Colonizar o século XXI

Imagem: RobinMcPherson
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por JUAREZ GUIMARÃES*

Como resposta regressiva à crise da hegemonia norte-americana, o neoliberalismo criou uma nova linguagem para legitimar o colonialismo no século XXI

O período do pós-guerra costuma ser identificado historicamente como uma época da descolonização: as lutas de libertação nacional na Ásia, na África, os nacionais-desenvolvimentismos na América do Sul. Era o tempo do pan-africanismo, do pan-arabismo, do movimento terceiro-mundista, o apogeu da Cepal como construção dos caminhos próprios do desenvolvimento na América Latina. Uma consciência histórica dos crimes coloniais emergiu como um paradigma incontornável de civilização.

Como se recriou, então, em pleno século XXI a legitimação de novos colonialismos, abafando e neutralizando aquela consciência do direito à auto-determinação dos povos?

Já no início dos anos cinquenta, os intelectuais formadores do neoliberalismo identificaram neste movimento de auto-determinação dos povos, com o empoderamento dos Estados nacionais e a noção de planejamento para a superação do subdesenvolvimento, um inimigo siamês dos socialismos e do keynesianismo. Tratava-se de entender à luta pela supremacia do Ocidente, agora identificado com a liderança do Estado norte-americano, como parte da luta contra a ameaça totalitária, ampliando e aprofundando a dinâmica da “guerra fria”.

Dialogando criticamente com John Toye (A contrarrevolução na economia do desenvolvimento), Dieter Plehwe em “As origens do discurso neoliberal na economia do desenvolvimento” identifica já no início dos anos cinquenta as primeiras agendas e obras neoliberais sobre o tema do desenvolvimento para os países saídos de experiências de domínio colonial, os anos sessenta e setenta como disputa de paradigmas e os anos oitenta do século passado já com um discurso neoliberal dominante nas agências internacionais de desenvolvimento e no mainstrean econômico.

Peter Bauer, elogiado e condecorado por Thatcher e parceiro de Friedrich Hayek na Sociedade Mont-Pèlerin,, se tornaria um autor referencial neoliberal nesta área com o seu The Economics of Under-developed countries (Cambridge, 1957).

 

Seis argumentos

A primeira linha de argumentação foi exatamente a de investir em uma revisão histórica do colonialismo, oferecendo uma alternativa à “consciência culpada” da experiência imperialista: ao contrário do discurso crítico à experiência colonial, os povos colonizados teriam se beneficiado do contato civilizatório com os países capitalistas avançados. Os povos mais atrasados do mundo seriam aqueles que não teriam se beneficiado deste contato. Hong Kong e Nova Zelândia seriam exemplos virtuosos deste contato com o progressivismo destas civilizações. A própria escravidão teria origem em práticas já estabelecidas entre os povos africanos.

O ordoliberal Alexander Rustow, em polêmica com o clássico John Hobson de Imperialismo (1902), propôs separar capitalismo de imperialismo, indicando este último à prática de Estados centralizados e de poder político expansionista.

O segundo argumento foi a crítica ao ponto 4 do famoso discurso do presidente Truman de 1949, no qual este defendia a ajuda econômica aos países subdesenvolvidos em prol de sua dinâmica de modernização, em alternativa a caminhos nacionalistas e revolucionários. Os neoliberais argumentariam cerradamente que toda ajuda financeira seria inútil, devido às elites corruptas que dirigiriam os Estados destes países e frente aos impasses estruturais a um desenvolvimento similar aos dos países capitalistas centrais. Rustow mais cinicamente, argumentaria que uma lógica de segurança do Ocidente deveria prevalecer sobre o princípio de auto-determinação e idealismos.

Na prática, o que se procurou neutralizar foi o direito de reparação histórico destes povos submetidos à colonização.

Estabeleceu-se, em terceiro lugar, uma polêmica contra as obras referenciais de Gunnar Myrdal (Economic Theory and Underveloped Regions, 1957) e de Raul Prebisch, fundador da Cepal, autor da teoria da troca desigual, a quem Celso Furtado chamava de mestre. O que se arguiu foi que a base de dados usada por Raul Prebisch era insuficiente para provar as tendências desfavoráveis historicamente aos países subdesenvolvidos na importação de produtos industrializados dos países capitalistas centrais e na exportação dos produtos primários para eles.

