Fragmentos XXXIII

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Por AIRTON PASCHOA*

Seis peças curtas

Capim santo

À Bomba

Chegamos e não cegamos à Luz… Por fim aprendemos a gozar as coisas mais simples da vida, as mil maravilhas milimétricas da Natureza, a florzinha, a abelhinha, o passarinho, o passinho de quem não vai abrir asa, a brisinha; a gozar as vinte e quatro horas de mais um giro bailístico da strauss Gaia; a gozar mais mil e quatrocentos e quarenta minutos de existência plena, átomo a átimo, e agradecer, mãos e coração ao alto, agradecer, ao cair da noite e de joelhos, agradecer mais oitenta e seis mil e quatrocentos segundos, agradecer fervoroso aos céus inda mudos, agradecer mais um dia – inteiro.

Bisão (ou einsteiniana ou rambodiana)

Que há de lacrar o último humano? Difícil de saber. Mas é bem capaz de bisar o primeiro, encerrando a temporada, tornar a arranhar as paredes, um bisão aqui, meio bisão ali, da memória sumindo mais e mais e barata barata barata subindo e subsumindo a arte pós-histórica.

viva a revolução

viva
dia seguinte
parada da oposição
paro no paredão
inelutavelmente
redondilhamente
engalanado

Figuras de linguagem

O governo é ruim, o ministro é bom.
– Faço minha parte… ministra e administra.
A porta é o toldo?
– Não respondo por tudo.
O toldo é a porta?
– Falo por Ele… declara fático e enfático.
A flauta é mágica?
– Não sou Ele! Não sou eu!
Laringe é cogito? Silepse é lapso? Sinédoque é sina? Tangente é círculo?
– O governo é bom, o ministro é ruim.
As vozes se elevam, o garçom acorda, e a vida prossegue em seu ministério.

Natalina [ready made, 2003, RJ/Brazil]

Pela primeira vez na vida não pode passar o Natal com as crianças, que ficam com o pai, desempregado crônico, lá em Recreio, nas Minas Gerais. Trabalha em casa de família e folga fim de semana sim, fim de semana não. No Ano Bom se Deus quiser… Mas Natalina não queixa, nem tem que queixar. Está empregada, graças a Deus, e antes de dormir, noite após noite, religiosamente, não esquece de agradecer-Lhe, a cara inchada de grata, o milagre.

Papai Noel

Um menino de sete anos, estampa a manchete, pede carne ao Papai Noel… Que estado, Altíssimo, o da educação no país! Ninguém falou pro guri que Papai Noel não existe? Ao mesmo tempo, devia saber o deseducando, questão de lógica primária, fosse de carne o velhinho espeto, já teria virado churrasco pela balda de entrar por lareira. Como quer que seja, provou do leite da bondade humana o esganado. A família recebeu uma nota preta em doações, prossegue a notícia, e matou a gula de comer carne – pelo resto da vida, rezo. Não posso porém deixar de pensar: e se pega a moda de Natal? se vira auto? se toda criança fantasiosa e malcriada bota a boca no mundo e só sai filé, filé? Haja vacum! Não dá pra apostar na educação, ensina o episódio, quer na escola, quer em casa, a qual, em vez de enjeitar in limine os donativos, levando o gastãozinho a saborear a lição de economia acerca dos limites do orçamento doméstico, e por extensão do Orçamento desta grande família que é a União, cujo teto de gastos não pode ser destelhado deste lado, sob pena de cair na nossa cabeça, incluindo a pecha de irresponsáveis fiscais, em mau exemplo às células-mães do organismo social, o que faz, Senhor, o doce lar do pequeno comilão! explora sem vestígio de vergonha a ternura de nosso coração. Por tocar n’Ele, aliás, com todo o respeito, o Altíssimo lá de cima nada tem que ver, pelo contrário, com o estado da educação pátria, baixíssimo. Bem como, repito, o vovô nevado nada tem que ver com bife, seja a cavalo, seja a rena. Pedisse pipa o pedinchão, mais à mão, menos cara, não passávamos tamanho carão. Eduquemos, pois, oro e imploro, eduquemos nossas crianças, futuro do Brasil!

*Airton Paschoa é escritor. Autor, entre outros livros, de Azul vão(e-galáxia). [https://amzn.to/41V7Q2S]


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