Macunaíma na macumba

Ana Maria Pacheco, As Proezas de Macunaíma 8, 1995
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Por HOMERO VIZEU ARAÚJO*

O ritual umbandista representa o útero narrativo onde a cultura popular e a vanguarda se fundem, conferindo a Macunaíma um raro momento de estabilidade e poder através da mediação mágica

“Acabando a leitura, o velho dirigiu-se aos dous: – Não acham interessante? Muito! Há no nosso povo muita invenção, muita criação, verdadeiro material para fabliaux interessantes… No dia em que aparecer um literato de gênio que o fixe numa forma imortal… Ah! Então!” (Lima Barreto, Triste fim de Policarpo Quaresma).

1.

A profecia da personagem de Lima Barreto realizou-se no livro de Mário de Andrade, Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, publicado em 1928. A narrativa contém uma vasta quantidade de mitos, causos e lendas provenientes do Brasil profundo, que há algum tempo era chamado de sertão, num apanhado que vai do norte amazônico às margens do Uraricoera, até os pagos que abrigam o Negrinho do pastoreio.

As aventuras do herói sem nenhum caráter são apresentadas em um registro linguístico sofisticado e também popular, que procura a enunciação oral para dar conta das estripulias de Macunaíma, que percorre o conjunto do território nacional.

Sendo menos um personagem de romance que herói mítico, Macunaíma transcende os limites do realismo e ganha contornos fantásticos e feéricos em sua demanda pela muiraquitã, o amuleto cuja busca puxa o fio narrativo do poema épico-cômico. Sem o objetivo de alcançar o amuleto, a narrativa poderia, de fato, descambar em um repositório de lendas e travessuras pontuadas pelos constrangedores momentos explicativos que registram a missão de folclorista e antropólogo do narrador do livro, que, nesses termos, confunde-se com a figura do autor Mario de Andrade.

Aqui, nas linhas que se seguem, vamos argumentar que o sétimo capitulo, Macumba, é central na trajetória; mais, que Macunaíma na macumba configura um momento (ou transe?) que deveria ser melhor avaliado enquanto articulação de enredo, definição de personagem e, digamos, referência popular, sambista e modernista.

Em algumas das avaliações da obra, incide-se na noção de uma narrativa fabulosa, até certo ponto, desprovida das dimensões de tempo e espaço. Em boa medida, trata-se aqui de aferir como tempo e espaço são dimensões relevantes no entrecho do livro, se quisermos examinar as manhas do herói e a disputa cômica, mas crucial, com Venceslau Pietro Pietra, que não deixa de ser um bicho-papão a assombrar os roteiros de Macunaíma.

Leva-se em conta aqui a estrutura do relato, que se organiza em dezessete capítulos, mais epílogo. Macunaíma vencerá a disputa e se apropriará da muiraquitã, depois da morte de Venceslau, no décimo quarto capítulo. A seguir, transcorrem os melancólicos três últimos capítulos, até o epílogo. De posse da muiraquitã, Macunaíma perde força e vigor, vindo a perder o amuleto no desfecho do capítulo 17, Ursa Maior. Macumba, o sétimo capítulo, é um momento decisivo em que o herói consegue punir seu inimigo, que, até então, mostrara-se inatingível. E o atinge à distância, mediante um procedimento macumbeiro repleto de simbolismo.

2.

Macunaíma vai à luta pela muiraquitã acompanhado por seus dois irmãos, Maanape e Jiguê, contra quem se apropriou do amuleto o mascate peruano Venceslau Pietro Pietra, o gigante Piaimã, comedor de gente. Mas estamos aqui no campo das ambiguidades e sobreposições do relato: Pietro Pietra é sobrenome a indicar origem imigrante e italianada. Trata-se de um burguês instalado com luxo em endereço elitista de São Paulo, a “cidade macota do igarapé Tietê”.

Se o desfecho configurado na morte do vilão e na posse da muiraquitã é no décimo quarto capítulo, Macumba, o sétimo capítulo, está no meio do caminho, no qual um conjunto de forças auxiliará o herói de nossa gente. Contra Venceslau/Piaimã instalado em São Paulo, temos o terreiro no Mangue do Rio de Janeiro, um dos dois capítulos do livro em que Macunaíma se encontra na Capital Federal.

O terreiro tem por sacerdotisa nada mais nada menos que Tia Ciata, a mítica baiana sob cuja bênção o samba teria sido criado e celebrado, uma figura histórica que recebia Donga, Sinhô e Pixinguinha em um autêntico nascedouro do que virá a ser saudado como o gênero musical típico do povo brasileiro. Pois é com essa mãe de santo famanada que Macunaíma pode contar para, na macumba carioca, atingir seu burguês em São Paulo instalado.

Durante o ritual, quem recebe Exu é uma polaca (e a referência à nacionalidade das prostitutas importadas dá uma nota transgressiva e rebaixada) em cujo corpo Venceslau, estabelecido em sua mansão na capital paulista, é torturado à distância: espancamento, chifrada de touro, coice de bagual etc. De novo, vale notar o caráter nacional e talvez alegórico dos golpes de Macunaíma ou das dores de Venceslau: espancamento é genérico, mas coice de bagual é nitidamente agauchado.

