Por FERNANDA CANAVÊZ*
Nas noites nordestinadas do Brasil, o forró é mais que dança; é prática de cuidado que tece laços onde o capitalismo promoveu atomização e saudade
1.
“O forró abraça”. Assim concluiu um grande amigo, com quem divido repertórios de forrós antigos e o prazer do encontro com pares em bailes pelo Rio de Janeiro afora. No rol das semelhanças entre nós, também não temos parentes mais imediatos nascidos na região Nordeste do Brasil, o barro do chão do forró, embora tenhamos profunda reverência aos inteligentes que o inventaram, por alusão aos versos de Forró do Xenhenhém,de Antônio Barros e Cecéu.
Além disso, compartilhamos a certeza do apaziguamento oferecido pelo forró: ao escutar as músicas, em uma coreografia improvisada a dois, no testemunho de performances em shows, nos causos ao pé do ouvido entre uma puxada e outra do fole. É o abraço do forró, prática de cuidado estendida pelos inteligentes – e generosos – do Nordeste às demais regiões do nosso país.
Afinal de contas, “As noites brasileiras estão nordestinadas”, como canta o exímio sanfoneiro alagoano Benício Guimarães, em A juventude manda. Marcadas que são pela invenção nordestina, nossas noites, do Oiapoque ao Chuí, mostram que “Em todo canto tem sanfona, toda noite tem forró (…) ninguém fica só”.
Sendo assim, ganha ainda mais importância o Dia Nacional do Forró, celebrado no dia 13 de dezembro desde 2005, quando a Lei 11.176 foi sancionada em homenagem ao nascimento de Luiz Gonzaga, o rei do baião.
Gonzagão, que completaria 113 anos neste ano, afirmava ser o forró o baile do trabalhador nordestino.[1] Responsável por popularizar o gênero, o músico cumpriu o mesmo destino de milhares de conterrâneos, forçados à migração em busca de condições materiais de vida em grandes centros urbanos.
No ano de 1950, o censo chegou a contabilizar 173 mil nordestinos na cidade de São Paulo.[2] Desenraizados de sua terra natal, tais trabalhadores viam nos bailes a possibilidade de reencontro com o barro do chão, expressões e causos de suas regiões. O abraço do forró, “ninguém fica só”.
O cearense Belchior, em um belíssimo registro do Programa MPB Especial, datado de 1974,[3] comenta sua experiência como migrante ao chegar na cidade de São Paulo. Natural de Sobral, Belchior diz sentir falta do sentimento místico da multidão, tão comum nas experiências religiosas de sua região, em cada novena, em cada canto compartilhado. Segundo ele, o pertencimento ao coletivo traria a dissolução do indivíduo, o que é sentido como uma espécie de êxtase.
2.
A afirmação pode soar algo desconfortável a ouvidos acostumados à defesa da “individualidade” e à busca de autoconhecimento, cantilena repetitiva que circula em redes sociais, papos de bar e anseios contemporâneos. Ponto de chegada de uma experiência subjetiva que sofreu muita influência, verdade seja dita, do campo da psicologia.
O campo psi é inaugurado, ainda na Modernidade, com o propósito de se dedicar à pesquisa de uma subjetividade em crise e de esquadrinhar os processos relacionados ao indivíduo.[4] Em seu desenvolvimento, engrossou o caldo da perspectiva liberal que vende a falácia de um indivíduo desembaraçado dos demais, independente de seus pares e empreendedor de si.
Bem antes e na contramão dessa proposta, o Manifesto Comunista convocava os proletários de todo o mundo à união e à luta contra o capitalismo. Estou certa de que Marx e Engels não escutaram Luiz Gonzaga, embora certamente seja possível ensaiar alguma aproximação do trio. Isso porque o rei do baião parecia estar plenamente ciente das agruras do seu público, assim como de suas estratégias de sobrevivência.
Cantando A triste partida, um verdadeiro hino de Patativa do Assaré,[5] dizia Seu Luiz:
Chegaram em São Paulo
Sem cobre quebrado
E o pobre acanhado
Percura um patrão
Só vê cara estranha
De estranha gente
Tudo é diferente
Do caro torrão
Trabaia dois ano
Três ano e mais ano
E sempre nos prano
De um dia vorta
Mas nunca ele pode
Só vive devendo
E assim vai sofrendo
É sofrer sem parar
Do mundo afastado
Ali vive preso
Sofrendo desprezo
Devendo ao patrão
3.
Para escapar da fome, a família retratada na canção ruma ao Sudeste, onde o “nortista, tão forte, tão bravo”, será obrigado a “viver como escravo”. Obrigado a viver como “escravo” e atomizado na selva de pedra, onde lhe é vendida a promessa liberal de “liberdade” e “autonomia”.
Acompanho novamente Belchior no apontamento dos desdobramentos de sua chegada à capital paulistana: “a gente perdeu qualquer sentimento de vinculação, a gente fica profundamente individualizado, profundamente a gente mesmo, mas perde toda a vinculação e os laços com as outras pessoas. E isso é muito muito ruim, dá uma solidão muito grande”.
De um lado, a crítica à exploração da força de trabalho; do outro, o pesar pela sensação de desencaixe em função da perda de espaços de compartilhamento e de coletivização da vida. Temos aí nosso trio: Gonzaga na sanfona, Marx na zabumba e Engels no triângulo.
Sendo assim, neste Dia Nacional do Forró, gostaria de atentar à sua envergadura como patrimônio da classe trabalhadora. Afinal de contas, seus bailes testemunham a reunião de trabalhadores forçados a diferentes fluxos migratórios, poder de coletivização que se estende a quem não teve a mesma trajetória, mas se sente profundamente tocado pela experiência, assim como eu e meu camarada do abraço do forró.
Forró é prática de cuidado: na partilha das melodias, na fruição da dança, no resgate das memórias do território, no investimento narcísico nos inteligentes que o inventaram, no sentimento místico da multidão que desafia os processos de individualização tão caros ao capitalismo.
Forró é liga da classe trabalhadora: na identificação com os versos da música, no poder de revolta que vem dos bons encontros, no compartilhar futuros que não se sonham na solidão, quando se é “profundamente a gente mesmo”. Somos mais quando nos abraçamos.
*Fernanda Canavêz é professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Notas
[1] ARQUIVO NACIONAL. A origem do forró, 1977. Disponível em https://youtu.be/JDz3-c91wAw?si=zdqS_HVERDNuzanl
[2] MARCELO, C. & RODRIGUES, R. O fole roncou: uma história do forró. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.
[3] MUSICALIDADE. BELCHIOR – MPB Especial 1974. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=TEK2Ld6RAig
[4] FIQUEIREDO, L.C.M. & SANTI, P.L.R. Psicologia: uma (nova) introdução. São Paulo: Educ, 2004.
[5] DONATO, H. Alada palavra: o sertão de Patativa do Assaré e o sertão das possibilidades. São Paulo: Novas Edições Acadêmicas, 2015.
A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
C O N T R I B U A





















