A defenestração de Volodymyr Zelensky?

Imagem: Nextvoyage
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Por ALEX KRAINER*

O governo ucraniano parece ter perdido o apoio de alguns de seus mais fiéis aliados

Em 16 de maio, publiquei um artigo intitulado “A Metrópole não pode aguentar”, sobre os eventos em torno da Ucrânia, incluindo meu encontro pessoal com um amigo muito próximo de um dos protagonistas dos eventos, um oficial ocidental de alto nível que trabalha para o lado ucraniano. Mencionei que essa pessoa, tal como o chanceler alemão Olaf Scholz e algumas outras autoridades europeias e da OTAN (incluindo, eventualmente, a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni) não estão parecendo muito convincentes nas suas declarações de apoio eterno à Ucrânia.

Essa impressão seria um tanto difícil de articular, mas é possível ao menos contrastá-la com as impressões que transmitem gente como o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, a ministra das Relações Exteriores da Alemanha, Analena Baerbock, ou o ministro da Economia desse último país, Robert Habeck. Estes, sim, são convincentes. Do mesmo modo que a presidente da Comissão da União Europeia, Ursula Von der Leyen, e seu chefe de jardinagem – ops! diplomacia – Josep Borrell.

A conspiração silenciosa é real

Talvez possamos caracterizar o primeiro grupo (dos não convincentes) como o dos oportunistas. São, no entanto, indivíduos razoavelmente inteligentes, com inclinações aparentemente pragmáticas e um tanto construtivas. O outro grupo, por outro lado, é o dos fanáticos cegos e ideológicos, que parecem incapazes de corrigir o rumo, pouco importando as consequências ou os custos. No fim das contas, concluí minha matéria dizendo que: “acredito que em um futuro próximo poderemos ver uma mudança abrupta na Ucrânia, talvez um golpe contra o regime de Volodymyr Zelensky e uma capitulação das suas forças armadas”.

Quase como que avalizando a velocidade surreal com que os eventos têm se desenrolado, essa conclusão acabou corroborada menos de 24 horas depois: de acordo com o veterano jornalista Seymour Hersh, um grupo de países europeus, liderados pela Polônia, e incluindo Hungria, Lituânia, Estônia, Tchecoslováquia e Letônia, estão exortando secretamente Volodymyr Zelensky a encerrar a guerra, até mesmo ao preço de sua renúncia. Em outras palavras, o governo de Zelensky teria perdido o apoio de alguns de seus mais fiéis aliados.

A China entrando

O presidente Volodymyr Zelensky, que agora está aparentemente muito preocupado com seu futuro e sua segurança física, pode ser receptivo a essas mensagens e pode concordar em renunciar, se receber garantias de segurança confiáveis. Enquanto isso, a China já nomeou seu enviado de paz para a Ucrânia, que certamente vai surgir com acordos que a Ucrânia “não poderá recusar”. O círculo das pessoas que continuarão inteiramente comprometidas com o projeto ocidental de “destruir a Rússia” a partir da Ucrânia parece estar diminuindo dramaticamente.

Nunca é demais lembrar que, já em janeiro deste ano, as lutas intestinas nos círculos governamentais ucranianos resultaram na queda de um helicóptero, que matou vários altos funcionários da segurança e do Ministério do Interior. Desde então, várias autoridades de primeira linha do governo foram substituídas, mas Volodymyr Zelensky ainda está claramente preocupado com a presença de traidores em suas próprias fileiras. Agora, a agenda do Império na Ucrânia dá sinais óbvios de fracasso, e todos os oportunistas razoavelmente competentes estão prontos para abandonar o barco, entregando o campo aos ideólogos e fanáticos cegos. Não é um bom grupo no qual apostar.

Impacto econômico e financeiro para a ordem baseada em regras

Novamente, uma das questões relevantes nessa história toda é: como isso afetará a “ordem global baseada em regras”? O golpe mais duro pode ser econômico, e se manifestará primeiro nos mercados financeiros. Os bancos centrais britânicos e europeus terão que intensificar a flexibilização quantitativa (novilíngua para se referir à impressão de dinheiro a partir do nada). O Fed vai ter que acompanhar, mas provavelmente o fará depois de um longo atraso. O resultado pode ser um colapso ainda maior dos mercados de títulos e um aumento nas taxas de juros, reacendendo as tendências de alta nos mercados de ações europeus e nos mercados globais de commodities, provavelmente liderados pelo mercado de energia, seguido pelo de metais industriais e commodities agrícolas. Leia-se: recessão econômica com inflação ou estagflação.

