El último sueño

Maurice Estève, Árvore ramificada, 944
image_pdf

Por ERIVELTO DA ROCHA CARVALHO*

Comentário sobre o livro de Pedro Almodóvar

Publicado no ano passado com ampla difusão no mundo hispânico e tradução brasileira no ano que agora termina, El último sueño, de Pedro Almodóvar foi sucedido na Espanha pela edição do roteiro de The room next door (O quarto ao lado), filme baseado, por sua vez, no romance What are you going trough (2021) da escritora americana Sigrid Nunez, traduzido no Brasil por Carla Fortino com o título de O que você está enfrentando.

Antes disso, Pedro Almodóvar havia publicado dois livros também com relatos de caráter diverso: Fuego en las entrañas (1981) e Pathy Diphusa y otros textos (1991). Ambos seguiam, de maneira geral, o tom cômico e provocador pelo qual o seu cinema foi amplamente reconhecido e premiado.

Apesar de não ser a primeira incursão de Pedro Almodóvar no universo literário, sua obra mais recente tem a peculiaridade de reunir uma série de relatos em que o autor apresenta uma visão de si mesmo, calcada numa persona construída paralelamente a sua reconhecida e premiada carreira cinematográfica.

Mesmo referindo-se repetidamente a sua filmografia e recuperando a icônica figura da sex-symbol Pathy Diphusa (uma espécie de alter-ego ou heterônimo jocoso do autor), há no livro a reivindicação da sua figura de escritor como uma espécie de destino relativamente autônomo, o que se dá a conhecer em El último sueño através do código particular da linguagem literária.

Pedro Almodóvar como escritor

A “Introdução” do livro faz as vezes de prólogo e, ao mesmo tempo, é uma espécie de mapa de uma autobiografia vivida e ainda não escrita. Na apresentação dos doze relatos que compõe a obra, Pedro Almódovar faz questão de ressaltar que o livro que o leitor tem em mãos parte deliberadamente do intuito de não escrever uma biografia ao uso, apesar de reconhecer que apresenta algo parecido a uma autobiografia “fragmentada, incompleta e um pouco críptica”.

Alguns dos relatos apresentados remetem a passagens da vida do cineasta como a da morte de sua mãe em “El último sueño” ou a bela homenagem que escreve à cantora mexicana Chavela Vargas (“Adiós, volcán”). Os dois últimos do livro aparecem como uma espécie de fragmentos de diários de autor (“Memoria de un día vacío” e “Una mala novela”) e os demais podem ser situados no rol de ficções curtas ou fragmentos de roteiro cinematográfico cuja identificação completa com a biografia civil de Pedro Almodóvar Caballero é, no mínimo, difícil e arriscada.

Num mundo saturado de autoficção, por um lado, e de biografismos e autobiografismos, por outro lado, Almodóvar opta por trilhar um caminho à parte e apresenta uma biografia críptica que só pode ser decodificada (se assim o for) a partir da relação da vida do escritor com a escrita, que, por sua vez, transcende a figura deste e está relacionada à sua atuação como produtor e criador de argumentos e roteiros cinematográficos.

Trata-se, sem dúvida, de uma espécie de autobiografia secreta que não se entrega como tal e que pede ao leitor certa cumplicidade na hora de tentar compreendê-la, uma vez que a figura que agora a escreve não é o cineasta de sucesso e nem o jovem iconoclasta que viveu a euforia da Movida Madrileña, mas o personagem que se descreve como “alguém mais sombrio, mais austero e mais melancólico, com menos certezas, mais inseguro e com mais medo”, um escritor que como tal se forja em meio às mudanças do mundo durante os primeiros anos do novo milênio.

Cinema e literatura

Diz esse novo Almodóvar literário que é justamente a partir dessa espécie de melancolia difusa e desde todo tipo de hibridismo de gêneros (um dos relatos se chama exatamente “Demasiado cambio de géneros”, remetendo ao famoso filme Mujeres al borde de un ataque de nervios e à rede intertextual traçada nesta obra entre Jean Cocteau, Tenesse William e John Cassavaettes), que sua literatura se estrutura (definindo-a como pós-moderna) no sentido da sua tendência de apropriar-se de tudo que estiver ao seu alcance, como faz ao inserir certo tipo de música em seus filmes, ou a partir do tratamento literário que dá aos seus roteiros, o que, por sua vez, está baseado e liga-se intrinsicamente às suas tentativas frustradas de afirmação como escritor antes de sê-lo.

O Pedro Almodóvar escritor dos anos 2000 nos remete ao desconhecido Almodóvar da Madri dos anos 70/80, e aí é por onde se estabelece a ponte em El último sueño entre os fragmentos de ficção de relatos como “Vida y muerte de Miguel” e os fragmentos de filmes encenados ou não, como nos relatos “La visita” (um pedaço de La mala educación em forma literária) e outros como “La redención” (uma espécie exótica de A última tentação de Cristo), “La ceremonia del espejo” (um vamp-movie não rodado) e, finalmente, “Juana, la bela durmiente”, um relato surpreendente que configura uma reescritura almodovariana da história da Espanha pelas mãos das suas tão ressaltadas leis do Desejo.

“Amarga Navidad”, o único relato que resta aqui por mencionar, se organiza exatamente a partir dessa zona dúbia e nebulosa entre ficção e vida, cinema e literatura, cujo título já foi veiculado ao próximo filme do cineasta, em fase de produção.

Últimas observações

Além de péssimo romancista (para os cânones vigentes no mercado editorial), pode-se dizer, com segurança, que em El último sueño o biografado brilha por sua ausência, e aí reside, paradoxalmente, um dos grandes atrativos da obra de Pedro Almodóvar. Algo que a faz distinta dos livros de “memórias” ao uso, mas que a aproxima de outras biografias (ainda que de corte radicalmente distinto) como a de Luís Buñuel, que em Meu último suspiro (1982) afirmava que uma inteligência sem possibilidade de se expressar não é inteligência.

Os textos que compõe seu livro de relatos (assim definidos pelo autor, que se desvia assim conscientemente das restrições de gênero) nos dão esse personagem que escreve enquanto caminha (como no exercício mental de “Memoria de un día vacío”) ou que, abdicando da ilusão da busca da escritura do “grande romance”, contenta-se em se preparar para escrever um romance ruim ou o romance possível (como em “La mala novela”). Um romance que enquanto tal começa por tratar da própria voz de quem o escreve.

Apesar das notáveis diferenças, há algo do humor e da ironia autocentrada de Pathy Difusa nesse Pedro Almodóvar literário, melancólico e circunspecto. Além disso, sua escritura emula sorrateiramente a ironia de um dos autores espanhóis contemporâneos mais destacadamente metaliterários, Enrique Vila-Matas, ao expor, nessa espécie de biografia não-biográfica, algo semelhante a um contratempo que avança e indica novas direções, como em Mac y su contratiempo (2017), obra do ficcionista catalão citada no relato que fecha o livro.

A tradução brasileira de El último sueño ficou a cargo de Miguel del Castillo. Seria fácil, mas pouco operativo, aproximar o livro de Pedro Almodóvar de certa tradição da literatura espanhola que mistura vida e artifício literário, como a que inclui autores como Quevedo ou Torres Villaroel. Apesar disso, vale dizer que ao olhar para trás e para o tempo passado, a ficção de Almodóvar lança por fim uma pergunta sobre uma tormenta que não se deixa explicar, aquela que reside na nuvem de um tempo incompleto, indefinido e em progressão, tal como o do cinema e o da literatura em expansão (tal qual se dá em El último sueño).

É justamente nesta espécie de indefinição que reside não a palavra final de Pedro Almodóvar, mas sua penúltima palavra sobre a passagem do tempo na época em que vivemos.

*Erivelto da Rocha Carvalho é professor da área de Literatura Espanhola e Hispano-Americana da Universidade de Brasília (UnB).

Referência


Pedro Almodóvar. El último sueño. Barcelona, Reservoir Books, 2023, 208 páginas. [https://amzn.to/4gHnipx]


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
6
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
7
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
8
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
9
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
10
A pornô-política
14 Jun 2020 Por RICARDO T. TRINCA: O político obsceno tem prazer pelo domínio, sob a forma de uma prestidigitação, algo que pode ser encontrado também nos mágicos
11
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
12
A escolha de Donald Trump
13 Mar 2026 Por MICHAEL ROBERTS: Trump descobriu que decapitar um regime não é o mesmo que subjugar uma nação: o Irã resiste e o preço do petróleo cobra a fatura
13
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
14
A figura do pai
13 Mar 2026 Por SAULO MATIAS DOURADO: Nos filmes indicados ao Oscar, a figura do pai emerge como sintoma de uma época que perdeu a direção do futuro e busca na transmissão um sentido
15
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES