Franz Kafka

Imagem: Elyeser Szturm

Por Sérgio Sant’Anna*

Resenha de Narrativas do espólio, livro póstumo do autor tcheco.

Diante de textos tão lapidares, qualitativamente admiráveis e absolutamente singulares que compõem o volume Narrativa do espólio, de Franz Kafka, o resenhista se vê diante de um dilema: o que dizer desses contos que não seja um discurso empobrecedor daqueles outros que deram origem à sua análise? Talvez então se possa ser humilde ate o limite do óbvio: a escrita de Kafka é a única possível para descrever seu universo refratário a interpretações, principalmente as mais elementares como a de alegorista do absurdo, já que, além de valer-se de uma lógica elevada ao paroxismo, o autor tcheco foi infinitamente mais do que o criador de alegorias ou parábolas.

E seria muito impróprio afirmar que sua literatura simboliza algo que não se encontra nela mesma. Por isso será preciso citar fragmentos de suas narrativas algumas vezes nesta resenha.

Como o seu cachorro de “Investigações de uma Cão”, peça incluída no presente livro, Kafka escreveu para, sem nunca chegar a conclusões, literalmente investigar os limites da linguagem e do pensamento humanos. Curiosamente – e ao contrario dos dois outros que compõem como ele a excelentíssima trindade moderna, James Joyce e Marcel Proust – valeu-se, em tal procedimento, de uma simplicidade sintática e semântica e de uma concisão radicais, mas com isso demonstrando que todas as ideias e significados humanos são absolutamente escorregadios, não dá para confiar em nada. Ideia essa que pode ser exemplificada em meia frase do princípio de “Advogado de Defesa” (um mini O processo); “Não era nada certo que eu tivesse um defensor, a esse respeito não podia saber coisa alguma com precisão…”.

De fato, nada se pode saber com precisão nas narrativas de Kafka, nem ele sabia, apenas explorava, para ver onde ia dar, que era simultaneamente em toda parte e parte alguma, embora tantas vezes usasse, a par do humor e paradoxos, um tom categórico para descrever o desamparo, a perdição, o labirinto, como nesse pequeno trecho de “Sobre a Questão das Leis” (outro mini O processo): “ Nossas leis não são universalmente conhecidas, são segredos do pequeno grupo de nobres que nos domina. Estamos convencidos de que essas velhas leis são observadas com exatidão…”.

Não creio estar exagerando ao chamar Kafka de comediante, e é quase desnecessário dizer que a grande comédia, mais sofisticada, tem um tom solene, e por isso mais hilariante. Uma hilaridade contida, que nos vai tomando internamente. E um dos contos mais engraçados desse espólio que o amigo de Kafka, Max Brod, salvou do suicídio literário é “o Casal”, que começa simplesmente assim: “A situação geral dos negócios é tão ruim que, às vezes, quando nos sobra tempo no escritório, pego eu mesmo a pasta de amostras para visitar pessoalmente os clientes”.

E, nessa visita, o personagem-narrador não só tentará vender os seus produtos a um cliente gravemente enfermo em sua casa como o seu discurso comercial se dará no quarto de tal senhor, que chega a morrer, falsamente, e por fim se recolhe ao leito com o filho adulto, também doente. Não fosse uma questão cronológica, alguém mais abusado poderia até dizer que outro grande comediante judeu, Groucho Marx, em algumas de suas falas mais características, apesar de todos os seus excessos, teria sido influenciado por Kafka.

Foi ainda com um particularíssimo senso de humor, e com muita brevidade, que o escritor abordou também os mitos, como Prometeu (que ele acabou por reduzir ao vazio dos rochedos) e Posêidon. Quanto a este, não escapou ao tema da burocracia, tão íntimo de Kafka: “Posêidon estava sentado à sua escrivaninha e fazia contas. A administração de todas as águas dava-lhe um trabalho interminável”.

Entre as peças maiores de volume lá está a digressão superlógica, surreal-expressionista, “Durante a Construção da Muralha da China”, muralha essa que poderá também servir, desconfia-se, como modelo para as fundações de Torre de Babel. “A muralha que não forma nem mesmo um círculo, mas uma espécie de quarto ou metade de um círculo, deveria oferecer os alicerces de uma torre? Isso só poderia ser entendido no sentido espiritual”.

Do mesmo conto podemos tirar outras amostras para uma lógica divergente, singularíssima, parabólica ao avesso. Quase koans, que podem levai à iluminação, mais para Lao Tse do que para Mao Tse: “Tente com todas as forças entender as determinações do comando, mas até um certo limite, depois pare de pensar”; ou; “Nós, os chineses, possuímos certas instituições populares e estatais de uma clareza sem par, e outras, por seu turno, de uma falta de clareza única”.

Entre as 31 histórias do livro, algumas vão integrar o bestiário tão caro de Kafka e, nessa linha, “Investigações de um Cão” talvez seja um dos contos mais perfeitos do autor e um dos seus mais herméticos, a narrativa na primeira pessoa desse cão que procura inutilmente na ciência respostas para suas inquietações. E, sendo um dos textos que menos se podem reduzir a significados, é um dos que mais contêm significados possíveis, todos os significados, aliás, e há algo de desolada e demasiadamente humano, tragicômico, nesse cachorro solene, parente em primeiro grau do macaco que se transforma em ser humano em “Um Relatório para uma Academia”, incluído no livro Um médico rural, também relançado pela Companhia das Letras e com a mesma irretocável tradução de Modesto Carone.

Desconcertante, talvez até em se tratando de Kafka, é o conto “Blumfeld, um Solteirão de Meia-idade”, em que o personagem do titulo, que reflete sobre as vantagens e desvantagens de vir a possuir um cachorro de estimação, vê seu lar invadido por duas persecutórias bolinhas de celuloide, das quais consegue livrar-se com muita dificuldade para ir trabalhar. Evidentemente, apesar de ser um pecado falar em qualquer simbolismo, há ema evidente conexão, afinidade, entre essas bolinhas invasivas e a vida de solteirão de Blumfeld, seu trabalho de burocrata numa fabrica de peças de roupa, infernizado por dois aprendizes. E o conto termina num prefeito anticlímax, como que desfalece.

Mas deverá esta resenha terminar, se não com uma espécie de clímax, com um destaque, uma referencia a um conto, que é um dos episódios da literatura de Kafka em que o aparentemente empedernido autor mais parece baixar a guarda para introduzir algo bem próximo do que se convencionou chamar de sentimentos, emoções. Trata-se de “Um Cruzamento”, história em que o personagem-narrador herdou de seu pai um animal de estimação, metade gatinho, metade cordeiro, que, às vezes, farejando e deslizando entre as pernas do seu dono, “quase se quer, ainda por cima, um cachorro”. E um dia, indo o protagonista mal nos negócios, sentado em casa, na cadeira de balanço, o animal no colo, ao baixar a vista, nota que dos pelos imenso de sua barba gotejam lágrimas. “Eram minhas, eram dele? Será que aquele gato com alma de cordeiro tinha também ambições humanas?”.

Há em, “Um Cruzamento” uma melancolia, uma pungência que pode ser vista como a própria condição da existência da perspectiva de Kafka, e para a qual nem mesmo um ato de misericórdia se torna possível: “Talvez uma solução para esse animal fosse a faca do açougueiro, mas tenho de recusá-la por ser ele uma herança minha. É necessário, pois, que o alento do animal desapareça espontaneamente, por mais que me fite com sensatos olhos humanos que incitam um ato de sensatez”.

Sérgio Sant’Anna (1941-2020), escritor, foi professor da Escola de Comunicações da UFRJ. Autor, entre outros, de 50 contos e três novelas (Companhia das Letras).

Referência

Franz Kafka. Narrativas do Espólio (1914-1924). Tradução: Modesto Carone. Companhia das Letras, 224 pags.

Publicado originalmente no Jornal de Resenhas no. 89, 14/09/2020.