Eleições na França – o acordo dos partidos de esquerda

Imagem: Matt Hardy
image_pdf

Por THOMAS PIKETTY*

A campanha para as eleições legislativas de junho pode ser a ocasião para sair das caricaturas e progredir em questões fundamentais

Digamos sem medo: o acordo conjunto dos partidos de esquerda é uma ótima notícia para a democracia francesa e europeia. Os que veem nele o triunfo do radicalismo e do extremismo obviamente não compreenderam nada da evolução do capitalismo e dos desafios sociais e ambientais que precisamos enfrentar há várias décadas.

Na verdade, se examinamos as coisas com calma, o programa de transformações proposto por esta união das esquerdas e dos ecologistas em 2022 é um pouco menos ambicioso do que os de 1936 [Frente Popular] ou 1981 [François Mitterand]. Em vez de ceder ao conservadorismo hoje predominante [e expresso por Emmanuel Macron], é melhor tomá-lo pelo que é: um ponto de partida, sobre o qual é possível estabelecer confiança para ir mais longe.

O programa adotado assinala o retorno da justiça social e fiscal. No momento em que a inflação começa a amputar as rendas e as poupanças dos mais humildes, é urgente mudar os rumos. Os que afirmam que as políticas do “custe o que custar” não serão pagas por ninguém estão mentindo aos cidadãos. Para proteger os mais vulneráveis dos efeitos da alta dos preços e para financiar investimentos em saúde, educação e ambiente, será fundamental tributar os mais ricos.

Entre 2010 e 2021, as quinhentas maiores fortunas francesas pularam, segundo a revista Challenges (insuspeita de esquerdismos) de 200 bilhões para quase 1 trilhão de euros – ou seja, de 10% do PIB francês a quase 50%. O aumento é ainda maior se ampliamos o foco e examinamos as 500 mil maiores fortunas (que correspondem a 1% da população adulta). Elas hoje superam os 4 trilhões de euros (6 milhões de euros por pessoa, segundo o Base de Dados da Desigualdade Mundial – World Inequality Database), contra apenas 500 bilhões para os 25 milhões mais pobres (50% da população adulta, com 20 mil euros para cada pessoa, em média).

Em meio a tal período de prosperidade espetacular das posses mais altas e de estagnação dos mais humildes, optar por abolir o pequeno imposto sobre o patrimônio, quando, obviamente, deveria ser aumentado, testemunha um curioso sentido de prioridade. Os historiadores que se debruçarem sobre este período não serão suaves com os governos de Emmanuel Macron e seus apoiadores.

O primeiro mérito dos partidos de esquerda é ter sabido superar seus conflitos, para se opor juntos a esta deriva. Além da restauração do imposto sobre o patrimônio, propõe-se transformar os impostos sobre a propriedade de imóveis num tributo progressivo sobre o patrimônio líquido, que permitiria reduções fiscais significativas para milhões de franceses sobre-endividados das classes trabalhadora e médias. Para favorecer o acesso à propriedade, o programa poderia ser acrescido, a longo prazo, por um sistema de herança mínima para todos.

O acordo fechado entre partidários da França Insubmissa [a organização de Jean-Luc Mélenchon] e o Partido Socialista prevê também estender o direito ao salário aos trabalhadores de plataforma, e reforçar a presença dos funcionários nos Conselhos de Administração. Tal sistema já existe desde o pós-guerra na Suécia e Alemanha (com até 50% de cadeiras nas grandes empresas). Permanece embrionário na França: a direita sempre se mostrou hostil (os gaullistas às vezes fingiram favorecer a participação, mas na verdade ofereceram migalhas, sem jamais colocar em discussão o monopólio de controle sobre as ações) e a esquerda apostou nas nacionalizações (como em 1981).

A atual mudança rumo a uma postura menos estatista e mais participativa remete aos contratos coletivos de 1936 e abre caminho para um novo paradigma. Mesmo que seja necessário, a longo prazo, ir muito além – garantindo aos assalariados, por exemplo 50% dos postos nos conselhos de administração de todas as empresas e limitando a 10% o direito de voto de cada acionista individual nas grandes corporações.

Examinemos a questão europeia. Todos os partidos membros da Nupes (a sigla da união das esquerdas e dos ecologistas franceses) defendem a harmonização das leis sociais e fiscais na Europa e a passagem a um governo europeu de maioria. Tentar fazê-los passar por antieuropeus, quando são os mais federalistas de todos, é uma tática infame. Os liberais que se declaram europeus estão na verdade apenas capturando a ideia europeia para ampliar sua política antissocial. Ao fazê-lo, são eles que colocam em risco a Europa.

Se as classes trabalhadoras votaram maciçamente contra a Europa nos referendos de 1992 e 2005, e de novo no voto sobre o Brexit em 2016, isso se deve ao fato de que a integração europeia, como pensada até agora, favorece estruturalmente os atores econômicos mais poderosos e móveis, em prejuízo dos mais frágeis. Foi a Europa que liderou o mundo e os próprios Estados Unidos na busca de uma tributação cada vez mais baixa das multinacionais. Por isso, algumas destas corporações agora elogiam com entusiasmo a alíquota mínima de 15%, pouco superior à alíquota irlandesa de 12,5%, porém com múltiplas isenções e, portanto, muito inferior ao que pagam as pequenas e médias empresas e as classes médias e trabalhadoras.

