Juçara Marçal

Lynette Yiadom-Boakye, Uma paixão como nenhuma outra

Por DANIEL BRAZIL*

Considerações sobre a música hoje a partir da consagração da parceria Juçara Marçal/ Kiko Dinucci

Os prêmios arrebatados por Juçara Marçal (álbum do ano, canção do ano, prêmio Multishow 2021) e seu parceiro e produtor musical Kiko Dinucci, permitem algumas reflexões sobre a música popular brasileira nos dias de hoje.

As transformações da canção no século XXI ainda incomodam a muitos. A incorporação definitiva da eletrônica na textura sonora, a busca incessante de uma simbiose com a imagem videográfica, a pesquisa de outras formas de discurso, o abandono da eufonia em troca da aspereza, do ruído, da incômoda dissonância, tudo isso faz com que espíritos mais conservadores sejam refratários a qualquer audição.

Dissonância é um termo chave nessa proposta. Não podemos esquecer que a bossa nova incorporou dissonâncias até então inexploradas na música brasileira, e por isso foi acusada de ser “jazzística”. O próprio jazz americano moderno (estou falando dos anos 1950!) foi muitas vezes acusado de fazer ruído, e não música. Em poucas décadas isso foi incorporado, assimilado, virou cultura. Hoje escutamos as bossas mais dissonantes como trilha sonora de bares, restaurantes e namoros, e soa (quase) natural.

A partir dos anos 1960, os instrumentos elétricos conquistaram um espaço definitivo na música popular de todo o planeta. Não só guitarra e baixo, que são apenas violões amplificados e distorcidos, mas instrumentos – principalmente teclados – que criam sons antes não existentes. Depois dos sintetizadores, moogs e similares, surgiram os samplers, que copiam e transformam e multiplicam sons.

A técnica gera uma nova estética? Claro, está mais que comprovado. Isso não significa o abandono das formas musicais anteriores, mas um acréscimo. A levada de violão acústico de Benjor é copiada e enriquecida (ou não, aí entra a questão do talento) de outros timbres, assim como o trompete de Miles Davis. E a tudo isso veio se somar o rap, o discurso poético sobre base rítmica que desbancou o rock em escala planetária como música mais amada pelos jovens.

A grande – enorme! – Elza Soares é uma das poucas estrelas de meados do século XX que mantém uma fina sintonia com essas mudanças. Gal, em seu disco mais experimental, Recanto, produzido por Caetano Veloso, demonstrou estar atenta e forte. O próprio Caetano em seu último álbum autoral, Meu Coco, incorpora vários elementos contemporâneos, provocando certo incômodo em seus antigos fãs.

No entanto, uma ou duas gerações de cantoras, cantores, compositores e compositoras floresceram neste século. E aqui temos de relembrar o filósofo alemão Theodor W. Adorno, que em 1938 publicou seu polêmico ensaio O fetichismo na música e a regressão da audição. O fetichismo a que se refere é uma releitura de Marx, que pontificou sobre o fetichismo da mercadoria. Adorno redefine a música como produto (mercadoria) cultural, e desfia uma série de considerações sobre música séria e música de consumo, concluindo que os valores estéticos se relativizam na Modernidade, mas continuam subordinadas a uma moral vigente.

Não cabe aqui se aprofundar nas considerações de Adorno, mas apenas pontuar que estas inquietações estavam presentes no início do século XX. Para muitos, o ensaio de Adorno era uma resposta a Walter Benjamin. O célebre A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica (1936) colocou em xeque questões importantes como a aura da obra única, a cópia, a reprodução gráfica, fonográfica, cinematográfica, etc. Ou seja, não existe um filme, gravura ou disco “original”, só cópias.

O disco morreu. O CD, seu sucessor, dá seus últimos suspiros. Música de consumo hoje é um produto virtual, embora nenhum youtube da vida tenha conseguido desbancar os shows ao vivo, presenciais, mesmo com pandemias de ignorância. Uma coisa é festa, dança, outra coisa é fruição estética, apreciação de uma obra, como queria o velho Adorno.

Mas o que tem a ver Juçara Marçal com isso? Tudo. A inquieta artista é bem mais que uma cantora. Toca, canta, compõe, e está presente nas principais formações musicais da cena paulistana do século XXI. Desde seu trabalho de pesquisa e recriação das canções ancestrais com o grupo A Barca, seja em trabalhos solo ou em rascantes interações com músicos de vanguarda como no grupo Metá Metá.

Juçara carrega em si a ancestralidade negra. Suas composições, próprias ou em parceria, remetem a entidades, sonoridades e poéticas africanas. Ao mesmo tempo, ela atravessa a corrente dominante da MPB como um corpo estranho, sem se curvar às bossas dominantes. Retempera e acrescenta à tradição pré-samba as experimentações sonoras contemporâneas, com direito a todas as distorções, ruídos, samplers e barulhismos que os tradicionalistas odeiam. Como intérprete, iluminou canções de Mauricio Pereira (Trovoa) ou Siba (Vale do Jucá) de forma definitiva, mas sempre negu a música-mercadoria, pra tocar no rádio.

Juçara recusa as formas dominantes da música popular e trabalha numa hipotética intersecção entre passado e futuro, numa geografia muito pessoal. Não é apenas uma intuitiva, mas uma acadêmica, formada em jornalismo e letras pela USP.  Não há dúvida de que ama e respeita os mestres consagrados, mas não vai sair por aí cantando samba-canção. Coloca-se de corpo e alma a serviço da invenção de um novo mundo sonoro. Um pé na África, outro em Marte.

Quer conhecer mais? Recomendo a audição atenta de seu trabalho-solo Oritá Metá (https://www.youtube.com/watch?v=91yEqOwNwiY). Tá tudo ali, de forma genial. E estranhamente bela.

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.