Trump quebra o gelo, pressiona Volodymyr Zelensky, aprofunda a desordem europeia, reaviva as negociações sobre desarmamento nuclear e questões do Ártico e até abre espaço para cooperação econômica.

Com a Índia, no entanto, Donald Trump prejudicou significativamente as relações e minou a confiança que foi cuidadosamente construída ao longo das últimas duas décadas.

*Kanwal Sibal é secretário de relações exteriores aposentado. Foi embaixador da Índia na Rússia entre 2004 e 2007.

Tradução: Fernando Lima das Neves.

Publicado originalmente no portal RT.


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