O PSDB, os movimentos sociais e o impeachment

Imagem: Caroline Cagnin
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Por ARTHUR SALOMÃO*

Considerações sobre o livro de Fernando Limongi

Os interessados em compreender efetivamente o impeachment de Dilma Rousseff foram presenteados com o livro Operação impeachment: Dilma Rousseff e o Brasil da lava Jato (Todavia), esmiuçado em uma instigante entrevista do autor, Fernando Limongi, ao podcast Ilustríssima Conversa. A entrevista de Fernando Limongi traz uma rica exposição dos fatos da crise política e uma interpretação que reconstitui tais fatos de forma pertinente. De início, Fernando Limongi é certeiro ao descartar a atribuição do desfecho do impeachment em uma suposta falta de habilidade política de Dilma em manejar sua coalizão.

Todavia, apesar de outros pontos convincentes, neste breve texto gostaria de complexificar uma tese em particular na miríade de temas constitutivos da crise política do governo Dilma que são analisados por Fernando Limongi. Trata-se do papel desempenhado pelo PSDB, principal partido de oposição à época, e por alguns movimentos sociais na construção do impeachment de Dilma, temas que tratei recentemente em minha dissertação de mestrado, especificamente no quarto capítulo, disponível no repositório da Unicamp. Evidentemente, a crítica não anula de forma alguma o estímulo para ler o livro de Fernando Limongi, o que inclui também a possibilidade de ser convencido do contrário.

A tese geral de Fernando Limongi é que o impeachment ocorreu por razões determinantemente institucionais, sendo uma estratégia de sobrevivência das elites políticas. Segundo essa visão, o PT se assemelha a um bode expiatório para o sistema político se proteger da Lava Jato. Por isso, Limongi rejeita fatores como a reação antipetista ao programa do governo e a rejeição às políticas de “reformismo fraco” e ao suposto intervencionismo estatal excessivo.

Nesse cenário, não surpreende que Fernando Limongi trace o diagnóstico de que as manifestações “não foram determinantes”, consistindo em meras pressões externas que tiveram pouco efeito ameaçador sobre o sistema político. Consequentemente, de acordo com Limongi, o impeachment não surgiu de fora do sistema político, mas foi estimulado e impulsionado pela oposição tucana. Em síntese, para Limongi, o PSDB teve papel importante em encampar o impeachment – desde quando Aécio Neves questionou o resultado –, e em estimular e fornecer base e recursos para os movimentos pelo impeachment (MBL, Revoltados Online e Vem pra Rua).

É nesse tema que me parecem surgir alguns pontos pouco convincentes na argumentação de Fernando Limongi. Sua reconstituição do papel dos tucanos o trata como coeso, articulando institucionalmente o impeachment e com uma posição sólida desde o início. Além disso, sua análise conecta o PSDB com os movimentos pelo impeachment, de modo que estes últimos se tornam apêndices instrumentalizados dos tucanos. Por fim, sua análise também não leva em conta a relação do PSDB e dos movimentos pelo impeachment com os interesses vocalizados pela massa de manifestantes antipetista presente nas mobilizações, que convém recordar era fartamente eleitora dos tucanos.

Como explicar as vaias dirigidas aos tucanos? Como justificar as críticas dos movimentos direcionadas ao PSDB nesse contexto? Como analisar os adjetivos de covardia e fraqueza proferidos por lideranças e manifestantes? Como interpretar que tais movimentos, com exceção do Vem pra Rua, estivessem mais próximos de Jair Bolsonaro e da Lava Jato do que do PSDB? Não me parece que, no esquema explicativo de Fernando Limongi, encontremos respostas para tais questões. Ao contrário, a ação tucana pelo impeachment foi menos ordenada e linear do que Fernando Limongi expõe.

Gostaria, portanto, de contestar tais teses e propor uma perspectiva alternativa. Em primeiro lugar, o posicionamento do PSDB foi pouco coeso e o partido demorou em encampar o impeachment, fechando posição pública tardiamente, quando a base de Dilma Rousseff já se esfacelava e Eduardo Cunha assumia o front da oposição. Com base em materiais coletados durante minha pesquisa, mostro que o PSDB esteve dividido internamente durante a crise política.

Adoto como ponto de partida a atenta argumentação de André Singer segunda a qual a ação tucana esteve cindida em três frentes orientadas pelas principais lideranças daquele contexto: (a) impugnação do pleito e novas eleições, encampada por Aécio Neves; (b) aliança com o PMDB e impeachment, adotada por José Serra; (c) aposta no desgaste de Dilma Rousseff até as próximas eleições, cenário favorável a Geraldo Alckmin.

