As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Insistindo na “paz”

Imagem: Julia Antipina
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por FLÁVIO AGUIAR

O Brasil busca restaurar a credibilidade e o prestígio de que sua diplomacia quase sempre desfrutou desde a segunda metade do século XIX

Imaginemos uma equação matemática assim disposta: (Ucrânia + EUA, OTAN e aliados) contra Rússia / China e Brasil. O resultado seria ainda uma incógnita. O fato é que ninguém sabe como esta guerra vai terminar, nem quando. O secretário-geral da ONU António Guterres sentenciou: a paz está longe, porque ambos os lados do conflito ainda “estão convencidos de que vão vencer”.

Diante desta expectativa, a insistência com que o governo brasileiro insiste em falar em paz pode parecer uma retórica vazia, embora acompanhado pela China. Mas não é bem assim. Em matéria de geopolítica e diplomacia as coisas são mais complexas.

A posição brasileira de não enviar armas para Kiev pode suscitar críticas por parte dos Estados Unidos e seus aliados europeus. Mas estas críticas, curiosamente, são mais veementes entre os governados do que entre os governantes. O fato é que por onde passem o presidente Lula e seu assessor especial Celso Amorim são recebidos de braços abertos, com ou sem críticas, de Washington a Moscou, de Buenos Aires a Pequim.

Exemplos recentes, além da visita de Celso Amorim a Moscou e Kiev: o presidente Lula foi oficialmente convidado pelo primeiro-ministro japonês para a próxima reunião do G7 em Hiroshima, de 19 a 21 de maio; o primeiro-ministro holandês disse que quer explicar ao presidente Lula a posição dos países europeus que apoiam Kiev, mas, ao mesmo tempo, declarou que quer conversar com ele sobre “muitos outros assuntos”.

Pragmatismo político

Depois da longa hibernação provocada pela política externa confusa e obtusa do governo anterior, agora todos querem conversar com o atual governo brasileiro. Para colocar a questão em termos muito pragmáticos, muito ao gosto das finanças internacionais: um mercado de quase 220 milhões de habitantes não pode ficar na berlinda.

Alguns comentaristas na mídia costumam cair na armadilha de considerar a posição brasileira sobre a guerra isoladamente, sem levar em conta o conjunto da sua política externa. O termo que a melhor define apareceu em artigo recente da revista norte-americana Foreign Affairs: “restauração” (edição de 23/03/2023, assinatura de Husseis Kalut, da Universidade de Harvard, e de Feliciano Guimarães, da Universidade de São Paulo).

O governo brasileiro busca restaurar a posição de liderança que já teve em relação aos países do chamado “Sul” do mundo, e por isso mantém uma política de equidistância em relação às atuais potências geopolíticas e seus aliados mais próximos. Busca restaurar a credibilidade e o prestígio de que sua diplomacia quase sempre desfrutou desde a segunda metade do século XIX, onde os alinhamentos automáticos foram a exceção, nunca a regra. O Brasil não é um país mundialmente relevante do ponto de vista militar.

A política externa brasileira sempre se pautou pelo chamado “soft power” e pelo multilateralismo, e no século XXI pela liderança na questão ambiental, que foi rompida pelo governo anterior. O governo brasileiro quer demonstrar que pode dialogar com todo mundo o tempo todo.

Na Europa, o governo brasileiro dialoga com Emmanuel Macron em Paris e com Charles III e Rishi Sunak em Londres; com Olaf Scholz em Berlim, com Pedro Sánchez em Madri, António Costa em Lisboa, e com Joe Biden, Vladimir Putin, Volodymyr Zelensky, Xi Jinping e outros mais.

Quanto à insistência na palavra “paz”, bem, pode-se esperar de tudo no atual estado da arte da geopolítica, menos resultados imediatos. Decididamente o mundo – inclusive a Europa – passa por um momento de rearmamento geral, intensificado pela guerra na Ucrânia. Em tal circunstância, é melhor acreditar no ditado tão brasileiro: “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”.

*Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo).