Em 2021, fiz uma previsão semelhante sobre os títulos britânicos, em artigo de 27 de outubro de 2021, “A queda da Grã-Bretanha global: uma hipótese de investimento”. Previ que a libra e o Gilt (título do tesouro britânico) entrariam em colapso e que o FTSE (índice da bolsa de valores de Londres) provavelmente subiria. Eis aqui o que aconteceu nos doze meses seguintes:

O Gilt caiu até 27% durante esse período; e a libra, cerca de 22% (no ponto mais baixo) do seu valor. O FTSE não subiu muito, mas claramente contrariou a tendência e continuou subindo, atingindo o novo recorde histórico no mês passado (abril de 2023).

Esses desdobramentos corroboram claramente a ideia de que estamos assistindo ao desmoronamento monetário de um império em declínio: suas obrigações financeiras e moedas vão progressivamente perdendo valor e os investidores não têm outra escolha senão comprar ativos reais, elevando os preços das ações. Devemos esperar mais do mesmo em todo o mundo ocidental. A defenestração de Volodymyr Zelensky, seja por renúncia ou por golpe, provavelmente será um catalisador do processo.

Não é complicado, mas vai ficar irregular

A síndrome não é complicada de entender, mas não é necessariamente fácil de navegar: os mercados não começam a se mover no dia em que tomamos conhecimento de algum fato novo. Em vez disso, eles começam a se mover em algum momento quando a massa crítica de participantes começa a tomar iniciativas. A transição será invisível para os analistas de fundamentos, mas se tornará perceptível nas trajetórias de preço dos títulos relevantes. É por isso que acredito fortemente que a maneira mais confiável de navegar pelas mudanças será por meio do acompanhamento sistemático de tendências.

Por diversas vezes chamei a atenção para a ideia (na realidade, um fato empírico) de que a melhor maneira de proteger seu patrimônio das consequências inflacionárias ou estagflacionárias é pela exposição a futuros de commodities. Uma abordagem abrangente deveria, então, incluir a tentativa de adquirir algumas terras agrícolas (se possível), algumas barras de ouro e prata e usar os ativos líquidos disponíveis para adquirir uma exposição significativa aos futuros de commodities. Além disso, creio que o dinheiro líquido pode se tornar um problema.

Dizendo de modo mais explícito, na semana passada encontrei dois indivíduos que me contaram a mesma história: eles tinham contas bancárias em bancos alemães e, sem qualquer aviso, suas contas foram congeladas. Nenhuma razão foi dada e nenhum lenitivo parece disponível. Eles não conseguem sequer entrar em contato com alguém dos bancos.

Eu tive uma experiência diferente, mas similar. Depois de tentar retirar algum dinheiro de um caixa eletrônico, a máquina engoliu o meu cartão e não me deu o dinheiro solicitado. No entanto, minha conta foi debitada no valor da retirada. O processo de recuperação do dinheiro já se mostrou muito difícil e frustrante. O suporte bancário ao cliente é todo gentileza e educação, mas o prazo prometido, de 15 dias, para sanar o problema veio, passou, e o dinheiro não foi reembolsado.

Agora só resta o imponderável: dessa vez o tempo estimado para resolver o problema é de 50 dias, mas pode demorar mais… Há apenas 18 meses, a Amazon cancelou a minha conta e apropriou-se de algo entre 4.000 e 6.000 euros de direitos autorais que me deviam. Claro, se eu pudesse gastar meio milhão de dólares em honorários advocatícios e perseguir esses royalties pelos próximos 10 anos ou mais, provavelmente conseguiria recuperar tudo isso, mas o sistema é claramente contra a pessoa comum e marcado pelo abuso.

Para encurtar a história: evite manter grandes saldos em bancos multinacionais e outras empresas que estejam fora do alcance das autoridades locais ou então que sejam muito onerosas para usar. Esses equipamentos atraem uma clientela muito grande, com serviços aparentemente competitivos e convenientes, mas uma vez que suas redes de pesca estejam cheias, elas estarão em posição de abusar da confiança de seus clientes. E provavelmente o farão.

*Alex Krainer é analista financeiro e geopolítico. Autor, entre outros livros, de Mastering Uncertainty in Commodities Trading.

Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel.

Publicado originalmente em Alex Krainer’s TrendCompass/ Substack.


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