A tradição nacional-desenvolvimentista, hegemônica no Brasil nos anos cinquenta até 1964, seria levada nas décadas seguintes à condição de uma teoria econômica heterodoxa sobre o desenvolvimento.

O quarto campo de argumentação neoliberal foi no sentido de atacar o “mito” da industrialização periférica, no sentido de confirmar o destino agrarista destes países. A ausência de capitais internos acumulados devido à baixa propensão a poupar vigente nestes países, a ausência de um mercado de capitais configurado e sistemas bancários inadequados seriam bloqueios estruturais a um processo autônomo de industrialização. Neste sentido, autores neoliberais chegaram a levantar dúvidas sobre a economicidade e o retorno de campanhas amplas de educação pública ou de alfabetização.

Tratava-se aqui, em suma de cristalizar a divisão internacional de trabalho herdada do século XIX, obstaculizando políticas e planejamentos sistêmicos voltados à industrialização, mantendo estes mercados cativos e não competitivos.

Um quinto campo neoliberal foi o de propor o caminho da integração e do comércio internacional como futuro para os países subdesenvolvidos. As suas dinâmicas de modernização passariam a ser estritamente dependentes da aposta unilateral na integração econômica, via o acesso ao comércio internacional.

Não deixa de ser impressionante como todas estas linhas argumentativas foram como que uma base de fundamentos para as grandes opções econômicas neoliberais no Brasil, de FHC até hoje.

Por fim, uma sexta linha de argumentação dirigia-se contra a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e seus esforços de universalizar os direitos trabalhistas e a própria noção de trabalho digno. A crítica à regulação dos salários, feita por Eugenio Gudin, ia no sentido de que essa regulação levaria à destruição da mais importante vantagem comparativa destes países subdesenvolvidos, exatamente o custo menor da mão-de-obra.

 

Seleção competitiva das civilizações

Críticos do neoliberalismo a partir do chamado Sul Global tem questionado com razão as teorias do neoliberalismo que não colocam no centro a sua dimensão imperial. Nesta série, procurou-se integrar esta crítica ao definir o neoliberalismo com o uma resposta regressiva à crise da hegemonia norte-americana, isto é, um programa imperial de poder baseado na força e na extorsão.

Mas como esta dimensão colonialista se integra à obra de Hayek que, como vimos, parece ser uma espécie de síntese argumentativa desta tradição?

Esta relegitimação do colonialismo ou, para dizer como Aníbal Quijano, da “colonialidade do poder”, se integra à teoria geral hayekiana em sua noção de que a história procede a partir de uma seleção competitiva das civilizações. Assim, o Ocidente capitalista seria vencedor e caberia aos vencidos apenas a culpa pelo seu atraso histórico.

O americanismo, este traço forte da cultura neoliberal, seria assim mais do que a própria expressão da língua, a própria gramática de articulação do neoliberalismo.

*Juarez Guimarães é professor de ciência política na UFMG. Autor, entre outros livros, de Democracia e marxismo: Crítica à razão liberal (Xamã).

Para acessar o primeiro artigo da série clique em https://aterraeredonda.com.br/por-uma-teoria-critica-do-neoliberalismo/

Para acessar o segundo artigo da série clique em https://aterraeredonda.com.br/por-um-dicionario-critico-ao-neoliberalismo/

Para acessar o terceiro artigo da série clique em https://aterraeredonda.com.br/neoliberalismo-como-jaula-de-ferro/

Para acessar o quarto artigo da série clique em https://aterraeredonda.com.br/neoliberalismo-e-regressao/

Para acessar o quinto artigo da série clique em https://aterraeredonda.com.br/a-razao-da-desigualdade/

Para acessar o sexto artigo da série clique em https://aterraeredonda.com.br/da-batalha-das-ideias-ao-poder-global/

Para acessar o sétimo artigo da série clique em https://aterraeredonda.com.br/financeirizacao-dos-estados/

Para acessar o oitavo artigo da série clique em https://aterraeredonda.com.br/morte-ao-trabalho/

 

⇒O site A Terra é redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores. Ajude-nos a manter esta ideia.⇐
Clique aqui e veja como.

