Manipulações obscenas

Imagem: Pieter Bruegel

Por MARCELO GUIMARÃES LIMA*

Sobre a continuidade da aventura neofascista da classe dominante brasileira

A cada dia que passa mais e mais crimes graves do desgoverno Bolsonaro contra o país e o povo brasileiro são revelados por fontes diversas. E Bolsonaro continua no cargo de presidente, fruto do golpe de estado de 2016, sustentado pelas forças golpistas no congresso, entre os militares e ainda por uma súcia de agentes na imprensa, nas instituições, nas redes sociais, entre gente que recebe para promover e defender o indefensável e voluntários, cujo ganho é puramente emocional de identificação primária e de veiculação pública, sancionada pelo governo de extrema direita, de profundas frustrações e traumas pessoais expressos na forma algo incerta da “ideologia” neofascista.

O desconforto pessoal generalizado (para utilizarmos uma forma branda de expressão) próprio do tempo é fruto de situações objetivas, provém fundamentalmente da instabilidade estrutural do capitalismo globalizado que repercute na vida cotidiana e, no contexto da “cultura do narcisismo” neoliberal, se manifesta na experiência dos sujeitos enquanto vivências isoladamente individuais e são, como tais, como experiências de um subjetivo “mal estar na (in) cultura” atual, experiências canalizadas e expressas no ódio “pessoal” ao “outro” ou seu fantasma: o ódio como catarse do medo e da insegurança individual.

O mecanismo psicológico do “bode expiatório” é antigo como a humanidade, segundo o legado de formas culturais e religiosas do passado, e se atualiza neste momento crítico no país e no mundo no qual a maioria paga o enorme preço de sustentar estruturas socioeconômicas impeditivas e seus processos autofágicos para a vida social e mesmo para vida da espécie, na crise atual da relação homem-natureza. Relação esta que, vale sempre lembrar, não se dá senão mediada pela relação dos homens entre si.

A relação ao meio natural e seus processos não pode ser dissociada das relações humanas resultantes da estruturação social hoje baseada na crescente desigualdade, nas relações intensificadas de domínio e subordinação existentes na sociedade global contemporânea entre os diversos grupos humanos: classes sociais, nações e culturas.

Com o golpe de 2016, o núcleo duro da classe dominante brasileira visou transferir de modo direto e imediato os custos da crise capitalista global, tal como se refletem no país, para a classe trabalhadora, a classe média e demais grupos sociais já tradicionalmente marginalizados, incipientemente e diversamente beneficiados nos governos do PT.

A classe dominante brasileira, profundamente reacionária e de limitadas concepções sobre a realidade do mundo atual em profundas transformações, abraçou Bolsonaro como seu representante. A escandalosa, a obscena manipulação mediática e jurídica do sistema eleitoral resultou afinal na eleição do político profissional e, até então, marginal dentro do sistema estabelecido do poder no parlamento, criatura ideológica da ditadura militar de 1964 e membro tradicional do Baixo Clero parlamentar, onde fez carreira de ideólogo, parlamentar medíocre ocupado com as benesses materiais do cargo, político de ligações conhecidas com milicianos, quer dizer, com a criminalidade estabelecida nas entranhas dos aparelhos repressivos do estado do Rio de Janeiro.

O projeto neoliberal das chamadas “elites transnacionais”(1) associou-se no Brasil por proximidade, necessidade e afinidades, ao projeto autoritário e neofascista remanescente da ditadura militar: projetos associados de destruição sistemática da vida política, do pensamento e da cultura, das instituições reguladoras da mais do que “relativa” democracia brasileira, das funções sociais e assistenciais do estado que visam um relativo equilíbrio nos processos vitais do sistema socioeconômico do capitalismo dependente. Todo este processo violentamente regressivo de quebrar resistências reais, potenciais ou mesmo imaginárias ao neoliberalismo radicalizado da periferia, foi rapidamente implementado a partir do golpe de 2016 e intensificado no desgoverno do líder da extrema direita.

Aqui caberia perguntar se o golpe, a burguesia brasileira, os beneficiários iniciais da destruição sistemática, os assalariados do golpe: jornalistas ou para jornalistas, parlamentares, agentes do estado, se os fiéis do bolsonarismo, a classe média em geral, enfim se este amálgama de interesses, forças políticas e financeiras, partidos e setores da chamada “sociedade civil” ou, no caso brasileiro, uma sociedade propriamente “incivilizada”, sentem-se todos contemplados na atual conjuntura.

Há setores golpistas que neste momento se mostram, por meio de editoriais da imprensa amiga, de algum modo surpresos, “perplexos” pela demonstrada incapacidade gerencial do desgoverno do Inominável na atual crise nacional da saúde. À crise sistêmica da economia mundial, agudizada em 2008 e que se prolonga em vários aspectos nos dias atuais, seguiu-se a pandemia da Covid-19. As respostas, em nível global, à pandemia foram contraditórias e resultaram num custo alto em vidas humanas. No Brasil, elas se agravaram com a politização geral da crise da saúde promovida pelo Capitão do Caos cuja especialidade ou vocação única é o discurso e a prática ideológica de ultradireita, ou seja, um “remédio” único para toda e qualquer ocasião ou dificuldade.

Ora, a mudança de regime almejada e promovida com o golpe de 2016 parece não ser exatamente a mesma para Bolsonaro e para o núcleo institucional tradicional da direita brasileira. Aqui se mesclam interesses e “visões de mundo” algo divergentes, ainda que tenham um fundo comum no contexto neoliberal global de enfrentamento de classe e de submissão das classes trabalhadoras e exclusão social intensificada contra grupos socioeconômicos e culturais marginais ou marginalizados.

De um lado, a cúpula militar, ressentida da derrocada do regime militar e saudosa da ditadura, que tem por objetivo “perene” a tutela da nação como esteio do regime golpista, senão como seus gestores diretos no modelo da ditadura de 1964. A ameaça do golpe e ditadura militar foi e ainda é a chantagem reiterada por Bolsonaro nos momentos de dificuldade.  E, no entanto, um regime de molde fascista com Bolsonaro como líder supremo se chocaria com evidentes dificuldades internas e externas. O voluntarismo, o arrivismo rastaquera, o narcisismo, a demonstrada irresponsabilidade de Bolsonaro, junto com as limitações cognitivas e práticas do Capitão do Caos, poderiam ser elementos de um conflito entre a instituição e o aventureiro personalista. Aqui, o risco sempre presente de agravamento da crise nacional com Bolsonaro não compensaria eventuais benefícios para os militares. Por outro lado, sem o aríete do bolsonarismo, o alvo de poder dos militares, na falta de alternativas refletidas e dada as limitações intelectuais e cognitivas da ideologia militar, se faz problemático: difícil com Bolsonaro, difícil também sem Bolsonaro.

Por outro lado, uma parte da burguesia golpista já pede a cabeça do Capitão do Caos: o custo Bolsonaro se revela mais e mais complicado para o país. Esta burguesia incrédula e intelectualmente limitada teve seu cálculo golpista dificultado pelas ações e inações de Bolsonaro. A necropolítica ativa, metódica na crise do Covid19, recentemente explicitada, comprovada por pesquisadores da saúde, gera reações populares, indignação, resistência e revolta que expressa insatisfação generalizada e com ela o risco de “ruptura” da atual normalidade golpista, o status quo da pseudodemocracia na qual as instituições ditas da “normalidade democrática” convivem e mesmo colaboram direta ou indiretamente com o ativismo autocrático e suas repercussões nas disputas de poder entre e no interior das instituições do estado.

No plano internacional Bolsonaro e os seus demonstram saber pouco ou nada da complexidade do mundo real, para além da retórica de ultradireita. A aposta perdida em Trump demonstra isso. O isolamento internacional é um dos riscos do bolsonarismo, ainda que o projeto de subordinação de fato aos donos do mundo possa fazer de Bolsonaro algo como um “necessário” incômodo. O presidente eleito dos EUA nos dirá, proximamente. Num prazo não tão longo, o isolamento poderá ser custoso para o setor exportador e para setor comercial e poderá ajudar, de modo mais ou menos decisivo, a pôr fim à aventura neofascista da burguesia brasileira.

Neste caso, Bolsonaro terá sido um episódio passageiro na vida nacional. Mas a crise na qual Bolsonaro despontou, na medida em que ela reflete internamente o contexto internacional, não é de forma alguma passageira e continuará, em aspectos centrais e de formas diversas, com ou sem o Capitão do Caos. Uma administração mais “racional” e “equilibrada” da crise e do regime golpista seria possível? O que equivale perguntar se haveria uma forma “branda” de regime golpista para a classe dominante brasileira, interrogação que, por um lado, é o mesmo que perguntar pela forma enfim alcançada da quadratura do círculo e dificuldades semelhantes.