Encerrado o transe da polaca e a pancadaria, Macunaíma sai pela noite acompanhado de outros macumbeiros, dentre os mais ilustres, Manu Bandeira, Blaise Cendrars, Raul Bopp e Ascenso Ferreira. É difícil, no sétimo capítulo, na Capital Federal do Brasil, no terreiro mais famoso disponível, não perceber a aliança de classe popular e modernista cujo poder garante tão importante, ainda que escassa, vitória sobre Venceslau Pietro Pietra, a se completar simetricamente daqui a sete capítulos.

Vale a ênfase aqui: de Tia Ciata a Manuel Bandeira, são referências a personagens históricos que dão peso realista à narrativa, ao mesmo tempo que, com algum paradoxo, mitificam-se as figuras que se tornam parceiras da aventura da nacionalidade encarnada na trajetória de Macunaíma.

Sem exagerar na malícia, torna-se convincente avaliar o caráter nacional e popular do transgressivo índio-preto-branco em amizade e aliança com intelectuais modernistas em terreiro carioca que virá a ser celebrado como berço do samba. Sem esquecer que temos aqui uma vitória marcante, isto é, o momento em que Macunaíma, que já sofrera horrores sob o inimigo Piaimã, vai à forra.

3.

Gilda de Mello e Souza inicia a comparação entre Macunaíma e romances de cavalaria do ciclo arturiano com um levantamento esclarecedor dos deslocamentos do herói.

Os comentadores do romance arturiano assinalam com razão que o traço diferenciador da Demanda do Graal, que permanece através de todas as transformações e metamorfoses do mito, é o seu caráter essencialmente dinâmico. Assim o romance de cavalaria é marcado por um movimento progressivo, seja ela a busca, a andança (errance), a justa ou o confronto.

Este aspecto dinâmico é conservado fielmente pela narrativa brasileira, que o lê no entanto de trás para diante; isto é, Macunaíma inicia com uma busca de que o herói é agente, mas ela se transforma logo numa perseguição em cadeia contra ele, dando lugar a um sem-número de fugas. Alguns exemplos são suficientes para corroborar esta afirmação: na página 21, Macunaíma foge do currupira; nas páginas 38-9, foge da Cabeça de Capei; na página 67, foge do cachorro Xaréu; na página 91, foge de Miniaquê-Teibê; na página 134, foge da Velha Ceiuci; e, na página 199, foge da sombra.

As expressões e os verbos utilizados completam a marcação deste curioso tempo regressivo do romance, apresentando o herói sempre correndo (no sentido de fugindo), se raspando, ganhando os mororós, escapulindo, jogando no veado, gritando pernas pra quê vos quero, abrindo na galopada, escafedendo, gavionando mato afora… Enfim, o dinamismo da rapsódia brasileira é simetricamente inverso ao dinamismo do romance arturiano, o que faz do percurso de Macunaíma a carnavalização da trajetória do herói cavaleiresco (Mello e Souza, 2003, p. 68).

4.

Sem que necessariamente se aceite que se trata de carnavalização, o levantamento feito por Gilda de Mello e Souza aponta um traço forte da trajetória de Macunaíma: para além de se encontrar em contínuo movimento, ele está em constante fuga. É um excelente achado da ensaísta ao demonstrar o quanto esse herói popular se recusa ao embate e trata de evitar o confronto.

Ora, o notável é que, na macumba, não só o herói cessa de fugir, como fica no terreiro ao longo de quase todo o capítulo, numa estabilidade que lhe é impossível quando se encontra em São Paulo. A rigor, desde que abandonara sua maloca na Amazônia, Macunaíma segue a lei da fuga acelerada explicitada por Gilda de Mello e Souza, com uma notável exceção carioca no ritual presidido pela mítica mãe de santo Tia Ciata.

Sob a bênção da sacerdotisa e valendo-se de Exu/polaca, não só cessa o vaivém, mas há mesmo confronto, embora desqualificado por incapacidade de reação do oponente Pietro Pietra. No quadro das inversões, que Gilda de Mello e Souza não hesita em chamar de carnavalização, a personagem popular e herói de nossa gente, que se reconhece fraco, apela para esperteza de rito mágico, isto é, da macumba com Exu, para atingir o poderoso burguês italianado. Forçando um pouco, há um lance de esperteza permitindo o reequilíbrio das forças, que leva a certo ajuste de contas entre o malandro popular e o vilão de elite.

De resto, uma característica saliente do personagem Macunaíma que se combina com a fuga e movimento contínuos é a mutabilidade a deflagrar dinâmica vertiginosa ao relato. Embora guiado pela ideia fixa ou missão na demanda da muiraquitã, qualquer alteração cai bem ao herói sem nenhum caráter. João Luiz Lafetá anotou em Mário de Andrade (Coleção Literatura Comentada): “Macunaíma, diz Gilda de Mello e Souza, representa “uma meditação extremamente complexa sobre o Brasil, efetuada através de um discurso selvagem, rico de metáforas, símbolos e alegorias” De fato, sendo uma espécie de busca simbólica do “caráter nacional” brasileiro, o livro apresenta-nos um “herói  sem nenhum caráter”, que ainda não encontrou sua definição e transforma-se inúmeras vezes: de criança feia vira príncipe encantado, depois Imperador do Mato-Virgem, depois malandro na cidade de São Paulo (num episódio, disfarça-se de francesa), e assim por diante, até transformar-se na constelação da Ursa Maior. A própria linguagem da rapsódia transforma-se muito, e o crítico Alfredo Bosi encontra nela pelo menos três estilos diferentes de narrar: um estilo de lenda, épico-lírico; um estilo de crônica, cômico e despachado; e um estilo paródico (Lafetá, 1988, p. 74).

5.

Se concordarmos com João Luiz Lafetá que há uma espécie de busca simbólica do “caráter nacional” em que a ausência de caráter e de definição renderá transformações em série, na Macumba relativamente estável carioca, o malandro proveniente de São Paulo permanece malandro, mas ganha traço (caráter?) vingador. Quem se transforma é a polaca que recebe Exu e cujo corpo será espancado por Macunaíma, que assim alcança torturar Venceslau.

Na cerimônia de possessão regida por tia Ciata, a transformação alheia beneficia o herói. Com aguda tendência à metamorfose, Macunaíma não está isolado na literatura brasileira. Certo Jacobina, narrador inserido em O espelho, de Machado de Assis, reflete sobre a situação: “São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos” (Machado de Assis, 2011, p. 211).

Exibir “natureza mudável” está longe de ser exceção entre as personagens brasileiras, embora Macunaíma seja superlativo no capítulo. Humor, malícia, preguiça e perna cumprida para fugir também são traços de malandro, mas esse é um assunto a que voltaremos mais adiante.

Argumentando a partir da analogia com a demanda do Santo Graal proposta por Gilda de Mello e Souza, o herói popular sagra-se um adversário à altura de Venceslau Pietro Pietra mediante o auxílio luxuoso da mãe de santo Tia Ciata, que, nesses termos, também é médium, ou melhor, literalmente a mediadora que garante o severo espancamento/tortura de Pietro Pietra, que se encontra no recesso de seu lar, em uma mansão paulistana.

Se for considerada excessiva tal interpretação, parece-me inegável que é sob a bênção da mãe de santo e padroeira do samba que Macunaíma atinge seu adversário durante o longo ritual coletivo que ocupa todo o capítulo.

Como é de se esperar, a sessão de macumba é plena de lances sincréticos, a misturar orixás, caboclos, indígenas etc., o que não traz nenhuma surpresa levando-se em consideração a dimensão híbrida da umbanda. O mix de tradições nesse ritual de possessão já estava razoavelmente popularizado à época da rapsódia.

Pode-se argumentar que o autor tratou de se exceder no hibridismo em uma narrativa em que a sucessão de lendas e mitos é paroxística, com Mario tentando abarcar o acervo inesgotável das mitologias orais e muitas vezes reduzindo o efeito estético a uma sequência de lendas coletadas com afã de etnógrafo e enunciadas para educar os leitores desavisados. O resultado, em diversos capítulos, é muito discutível, indo da boa síntese ao arbitrário entediante, com as contínuas fugas e andanças do herói sendo ilustradas por uma enciclopédia de causos fornecidos pelo amálgama de tradições populares.

Penso que parte da força do capítulo Macumba deriva justamente de que não se trata de mais uma curva ou desvio na busca da muiraquitã, mas um episódio em que a capital do Rio de Janeiro recebe Macunaíma em território macumbeiro, talvez um útero em que o protagonista estaciona e evolui sob controle de ritual adequado. Um ritual em que o sincretismo não é produto do empenho etnográfico de Mario de Andrade, mas material configurado na trama étnica do país, o que confere unidade e ritmo ao conjunto do capítulo.

*Homero Vizeu Araújo é professor titular de literatura brasileira na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Autor, entre outros livros de Futuro pifado na literatura brasileira (Editora da UFRGS). [https://amzn.to/4ceSXz6]

Referência

ANDRADE, Mario de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Apresentação de Luís Augusto Fischer, notas de Luís Augusto Fischer e Guto Leite. Porto Alegre: L&PM, 2017. [https://amzn.to/3LZFXD4]

Bibliografia

CANDIDO, Antonio. “Dialética da malandragem”. In: O discurso e a cidade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004. São Paulo: Duas cidades.

LAFETÁ, João Luiz (seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico). Mario de Andrade. São Paulo: Nova Cultural, 1988. Literatura comentada

MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Papéis avulsos. Introdução de John Gledson, notas de Hélio Guimarães. São Paulo: Penguim Classics Cia das Letras, 2011.

MELLO E SOUZA, Gilda de. O tupi e o alaúde: uma interpretação de Macunaíma. São Paulo: Duas cidades, Editora 34, 2003. Coleção Espírito Crítico.

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