Jürgen Habermas

Imagem: Jürgen Habermas (1929-2026)
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Por PETER DEWS*

Da denúncia corajosa a Heidegger à defesa intransigente da razão comunicativa, construiu uma obra monumental que uniu filosofia e ciência social para avaliar as promessas e os fracassos da modernidade

1.

Em 1953, um jovem jornalista alemão causou furor ao atacar o maior filósofo vivo do país, Martin Heidegger, num artigo no Frankfurter Allgemeine Zeitung. Martin Heidegger acabara de publicar algumas palestras da década de 1930, completas com seus comentários inalterados sobre a “verdade interior e grandeza” do movimento nacional-socialista. O que era tão chocante, declarava o artigo, não era tanto o apoio de Martin Heidegger ao regime nazista durante o Terceiro Reich, mas sua incapacidade de proferir uma única palavra de remorso por todos os horrores que o regime nazista havia cometido.

O jovem que quebrou o silêncio e ousou expressar sua “indignação incrédula” contra Martin Heidegger era Jürgen Habermas. Sua franqueza, seu compromisso com a Alemanha democrática que havia surgido das cinzas e sua determinação em não deixar seus concidadãos esquecerem o passado tornaram-se características permanentes de sua vida e pensamento.

Jürgen Habermas foi o mais importante filósofo e teórico social do período pós-guerra na Alemanha. Presença imponente na vida intelectual e política de seu país natal por mais de 60 anos, também foi reconhecido em todo o mundo. Seus livros foram traduzidos para mais de 40 idiomas. Seu projeto filosófico era único: nada menos que uma teoria abrangente da sociedade moderna e suas dinâmicas subjacentes, uma teoria que cobrisse todas as esferas sociais, da política e do direito à ciência, cultura e religião.

Como membro mais antigo da segunda geração da Escola de Frankfurt de teoria social, Jürgen Habermas tinha por objetivo realizar uma avaliação crítica das conquistas e dos fracassos do mundo moderno. Existiram poucos intelectuais contemporâneos que pudessem igualar a abrangência de seu esforço, ou a profundidade da paixão moral que o impulsionava.

2.

Habermas nasceu em Düsseldorf em 1929 e cresceu na pequena cidade de Gummersbach, cerca de 50 quilômetros a leste de Colônia. Seu pai, Dr. Ernst Habermas, era diretor da câmara de comércio e indústria local. Sua família não fora ativamente pró-nazista antes de 1933, mas, como a maioria dos lares de classe média, adaptou-se ao regime hitlerista.

Jürgen Habermas nasceu com fenda palatina e passou por inúmeras intervenções cirúrgicas quando criança, o que resultou em um tom de voz permanentemente nasalado. Muitos anos depois, Habermas refletiu que as provocações que sofreu por causa de sua voz podem tê-lo ajudado a compreender experiências de exclusão, e pôde refletir também como a necessidade de intervenções cirúrgicas na infância haviam incutido nele um profundo senso de interdependência humana.

Aos dez anos de idade, Jürgen Habermas ingressou no Deutsches Jungvolk e, quatro anos depois, na Juventude Hitlerista, conforme a lei, embora provavelmente também por vontade de sua família.

Jürgen Habermas passou por treinamento como socorrista médico e, em agosto de 1944, foi enviado para a Linha Siegfried, numa função de apoio longe das linhas de combate. Sua carta de convocação para a Wehrmacht chegou em fevereiro de 1945, mas, por sorte, ele não estava em casa na noite em que a polícia militar foi busca-lo. Poucas semanas após sua convocação, os norte-americanos chegariam na região.

Após a guerra, Jürgen Habermas completou o ensino secundário no ginásio de Gummersbach. De 1949 a 1954, ele estudou filosofia, história, psicologia, literatura e economia nas universidades de Göttingen, Zurique e Bonn. No início de seu período em Bonn, Jürgen Habermas conheceu Ute Wesselhoeft, uma colega de estudos, e o casal se casou em 1955. Foi o início de uma parceria que durou a vida toda, e que só terminou com a morte de Ute no ano passado.

Jürgen Habermas também forjou uma amizade duradoura com o filósofo Karl-Otto Apel, que era um professor assistente um pouco mais velho do que o próprio Habermas. Foi neste período que Habermas completou uma tese de doutorado sobre o filósofo idealista Friedrich Wilhelm Joseph Schelling. No início dos anos 1950, Jürgen Habermas trabalhava como jornalista freelance, escrevendo resenhas de livros, filmes e teatro – era apaixonado pelo teatro contemporâneo – e artigos sobre problemas sociais.

