Impasses civilizacionais

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Por ANTÔNIO SALES RIOS NETO*

Com a generalização do mercado, que promete se reinventar no pós-pandemia sob a forma de um capitalismo de hipervigilância, e a crescente ausência do poder moderador do Estado, as instabilidades e regressões, como já parece bem evidenciado hoje, tenderão a se agravar nas próximas décadas

“A conquista do homem sobre a natureza se revela, / no momento de sua consumação, / a conquista da natureza sobre o homem.” (C. S. Lewis)

Parece não haver mais dúvidas quanto ao mal-estar da civilização na atualidade, pelo menos do ponto de vista de considerável parcela da população mundial acometida de problemas de toda espécie: fome e desnutrição, desemprego, doenças crônicas e infecciosas, conflitos armados, desastres ambientais e outras formas de geração de indigências. Só para dar um exemplo desse mal-estar, segundo a FAO (órgão da ONU para alimentação), cerca de seis milhões de crianças menores de cinco anos e mais outros três milhões de pessoas morrem todos os anos em consequência da fome. Portanto, entre aqueles que exercem alguma forma de ativismo socioambiental, já é mais do que consenso a sensação de que vivemos tempos muito incômodos e perigosamente sombrios, sob os mais diversos aspectos da experiência humana: institucional, social, econômica, ética, espiritual e, notadamente, no que diz respeito às mudanças climáticas e às questões de natureza política. Por um lado, conforme já amplamente comprovado pelas ciências da Terra, as mudanças do clima ameaçam seriamente as condições de manutenção da biodiversidade, da qual depende a vida do nosso planeta, o que já está nos colocando em situação de extrema vulnerabilidade, especialmente o enorme contingente de excluídos gerado pela visão econômica de mundo, representada pelo atual sistema capitalista hegemônico de cunho neoliberal. De outro, observamos nas últimas décadas um crescente enfraquecimento dos Estados e uma permanente instabilidade da ordem política mundial.

O momento pelo qual passa a humanidade é de extrema gravidade e, portanto, as possibilidades de profundas regressões, de barbárie e até mesmo de um colapso civilizatório a longo prazo já começam a permear algumas análises sobre conjuntura global. Como bem disse dom Paulo Evaristo Arns, ex-arcebispo emérito de São Paulo, na carta lida por ocasião do seminário que debateu a Rio+20, em junho de 2012, “mais do que uma crise ambiental enfrentamos uma crise civilizatória. Uma crise de valores sem precedentes na nossa civilização. Se exaure a natureza, assim, se exaure o homem, que são partes indissociáveis”. Esse mal-estar também é alimentado pela sensação de ausência de um projeto civilizatório. Há um vazio de ideias e ações que marca os tempos atuais, como bem expressou recentemente o sociólogo francês Alain Touraine, numa entrevista (El País, 28/03/2020) sobre a conjuntura da crise gerada pela pandemia do coronavírus: “hoje, não há nem atores sociais, nem políticos, nem mundiais, nem nacionais, nem de classe. Por isso, o que ocorre é totalmente o contrário de uma guerra, com uma máquina biológica de um lado e, do outro, pessoas e grupos sem ideias, sem direção, sem programa, sem estratégia, sem linguagem. É o silêncio.”

Ao que parece, os entendimentos acerca da origem desse mal-estar civilizacional ainda estão muito dispersos, o que dificulta bastante a busca de consensos e a convergência de propostas e ações, por isso a necessidade mais que urgente de religarmos saberes e reformarmos o pensamento que o sociólogo, antropólogo e filósofo francês Edgar Morin e outros, há tempos, nos alertam. No fundo, essa dissonância cognitiva tem a ver com a nossa dificuldade de aprendizagem com os inúmeros fatos negativos vivenciadas ao longo da história. O filósofo britânico John Gray resumiu bem essa nossa condição: “se existe algo de único no animal humano é que ele tem a capacidade de aumentar seu conhecimento em ritmo acelerado, mas é cronicamente incapaz de aprender com a experiência”.