Pretender que o problema será resolvido na vigência da regra de unanimidade [entre os países da União Europeia] é uma mentira. Para colocar fim ao dumping fiscal, social e ambiental na Europa, devemos fazer propostas precisas a nossos parceiros e adotar medidas unilaterais para fugir dos impasses provocados. A França poderia, por exemplo, com mostrou o Observatórios Europeu da Fiscalidade, impor agora mesmo uma alíquota mínima de 25% ou de 30% às empresas que têm sede em paraísos fiscais e vendem bens e serviços no país. Esperamos que a campanha para as eleições legislativas seja a ocasião para sair das caricaturas e progredir nestas questões fundamentais.

*Thomas Piketty é diretor de pesquisas na École des Hautes Études en Sciences Sociales e professor na Paris School of Economics. Autor, entre outros livros, de O capital no século XXI (Intrinseca).

Tradução: Antonio Martins para o site Outras Palavras.

Publicado originalmente no jornal Le Monde.

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Os últimos intelectuais
09 Jan 2026 Por EMIR SADER: A academia, ao engolir o intelectual público, trocou a praça pelo campus e a língua comum pelo jargão — e, com isso, silenciou-se uma voz essencial para o debate democrático
2
O sequestro de Maduro e a terceira onda colonial
05 Jan 2026 Por VLADIMIR SAFATLE: O colonialismo 3.0 não disfarça mais: suas razões são a pilhagem, e sua lógica, a força bruta. Resta-nos responder com a clareza de quem sabe que a próxima fronteira do império é nosso próprio quintal
3
O retorno do imperialismo nu e cru: o sequestro de Maduro e a Doutrina Donroe
04 Jan 2026 Por PEDRO PAULO ZAHLUTH BASTOS: O avanço de uma estratégia transacional e coercitiva dos Estados Unidos sobre a América Latina marca o fim da retórica liberal e coloca em xeque a soberania nacional frente à disputa por recursos estratégicos
4
O inferno de Borges
31 Dec 2025 Por LUCIANA MOLINA: Enquanto a biblioteca representa o paraíso para a literatura, a realidade das escolas públicas brasileiras revela um cenário de exclusão, onde instituições sem bibliotecários e livros lacrados aprofundam o abismo cultural
5
No capitalismo mafioso Nicolás Maduro veste Nike
07 Jan 2026 Por IVANA BENTES: A imagem de Nicolás Maduro em Nike Tech Fleece simboliza o capitalismo mafioso, onde a pilhagem geopolítica se converte em mercadoria viral e a guerra vira entretenimento consumível
6
O ditador (preferido) da rede Globo
08 Jan 2026 Por ROSÂNGELA RIBEIRO GIL: Na TV, a palavra "ditador" é arma ideológica: serve ao poder que a paga, encobre as tiranias reais e sequestra a soberania das narrativas
7
Afinidades seletivas
06 Jan 2026 Por RICARDO MUSSE: Considerações sobre o livro de Perry Anderson
8
Não é apenas pelo petróleo – 10 teses sobre a Venezuela
06 Jan 2026 Por GABRIEL TELES: O petróleo é apenas a cortina de fumaça; o verdadeiro drama é a normalização de uma tutela imperial que, sob verniz técnico e jurídico, esvazia soberanias sem precisar destruí-las
9
As bravatas de Donald Trump
08 Jan 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: A lucidez política exige rejeitar as fábulas maniqueístas: é possível condenar a agressão imperial sem endeusar regimes autoritários, pois a história real raramente oferece heróis
10
Críticas simétricas
10 Jan 2026 Por VALTER POMAR: Resposta ao artigo de Luis Felipe Miguel
11
A suposta nova riqueza do imperador
11 Jan 2026 Por PAUL KRUGMAN: A guerra por petróleo na Venezuela é uma ficção: as reservas são superestimadas, os custos proibitivos e os únicos lucros reais são os de aliados políticos de Trump, não do contribuinte americano
12
A lucidez em uma universidade sitiada
06 Jan 2026 Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR: Diante da dependência cognitiva que nos faz produzir muito e compreender pouco, a lucidez é o último reduto de uma universidade que ainda ousa pensar
13
Desembaçando a Venezuela
09 Jan 2026 Por FABIO LUIS BARBOSA DOS SANTOS: O ataque à Venezuela expõe o colapso do liberalismo no abraço à direita radical, revelando um novo imperialismo que substitui a política pelo “embaçamento” entre mentira e força
14
A colônia petrolífera de Donald Trump
10 Jan 2026 Por CLAUDIO KATZ: Entre o sequestro de Maduro e o desejo pelo petróleo, Trump resgata o colonialismo explícito e desafia a soberania regional, transformando a Venezuela no marco zero de um novo e perigoso domínio imperial
15
Marx, Kepler
12 Jan 2026 Por RODRIGO NAGEM DE ARAGÃO: Marx viu em Kepler um espírito revolucionário: aquele que desvela a essência por trás da aparência, gesto que ele próprio repetiu ao expor as leis do capital
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES