A morte da teoria autônoma

Imagem: Mitchell Luo

Por ALEXANDRE DE LIMA CASTRO TRANJAN*

Reflexões sobre a mercantilização do saber

Caso se realizasse um concurso entre as frases mais incômodas aos (bons) acadêmicos, “na prática, a teoria é outra” seria uma ótima candidata a vencedora. E pouco frustra mais um professor ou uma professora de ensino básico do que a pergunta que corta o fluxo da abstração etérea e joga a discussão de volta ao chão firme da vida cotidiana: “e o que eu faço com isso para a minha vida?”. Sintomático que a vítima desse tipo de disparate seja, provavelmente, o ou a docente de matemática, física, filosofia ou sociologia.

Nas próximas linhas, tentarei, de maneira breve e sucinta, mostrar que e por que tais expressões não são meras provocações dirigidas a algum estudioso em particular, mas sim retrato de uma lógica mercantil perversa que acomete o ensino, sobretudo nos níveis médio e superior, e que exerce perniciosa função ideológica.

Com a queda do Muro de Berlim, formou-se o aparente consenso “fukuyâmico” de que a história chegara a seu fim. Dizia-se que a vitória da democracia liberal representativa era agora definitiva em razão do colapso da União Soviética. Isso já se anunciava no que se dizia sobre a derrocada das metanarrativas (ou metarrelatos; cf. LYOTARD, 2020, p. 69 e ss.), quer de maneira apologética, quer descritiva. A diferença entre as correntes costuma ser nítida, embora o estilo discursivo de alguns autores acabe por embaçar nossa visão: os primeiros, da corrente apologética, defendem que o descrédito às narrativas se deve a suas contradições internas e que a falta de opções ao capitalismo é consequência deste ser, de fato, o melhor modo de produção possível. Já os últimos, entre os quais me insiro, percebem o “realismo capitalista” (cf. uso crítico do termo em FISHER, 2009) de um ponto de vista semiótico, como ideologia que sustenta intersubjetivamente o sistema, sem que o capitalismo corresponda a uma realidade econômica necessária.

Com a preponderância desse realismo, os saberes críticos são relegados a segundo plano. — Para quê lutar contra um sistema invencível? Juntemo-nos a ele! — Nesse sentido, não valem mais a pena os estudos teóricos em filosofia, sociologia, história, que tradicionalmente apresentam críticas à ordem social. Sob tal ótica, muito mais vale estudar o que “dá dinheiro” do que “discutir o sexo dos anjos e passar fome”. Eis onde reside o que costumeiramente é chamado de substituição ou, melhor dizendo, subordinação da ciência pela técnica, sendo esta última entendida como método de obtenção de resultados frequentemente materiais (LYOTARD, 2020, p. 88 e ss.).

Por tal razão que o conceito, outrora maneira de enxergar o mundo por lentes filosóficas ou estéticas, degenera-se em modelo de vendas. Agora, quem “cria” o conceito, não mais é o teórico que o aplica para descrever ou analisar dado fenômeno ou situação fática, mas sim o profissional de marketing, que cria novas formas de demanda a partir da formação de uma ideia de consumo, transformando vergonhosamente o conceito de recurso intelectual em instrumento de comércio (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 17).

Nesse contexto, o antigo ideal emancipatório da universidade dá lugar à legitimação pelo desempenho. Não mais saber, mas produzir[i]. Não vencer o sistema, mas vencer no e pelo sistema. As faculdades se transformam em algo como “cursos técnicos superiores” e abandonam completa ou, pelo menos, significativamente, o ideal de formar conhecedores dos assuntos estudados em prol da formação de bons profissionais. Falando concretamente, juristas dão lugar a advogados; economistas, engenheiros ou administradores a consultores financeiros; filósofos, sociólogos e historiadores viram palestrantes que exigem antecedência de um ano para agendar horário ou fazem programas de auditório para entretenimento[ii].

O leitor talvez se irrite: — ora, queres dizer então que uma faculdade não deve formar bons profissionais? Quantas besteiras acabo de ler! — A este leitor, peço que me conceda mais algumas linhas.

É evidente que de uma faculdade de direito de excelência devam sair advogados de excelência, e assim por diante. A crítica, aqui, consiste justamente no fato de que, cada vez mais, formar bons profissionais, que consigam fazer muito dinheiro, torna-se o mote único dos cursos superiores no ocidente. A competência profissional não mais é desdobramento natural de uma formação acadêmica de ponta, mas sim seu próprio significado e sentido. E essa contaminação do ensino pela lógica de mercado não se restringe à formação universitária.

O fenômeno acima descrito, a que chamo de mercantilização do saber, permeia mesmo o ensino básico. Colégios cada vez mais são avaliados pela classificação que alcançam no ranking do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e pela quantidade de alunos que constam na lista de aprovados de vestibulares de universidades renomadas. Para os jovens que não conseguem a aprovação aos dezessete anos, o que por vezes é visto como grande fracasso e se transforma em drama familiar, existe um mercado extremamente aquecido: o dos cursinhos preparatórios. Nesse âmbito, o vestibular é gamificado e dramatizado, transformando-se numa mise-en-scène competitiva: alunos se digladiam pelas melhores posições em simulados e, no dia do vestibular, trajam camisetas com dizeres como “sua vaga é minha” ou “sou uma vaga a menos para você”. O gran finale é o dia da aprovação: muita alegria, tinta, posts em redes sociais e expectativa de dinheiro no bolso dos donos do cursinho, que sabem que cada aluno seu é uma vaga a menos para o concorrente. Os cursos mais concorridos? Via de regra, medicina, engenharia e direito, todos com ótimas perspectivas de renda para alunos egressos de grandes universidades — quase todas elas públicas, isto é, com recursos do erário[iii].

A partir desse custeio público ao ensino superior, muitos levantam a bandeira da privatização das universidades. Se os cursos agora só servem para enriquecer os alunos, por que eles mesmos não pagam? Mais que dar errado na prática, acarretando endividamento impagável para os alunos e elitizando ainda mais o ensino (GIL, 2020), tal ideia é, no discurso, a rendição final da educação à mercantilização. Destituídas do custeio público, as universidades perderiam sua autonomia financeira em relação a particulares e dependeriam, acima de tudo, do interesse dos financiadores e do pagamento dos alunos. Em vez de uma instituição do saber, a universidade seria em definitivo instrumentalizada em prol do interesse de instituições privadas e da expectativa de renda futura de alunos que só se disporiam a pagar caso já viessem de família rica e/ou vissem no curso um bom potencial de receita.

Para concluir nossa discussão, questionemos: “What the hell we fighting for?/Just surrender and it won’t hurt at all[iv]. Que mal há em tudo isso? Ora, o resultado do jogo perverso até aqui descrito, em comunhão com outros fatores, é uma degeneração cognitiva coletiva e a perpetuação do discurso neoliberal apologético ao capitalismo, visto ora como única opção, ora como a melhor opção, ora como ambos. Com a preponderância de tal ideologia, gera-se grande poder de convencimento a políticos à Paulo Guedes, que acenam ao mercado num com dizeres tecnocráticos ultraliberais, colocados como o auge do saber econômico. Os domiciliados na Faria Lima e afins, bem como muitos proletários iludidos, apertam os números de tais políticos na convicção de que isso lhes será conveniente. Enquanto o primeiro grupo está certo em sua análise, a este segundo, um pouco de consciência de classe pode ser de enorme valor. O papel do educador no processo de desenvolvimento de tal capacidade dificilmente pode ser contestado em teoria, mas está em xeque na medida em que cada vez mais teoria é subjugada pelo mercado.

Mais que defender nossas bolsas de pesquisa, como insinuam alguns comentários à tal da Lista dos Produtivos, o papel da academia é justamente demonstrar como teoria e prática não caminham em vias separadas e incomunicáveis, mas sim que aquela não deve satisfação a esta. A prática só é outra da teoria se a teoria não descreve adequadamente a realidade, ou se, quando transplantada para a prática, é distorcida para atender a interesses escusos. Ao aluno pedante que pergunta o que faz da vida com o que estuda, respondamos que o primeiro passo para compreender verdadeiramente algum assunto é não condicionar o aprendizado à expectativa de ganho.

*Alexandre de Lima Castro Tranjan é graduando em direito na Universidade de São Paulo (USP).

Referências

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? Tradução de Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. 3ª edição. São Paulo: Editora 34, 2010.

FISHER, Mark. Capitalist Realism: is there no alternative? Reino Unido: Zero Books, 2009.

GIL, Tamara. ‘É uma bomba-relógio’: por que cada vez mais universitários precisam pagar dívidas cada vez maiores após se formar nos EUA. BBC News Mundo, 28 de junho de 2020. Disponível em <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-53145269>.

LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Tradução de Ricardo Corrêa Barbosa. 19ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 2020.

Notas


[i] Muito sintomática, nesse sentido, a elaboração da famigerada “Lista dos Produtivos”, que seguiu como padrão o prestígio internacional, medido em quantidade de citações, dos artigos publicados por cada acadêmico. Tal lista, por mais questionável em princípio e distorcida em método, foi aclamada por seguir o imperativo da transparência para a avaliação da ciência.

[ii] Estes três últimos, talvez não tanto por sua formação, mas sim pela sedução pelo deus dinheiro.

[iii] Em São Paulo, mais especificamente com o ICMS do Estado, no caso das três grandes universidades públicas do Estado (USP, Unicamp e UNESP).

[iv] Trecho da canção Hammer to fall, do Queen, escrita pelo guitarrista e astrofísico Brian May e lançada no álbum The Works. Mais que ilustrar o que quero dizer nesse trecho, a mensagem da letra da música relaciona-se justamente ao contexto da última década de Guerra Fria e da espécie de niilismo que permeou tal momento histórico. De forma a tentar preservar, ainda que parcialmente, o sentido, a métrica e a rima, traduzo o trecho livremente como “por que diabo devemos lutar? Apenas se renda que não vai machucar”.