De fato, essas lideranças tucanas se portaram de tal forma durante a crise, buscando as condições individualmente mais favoráveis. Entretanto, havia uma divisão mais profunda e anterior a essa, que sintetizei na frase “entre deixar sangrar ou fazer sangrar”, em referência à famosa expressão de Aloysio Nunes. Essa divisão opunha uma franja de deputados mais jovens e energicamente antipetistas contra as figuras do tucanato histórico. Dessa forma, o partido como um todo esteve dividido entre encampar uma destituição de Dilma Rousseff ou preservar a normalidade democrática e deixar que o governo se desgastasse.

A primeira opção era adotada de forma intempestiva por grande parte dos peessedebistas da Câmara, membros tucanos mais novos e mais atrelados ao antipetismo – chamados pela imprensa de cabeças-pretas. A segunda postura, mais cautelosa, foi assumida por grande parte das lideranças históricas do tucanato. Assim, os responsáveis por segurar, durante grande parte do tempo, a posição do partido foram os membros fundadores, mais atrelados a uma identidade partidária tucana – os “caciques” do partido, chamados pela imprensa de cabeças-brancas.

Exponho em minha dissertação diversos exemplos dessas divergências: pressões públicas dos mais jovens, posicionamentos na imprensa do tucanato histórico, críticas às ações “quanto pior, melhor” dos membros da Câmara, divergências ideológicas sobre como tratar temas como os direitos humanos, etc. Havia, em suma, uma sobreposição de dissidências “geracionais”, relativas ao perfil ideológico e a identidade dos tucanos, com disputas internas por influência. Internamente, os principais agentes tucanos em favor da destituição foram a ala aecista e os políticos da Câmara, como Carlos Sampaio e Bruno Araújo. Por isso, não me parece que o PSDB tenha assumido uma postura coesa e que tenha estimulado o impeachment desde o início.

Me parece, em verdade, que os tucanos, pelo menos até o convencimento interno, quando as lideranças históricas adotam o discurso em favor do impeachment, tentavam acenar a sua base. Eram os mesmos membros citados acima que buscavam se conectar com a base social e estabelecer vínculos com os movimentos pelo impeachment, teses rejeitadas por tucanos como FHC, José Serra e Aloysio Nunes.

Isso nos leva para a relação entre PSDB e movimentos pelo impeachment. Havia, de fato, diálogos entre o PSDB e tais movimentos, sobretudo o Vem pra Rua. Contudo, eram agentes políticos à parte do PSDB. O que pude constatar foi uma forte pressão do MBL e Revoltados Online para que o PSDB adotasse o impeachment em sua agenda. Os líderes de tais movimentos acusavam fortemente o PSDB de ser covarde. Janaina Paschoal, que teve interlocução direta com o PSDB nas tratativas da peça jurídica do impeachment, também discursou duramente contra o PSDB, dizendo que o partido não queria a destituição de Dilma Rousseff. Em manifestações iniciais, alguns tucanos participaram e discursaram, como recordou Fernando Limongi.

Alguns, inclusive, foram carregados nos ombros e ovacionados. Entretanto, nas duas últimas mobilizações, Aécio Neves e Geraldo Alckmin foram hostilizados e não conseguiram permanecer nem 30 minutos. Quando pronunciados do alto dos carros de som, outros nomes de tucanos eram vaiados. Entre essas duas situações, os movimentos pelo impeachment cumpriram papel importante de desgastar o PSDB, em sintonia direta com a base das mobilizações. Desse ponto de vista, a relação entre PSDB e movimentos pelo impeachment é mais complexa do que meramente instrumental.

Concluo apontando uma implicação dessa perspectiva. O menosprezo ao papel da base social de apoio, em conexão direta com a Lava Jato, e ao cerco midiático da grande imprensa contra o governo ofusca atores relevantes do processo político. Essa desvalorização, inclusive, faz com que Fernando Limongi postule o seguinte: com todo o sistema político atingido, até mesmo a direita e o centro, “sobra para Jair Bolsonaro”. No entanto, é precisamente no vácuo de representação deixado pela expulsão dos tucanos, quando a voz dos manifestantes ainda era o lavajatismo, que Jair Bolsonaro e o bolsonarismo vão trabalhar meticulosamente para alcançar suas bases.

Jair Bolsonaro não surge do nada, mas vai paulatinamente ganhando espaço nas mobilizações e nas redes sociais, como mostram pesquisas quantitativas que analisei. Entretanto, a formação do bolsonarismo foge do escopo deste breve comentário.

*Arthur Salomão é doutorando em ciência política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).


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