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Gabriel Cohn Denilson Cordeiro Everaldo de Oliveira Andrade Marcelo Módolo Manuel Domingos Neto Boaventura de Sousa Santos Daniel Brazil Bernardo Ricupero Michael Löwy Francisco Fernandes Ladeira Vanderlei Tenório Lincoln Secco José Micaelson Lacerda Morais Luiz Eduardo Soares João Feres Júnior Rodrigo de Faria Celso Frederico Bruno Fabricio Alcebino da Silva João Paulo Ayub Fonseca Andrew Korybko Luiz Bernardo Pericás Rafael R. Ioris Ronaldo Tadeu de Souza Leonardo Avritzer Celso Favaretto Tadeu Valadares Henri Acselrad Tales Ab'Sáber Elias Jabbour Jorge Branco Thomas Piketty Kátia Gerab Baggio Antonino Infranca José Raimundo Trindade Renato Dagnino Mário Maestri Ricardo Musse Luiz Marques José Costa Júnior Valerio Arcary Atilio A. Boron João Sette Whitaker Ferreira Rubens Pinto Lyra Fernando Nogueira da Costa Luciano Nascimento Walnice Nogueira Galvão Marcos Aurélio da Silva Remy José Fontana Dennis Oliveira Luiz Roberto Alves Marilia Pacheco Fiorillo Mariarosaria Fabris Francisco Pereira de Farias Luís Fernando Vitagliano Marcus Ianoni João Adolfo Hansen André Singer Berenice Bento Daniel Afonso da Silva Ari Marcelo Solon Ricardo Antunes Jean Pierre Chauvin Salem Nasser Caio Bugiato Marilena Chauí André Márcio Neves Soares Ronald Rocha Dênis de Moraes Ricardo Abramovay Chico Alencar João Lanari Bo Tarso Genro Vladimir Safatle Anderson Alves Esteves Fábio Konder Comparato Priscila Figueiredo Matheus Silveira de Souza Bruno Machado Manchetômetro Liszt Vieira Jean Marc Von Der Weid Gerson Almeida Igor Felippe Santos João Carlos Salles Slavoj Žižek Bento Prado Jr. Julian Rodrigues Maria Rita Kehl Gilberto Lopes Otaviano Helene Benicio Viero Schmidt Paulo Martins Eugênio Bucci Alexandre Aragão de Albuquerque Annateresa Fabris Eduardo Borges Chico Whitaker Andrés del Río Paulo Sérgio Pinheiro Anselm Jappe Afrânio Catani Flávio Aguiar Airton Paschoa Luiz Carlos Bresser-Pereira Samuel Kilsztajn Osvaldo Coggiola Luiz Renato Martins Gilberto Maringoni Ronald León Núñez Valerio Arcary Alexandre de Lima Castro Tranjan Heraldo Campos José Geraldo Couto Claudio Katz Carlos Tautz Lucas Fiaschetti Estevez Eugênio Trivinho Michel Goulart da Silva João Carlos Loebens Alexandre de Freitas Barbosa Marjorie C. Marona Eleutério F. S. Prado Ricardo Fabbrini Daniel Costa Leonardo Sacramento Carla Teixeira Vinício Carrilho Martinez Marcelo Guimarães Lima Luis Felipe Miguel Lorenzo Vitral Plínio de Arruda Sampaio Jr. Armando Boito Paulo Nogueira Batista Jr Érico Andrade Jorge Luiz Souto Maior Paulo Capel Narvai Alysson Leandro Mascaro José Machado Moita Neto Marcos Silva Henry Burnett Francisco de Oliveira Barros Júnior José Dirceu Eleonora Albano Leonardo Boff Eliziário Andrade Michael Roberts Antônio Sales Rios Neto Juarez Guimarães Leda Maria Paulani Yuri Martins-Fontes Milton Pinheiro Flávio R. Kothe José Luís Fiori Paulo Fernandes Silveira Antonio Martins Sergio Amadeu da Silveira Luiz Werneck Vianna Sandra Bitencourt Fernão Pessoa Ramos Ladislau Dowbor

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada