Erick Satie e João Donato

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Por DANIEL BRAZIL*

Paralelos entre dois poetas da síntese musical

O título desse artigo poderia ser João Satie, ou Erick Donato. A proposta desse artigo – e qualquer artigo é apenas uma proposta jogada no tabuleiro das ideias, não uma sentença – traçar um paralelo entre duas figuras seminais da música do século XX, cada qual no seu contexto.

Erick Satie é considerado um dos precursores do minimalismo musical. Nascido na Normandia em 1866, mudou-se para Paris em 1878, e entrou no Conservatório de Paris, onde foi considerado medíocre. Pra sobreviver, virou pianista de um cabaré, o famoso Chat Noir. Flertou com o ragtime, precursor do jazz. Conviveu com grandes nomes do cenário artístico, e sua personalidade original cativou pessoas como Picasso, Debussy (que orquestrou peças suas), Ravel e Cocteau.

João Donato, nascido no Acre em 1934, nasceu em família musical, e começou tocando acordeon. Foi com a família para o Rio de Janeiro em 1945, e passou a frequentar o restrito circuito musical alternativo da época, então dominada pelo samba-canção. Flertou com o jazz, sucessor do ragtime, aproximou-se dos músicos e compositores da Bossa Nova, sem nunca aderir totalmente ao estilo. Seu coração amazônico estava mais próximo do Caribe que dos apartamentos de Ipanema, e isso se refletiu em sua produção musical.

Erick Satie teve um grande amor na vida, Suzanne Valadon, uma artista plástica que ficou mais conhecida por ter sido modelo de Degas e Renoir, mestres do impressionismo. João Donato teve vários amores, mas nenhum como Leila, a quem dedicou várias composições, chamadas Leilíadas. Nos anos 90, João Donato ficou quase 20 anos sem gravar. Erick Satie, voltou a estudar música com quase quarenta anos, depois de ficar 15 anos sem compor. É o que diz a lenda…

O que há em comum nas criações desses homens extraordinários? A extraordinária capacidade de síntese, de decantação de ideias musicais. Com poucas notas e harmonias aparentemente simples, conseguem criar atmosferas absolutamente originais. Um mais melancólico, lunar, outro totalmente solar, porém atentos ao mundo musical cambiante em que viveram. Sem seguir correntes, avessos aos modismos, criaram caminhos onde absorveram e moldaram de forma pessoal as formas musicais que conduziam ao caminho da cristalização de uma ideia: haikais musicais, células melódicas e rítmicas que se tornaram paradigmáticas, e que em poucos compassos explicitam um clima.

Ambos foram considerados malucos. Conta-se que Erick Satie um dia chamou o amigo Debussy para ouvir um novo acorde que havia descoberto, e Claude Debussy tinha de ajudá-lo (ou dissuadi-lo) a empurrar o piano pela janela do segundo andar. O último disco de Donato tem na capa a fotografia dele com o amigo Macalé, pelados.

Ambos deixaram obras inesquecíveis, que reconhecemos ao ouvir as primeiras notas. Enquanto o francês refletiu um clima de melancolia e solidão em suas pequenas esculturas musicais, o brasileiro nasceu para bailar. Tocou com músicos de várias gerações, morou nos EUA, acompanhou cantoras notáveis, escreveu inúmeros móbiles musicais cujo encanto se renova a cada audição.

Que sorte podermos fruir a arte desses malucos adoráveis!

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance  Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.


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