Há várias perspectivas para se observar esse cenário de crise civilizatória e todas elas, em maior ou menor grau, devem ter sua validade e pertinência para compreender e explicar essa condição do nosso tempo atual. Pretendo neste breve artigo fazer uma abordagem considerando a perspectiva de que estamos vivendo uma mudança de época histórica e, ainda, tomando por base a leitura de mundo das novas ciências da complexidade (teoria do caos, autopoiese, princípio da incerteza, teoria das catástrofes, lógica fuzzy, dentre outras), na qual sempre busco amparo para o que escrevo. Nesse sentido, parece haver três grandes impasses civilizacionais a serem enfrentados pela humanidade nos próximos tempos: visão de mundo, mudanças climáticas e metamorfose, os quais serão tratados aqui partindo do pressuposto de que as ideias centrais que permeiam cada um desses impasses são, respectivamente, o ego, o antropoceno e o acaso.

Na verdade, vejo tais impasses como a grande crise existencial do nosso tempo, os quais estão intimamente implicados e que, portanto, sua solução demandará talvez o maior esforço que a humanidade já enfrentou no curso de sua longa história. A proposta então é refletir acerca desses três grandes impasses civilizacionais e tentar mostrar a interdependência que há entre os mesmos, e, assim, oferecer alguma luz, pelo menos para tentarmos entender e melhor lidar com esse mal-estar que inquieta a humanidade, já que a sua superação ainda parece muito distante.

Visão de mundo e ego

Conforme já venho destacando reiteradamente em outros artigos, o maior entrave ao desenvolvimento sustentável das sociedades, o que dificulta, em última instância, a integração da ação humana à natureza (incluída nesta natureza a própria condição humana), é o modelo mental vigente representado pela cultura patriarcal onde reside a trava do condicionamento que nos impede de mudar nosso modo de perceber e de nos relacionarmos com o mundo. E isso afetou todas as esferas de conhecimento da história da humanidade: científica, religiosa, filosófica, material, dentre outras. O sistema de pensamento que sustenta essa cultura patriarcal é o pensamento linear ou binário (enfoque em fragmentação, controle e previsibilidade) e, mais recentemente, o pensamento sistêmico (enfoque em conjuntos, padrões e totalidades), surgido no início do século XX. Esses dois modelos de pensamento são muito úteis para lidar com a vida mecânica, porém extremamente limitados para lidar com a totalidade da vida humana, como explica o escritor e médico psicoterapeuta Humberto Mariotti. Foi a partir desse sistema de pensamento que chegamos à situação atual, convivendo com diversos problemas de ordem global, sendo as mudanças climáticas, como veremos mais à frente, o mais emblemático.

São esses dois modos de pensamento, sobretudo o sistêmico, largamente usado nos campos da administração e da economia, que sustentam a visão econômica de mundo atualmente hegemônica, que hoje está assentada no neoliberalismo surgido nas últimas quatro décadas. Essa lógica de pensamento é satisfatória ao pragmatismo econômico, entretanto tem se mostrado desastrosa para lidar com a nossa condição humana e a do nosso planeta. Não à toa, a ideia de capitalismo de desastre denunciada nos dias atuais pela jornalista e ativista canadense Naomi Klein vem ganhando bastante atenção. Os exemplos da tragédia são muitos. Os dados do último relatório da Oxfam International, publicado em janeiro deste ano, mostram os extremos e as contradições do modelo econômico neoliberal: “o 1% mais rico do mundo detém mais que o dobro da riqueza de 6,9 bilhões de pessoas”, enquanto, “uma tributação adicional de 0,5% sobre a riqueza do 1% mais rico nos próximos 10 anos equivale aos investimentos necessários para se criar 117 milhões de empregos em educação, saúde e assistência a idosos e outros setores, e eliminar déficits de atendimento”.

Para o sociólogo José de Souza Silva, a atual mudança de época histórica explica, de um lado, a crise de percepção que fragmenta os modos de interpretação da realidade e, de outro, a gênese da vulnerabilidade institucional que fragmenta os modos de intervenção nessa mesma realidade. Há, assim, uma crise de legitimidade das “regras do jogo” do desenvolvimento e “na eterna guerra entre a aparência (técnica) e a essência (visão de mundo), a aparência continua ganhando a maioria das batalhas”. Por isso, pensadores como Morin e outros propõem uma passagem do pensamento linear (e do sistêmico) para o pensamento complexo (enfoque em interações, incerteza e imprevisibilidade) que é bem mais abrangente para lidar com a complexidade da condição humana e da realidade que nos cerca. Para colocar o pensamento complexo em prática, uma das estratégias, por exemplo, é aplicar os chamados operadores cognitivos, desenvolvidos faz um bom tempo por autores de diversas áreas do conhecimento. São eles: circularidade, autoprodução/auto-organização, operador dialógico, operador hologramático, integração sujeito-objeto e ecologia da ação. Por que, então, o pensamento complexo ainda não superou o pensamento linear (e sistêmico) se ele representa o modelo mental mais abrangente e capaz de lidar melhor com a complexidade do mundo natural no qual estamos inseridos? Há inúmeros fatores que dizem respeito a esta questão, porém vou me deter a um aspecto que me parece basilar: a hipervalorização da dimensão egoica da natureza humana que sustenta há milênios a cultura patriarcal.