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Milton Pinheiro Eugênio Trivinho Samuel Kilsztajn Yuri Martins-Fontes Thomas Piketty Marcos Aurélio da Silva Luiz Costa Lima Boaventura de Sousa Santos Atilio A. Boron Annateresa Fabris Armando Boito Andrew Korybko Eliziário Andrade Michael Löwy Henry Burnett Ronald León Núñez Henri Acselrad Ari Marcelo Solon Otaviano Helene Benicio Viero Schmidt Paulo Sérgio Pinheiro Juarez Guimarães Priscila Figueiredo João Carlos Salles Marjorie C. Marona João Adolfo Hansen Tarso Genro Luiz Roberto Alves Afrânio Catani Celso Frederico André Márcio Neves Soares Mário Maestri Luiz Bernardo Pericás Dênis de Moraes Eugênio Bucci Sandra Bitencourt Everaldo de Oliveira Andrade Rodrigo de Faria João Carlos Loebens Luiz Carlos Bresser-Pereira Lincoln Secco Érico Andrade Paulo Martins Julian Rodrigues Renato Dagnino Ricardo Abramovay Jorge Luiz Souto Maior Gilberto Maringoni Leonardo Sacramento João Sette Whitaker Ferreira Salem Nasser Chico Alencar Marilena Chauí Rubens Pinto Lyra Fábio Konder Comparato Mariarosaria Fabris Paulo Capel Narvai Lucas Fiaschetti Estevez Marcelo Guimarães Lima Luiz Renato Martins Ladislau Dowbor Denilson Cordeiro Alexandre de Lima Castro Tranjan Vladimir Safatle Roberto Noritomi Carla Teixeira Daniel Afonso da Silva Alexandre de Freitas Barbosa Manchetômetro João Paulo Ayub Fonseca Luiz Eduardo Soares André Singer Marcelo Módolo Lorenzo Vitral Liszt Vieira Antonio Martins José Machado Moita Neto José Costa Júnior Luciano Nascimento Bruno Fabricio Alcebino da Silva Maria Rita Kehl Tadeu Valadares Airton Paschoa Jorge Branco Marilia Pacheco Fiorillo Vinício Carrilho Martinez Claudio Katz Chico Whitaker Luís Fernando Vitagliano Anderson Alves Esteves José Dirceu Marcos Silva Fernando Nogueira da Costa Plínio de Arruda Sampaio Jr. Paulo Fernandes Silveira Bernardo Ricupero Alysson Leandro Mascaro Daniel Costa Alexandre Aragão de Albuquerque Marcus Ianoni Walnice Nogueira Galvão Luiz Marques Antonino Infranca José Raimundo Trindade Rafael R. Ioris José Luís Fiori Eduardo Borges Daniel Brazil Eleonora Albano Caio Bugiato Paulo Nogueira Batista Jr Heraldo Campos Ricardo Antunes Ronaldo Tadeu de Souza Slavoj Žižek Luis Felipe Miguel Igor Felippe Santos Osvaldo Coggiola Ricardo Fabbrini Valério Arcary Anselm Jappe Fernão Pessoa Ramos José Micaelson Lacerda Morais Antônio Sales Rios Neto Remy José Fontana João Feres Júnior Celso Favaretto Sergio Amadeu da Silveira Berenice Bento Leda Maria Paulani Tales Ab'Sáber Carlos Tautz Ricardo Musse Francisco de Oliveira Barros Júnior Gilberto Lopes Leonardo Boff Eleutério F. S. Prado Dennis Oliveira Roberto Bueno Jean Pierre Chauvin Michael Roberts Luiz Werneck Vianna Gerson Almeida Elias Jabbour João Lanari Bo Manuel Domingos Neto Bruno Machado Francisco Fernandes Ladeira Gabriel Cohn José Geraldo Couto Vanderlei Tenório Leonardo Avritzer Valerio Arcary Bento Prado Jr. Francisco Pereira de Farias Kátia Gerab Baggio Jean Marc Von Der Weid Flávio R. Kothe Flávio Aguiar Ronald Rocha

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada