Jürgen Habermas (1929-2026)

Jürgen Habermas (1929-2026)
image_pdf

Por MARCO BETTINE*

Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social

“A esfera pública é o espaço em que pessoas privadas se reúnem como público” (Jürgen Habermas).

“O uso público da razão deve ser sempre livre” (Immanuel Kant).

1.

A morte de Jürgen Habermas, aos 96 anos, encerra uma das trajetórias intelectuais mais longas e influentes da filosofia contemporânea. Poucos pensadores do pós-guerra exerceram papel tão decisivo na reconstrução normativa da democracia quanto ele. Filósofo, sociólogo e intelectual público, Jürgen Habermas pertenceu a uma geração que viveu diretamente o colapso moral e político da Europa na primeira metade do século XX e tentou compreender, a partir dessa experiência, como sociedades modernas poderiam reconstruir suas bases de legitimidade.

Nascido em 1929, em Düsseldorf, Jürgen Habermas cresceu em um contexto profundamente marcado pelo nacional-socialismo. A experiência da derrota alemã e da revelação dos crimes do regime nazista constituiu um ponto de inflexão para toda uma geração de intelectuais alemães. Em retrospecto, Jürgen Habermas frequentemente reconhecia que seu percurso filosófico foi moldado por essa experiência histórica. A questão que atravessa sua obra pode ser formulada de maneira simples e radical: como é possível fundamentar racionalmente a democracia após as catástrofes políticas do século XX?

Essa pergunta orientou um projeto intelectual que se estendeu por mais de sete décadas. Jürgen Habermas tornou-se uma figura central da chamada segunda geração da Escola de Frankfurt, tradição inaugurada por pensadores como Max Horkheimer e Theodor W. Adorno. Diferentemente da primeira geração da teoria crítica, marcada por um diagnóstico profundamente pessimista da modernidade e da racionalidade instrumental, Jürgen Habermas buscou reconstruir as possibilidades normativas da modernidade. Em vez de abandonar o projeto iluminista, ele procurou mostrar que ainda era possível fundamentar racionalmente a crítica social.

Esse esforço encontrou sua expressão mais sistemática em obras que se tornaram clássicas do pensamento contemporâneo. Em Mudança estrutural da esfera pública, Jürgen Habermas investigou historicamente o surgimento de um espaço de debate público na Europa moderna, no qual cidadãos privados passaram a discutir questões de interesse comum. Esse espaço, a esfera pública, tornou-se, para ele, um elemento fundamental da democracia moderna.

2.

Mais tarde, em Teoria do agir comunicativo, sua obra mais ambiciosa, Jürgen Habermas desenvolveu uma teoria social baseada na ideia de que a racionalidade humana se manifesta sobretudo na comunicação. Para ele, os seres humanos não se relacionam apenas por meio de ações estratégicas orientadas ao sucesso; eles também buscam entendimento mútuo. A linguagem, nesse sentido, constitui o fundamento da vida social.

Essa concepção levou Jürgen Habermas a formular uma das teses mais influentes da filosofia política contemporânea: a legitimidade democrática depende de processos de deliberação pública. A democracia não pode ser reduzida ao procedimento eleitoral ou ao funcionamento formal das instituições. Ela exige a existência de uma esfera pública viva, na qual cidadãos possam confrontar argumentos, formar opiniões e influenciar a formação da vontade política coletiva.

A filosofia de Jürgen Habermas sempre esteve intimamente ligada ao debate público. Diferentemente de muitos filósofos acadêmicos, ele manteve uma presença constante nas discussões políticas da Alemanha e da Europa. Interveio em debates sobre memória histórica, integração europeia, política externa e os dilemas da democracia contemporânea. Essa atuação consolidou sua imagem como um dos grandes intelectuais públicos da Europa do pós-guerra.

Um dos episódios mais emblemáticos dessa atuação ocorreu durante a chamada Historikerstreit, a controvérsia historiográfica que atravessou o debate público alemão na década de 1980. Naquele contexto, alguns historiadores conservadores procuraram relativizar os crimes do nazismo ao compará-los a outras experiências totalitárias do século XX. Jürgen Habermas reagiu energicamente a essa tentativa de relativização, defendendo a singularidade histórica do Holocausto e insistindo na necessidade de preservar a memória crítica do passado.

Essa intervenção consolidou sua posição como uma das vozes mais influentes na cultura política alemã. Ao longo das décadas seguintes, Habermas continuou a intervir em debates públicos, especialmente sobre o futuro da União Europeia. Para ele, os processos de integração europeia exigiam novas formas de legitimação democrática capazes de ultrapassar os limites do Estado-nação.

Embora profundamente enraizada na experiência histórica alemã, a obra de Jürgen Habermas rapidamente adquiriu alcance global. Suas reflexões sobre esfera pública, democracia deliberativa e legitimidade política passaram a influenciar debates acadêmicos e políticos em diversas partes do mundo.

3.

Na América Latina, e particularmente no Brasil, sua recepção ocorreu em um contexto histórico específico: o processo de redemocratização que marcou o final do século XX. A partir do final da década de 1970 e, sobretudo, ao longo dos anos 1980, as sociedades latino-americanas passaram por profundas transformações políticas. Regimes autoritários foram gradualmente substituídos por sistemas democráticos, ainda que frequentemente frágeis e marcados por desigualdades estruturais.

