Educação e desenvolvimento

Imagem: Dóra Maurer
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Por JOSUÉ DE CASTRO*

Prefácio, inédito em português, do livro de Robert de Montvalon, em tradução de Zenir Campos Reis

A fome e a bomba atômica são as grandes descobertas do século XX: a tomada de consciência dessas duas ameaças que pesam sobre a humanidade está em vias de fazer modificar o pensamento político mundial.

A explosão da bomba atômica, transformando a estratégia militar, força também a modificar a estratégia da política mundial. Antes da bomba atômica, considerada como arma absoluta, costumava-se resolver os mais graves problemas nacionais por meio das guerras. Quando as dificuldades de uma grande potência chegava a certo ponto de tensão, simplesmente desencadeava-se uma guerra que trazia uma solução provisória às preocupações angustiantes dos homens de Estado.

Nessa época, a paz era uma utopia, e a guerra era a realidade. Depois da bomba, instrumento radical de suicídio coletivo, a guerra tornou-se impossível e é preciso encontrar na paz a solução dos problemas alarmantes que se propõem ao homem da era atômica. Hoje em dia, pois – pelo menos teoricamente, é a guerra que se torna uma utopia, enquanto a paz é a única realidade.

Por outro lado, a descoberta da fome como calamidade universal e como força social de um poder inaudito demonstrou que a paz só poderia ser conquistada pela eliminação preliminar do flagelo da fome, responsável pela pior tensão social do mundo atual: a tensão que reina entre povos pobres, famintos, vivendo sob um regime de economia dependente, e povos ricos e bem nutridos que habitam os países industrializados.

Mas pode-se verdadeiramente falar da fome, problema mais velho que o próprio homem, como de uma descoberta, de uma grande descoberta do século XX? Cremos poder responder pela afirmativa, pois se a fome já existia há milhares de anos, se existe desde que a vida existe, permanecia desconhecida dos próprios famintos. O que é novo, o que acaba de ser descoberto, não é o instinto da fome, nem mesmo seu sofrimento, mas sua realidade como força social, o conhecimento de suas causas e efeitos na marcha da história.

Não é o fenômeno que é novo, é a perspectiva pela qual se percebe agora sua trágica realidade. Ora, graça aos progressos da ciência, sabemos agora que o que chamamos a realidade não é mais que a intersecção entre a possibilidade de um fenômeno e a perspectiva de nossas observações. Até a metade do século XX, evitava-se observar o problema da fome, escamoteava-se aos olhos do mundo, negava-se, pois, em uma palavra, sua realidade. Mas um dia o tabu da fome explodiu com uma violência comparável à da bomba. Os povos famintos deram-se conta da injustiça social que os obriga a habitar de maneira periférica a condição humana, sem dispor dos meios de aceder a essa condição. Pois, na verdade, esses povos foram desumanizados pela fome. Não têm a possibilidade de viver como homens, mas apenas de sobreviver, como subhomens.

Desta tomada de consciência jorrou de um lado a revolta, de outro o desejo de emancipar-se desse estado de marginalismo econômico e social. Nesta tomada de consciência reside a cristalização da ideia-força que é por excelência o mito do século XX: a ideia de desenvolvimento. Com efeito, os povos subdesenvolvidos e famintos compreenderam que sua fome e sua miséria não passam de expressões biológicas e sociais de um fenômeno econômico, o do subdesenvolvimento, e que apenas pelo desenvolvimento poderão libertar-se desta fome e desta miséria.

A característica desses povos subdesenvolvidos é que antes de mais nada eles têm fome. Fome de comida, fome de conhecimentos, fome de liberdade. Se a fome de comida é a que atenaza mais fortemente as grandes massas humanas que compõem as nações periféricas, é a fome de saber que se espalha com mais força entre os representantes da geração atômica, esses jovens que veem pesar sobre seus ombros a responsabilidade de refazer o mundo, mais que isso, de evitar que o mundo se desfaça.

Esta fome de saber é tanto mais intensa quanto não foi satisfeita, apesar das promessas da ajuda internacional encarregada de transmitir aos povos em vias de desenvolvimento os conhecimentos científicos e técnicos atuais. A verdade é que em geral, longe de trazer a esses povos a verdadeira cultura de que eles necessitam para nutriz a carne de seu espírito, deu-se-lhes um falso alimento que não podia ser absorvido por essas massas cujos interesses eram muito diferentes dessa forma de educação concebida nos países ricos e enviados por eles como “utopias de exportação”. Jean-Paul Sartre diz com justeza que para ele “a cultura é a consciência, que o homem adquire de si mesmo e do mundo no qual vive, trabalha e luta, em perpétua evolução”.

Assim, a tarefa essencial da verdadeira educação consiste em incorporar as massas humanas ao grande processo de sua história. Educar os povos subdesenvolvidos, é antes de tudo fazê-los tomar consciência de sua realidade social e de levar-lhes os meios de sair de seu estágio de subdesenvolvimento. E, entre os diferentes fatores de produção essenciais ao desenvolvimento, nenhum é mais importante que o elemento humano, sobre o qual repousam o trabalho e a produtividade. Se alguma coisa deve ser modificada em O capital, de Karl Marx, disse Alfred Sauvy, é que, mais importante ainda que o capital para o desenvolvimento, é o espírito do homem como fator de criação de riquezas.

