Por MARCIA GOBBI*
No laboratório de horrores de Gaza, ainda há espaço para a infância, ou esta foi substituída pela espera constante da morte, transformando-nos de espectadores distantes em cúmplices responsáveis por cada vida negada?
A imagem parecia estática, ou será que eu a percebi assim? Em que momento meu olhar, que às vezes se distrai e passa ligeiro por várias outras imagens, notou aquilo? O que escapava de mim, encontrou lugar de parada no corpo todo, mas podia ter sido apenas mais uma imagem de criança, uma entre tantas que nos assolam a cada momento. Essa não. Era uma lasca de imagem que se fixou, me prendeu, me tomou em pensamentos e me impeliu a buscar e sentir aqueles rastros de um enorme acontecimento dentro de uma cena minúscula. Meu olhar sim, permaneceu estático. Os cheiros, os choros, os sons, os ruídos, os lamentos, as dores, os cinzas, o sol escaldante, os sorrisos, os pés moídos de tanto andar e buscar, as ruínas, o tanto a fazer diante de escombros, a pele afinada como papel de seda que fazia aparecer nitidamente ossos grandes e pequenos nas costas, nos ombros, os sentidos silenciados, o silêncio que a imagem vista me propunha sentir estavam ali, contidos na imagem perdida entre tantas outras. Essa, num tempo ligeiro, fazia sentir-se como se fossem golpes desferidos vagarosamente contra meu corpo. Combinava temporalidades e desejos, alegrias e a expressão da mais profunda dor. A quem pertence essa imagem? A mim que a tomei em meu corpo? Aos sites que divulgam a essa e a tantas outras num mesmo ritmo em que vendem produtos de beleza e corpos bem torneados? Às pessoas que são diariamente fotografadas?
Fico refletindo sobre a possibilidade de captar o imponderável.
“Tu passavas, num relance eu te fiz apercebida. Te aperceber: te ver sem te pegar nas redes da imobilidade. Te ver sem nem mesmo querer te “ter”, sem nem saber o que eu teria visto de ti. Tua imagem, eu não a “possuo” então. Mas ela fica em mim. É mesmo ela que me “possui” doravante. Ela virou como um fóssil em movimento que ritma meus trabalhos e meus dias.” (Didi-Huberman, p. 18, 2018)
Eu não a possuo, mas ela passou a me possuir neste final de mais um dia agitado em que, aleatoriamente, rolava imagens, como se elas pudessem produzir um descanso. Muitas imagens veem e vão de passagem e desaparecem. Essa não é, e não pode ser passageira, embora a história reúna tantas atrocidades, tantas tragédias. A imagem recentemente vista e aqui mencionada representa as dores e as vidas de todas as pessoas que alguns querem que desapareçam do mapa na expressão de uma política do esquecimento em que apagar territórios e suas gentes é prática comum. Afinal, quem se lembra de quem foi morto? Ou, quais pessoas serão lembradas diante do que quer se configurar como ato heroico? Quais monumentos serão erguidos?
Com certo distanciamento temporal, fico me perguntando o que resta de nós diante de uma imagem. Aquela a que me referia trazia panelas vazias, mãos erguidas e, junto delas, muitas e muitas crianças. Dados estatísticos permitiam compreender as mortes e aquelas que se fazem em vida, matando não o corpo, mas os desejos, os sonhos. A fome aparente se fazia ver nos olhos, em sua maioria opacos. Buscavam em mim alguma reverberação e me tornei cúmplice. E também responsável.
Questiono sobre as demais imagens não publicadas, aquelas em que a fome e as agruras impetradas não estão representadas. O que pode haver nelas – ou em sua ausência – que revela de forma ainda mais cruel a presença de tantas agruras? O que há por trás das mãos levantadas, das panelas vazias, na imposição do cinza num dia ensolarado?
Refiro-me, como já podemos supor, às recentes imagens e textos-imagens que levam a público uma pequena parte do que se passa com pessoas adultas e crianças em Gaza. Aquelas, cuja divulgação, não é tão constante como deveria. Serem esparsas, neste caso, pode nos levar ao esquecimento, naturalização justificada pela distância geográfica, pelo fato de termos, a cada dia, mais um desafio, mais uma guerra, mais uma fome, mais um fim de um mundo que se mostra imprestável tal como está na exacerbação de suas agruras. Não apresento imagens, mas considero que a partir de alguns dos detalhes vistos por mim e que ficaram inscritos de maneira marcante em todo meu corpo, seja possível produzir algum pensamento e, quem sabe, futuras outras reflexões. Elas são cada vez mais urgentes, não como meros detalhes, mas como expressão de um sentido profundo desse período histórico em que vivemos e que é produzido por nós.
Nada entendo sobre guerras. Não possuo aprofundamento teórico nessa temática, e isso me deixa constrangida diante da pretensão de escrever um texto que, entre outras questões, se paute nelas e num tema que não investigo. Mas, reconheço a urgência de refletir, ainda que de modo inicial para puxar outros pensamentos. Espero conseguir expressar um posicionamento sobre o indigesto, intragável e detestável que nos toma o corpo todo, provocando desconforto e indignação. Até mesmo para questionar o uso do termo “guerra”, que me parece equivocado. Há uma expulsão e manifestação da política que sustenta outros propósitos distantes da emancipação humana. Questiono o termo, pois me parece que para guerrear é preciso que os dois lados tenham condições semelhantes e, neste caso, a desvantagem é absoluta. Indignar-se é, talvez, uma manifestação de vida.
Diante do que tenho visto em imagens, não tenho respostas definitivas, mas compreendo e sinto o suficiente para escrever e propor um exercício reflexivo que nos permita pensar sobre a produção de um laboratório contemporâneo num regime de brutalização que evidencia nossa percepção de que o humano não tem limite. Age e pensa sem freios para a brutalização, como escreveu Achille Mbembe (2025). Nesse laboratório, que também define nossa permanência na Terra, delimito como recorte específico, as condições de vida e morte das crianças em Gaza, que expressam, de modo exacerbado, exercícios de poder, de práticas colonialistas, inclusive nos fazendo pensar se são crianças – com suas histórias e conquistas universais de direitos – ou apenas mais um objeto em meio a disputas. Com essa preocupação me aproximo das reflexões de Berenice Bento (2025) em que a autora busca identificar similaridades entre as atrocidades cometidas contra a infância ao longo da história e identificar nelas alguma unidade. São muitas envolvendo crianças. Poderíamos nominar algumas delas, e outras, parecem sequer ter nomes, e se esvaem como poeira. Nada entendo de guerras, mas as crianças que a vivem diariamente – quando é possível chegar viva ao fim do dia – elas entendem e a experienciam no corpo todo.
Elas também são crianças!
As crianças, compreendidas para além de seu aspecto biológico, configuram-se como uma categoria social construída nas relações entre crianças, adultos e o mundo que as circunda. A partir dessa perspectiva, emerge a questão: de que modo estão sendo forjadas as infâncias das crianças em Gaza?
Limito-me aqui a esboçar alguns apontamentos sobre esse verdadeiro laboratório de produção de infâncias negadas, em que a morte, não é apenas um desfecho inevitável, mas uma espera constante. E para as crianças o que significa viver sob a expectativa diária da morte? Suas opiniões interessam a poucos. Ficam subsumidas na gana pelo território e o que pode gerar de capital. Nascemos com a certeza da finitude, mas ela tem se apresentado de forma violenta, antecipada e tem cruzado as vidas produzindo outro jeito de infância e a urgência de debatermos, não apenas sobre seus direitos, como também refletirmos e buscarmos alternativas à certa naturalização de que alguns corpos são determinados a não gozar plenamente dos direitos conquistados. É importante tensionar as próprias definições de vida e morte no âmbito dos estudos da infância.
Não podemos esquecer das crianças que, aos milhares, encontram-se mutiladas ou mortas. O direito ao brincar – tão propalado e investigado, sobretudo na pedagogia, mas também em outras áreas –, torna-se um luxo inalcançável. O ato concreto da brincadeira surge de modo improvisado em meio a escombros. Quantas histórias de infâncias não estão sendo produzidas em ruínas? O sentido desse tempo parece não mais nos perturbar, e talvez nisso encontremos um grande risco: o da incorporação dos escombros como paisagem fixa e da brincadeira inventada como mera prática de resistência, sem refletirmos sobre a ausência da efetiva materialização dos direitos. Faz-se necessário enfrentar o desafio de reconhecer que, para que alguns sobrevivam, outros são sistematicamente apagados — desde os primeiros momentos da vida, desde bebês e isso ocorre à olhos vistos em Gaza, para nos concentrarmos nesse laboratório cotidiano de práticas avassaladoras.
Tudo continua, e eu escrevo
Esse texto, em tom de desabafo, é apenas o registro desse período e de pensamentos livres. Tempo em que, entre tantos outros, as crianças estão sendo mutiladas cotidianamente num curto espaço de tempo, numa pequena faixa, num mundo de mutilações e cicatrizes. Eu poderia afirmar que elas resistem e inventam formas de subverter a uma lógica colonial impetrada pelo estado de Israel. Mas, essa infância diz respeito a todos e todas nós, não apenas afeitos e afeitas a investigar as infâncias e suas produções. Urge pensar sobre qual o sentido da produção de uma infância despejada, expulsa, fatigada, faminta, cujos direitos não são concretizados e cujas vidas são nossas desconhecidas. Chego a pensar se há infância… Elas expressam, desde os contidos choros de bebês, a produção bem-sucedida da morte e da criação de outras formas de se viver num mundo limpo dessas gentes e de todos os que são indesejáveis. Essas crianças, parecem não nos dizer respeito, afinal, agruras as temos espalhadas no cotidiano em suas distintas formas e as crianças são apenas mais um entre os grupos perseguidos, literalmente, até a morte.
Enquanto finalizo a escrita desse texto, volto a rolar as informações desde meu celular. Avisto movimentos que se fazem presentes em distintas manifestações. Ocupam os mares, praças e ruas e isso é animador. Sentadas na areia da praia crianças portam cadernos de desenhos e aguardam a chegada da Global Sumud Flotilla. Risos e ansiedade permeiam e cultivam traços e linhas feitos sobre folhas de papel amassadas que também nos dizem sobre as condições de vida. Em meio aos escombros, elas desenham a lápis um outro tempo. É, é preciso sair das telas.
Nada entendo sobre guerras, mas não sou cumplice.
*Marcia Gobbi é professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.
Referências
BENTO, Berenice. A Infância é um luxo. UFRJ: Desidades: Revista Científica da Infância, Adolescência e Juventude, 2025.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens Ocasiões. São Paulo: Editorial Fotô, 2018.
MBEMBE, Achille. Democracia como comunidade de vida. São Paulo: MiTsp e N-1, 2025.
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