O tertius gaudens salta do muro para a campanha

Karl Schmidt-Rottluff (1884-1976), "Pelas redes", 1914.

Por LUIZ ROBERTO ALVES*

A elite elegeu o mal maior da república; agora busca a terceira via mantendo o fetiche liberal que a enriquece

O poder econômico brasileiro que se afirma derrubador de muro botou o pescoço para fora e assumiu a busca da terceira via eleitoral. Nem o capitão, nem Lula para 2022. Não é todo o poder, pois grande parte deste sempre ficou no muro da Casa Grande no aguardo de parasitar o senhorio da vez. Agora, consta que se abriram brechas e esta parte do poder abre seus lances. Não sem inteligência ou um discurso que tende à coerência ao seu modo, isto é, manter o fetiche liberal que o enriquece e, nem de longe, considerar que os humilhados e ofendidos seculares devem vir em primeiro lugar na fila dos direitos. Quem sabe a campanha poderá ser baseada em estudos e análises. Mas antes cabe cassar a sinistra figura do Planalto. Urgente.

No momento em que o discurso bipolar do Lula-ladrão se homizia nas mentes disturbadas, pois o cortejo regular da justiça desenrola processos e vê com mais dignidade o verso e o reverso das tramas de Moro & Cia, os novos pentiti (como se deu na Itália) também surgem para não guardar tantos remorsos oriundos da patifaria linguística que levou o ex-presidente à prisão vicária, em cujo vazio os disturbados-ferozes e a legião (no sentido bíblico) econômica agora mutante elegeram o mal maior da república.

Seria bom, a partir de agora, que certa assessoria do PT, sempre mais realista do que o rei, não se desgastasse dando respostas às elites empresariais escapadas do muro, pois terão muito trabalho e o tempo-espaço deles é bem distinto da vida de um partido que já contou com Apolônio de Carvalho, Paulo Freire, Chico Mendes, juventudes e núcleos de base, certamente antes da ideia bufa e circunscrita aos “capas-pretas” (como diziam meus amigos operários) de ficar no poder por dezenas de anos.

Já há enunciações do caminho dos ex-murados. Incapazes de ir às ruas intensa e extensamente, amassar barro e perder o “caviar” simbólico (que seria atitude do tertius iungens), eles e elas dão longas entrevistas e escrevem bons textos formais, tentam rachar núcleos políticos e cooptá-los. O que lhes é impossível é compreender o Brasil real. No entanto, assim como as antigas elites que bateram no cravo e na ferradura do Estado Novo, que queimaram as pestanas nas velas das marchas pré-golpe de 1964, que transformaram a “cidadania” da Constituição 1988 em comedoria de lucros nas cidades e nos campos (e quase viajaram para invadir o Capitólio na sanha trumpista) também as novas elites bem-falantes não têm qualquer problema histórico. O que elas pensam se projeta sobre o que pensa o Brasil e um imediato efeito metonímico se realiza: elas são o Brasil, pois a parte enunciadora de um projeto se realiza como o enunciado de todo o país. Resolvido o problema! (embora nada acertado…). Carlos Guilherme Mota analisou bem essa projeção sob leitura cultural. Celso Furtado, Caio Prado, Dupas e outras pessoas sensíveis já mostraram tudo isso muito bem, embora os figurantes da imagem-brasil-total jamais tenham lido; e se o fizeram, não entenderam nada.  Noutras palavras, essas elites do dinheiro e da posse não podem pensar nos humilhados e ofendidos porque estes últimos não existem; eles é que existem, desde a Colônia, ainda que alguns sejam jovens hoje. Eles são o Brasil. Eles se aproveitam do Brasil. Teremos de suportar seus discursos de suposta social-democracia novamente. E por mais de um ano, com a chance do presidencialismo decrépito que temos (que pensa ser realista sendo equilibrista) ainda lhes oferecer cargos, como se deu nos governos Lula e Dilma. Oxalá isso não se repita.

Deste modo, repetem seus métodos. Isso significa que propõem o tertius gaudens, que este colunista desenvolveu em texto anterior, isto é: “situar-se no meio do processo eleitoral e encontrar brechas e fissuras nas candidaturas vigentes para, então, construir o prazer da vitória em benefício do tertius gaudens”. O suposto eleito-feliz deles não poderá ser alguém que pense estruturalmente (com o risco de entender o país!) e sim que estruture estratégias de impacto, como gosta de fazer o liberalismo. Talvez uma bolsa família incrementada faça parte das estratégias, bem como novas alucinações sobre ensino fundamental e médio e avanços culturais de ordem financeira para garantir o apoio de setores intelectuais.

A partir dos textos que tais grupos poderosos começaram a publicar na grande imprensa, Bolsonaro-Guedes-Mourão (e parte significativa da trupe) são a escória, o mal, a incompetência, a cavalgadura de sempre. No entanto, por compensação, Lula é o inimigo da deusa-economia, o que é a mesma coisa que ser inimigo do Brasil em leitura daquela parte que se realiza como o todo. Se for necessário, essas elites exacerbarão em seu discurso. Para o mundo da ignorância galopante, farão simulações comparativas com o que não existe na realidade, isto é, o comunismo, o socialismo, a implantação de censura (mentiras ajudarão a demonizar uma necessária regulação participativa e transparente de todo o sistema midiático, inclusive o roubo de dados de milhões para negociatas pelas big techs), mais o fim do teto de gastos,o horror do aborto, a escola sem partido, a inflação e muito mais. Até o mensalão (qual deles?). Para o mundo intelectualizado e mais dividido, farão contas, discutirão o angelical agronegócio, farão armaçõescom força técnica e tecnológica (quem sabe a cidadania digital e planetária), talvez encontrem defeitos no grupo “socialista” do Partido Democrata americano (Brazil first) e, especialmente, mostrarão as ameaças sindicalistas ao emprego da vasta juventude (será que foi o anjo Gabriel que desempregou os jovens?). Mais que tudo: trabalharão no sentido de naturalizar e normatizar o liberalismo e suas manhas, não as suas manhãs. Para essas elites (apesar de não termos tido um único momento histórico modernizador e liberal que de fato estivesse a serviço das maiorias empobrecidas) o liberalismo, com neos e treos, é uma entidade antropomórfica, uma espécie de rapagão bonito e sorridente que vem para jantar no sábado próximo e aproveita para pedir uma das filhas da família em noivado ou casamento. Natural, muito natural. Sartreanamente, o inferno são os outros. No entanto, poderão radicalizar, mas não terão direito a negar a ética universal de que tratou Paulo Freire. Mas eles não gostam nem um pouco do brilhante mestre, nosso centenário.

Este não é o tempo-espaço do PT. Ou do Cidadania, ou do Psol. O tempo do antigo partido nascido na rebeldia e nas conquistas que rumavam para a redemocratização é muito outro. É tempo de cultura organizacional de partido. Tempo de construção de memória, discussão renovada e inovadora das forças e, como pensaram Celso Furtado, Agnes Heller e Paulo Freire sistematicamente, ato contínuo ao sentimento de que a consciência individual pode se alinhar à força das consciências sociais em movimento no país (o que produzirá ampla consciência política), será possível quebrar a brutal desigualdade (que é simbólica antes de econômica) e, nessa onda duradoura, as forças culturais formadoras do mundo do trabalho abrirão as comportas da criatividade étnico-política da diversidade brasileira. Quebraremos o brutal liberalismo.

Nenhum novo processo virá da economia como fenômeno liberal, porque ela se empastelou no desastre do neoliberalismo e não lhe resta mais vocabulário criador, senão constatações do nada e de qualquer coisa. Repetições e patinações. Mas a criação pode vir do oikonomos, isto é, do cuidado preferencial dos humilhados e ofendidos dentro de uma revolução orçamentário-tributária. A morte dessa economia conhecida e panfletária (que se repete midiaticamente todos os dias e nos enfastia) não é o passamento de um outro modo de organizar valores sociais em nova chave de cultura política. Mas há exigência de novas inteligências e de buscas sustentadas pela história e pela geografia humana. Ir ao fundo do que pensaram Josué de Castro e Milton Santos, mediados pelos empates ecológicos de Chico Mendes. Aí já se terá uma política de governança. Não programa, nem plano, pois estes são atributos daquela. Mas a governança futura se enuncia no primeiro momento da feitura da política. Isso também é freireano.

Provavelmente haverá uma mistura de tertius, pois mesmo o Ciro Gomes se afirmará como um deles (provavelmente datenado), ainda que posto de lado por parte significativa dessas elites. Ciro só pode ser tertius de si mesmo, porque sua reconhecida inteligência e boas explicações sobre a realidade carregam, no entanto, a marca ostensiva do anacronismo e de uma mitologia individual que não reconhece o outro. Por isso ele participa de eleições com passagem comprada para algum curso breve em universidades importantes do mundo. Ou qualquer outra coisa. O problema é que ele se des-vota. É um ex-voto. Qualquer invenção enunciativa nele será o novo a exigir atitudes de Prometeu, se este não virar Sísifo. Mas, diga-se, fora a figura sinistra do Planalto, há inteligência no jogo eleitoral. As pessoas merecem respeito, que Ciro e as elites não têm para com Lula. E ele merece, tem direito histórico de ser respeitado e continua a ser a mais lúcida das pessoas a fazer política eleitoral no Brasil contemporâneo.  Já foi acima de todas as medidas humanas o desrespeito para com D. Marisa.

Tomara, pois, que a campanha próximaseja de bom nível linguístico e ético, para que as crianças desta terra venham a ter o direito de entender que este não é o país da porrada e da sacanagem, pois mudar é possível.

Paulo Freire faria 100 anos nesse domingo 19 de setembro. De fato, sua energia completa o ciclo centenário e segue… Saudades do sempre mestre e amigo. Aquele que ousou pensar e dizer: “Eu gostaria muito, sabe, que um dia um homem, ou uma mulher, lá do fundo da sala de reunião, levantasse o braço e começasse a dizer: ‘Olha pessoal, do ponto de vista epistemológico…’ Um outro país. Outro tempo-espaço. Não o de hoje.

*Luiz Roberto Alves é professor sênior da Escola de Comunicações e Artes da USP.