Guardada as devidas proporções e todas as especificidades, a eleição de Biden nos EUA é uma aposta com sentido de normalização da crise, se entendermos que o governo Trump expressou de modo contraditório uma mudança já ocorrida no regime político norte-americano na direção de algo que se pode chamar de uma “pós-democracia”. A salvaguarda dos símbolos que a eleição de Biden pode significar, caminha junto à eliminação continuada da substância do status quo ante, isto é, anterior a Trump, o contexto ao mesmo tempo ideal e “de fato” da democracia liberal “clássica” que o sistema norte-americano encarnou. O próprio Trump, com seu oportunismo, seu voluntarismo e sua retórica neofascista, a seu modo e mesmo malgrado ele mesmo, contribuiu para expor a realidade do poder concentracionário, o poder de fato de setores associados, não-estatais e paraestatais, na tutela do regime universalmente “exemplar”, “paradigmático” da democracia norte-americana.

Entre nós, o recente ensaio malogrado da mal denominada “Frente Ampla” (que não era nem uma coisa, nem outra) no congresso brasileiro, ainda que circunscrito, é instrutivo. A dominação burguesa no Brasil sempre teve limites demasiado estreitos no que diz respeito à construção possível de uma nação moderadamente soberana e minimamente integrada. O golpe de 2016, não é demasiado repetir, promoveu a rápida reversão do moderado experimento impulsionado por mobilizações populares e conduzido pelo PT de relativa integração social e democratização igualmente relativa, mas não desimportante, da vida nacional no período pós-ditadura militar e após a debacle neoliberal de Collor a FHC. Neste período os relativos avanços, digamos, “superestruturais “, conviveram com adaptações “necessárias”, “conjunturais”, “táticas”, nem sempre muito criativas, ao contexto da (des)ordem neoliberal global. E no final deste processo, os donos do Brasil, associados aos donos do mundo, terminaram por impor o seu modelo “tradicional”, exclusivo e excludente à toda a sociedade.

Mas cá e lá, a questão atual da normalização dos novos regimes “pós-democráticos” na crise mundial se impõe, com suas especificidades locais, mas com semelhantes contundências, urgências, contradições variadas e muitos impasses. Assim como Trump nos EUA, Bolsonaro na presidência no Brasil expressou e personificou uma determinada fase da crise. O que virá após é matéria de conjecturas, mas é possível dizer que a crise ela mesma no seu dinamismo se desdobra em possibilidades e alternativas várias, inclusive, na “geleia geral” da crise mundial, alternativas excludentes que ameaçam a estabilidade do pacto transnacional das elites. A conjuntura atual parece caminhar para a relativa “normalização” do próprio Bolsonaro dentro do processo golpista. Ou assim almejam os proprietários e condutores do processo. Pelo que conhecemos do capitão, da classe dominante brasileira, e da instável conjuntura internacional que aponta resistência variada e crescente ao projeto hegemônico global, esta é igualmente uma aposta muito arriscada.

1 – “Podemos definir a “elite transnacional” como a elite que estabelece seu poder (econômico, político ou poder social geral) operando em nível transnacional – o que implica que não expressa, única ou principalmente, os interesses de um determinado estado. Consiste em uma rede de elites interconectadas controlando cada campo principal da vida social (econômico, político, ideológico e assim por diante)”.

Takis Fotopoulos – Τhe Transnational Elite and the NWO as “conspiracies”.

A “elite transnacional”, segundo o autor, é composta de elites setoriais interconectadas em um projeto e interesses comunsna economia, na política, na comunicação global, na academia e na cultura. Utiliza-se de bases nacionais mas trabalha no interesse exclusivo do poder e da governança global, de “direito” ou simplesmente de fato, promovida pelas corporações transnacionais.

*Marcelo Guimarães Lima é escritor, pesquisador e artista plástico. Autor de Heterochronia and Vanishing Viewpoints: art chronicles and essays (Metasenta Publications, Melbourne, Australia).

Nota


https://www.inclusivedemocracy.org/journal/vol10/vol10_no1-2_Transnational_Elite_and_NWO_as_conspiracies.html