De fato, para promover o desenvolvimento do mundo, dispõe-se de recursos naturais e de recursos financeiros suficientes. O de que não se dispõe suficientemente é do espírito de criação ou, para utilizar a feliz expressão de Barbara Ward, é que falta a imaginação necessária para construir um mundo à medida da era atômica. A imaginação humana é o único fator limitativo. Chega-se à conclusão que, no momento histórico que atravessamos, o que é preciso “produzir”, antes de mais nada, é o homem. Produzir um homem capaz de viver na era atômica. E só será produzido pela verdadeira educação, capaz de aplacar sua fome de saber.

Mas esse método de educação está bem longe, é até o oposto daquele utilizado pela elite europeia para fabricar as elites indígenas dos países em vias de desenvolvimento: selecionava-se certo número de jovens para torná-los “responsáveis”, mas responsáveis por que? É ainda Sartre que responde: “Entupimos-lhes a boca com mordaças, solenes palavras pastosas que colam nos dentes; depois de breve estada na metrópole, são devolvidos, falsificados. Essas mentiras vivas nada tinham a dizer a seus irmãos”. Estavam cortados de sua própria cultura, portanto do centro de sua própria vida. Eram como satélites humanos que giravam em torno das grandes metrópoles, refletindo como verdades indiscutíveis as ondas e as imagens que elas lhes enviavam.

A busca da verdadeira educação, é este o assunto deste livro de Robert de Montvalon que tenho a honra de prefaciar. Ele estuda a questão mostrando que, para aplacar a fome de saber, os conhecimentos não bastam. É preciso ir mais longe. O autor partilha a opinião do filósofo que disse que a ciência não é a sabedoria. A ciência não passa do conhecimento. A sabedoria é o conhecimento mais o julgamento. É preciso saber julgar objetivamente o valor das coisas, o valor dos conhecimentos, de acordo com os valores de cada cultura e de seus representantes, antes de aplicá-los.

O respeito ao homem e o desejo de democratizar a cultura levaram o Sr. de Montvalon a escrever este belo livro. Seu objetivo essencial é encontrar um equilíbrio entre os problemas de cultura e os de desenvolvimento, isto é “humanizar” a economia graças a um melhor conhecimento do homem. Aliás, o Pe Joseph Lebret, que é largamente citado nesta obra, esforça-se há muito por fazer do desenvolvimento um processo global, humanizado e harmônico. E recentemente o Sr. André Piatier demonstrou, num artigo muito lúcido, o valor da cultura como ingrediente indispensável para o verdadeiro desenvolvimento dos povos, e não como luxo supérfluo.

Fico muito feliz em verificar que este livro foi escrito desta perspectiva, pois partilho inteiramente a opinião de que o problema do desenvolvimento é antes de mais nada um problema de educação, de formação de responsáveis: de elites que não sejam alienadas dos interesses nacionais, e de massas que participem verdadeiramente do processo de desenvolvimento.

Estudando as experiências educacionais realizadas em certo número de países, Robert de Montvalon julga seus resultados encorajadores e acontece-lhe fazer algumas concessões a métodos que estão longe de servir as verdadeiras aspirações dos povos em vias de desenvolvimento. É que existe uma formação cultural predominante­mente regressiva, que conduz à criação de um estatuto acadêmico que não pode encontrar aplicação que corresponda às exigências do desenvolvimento, com todos os riscos que isso implica para os outros aspectos fundamentais da cultura. É evidente que esta indulgência do sr. de Montvalon não significa, nem de longe, que ele esteja de acordo com essa linha de pensamento. Apenas, como realista, ele pronuncia seu julgamento sobre o que vê em nosso mundo, e tenta melhorar os métodos corrigindo as distorções mais pronunciadas. Correção necessária, pois nada mais útil para aumentar a riqueza dos países pobres do que a produção de verdadeiros conhecimentos, representada por esta indústria mater por excelência – a verdadeira indústria do progresso.

A presente obra favorecerá com certeza o estabelecimento do diálogo que até agora não foi colocado em termos objetivos, o diálogo entre os dois mundos: o dos povos ricos e bem desenvolvidos com os povos pobres e subdesenvolvidos. Ora, no momento, este diálogo se dá em termos irrealistas, pois os pobres famintos reclamam o impossível, e os ricos generosos só doam seus excedentes. Modificar os termos deste diálogo, traduzi-lo numa linguagem comum aos dois mundos, é servir a paz mundial. É precisamente o que faz Robert de Montvalon nesta obra, bela e humana.

*Josué de Castro (1908-1973) foi médico, nutrólogo, professor, geógrafo, cientista social, político, escritor e ativista social. Autor, entre outros livros de Geografia da fome (Todavia).

Tradução: Zenir Campos Reis.

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