Em 1956, Jürgen Habermas foi convidado por Theodor W. Adorno, que ficara impressionado com alguns de seus artigos jornalísticos, para ser seu assistente no Instituto de Pesquisa Social em Frankfurt. Theodor Adorno era figura central da primeira geração da Escola de Frankfurt, o grupo de teóricos sociais e filósofos que se reuniram pela primeira vez na década de 1930, para virem a fazer parte do Instituto que era financiado com recursos privados, não da Universidade.

Theodor Adorno, junto com seu amigo Max Horkheimer, o diretor do Instituto, foi obrigado a se exilar nos EUA durante o regime nazista na Alemanha. Mas ambos, Adorno e Horkheimer, retornaram a Frankfurt após a guerra para reviver a tradição da “teoria crítica”, como Horkheimer a nomeara.

No Instituto de Frankfurt, Jürgen Habermas trabalhou numa investigação sociológica sobre as atitudes políticas dos estudantes, também publicou artigos sobre questões filosóficas e sociais. No início dos anos 1960, ele ficou ao lado de Adorno na famosa “disputa sobre o positivismo” a respeito dos métodos da ciência social contra Karl Popper e seus adeptos. Mas rapidamente ficou claro que suas intuições teóricas e políticas básicas divergiam consideravelmente das de seu mentor.

3.

Em 1958, Jürgen Habermas deixou Frankfurt para ir a Marburg. Isso ocorreu principalmente devido as tensões políticas e pessoais com Horkheimer, que o considerava um radical de esquerda provocativo. Em Marburg, Jürgen Habermas trabalhou com o jurista e cientista político Wolfgang Abendroth, naquela época um dos poucos acadêmicos abertamente marxistas na Alemanha Ocidental.

Em 1962, Jürgen Habermas completou sua habilitação, uma espécie de segundo doutorado. Em sua habilitação, Jürgen Habermas investigou o surgimento e o declínio da “esfera pública” argumentativa e do debate político, que, como apresentou em seu trabalho, surgiu primeiramente nos salões e cafés da Europa do século XVIII. A compreensão de que uma esfera pública vibrante é um elemento crucial da democracia tornar-se-ia uma das convicções básicas de Habermas. Seu argumento histórico e político nesse sentido, publicado em 1962 como Mudança estrutural da esfera pública, recebeu amplo reconhecimento.

Ainda no ano de 1962, Jürgen Habermas foi nomeado para o cargo de professor extraordinário de filosofia na Universidade de Heidelberg, por iniciativa de Karl Löwith e Hans-Georg Gadamer. Mas dois anos depois, Habermas retornou à Universidade de Frankfurt para suceder a Horkheimer como professor de filosofia e sociologia. Foi uma ascensão meteórica.

Agora visto como o herdeiro da Escola de Frankfurt, Jürgen Habermas publicou uma série de livros que estabeleceram sua reputação internacional. Neste período destacam-se Teoria e prática (1963), Técnica e ciência como “ideologia” (1968) e Conhecimento e interesse (1968).

Jürgen Habermas sempre recordou a derrota da Alemanha em maio de 1945, seu sentimento pessoal de libertação sob um glorioso tempo primaveril e as subsequentes revelações da criminalidade do regime nazista se tornaram cruciais para seu desenvolvimento moral e político.

Jürgen Habermas era profundamente grato aos Aliados por terem trazido as normas liberal-democráticas à Alemanha. Referindo-a à próspera e consumista República Federal dos anos 1980, certa vez Habermas admitiu ter sentimentos “ambivalentes porque tenho a impressão de que algo está profundamente errado na sociedade racional na qual cresci e na qual agora vivo. Por outro lado, retive também algo mais da experiência de 1945 e do período seguinte, nomeadamente que as coisas melhoraram”.

O forte compromisso de Habermas com a democracia parlamentar o diferenciava de seus predecessores da primeira geração da Escola de Frankfurt, que concentraram esforços sobre os piores aspectos das sociedades capitalistas avançadas: a crescente mercantilização de todos os aspectos da vida, a intrusão burocrática e manipulação da consciência, através da publicidade e dos meios de comunicação de massa degradados.

Embora Jürgen Habermas permanecesse atento a esses fenômenos, e de fato procurasse teoriza-los, ele também insistia que estes versavam apenas sobre um lado da história da modernidade. O outro lado era o desencadeamento da chamada “razão comunicativa”: a crença de que só se chega a soluções justas por meio de um diálogo livre e transparente entre todos os envolvidos.

4.

Essa ambivalência ajuda a explicar as tensas relações de Jürgen Habermas com o movimento estudantil do final dos anos 1960. Ele simpatizava com a crítica dos estudantes ao capitalismo tecnocrático moderno e compreendeu a onda de protestos como um possível catalisador para uma “esfera pública” revitalizada. Mas sua profunda ansiedade de que os valores liberais e democráticos ainda tivessem raízes muito superficiais na sociedade alemã levou-o a opor-se fortemente ao uso de “meios extralegais” pelos estudantes, especialmente o uso da violência.

Jürgen Habermas estava sempre pronto a lançar-se ao debate público quando sentia que algum princípio importante estava em jogo. Em 1967, fez um discurso improvisado numa reunião em Hanover, atacando alguns dos líderes da revolta estudantil, incluindo Rudi Dutschke, por “fascismo de esquerda”. Foi uma declaração que causou profundo ressentimento entre os jovens radicais e uma ruptura que nunca foi totalmente sanada, apesar das posteriores retratações de Jürgen Habermas.

Em 1971, Jürgen Habermas mudou-se de Frankfurt para a cidade bávara de Starnberg, onde se tornou diretor do Instituto Max Planck para pesquisas das condições de vida no mundo científico e tecnológico. Em Starnberg, seu objetivo era liderar um programa de pesquisa interdisciplinar sobre a sociedade moderna, bem no espírito da primeira geração da Escola de Frankfurt.

Embora tenha retornado ao departamento de filosofia em Frankfurt em 1982, lecionado lá até sua aposentadoria em 1994, sua residência principal continuou sendo a cidade da Baviera. Starnberg é uma próspera cidade suburbana, situada à beira de um lago ao sul de Munique, com os picos dos Alpes Bávaros cobertos de neve surgindo ao longe. Ali, Jürgen Habermas e sua esposa viviam em uma villa de um modernismo austero, cujas paredes exibiam exemplares da pintura abstrata que tanto o entusiasmaram quando as comportas da cultura se abriram novamente na Alemanha após a Segunda Guerra Mundial.

5.

Depois de sua aposentadoria, Jürgen Habermas continuou a escrever prolificamente sobre filosofia, política e atualidades, em seu escritório nos fundos da casa, com vista para um arvoredo de pinheiros. Durante esses anos, ele também viajou muitas vezes em turnês de palestras para Israel, Extremo Oriente, Norte da África, América do Sul e outros lugares, além de assumiu vários cargos temporários de docência, principalmente em universidades nos Estados Unidos.

O conhecimento de Jürgen Habermas da história da filosofia e das ciências humanas e sociais era enciclopédico. Desde cedo, começou a valer-se dos desenvolvimentos na filosofia anglo-americana, especialmente ao elaborar sua própria teoria da linguagem e da comunicação. Ele desempenhou um papel fundamental na introdução do estilo “analítico” num mundo filosófico alemão frequentemente dedicado a uma abordagem histórica bastante pesada.

Seu projeto era uma grande teoria da evolução da sociedade humana e uma visão geral do desenvolvimento do nosso senso moral, com o objetivo de elaborar uma avaliação crítica do mundo contemporâneo. As figuras com as quais ele pode justificadamente ser comparado são os grandes filósofos idealistas do início do século XIX, como Schelling e Hegel, ou os pais fundadores da sociologia alemã no início do século XX, como Max Weber e Georg Simmel.

Não menos impressionante do que a erudição de Jürgen Habermas, e seu aparentemente ilimitado interesse pela filosofia, política, sociedade e cultura, era sua capacidade de sintetizar diversas disciplinas acadêmicas. Ele acreditava que, depois de Hegel e Marx, a filosofia não poderia mais seguir sozinha. A reflexão filosófica tinha que ser integrada com a ciência social empírica, para produzir uma compreensão abrangente da nossa complexa condição moderna.

A principal contribuição de Jürgen Habermas para a teoria social, a obra em dois volumes Teoria da ação comunicativa, foi publicada em 1981. Nela, ele procurou compreender a natureza da sociedade moderna traçando uma distinção básica entre a razão “instrumental” ou “funcionalista””, por um lado, e a “razão comunicativa”, por outro.

A razão instrumental nos permite encontrar os meios mais eficientes para atingir um determinado objetivo. Mas este tipo de cálculo não pode nos guiar na decisão sobre quais objetivos (sejam morais ou políticos), devemos perseguir. A razão comunicativa, por outro lado, descreve todas as habilidades que empregamos quando discutimos com outros atores sociais com o objetivo de alcançar um acordo sobre propósitos comuns.

A intuição filosófica fundamental de Habermas é que o acordo genuíno não pode ser forçado, ele só pode ser alcançado quando prevalece o que ele, numa expressão que se tornou célebre, chamou de “força não-coercitiva do melhor argumento”.

6.

Este compromisso com a razão e o diálogo colocou Jürgen Habermas em disputa com intelectuais franceses contemporâneos como Michel Foucault e Jacques Derrida, a quem acuso de flertar com o irracionalismo, embora mais tarde tenha buscado construir pontes de amizade com eles.

Nas modernas sociedades capitalistas, argumentava Jürgen Habermas, cada vez mais áreas da vida que deveriam se basear na cooperação, são esvaziadas por cálculos de lucro e pelo poder burocrático. Este é o processo que ele denominou de “colonização do mundo da vida” – seu equivalente à teoria da alienação de Marx. Mas contra Marx, Habermas sustentava que a complexidade da sociedade moderna tornava as noções de “democracia direta” irrealistas.

Jürgen Habermas esperava que uma democracia parlamentar vigorosa, reforçada pela pressão da “sociedade civil”, pudesse manter sobre controle as forças econômicas e burocráticas desenfreadas. Em seu tratado posterior sobre teoria do jurídica (Facticidade e validade: Contribuições para uma teoria discursiva do direito e da democracia, 1992), Jürgen Habermas argumentou que o direito era um instrumento crucial para a “auto regulação democrática” da sociedade.

Durante a década de 1980, Jürgen Habermas acolheu estudantes e jovens acadêmicos de todo o mundo que vinham estudar com ele. Após seu colóquio nas noites de segunda-feira na Universidade de Frankfurt, o costume era seguir para um restaurante grego nas proximidades, onde as discussões e a convivência continuavam até tarde, com comida e cervejas.

Jürgen Habermas era muito curioso e entusiasmado com debates, e tinha uma grande disposição em entender a geração mais jovem. Após uma palestra como convidado, ele costumava passar a noite num canto do bar, entretendo estudantes com histórias de seus encontros com figuras importantes como Hannah Arendt e Herbert Marcuse, por exemplo, além de responder pacientemente questões filosóficas que os estudantes apresentavam a ele.

Nos últimos anos, a atenção de Jürgen Habermas voltou-se em grande parte para a filosofia da religião. Em 2019, aos 90 anos, ele publicou uma grandiosa obra em dois volumes, traçando pacientemente as relações do pensamento filosófico e do religioso ao longo da história europeia e, também, de certo modo, da história mundial.

Embora Jürgen Habermas se considerasse “religiosamente desafinado”, como dizia, ele se sentiu impelido a buscar as origens do nosso senso de dignidade humana universal e as fontes arcaicas da solidariedade social. Habermas queria compreender como religiões como o cristianismo e o budismo, com concepções metafísicas tão distintas, podiam convergir para as mesmas percepções éticas básicas.

7.

Certa vez, ele recordou que em uma viagem à Coréia passou horas absorto em conversas com um ilustre monge budista, mal percebendo que falavam por meio de um intérprete. Pode-se resumir com justiça o trabalho de sua vida como um esforço para traduzir percepções religiosas – sobre a dignidade única e a insubstituibilidade de cada ser humano e a necessidade básica de solidariedade – em termos que fizessem sentido para os habitantes de um mundo desencantado e pós-Iluminista.

Ao longo de sua vida, Jürgen Habermas não apenas fez contribuições excepcionais à filosofia e à teoria social, mas também interveio incansavelmente, como orador, jornalista e comentador, nas controvérsias morais e políticas da Alemanha. Como Marx, Habermas tinha talento para a polêmica mordaz. Uma foto emblemática da década de 1950, mostra-o dirigindo-se a uma multidão em uma das principais praças da cidade de Frankfurt, durante os protestos contra a disposição de Adenauer de permitir armas nucleares às forças armadas alemãs, sob o guarda-chuva da OTAN.

Seus Kleine Politische Schriften (Pequenos escritos políticos) somam 12 volumes, o último publicado em 2013. O que é comum em muitos desses textos é a ansiedade de Jürgen Habermas em relação a fragilidade das normas liberal-democráticas na Alemanha, bem como sua preocupação de que os horrores do passado nazista não viessem a ser reprimidos por seus compatriotas enquanto estes manifestassem um anseio por se tornarem uma nação “normal”.

Na década de 1960, a rejeição de Jürgen Habermas ao protesto violento o levou a entrar em conflitos com o movimento estudantil, mas com mais frequência, Habermas se viu em embates com porta-vozes da direita alemã. No início dos anos 1970, por exemplo, Habermas criticou o rigor excessivo da resposta do governo alemão aos atos de terrorismo do grupo Baader-Meinhof.

Em meados da década de 1980, Jürgen Habermas lançou a “Disputa dos Historiadores”, denunciando historiadores conservadores que relativizavam os horrores ocorridos durante o regime nazista, retratando-os como uma resposta perversa ao stalinismo soviético.

Mais tarde, Jürgen Habermas criticou o processo “de cima para baixo” da reunificação alemã, temendo que isso levasse a um ressurgimento do nacionalismo. Na virada do século XXI, ele também entrou no debate sobre a tecnologia genética, argumentando que deveria haver limites éticos para a engenharia de seres humanos. Para ele, a manipulação genética alteraria uma relação entre pessoais livres e iguais (a base da nossa vida moral) em uma relação entre “projetista e produto”.

8.

O temor de Jürgen Habermas do nacionalismo, em todas as suas formas, fez com que se tornasse um defensor apaixonado da União Europeia. Habermas estava convencido de que a era do Estado-Nação havia terminado e que novas formas de organização supranacional deveriam ser desenvolvidas para controlar uma economia capitalista globalizada. A União Europeia parecia um passo promissor nessa direção, mas quando o colapso financeiro de 2008, e a subsequente crise da dívida trouxeram grandes conflitos para a zona do euro, Habermas sentiu-se obrigado a intervir com ainda mais frequência e urgência.

A União Europeia precisava democratizar suas estruturas, na esperança de criar uma “esfera pública” pan-europeia, ou fracassaria. E os alemães, em particular, conscientes das catástrofes ocorridas na primeira metade do século XX, precisavam abandonar uma visão estreita do interesse nacional e “evitar o dilema de um status semi-hegemônico” dentro do bloco da União Europeia.

Jürgen Habermas recebeu inúmeros prêmios e distinções acadêmicas, e possuía doutorados honorários de universidades em todo o mundo. Mas apesar de sua imensa distinção internacional, Habermas possuía muito pouco da altivez do professor alemão à moda antiga em seu estilo. Ele nunca foi condescendente com colegas mais jovens e sempre levava as contribuições deles a sério. Ele também era comoventemente grato por receber apoio intelectual.

A esposa de Jürgen Habermas faleceu ano passado. Eles tiveram três filhos. Rebekka precedeu-o na morte, em 2023; Tilman e Judith lhe sobrevivem.

Jürgen Habermas era gentil e atencioso, havia nele uma cortesia à moda antiga. Ele era, no entanto, propenso a explosões de veemência na discussão, especialmente quando sentia que algum princípio importante estava sob ameaça. Falava inglês fluente, ainda que com sotaque, e apreciava muitos aspectos da cultura norte-americana. Era particularmente fascinado por Nova York, que conheceu quando lecionou lá na década de 1960, na New School for Social Research Quinta Avenida, e sentia uma forte afinidade filosófica com a tradição do pragmatismo norte-americano.

Sua relação com a Grã-Bretanha era mais tensa. Após uma experiência precoce de ser tratado com condescendência como um mero “sociólogo” por filósofos de Oxford, ele parecia cauteloso em cruzar o Canal da Mancha. Fez contatos mais agradáveis mais tarde na vida, mas, sendo um antielitismo no coração, estava claro que as hierarquias codificadas por classes e os rituais arcanos da vida acadêmica de Oxbridge sempre o faziam sentir-se desconfortável.

Preferia muito mais a franqueza e a hospitalidade descontraída dos colegas norte-americanos. No entanto, apesar de ofertas de cargos de prestígio do outro lado do Atlântico, Habermas escolheu permanecer na Alemanha durante toda sua carreira – sempre lutando para defender as tradições mais progressistas e esclarecidas de sua terra natal.

*Peter Dews é professor de filosofia na Universidade de Essex. Autor, entre outros livros, de  Schelling’s late philosophy in confrontation with Hegel (Oxford University Press).

Tradução: Daniel Valente Pedroso de Siqueira.

Publicado originalmente no jornal The Times.

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