Para muitos pensadores, aos quais me associo, essa dificuldade de alcançarmos uma visão complexa de mundo reside especialmente na questão do ego, ou melhor, no que ele representa para a cultura patriarcal. Há uma falsa noção de que o ego constitui o centro da psique humana. Por isso, o grande risco de ideias como as difundidas no polêmico livro O gene egoísta (1976), do zoólogo inglês Richard Dawkins, induzirem o senso comum a uma justificação do individualismo e da competição predatória já tão entranhada em nosso modo de viver, o que alimenta e reforça ainda mais o reducionismo dos pensamentos linear e sistêmico que sustentam a visão econômica de mundo. Essa noção acaba passando a ideia de que estamos condenados a viver sob as amarras da cultura de dominação patriarcal, responsável por estabelecer divisões sociais históricas como rei/súdito, senhor/servo, casa grande/senzala, patrão/empregado, chefe/subordinado, mestre/aluno, dentre muitas outras. Essas relações de submissão continuam se perpetuando nos dias atuais com a sociedade da uberização patrocinada pelo Vale do Silício, por meio de sistemas de dominação ainda mais sutis. Inclusive, essa sutilidade foi bem identificada pelo filósofo sul-coreano Byung-Chu Han, quando defende a ideia da transição da “sociedade disciplinar”, a sociedade do sujeito de obediência, para a “sociedade do desempenho” (que não deixa de ser disciplinar), aquela em que o sujeito passou a se ver como o “empresário de si mesmo”, uma nova alienação que o torna senhor e escravo, algoz e vítima ao mesmo tempo. Para Han, essa “sociedade do desempenho” gerou a atual “sociedade do cansaço” que produz as psicopatias (individuais e coletivas) e diversas patologias mentais como depressão, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH), transtorno de personalidade limítrofe (TPL) e a síndrome de Burnout, já bem conhecidas de todos nós. Aliás, um diagnóstico que Nietzsche já fazia na sua época: “por falta de repouso nossa civilização caminha para uma nova barbárie”.

A cultura patriarcal que moldou o funcionamento das sociedades sempre foi sustentada pela ideia de competição, expressão maior da manifestação do ego humano. Como diz o historiador francês Jacques Attali, a longa história do capitalismo, por exemplo, é “um continuum entre mercado, democracia e violência”. Entretanto, as tradições filosóficas orientais e grandes pensadores contracorrente como Blaise Pascal, David Hume, Immanuel Kant, Carl Jung, Gregory Bateson, Joseph Campbell, dentre outros, tinham uma visão diferente da natureza humana e não validavam essa centralidade do ego no comportamento humano. Atualmente, alguns nomes de referência mais ligados às ciências cognitivas como Humberto Maturana, Joachim Bauer, Daniel Dennett, Partrícia Churchland e outros já concluíram que não há um centro egoico de controle da mente humana. Para estes, a mente é um sistema complexo de neurônios e suas conexões (sinapses) que comporta a totalidade de sentidos e comportamentos da natureza humana e, portanto, se tem uma característica que melhor define o processo mental é a cooperação e não a competição alimentada pela dimensão egoica da condição humana. Logo, o sombrio tempo atual nos convoca a um resgate dos atributos daquela antiga cultura matrística de sete mil anos atrás, a qual era caracterizada pela forte integração do homem à natureza. Por isso é importante nunca perder de vista a ideia de Mariotti, ao lembrar dos ensinamentos de La Boétie a respeito do nosso condicionamento à “servidão voluntária”, de que “não estamos definitivamente condenados a viver sob o autoritarismo e a hierarquia do patriarcado. (…) nossa propensão à servidão não é existencial e sim circunstancial (cultural). Se foi possível adquirir um modo de comportamento, é também possível modificá-lo. Isso não significa que conseguiremos fazê-lo, mas que se trata de uma escolha nossa. Cabe-nos decidir se queremos ou não continuar condicionados pelo modelo mental linear”.

Ao que parece, nosso apego ao controle e à dominação talvez seja a mais grave das patologias humanas. Superar nossa identificação com o ego constitui, desse modo, o principal impasse a ser enfrentado pela humanidade para conseguir alcançar uma visão complexa de mundo que lhe permita reintegrar-se consigo e com a natureza. Para quem estiver aberto a rever suas crenças em torno desse condicionamento patriarcal e a se libertar do ego que o aprisiona e o impede de entrar em contato com a complexidade do mundo real e que, no fundo, termina por desumanizar, fica então o alerta, pois, como diz Mariotti, “o ego não tem a inocência necessária para aprender com o fluxo da vida”.

Mudanças climáticas e antropoceno

Os resultados da cultura patriarcal, que é alicerçada no ego humano e, em consequência, na ideia de controle e dominação, estão hoje bem evidenciados nas intervenções que a ação humana já provocou no sistema Terra e que nos conduziu ao que hoje chamamos de a fase planetária do antropoceno. Diante da quantidade de informações já produzidas pelos diversos centros de pesquisa mundo afora, que se debruçam sobre as condições do clima da Terra, as mudanças climáticas já podem ser consideradas um fenômeno parte da normalidade, a despeito do forte ceticismo ainda persistente. À medida em que os anos vão se passando, como as iniciativas para frear as mudanças no clima até agora se mostraram mais retóricas do que efetivas, o fenômeno vai ganhando contornos apocalípticos. Desde 1979, quando o cientista e ambientalista britânico James Lovelock, hoje centenário, formulou, com a ajuda da bióloga americana Lynn Margulis, a hipótese Gaia, de que o planeta se comporta como um organismo vivo, até os dias atuais, parece que os avanços foram muito irrelevantes para mitigar as mudanças climáticas. Por isso, o alerta da ativista Naomi Klein, que vem denunciando o atual “capitalismo de desastre”, de que “o normal é mortal. A ‘normalidade’ é uma imensa crise. Precisamos catalisar uma massiva transformação para uma economia baseada na proteção da vida”.

Nessa mesma linha de pensamento de Klein, no ano passado, o jornalista David Wallace-Wells, editor da New York Magazine, que não se considera um ambientalista, ao publicar o livro A terra inabitável – Uma história do Futuro, parece ter dado um grande choque de realidade para quem ainda pensa que as mudanças climáticas fazem parte dos ciclos naturais da Terra ou que elas serão facilmente administradas por novas tecnologias. Wallace-Wells descreve com grande riqueza de dados científicos doze “elementos do caos” que poderiam muito bem representar hoje as comunalidades (questões de âmbito global sem solução dentro de fronteiras nacionais) do Consenso de Copenhague, cuja última atualização ocorreu em 2012. São eles: calor letal, fome, afogamento, incêndios florestais, desastres não mais naturais, esgotamento da água doce, morte dos oceanos, ar irrespirável, pragas do aquecimento, colapso econômico, conflitos climáticos e “sistemas”. Este último refere-se aos impactos para o ser humano, especialmente quanto à saúde mental, como é o caso dos milhões de refugiados ambientais. As descrições de cada um desses elementos são amparadas em informações científicas ancoradas em 76 páginas do livro, que contém as notas vinculadas às melhores fontes de pesquisa acerca do assunto, produzidas pela ciência na última década.

Não é exagero o alerta de Wallace-Wells de que seu livro contém “horror suficiente para induzir um ataque de pânico até nos de imaginação mais otimista”. Ele vê nas mudanças climáticas uma real “crise existencial”, em que estamos deixando por conta do acaso possibilidades dramaticamente infernais para um futuro bem próximo, cujo “resultado do melhor cenário é morte e sofrimento numa escala de 25 Holocaustos e o resultado do pior cenário nos deixa à beira da extinção”. De fato, já está comprovado pela ciência que há alguns gatilhos de mudança climática, ou pontos de inflexão ativos, que podem a qualquer momento desencadear reações catastróficas impensáveis no clima da Terra.

O sociólogo e doutor em demografia, José Eustáquio Alves, que acompanha sistematicamente as questões ambientais, escreveu recentemente no site EcoDebate uma matéria sobre as ameaças ambientais que temos pela frente, fazendo referência a um grupo de renomados pesquisadores do clima, que havia publicado o artigo “Climate tipping points — too risky to bet against”, na influente revista Nature (27/11/2019). Este artigo mostra as crescentes evidências de que mudanças irreversíveis já estão ocorrendo nos sistemas ambientais da Terra, o que está gerando um “estado de emergência planetária”. Os pontos de inflexão ativos apontados no artigo são: Gelo marinho do Ártico; Manta de gelo da Groenlândia; Florestas boreais; Permafrost; Circulação Meridional do Atlântico; Floresta amazônica; Corais de água quente; Manta de gelo da Antártica Ocidental e partes da Antártica Oriental.

Todos esses gatilhos, se disparados, desencadearão impactos globais. Por exemplo, a velocidade da corrente do golfo, também conhecida por “esteira transportadora”, já foi reduzida em 15% desde quando passou a ser monitorada, na década de 1980. A corrente do golfo integra o sistema chamado Circulação Meridional do Atlântico, principal responsável por regular as temperaturas regionais do planeta e a sua desaceleração, segundo os climatologistas que acompanham o fenômeno, remodelarão os oceanos do planeta a um patamar irreconhecível. Outro ponto de inflexão ativo é o permafrost (terra, gelo e rochas permanentemente congelados) da Região Ártica que aprisiona 1,8 trilhão de toneladas de carbono, que podem escapar de forma descontrolada por conta do derretimento do gelo do Ártico e ser liberados em forma de metano, cujo efeito estufa chega a ser 86 vezes mais prejudicial do que o do dióxido de carbono, considerando sua fuga numa escala de tempo de duas décadas. São inúmeras situações como essas, relatadas no livro de Wallace-Wells, que o faz concluir que “já abandonamos o estado de condições ambientais que permitiu ao animal humano evoluir, numa aposta incerta e imprevista do que esse animal é capaz de suportar”.

O fato é que ao longo da história da humanidade, desde o neolítico, nos primórdios da cultura patriarcal, os processos cíclicos da natureza vêm sendo rompidos lentamente pela forma predominantemente extrativista que as sucessivas civilizações se relacionaram com o sistema vivo Terra. Foi assim que aos poucos inauguramos a atual era geológica do antropoceno, em que os efeitos da atividade humana passaram a modificar a estrutura geológica da Terra. O termo “antropoceno” foi cunhado inicialmente de uma forma despretensiosa pelo biólogo Eugene F. Stoermer e, depois, popularizado e formalizado no meio científico por seu colega, o químico vencedor do Prêmio Nobel, Paul Crutzen. Muitos atribuem o início do antropoceno à época da Revolução Industrial (século XVIII), em que o processo de devastação ambiental acentuou-se demasiadamente, coincidindo com o curto período em que a população mundial saltou de 1 bilhão (1800) para mais de 6 bilhões (2000), e em que a humanidade passou a viver com padrões de comportamento e hábitos de consumo incompatíveis com a capacidade de reposição do nosso planeta.

Hoje, as evidências das mudanças climáticas constatadas pela ciência mostram que chegamos em uma situação quase terminal, em que o maior desafio do século XXI será a construção, ainda em nossa geração, de uma nova relação homem-natureza, de um novo paradigma civilizacional que seja capaz de estabelecer uma relação de respeito e tolerância com Gaia, sob pena de comprometermos as gerações futuras e toda a comunidade de vida na Terra.

Metamorfose e acaso

Diante deste cenário tão adverso e aparentemente insolúvel em que se encontra hoje a humanidade, produzido por uma cultura patriarcal de hegemonia milenar, como poderemos vislumbrar mudanças num horizonte tão próximo, uma vez que já não temos tanto tempo assim para evitar o colapso climático? Esta me parece ser a pergunta-chave do nosso tempo, o impasse dos impasses do ego e do antropoceno. Para respondê-la, recorro aos versos de Hölderlin citados pelo filósofo Martin Heidegger: “Ora, onde mora o perigo / é lá que também cresce / o que salva”. O “salvar” aqui está associado ao resgate da essência humana que foi desvirtuada pela nossa submissão à técnica. Ou seja, tem a ver com aquilo que o pensador austríaco Ivan Illich já dizia: “à medida em que eu domino a ferramenta, eu preencho o mundo com sentido; à medida em que a ferramenta me domina, ela me molda sua estrutura, e me impõe uma ideia de mim mesmo”. Resgatar a essência humana trata-se, assim, de mudar o nosso modo de pensar atualmente dominado pelo modelo linear ou aristotélico, o que não é um projeto dos mais fáceis de realizar, uma vez que implica em mudar crenças, valores e concepções de mundo.

Por isso recorro também às ideias de Edgar Morin, para quem “a desintegração é provável. O improvável, mas possível é a metamorfose”. A metamorfose, a que se refere Morin, é o elemento catalisador da capacidade humana, diante da possibilidade da autodestruição, de mudar seu modo de ver e interagir com o mundo e, desse modo, ressignificar-se diante de uma crise tão profunda, pois, nas atuais condições do nosso planeta, sem uma mudança radical em nosso modo de estar no mundo não teremos futuro. O historiador inglês Eric Hobsbawm já havia intuído esse nosso grande impasse quando, ao mergulhar na história do breve e turbulento século XX, disse que “o futuro não pode ser uma continuação do passado, e há sinais, tanto externamente quanto internamente, de que chegamos a um ponto de crise histórica. As forças geradas pela economia tecnocientífica são agora suficientemente grandes para destruir o meio ambiente, ou seja, as fundações materiais da vida humana. As próprias estruturas das sociedades humanas, incluindo mesmo algumas das fundações sociais da economia capitalista, estão na iminência de ser destruídas pela erosão do que herdamos do passado humano. Nosso mundo corre o risco de explosão e de implosão. Tem de mudar”. Assim, ao que parece as próximas décadas serão marcadas por uma verdadeira metamorfose, com todas as indesejáveis agruras que esse tipo de fenômeno comporta. É a partir dessa perspectiva que as novas ciências da complexidade encontram alguma possibilidade de redenção, muito embora haja um forte e generalizado sentimento de desesperança que não vê mais alternativas à civilização. Como diz Morin, “ainda que, para Fukuyama, sejam as capacidades criativas da evolução humana que se esgotaram com a democracia representativa e a economia liberal, devemos pensar que, ao contrário, é a história que se esgota e não as habilidades criativas da humanidade”.

Se observarmos bem, desde Fukuyama aos dias atuais, tanto a democracia quanto o mercado já passaram e continuam passando por muitas transformações. O curso da História nunca esteve tão mutável e essa dinamicidade sempre foi impulsionada por um grande vetor: a busca da liberdade. Segundo Attali, a História sempre seguiu, de século em século, numa direção única, de modo que nenhum dos inúmeros sobressaltos já ocorridos ao longo da sua trajetória conseguiu desvirtuá-la, pois “a humanidade impõe o primado da liberdade individual sobre qualquer outro valor”. Foi assim que se deu a longa evolução da História, uma permanente resistência às variadas formas de coerção. As estruturas de poder sempre foram questionadas, fazendo nascer novas forças. Foi dessa forma que o poder passou das mãos dos padres e príncipes, que dominavam reinos e impérios, até por volta do século XV, para a classe dos comerciantes que criaram, para os padrões da época, dois mecanismos revolucionários de distribuição de riquezas: o mercado e o Estado, gerando o que hoje conhecemos por democracia de mercado (que entendo mais razoável chamar de democracia para o mercado). Entretanto, esse longo casamento parece dar claros sinais de que está chegando ao fim.

A partir dos anos 1980, iniciou-se uma inflexão que aponta para o declínio do Estado e a supremacia do mercado (este absorvendo aquele – novo totalitarismo), o que provavelmente levará a uma autodestruição do modelo capitalista, cumprindo de cerdo modo aquilo que Marx já intuía ao entender que “a situação mais favorável para o trabalhador é a do crescimento do capital, temos de admiti-lo (…) o comércio livre acelera a revolução”. Com a generalização do mercado, que promete se reinventar no pós-pandemia sob a forma de um capitalismo de hipervigilância, e a crescente ausência do poder moderador do Estado, as instabilidades e regressões, como já parece bem evidenciado hoje, tenderão a se agravar nas próximas décadas e, então, ficaremos por conta da metamorfose que a desintegração de tudo aquilo que está instituído em bases patriarcais enseja. Também ficaremos ao sabor do acaso, que também é um fator inerente às rupturas evolutivas, aquelas imprevisibilidades que sempre acompanharam a História. Assim como para o bioquímico francês Jacques Monod, Nobel de fisiologia em 1965, a evolução adaptativa dos seres vivos decorre da interação entre acaso e necessidade, as mudanças da civilização parecem seguir um curso similar. Para poder dar seus saltos evolutivos, a História depende do acaso e da metamorfose.

É provavelmente nesses termos que a humanidade deverá enfrentar a grande transmutação que se aproxima. O curso da História está repleto de exemplos em que, para o bem ou para o mal, o acaso teve desdobramentos surpreendentes: a ascendência do general Bonaparte em 1799 (Revolução Francesa); o assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo, em junho de 1914 (Primeira Guerra Mundial); a invasão da Rússia por Hitler, em junho de 1941, e o ataque do Japão aos Estados Unidos nesse mesmo ano (Segunda Guerra Mundial); a morte de Yuri Andropov, em 1984, levando Mikhail Gorbachov a assumir a União Soviética (fim do socialismo real); e, nos dias atuais, o transbordamento de um minúsculo vírus de animais silvestres para os humanos. São eventos como esses que aceleram ou desaceleram a História. Resta-nos esperar que os imprevistos que surgirão doravante sejam mais positivos, pelo menos atenuantes das dores da metamorfose para a qual estamos caminhando, tal como foi a inesperada renúncia do Papa Bento XVI e a eleição do Papa Francisco.

O que poderíamos, então, vislumbrar como desdobramento da possível metamorfose que se anuncia no horizonte? Existem algumas “lições universais” da História, identificadas por Attali, que servem de excelentes guias para compreendermos não só os turbulentos dias atuais como para antever o futuro. Uma delas é a de que “quando uma superpotência é atacada por um rival, em geral um terceiro sai vencedor”. Para entender melhor a mudança de época histórica que está em curso, podemos reeditar essa lição do seguinte modo: “quando duas grandes forças estão em conflito, em geral uma terceira vem à tona”. Desse modo, é possível observar a revolução sociocultural que está emergindo desde os anos 1960, em busca de outro mundo possível. Enquanto o atual conflito entre Estado e capital (política patriarcal e mercado) está apontando um cenário cada vez mais beligerante e autodestrutivo, à margem dessa estupidez, começa a surgir uma terceira força global que é aquela integrada por iniciativas supranacionais como a Anistia Internacional, a Convenção da Biodiversidade, o Acordo de Paris, dentre outras, e as milhares de organizações que atuam hoje no chamado terceiro setor da economia (ONGs), que avançam silenciosamente com seus atributos mais próximos de uma visão complexa de mundo: cooperação, inclusão, pluralidade, diálogo, tolerância, cuidado, criatividade, flexibilidade e integração homem-natureza. São esses novos atores que, colocando o ego no seu devido lugar, podem protagonizar, num futuro próximo, a construção de um mundo reconhecível, superando nossos impasses civilizacionais.

Resta-nos crer que a longa noite que teremos pela frente fará o ser humano, ao se deparar com a possibilidade real de sua extinção, olhar para dentro de si e perceber que a ilusão da ordem, do controle e da dominação é, no fundo, um desejo de morte (Thanatos), tanto que estamos em vias de realizá-la globalmente depois que inauguramos o antropoceno. Assim como Attali, que antevê, após a travessia da possível metamorfose que se avizinha, a conquista de uma “hiperdemocracia planetária” nos próximos quarenta anos, também devemos acreditar e agir na busca de uma convergência em direção a uma nova governança planetária, sob a liderança de forças altruístas e universalistas, na construção de uma comunidade global biocentrada (Eros), impulsionada por uma economia relacional e amparada na gratuidade e no bom tempo, como expressão maior das grandes dádivas do universo: a liberdade e a vida. E que assim seja, para podermos seguir amando!

*Antônio Sales Rios Neto é engenheiro civil e consultor organizacional.

Referências

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