Nesse cenário, as categorias teóricas desenvolvidas por Jürgen Habermas ofereceram instrumentos conceituais importantes para pensar os desafios da reconstrução democrática. Conceitos como esfera pública, deliberação política e legitimidade democrática passaram a integrar o vocabulário das ciências humanas latino-americanas.

No Brasil, a difusão dessas ideias ocorreu principalmente no ambiente universitário. Universidades públicas tornaram-se espaços fundamentais para o desenvolvimento de pesquisas inspiradas na teoria crítica. Entre elas destaca-se a Universidade de São Paulo, onde diferentes áreas, filosofia, sociologia, ciência política, direito e comunicação, incorporaram categorias habermasianas em debates sobre democracia, cultura política e participação social.

Com o passar do tempo, entretanto, a presença de Jürgen Habermas no debate brasileiro ultrapassou essas primeiras mediações. Suas ideias passaram a orientar pesquisas sobre democracia deliberativa, participação cidadã, políticas públicas, comunicação política e teoria do direito. Em muitos programas de pós-graduação, a teoria do agir comunicativo tornou-se referência central para discutir a relação entre instituições políticas, sociedade civil e esfera pública.

Esse processo coincidiu com o desenvolvimento da democracia brasileira após a Constituição de 1988. A ideia habermasiana de que a legitimidade política depende da formação pública da opinião encontrou ressonância em debates sobre participação social, conselhos deliberativos e novas formas de interação entre Estado e sociedade civil.

A comparação entre a recepção europeia e latino-americana de Jürgen Habermas revela, portanto, perspectivas distintas, mas complementares. Na Europa, ele aparece frequentemente como o filósofo que ajudou a reconstruir a consciência democrática alemã após a catástrofe do nazismo. Na América Latina, sua obra é frequentemente mobilizada como um repertório conceitual para compreender os desafios da democracia em sociedades marcadas por desigualdades profundas.

Essa diferença revela algo fundamental sobre o alcance de sua filosofia. Embora profundamente marcada pelo contexto histórico da Alemanha do pós-guerra, a teoria habermasiana mostrou-se capaz de dialogar com problemas políticos muito diversos.

Hoje, em um cenário global marcado pela crise das instituições democráticas, pela fragmentação da esfera pública digital e pelo crescimento de formas de polarização política que desafiam os pressupostos da deliberação racional, a obra de Jürgen Habermas permanece surpreendentemente atual.

Sua filosofia sempre se apoiou em uma aposta intelectual que hoje pode parecer quase contracorrente: a convicção de que a democracia depende da possibilidade de que cidadãos livres possam confrontar argumentos em um espaço público orientado pela força do melhor argumento.

Essa aposta talvez explique a permanência de sua influência. Mais do que um filósofo da linguagem ou um teórico da sociedade, Jürgen Habermas foi, sobretudo, um pensador da democracia. Seu legado permanece vivo sempre que a política se abre à crítica pública, à argumentação racional e à busca coletiva por formas mais justas de convivência social.

*Marco Bettine é professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.


Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
Fim da guerra no Irã?
11 Mar 2026 Por LISZT VIEIRA: A guerra revelou que força militar sem estratégia política cobra um preço alto, e quem controla a escalada controla também o desfecho
3
Daniel Vorcaro e o "novo capitalismo" brasileiro
10 Mar 2026 Por JALDES MENESES: O novo capitalismo brasileiro forja um Estado Predador onde o rentismo digital, o crime organizado e a política se fundem numa aliança que corrói o pacto de 1988
4
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
5
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
6
O coturno no pátio
09 Mar 2026 Por JOSÉ CASTILHO MARQUES NETO: O silêncio imposto pelo coturno nos pátios escolares não educa, apenas endurece o solo onde a liberdade e o pensamento crítico deveriam florescer
7
Uma batalha depois da outra
11 Mar 2026 Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO: Considerações sobre o filme de Paul Thomas Anderson, em exibição nos cinemas
8
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
9
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
10
Linguagem inclusiva
12 Mar 2026 Por BEATRIZ DARUJ GIL & MARCELO MÓDOLO: Mais sintaxe, menos torcida: permitir não é prescrever, inovar não é normatizar
11
Nota sobre a capacidade estatística do PIB
09 Mar 2026 Por MARCIO POCHMANN: O PIB, bússola do século XX, já não captura sozinho a complexidade da economia financeirizada, digital, do cuidado e ambiental
12
A imprensa como ideologia
11 Mar 2026 Por LUIZ MARQUES: A neutralidade da imprensa é a mais eficaz das ideologias: faz o golpe parecer democracia e o genocídio, conflito
13
Marx e Engels – Entrevistas
08 Mar 2026 Por MURILLO VAN DER LAAN: Apresentação do livro recém-editado
14
O STF está validando a fraude trabalhista
03 Mar 2026 Por DURVAL SIQUEIRA SOBRAL: Ao legitimar a pejotização, o sistema jurídico reconfigura o trabalho como negócio e não como relação social
15
O comunismo como festa
11 Mar 2026 Por FELIPE MELONIO: O comunismo como festa não é metáfora, mas a afirmação de que a vida em comum só vale quando transborda os enquadramentos do poder
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES