Mário de Andrade na Semana de 1922

Niki de Saint Phalle, a DANÇA

Por ROBERTO JORGE REGENSTEINER*

Hoje e como naquele 1922, as contradições sociais atingem píncaros históricos

Busco neste ensaio apontar as questões cruciais daquele momento entrelaçando-o com o nosso presente e faço duas sugestões. Fazer do dia 25 de fevereiro, data de falecimento de Mario de Andrade, o Dia de Macunaíma, com atividades culturais discutindo a obra e a vida de um dos grandes do Modernismo, e inspirado no desfecho do livro Pauliceia Desvairada (“Enfibraturas do Ipiranga”) realizar no dia 7 de setembro próximo uma grande manifestação.

 

1922 – O contexto

1922 foi ano movimentado no Brasil e alhures. As contradições da sociedade brasileira sacudiam o país. De 13 a 18 de fevereiro deu-se a Semana de Arte Moderna, Theatro Municipal, São Paulo. Inaugurado o Modernismo. 25 de março houve a fundação do Partido Comunista, em Niterói. Em 5 de julho levantam-se os dezoito do Forte de Copacabana, deflagrando o Tenentismo.

Ao que se saiba, além da sincronicidade, esses eventos não tiveram relação direta entre si. Foram expressões de quando a chapa da história estava esquentando e os grãos de sociedade pipocavam. Ou, melhor dizendo, da agudização das contradições sociais e de um ascenso na luta de classes.

As ocorrências em Terra Brasilis se interrelacionavam com acontecimentos em outras partes do planeta, especialmente da Europa, sede de impérios colonizadores. É bastante conhecida a relação causal entre a expansão do capitalismo-imperialista-europeu, na virada do Século XX e as desgraças das guerras mundiais.

Impelido por forças sistêmicas, cavalgando motores a vapor, segurando as rédeas dos telégrafos, espoliando povos em todos os continentes, cegas pelo dinheiro, as classes dominantes conduziram as nações europeias a desastres e aumentaram a exploração das colônias. Saíram-se mal nesses episódios. Na União Soviética viram seus poderes extirpados. Longas dinastias foram defenestradas na Áustria, na Alemanha, Itália, em outras partes. E, onde não foram defenestradas, viram reduzidos seus poderes de parasitismo, de rentistas da terra e dos cofres públicos. Saíram-se mal, mas não desistiram da guerra.

Tais eram os ventos que sopravam em 1922 quando arrefeciam os surtos da gripe espanhola. Os reboliços históricos das lutas de classes se refletem no campo das artes e vice-versa. Aquele 1922 no Brasil foi especial.

 

Mário de Andrade 20 anos depois – o gatilho, o estouro…

Em fevereiro de 1942, Mário de Andrade recordaria o período anterior à Semana de 1922: “o certo é que a preconsciência primeiro, e em seguida a convicção de uma arte nova, de um espírito novo, desde pelo menos seis anos viera se definindo no… sentimento de um grupinho de intelectuais, aqui. Do primeiro, foi um fenômeno estritamente sentimental, uma intuição divinatória, um… estado de poesia. Com efeito: educados na plástica “histórica”, sabendo quando muito da existência dos primeiros impressionistas, ignorando Cézanne, o que nos levou a aderir incondicionalmente à exposição de Anita Malfatti, em plena guerra europeia, mostrando quadros expressionistas e cubistas? Parece absurdo, mas aqueles quadros foram para mim a revelação. E delirávamos diante do Homem Amarelo, a Estudanta Russa, a Mulher dos Cabelos Verdes. E ao Homem Amarelo eu dedicava um soneto parnasianíssimo… Éramos assim”.

Anita Malfatti. O homem amarelo (1ª Versão), 1915[i]

A “Exposição de Anita Malfatti” realizou-se no final de 1917. Suas obras evocavam pintores europeus revolucionários e modernos, um estilo que causava espanto. Monteiro Lobato, então, um quase quarentão, caipira do Vale do Paraíba, intelectual de peso com acesso à mídia, criticou as formas pintadas, ainda que reconhecendo talento na artista.[ii]

A única resposta pública parece ter sido de Oswald de Andrade que em suas memórias afirmou: “A exposição de Anita Malfatti, provocara o coice monumental de Monteiro Lobato, inteiramente ignaro e maldoso. Sou o único a defender timidamente Anita pelo Jornal do Comércio”.[iii] O coice de Lobato ajudou a formar o espírito do grupo que realizou a Semana[iv] e influenciou as obras daquele período.

Segue Mário de Andrade narrando os começos: “Pouco depois [da Exposição de Anita], o [poeta] Menotti del Picchia e Osvaldo de Andrade descobriram [o escultor Vitor] Brecheret no seu exílio do Palácio das Indústrias. E fazíamos verdadeiras “rêveries” simbolistizantes em frente da simbólica exasperada e das estilizações decorativas do “gênio”. Porque Brecheret era para nós no mínimo um gênio. Este era o mínimo com que podíamos nos contentar, tais os entusiasmos a que ele nos sacudia. E Brecheret ia ser em breve o gatilho que faria Paulicéia Desvairada estourar”.[v]

Depois do gatilho, o estouro do livro produzido por um artista que desabrocha. Mário conta que, por volta de dezembro de 1920, foi muito criticado na família por pagar bela soma por uma Cabeça de Cristo de Trancinhas, feita por Brecheret e passada em bronze pela qual se encantou e que o pessoal da família abominou.

“Fiquei alucinado, palavra de honra. Minha vontade era matar. Jantei por dentro, num estado inimaginável de estraçalho. Depois subi para o quarto, era noitinha, na intenção de me arranjar, sair, espairecer um bocado, botar uma bomba no centro do mundo, nem sei. Sei que cheguei à sacada, olhando sem ver o meu Largo do Paissandu. Ruídos, luzes, falas abertas subindo dos choferes de aluguel. Estava aparentemente calmo. Não sei o que me deu… Cheguei na secretaria, abri um caderno, escrevi o título em que jamais pensara, Paulicéia Desvairada. O estouro chegara afinal, depois de quase ano de angústias interrogativas”.

Alguns poemas foram apresentados aos amigos e por eles comentados antes da publicação daquele que seria seu primeiro livro assinado com o próprio nome.[vi]

Anos depois, registrando as peripécias da produção e publicação de Pauliceia Desvairada, escreveria sobre um encontro com Monteiro Lobato a quem entregara os originais para publicação: “mandou me chamar, me acolheu muito bem, e disse franco o seu pensamento sobre o livro, ou melhor, o seu não-pensamento, pois confessou não compreender neres daquilo tudo. E me disse: “Você não poderia escrever um prefácio, uma explicação dos seus versos e da sua poética?” A ideia era esplêndida, e foi a pedido do sr. Lobato que escrevi o “Prefácio Interessantíssimo”, a melhor parte do livro, na opinião dos que perdem tempo e verdade, gostando um bocado de mim”.[vii]

O livro seria publicado apenas em junho de 1922 financiado pelo próprio autor.

Capa da 1.a edição[viii]

“A capa reveste-se do traje do Arlequim da commedia dell’arte italiana, losangos irregulares, em branco, amarelo, vermelho, verde, azul e preto, aleatoriamente conjugados. Sobrepondo-se ao colorido traçado geométrico, centralizado, avançando ligeiramente na parte superior, o retângulo, grossa moldura escura, cantos arredondados, cerca o fundo claro, no qual se destacam o nome do autor e o título do livro: “Mário de Andrade/ PAULICEA/ DESVAIRADA”. A quarta capa, branca, retoma, em escala menor, o jogo de retalhos multicolores, sobre os quais se assenta a vinheta editorial latina “In Labore Honor”. Na lombada, em preto, estampa-se o nome do autor, o título e o ano “1922”. Abrindo -se a brochura, na página de rosto, descobrem-se também a designação da editora paulista, Casa Mayença, e as datas “Dezembro de 1920/ a/ Dezembro de 1921”.

Na página 41, o desenho em cores pardacentas de Antonio Moya salta aos olhos, como o pórtico pictural dos poemas. O índice, alocado na última folha, dispõe a ordem da “Dedicatória”, do “Prefácio interessantíssimo”, do título dos 21 poemas reunidos e de “As Enfibraturas do Ipiranga”. Na página 144, a derradeira, o colofão indica o término da impressão do volume aos “21 de julho do anno de 1922/ 100º da Independência do Brasil”.[ix]

 

A teoria e a prática

Depois da capa, há uma intrigante dedicatória a si mesmo seguida do “Prefácio interessantíssimo”. Nele Mário de Andrade apresenta posicionamentos artísticos, poéticos, políticos e dados biográficos. Irônico. Provocador. Texto que necessita lenta leitura e cuidadosa apreensão. Às vezes enigmático. Mas, certos pontos ficam bem claros. Relata que aos dez anos já metrificava e rimava versos. Mostra um poema dessa época, denominado Artista. Nele (além do domínio da rima e das sílabas) revela seu desejo de ser pintor que conclui com este verso solidário com os tristes e os desgraçados:

“…irei morar onde as Desgraças moram;
e viverei de colorir sorrisos
nos lábios dos que imprecam ou que choram!”

Em 1922, aos vinte e nove anos incompletos, o artista já crescido, tendo desistido da pintura (ainda que sua série de desenhos sobre as cidades históricas de Minas Gerais mostrem bom domínio da técnica[x]) revela que não via mais “graça nenhuma nisso da gente submeter comoções a um leito de Procusto para que obtenham, em ritmo convencional, número convencional de sílabas…. Agora liberto-me também desse preconceito”.

E, como não concordar com sua síntese em que, após negar a ditadura dos metros e rimas, afirma não desdenhar: dos “baloiços dançarinos de redondilhas e decassílabos… Acontece a comoção caber neles. Entram pois às vezes no cabaré rítmico dos meus versos”.

Lindo isso do “cabaré rítmico”. Comoção e seus sinônimos, os exageros, são inumeráveis os estados de espírito referidos e que se expressam nos versos de Pauliceia Desvairada, muitas vezes associados às paisagens. “Inspiração” é o título do primeiro verso que começa e termina com: “São Paulo! comoção de minha vida…”.

Escreve palavras, frases, parágrafos como fragmentos que formam mosaicos em que reflete paisagens urbanas (“Minha Londres das neblinas finas”), cacofonias de vendedores e sotaques de imigrantes, oferece pistas para a paisagem interior da alma arlequinal do artista que se considera “…um tupi tangendo um alaúde” e usa São Paulo como metáfora de si mesmo.

O autor de Pauliceia Desvairada é alguém que já é consciente do inconsciente, em si mesmo, um precursor. Cita Freud. Cita número espantoso de autores e obras.[xi] Responde a críticas. Afirma-se em contraponto: “Quando uma das poesias deste livro foi publicada, muita gente me disse: “Não entendi”. Pessoas houve porém que confessaram: “Entendi, mas não senti”. Os meus amigos… percebi mais duma vez que sentiam, mas não entendiam. Evidentemente meu livro é bom.

Escritor de nome disse dos meus amigos e de mim que ou éramos gênios ou bestas. Acho que tem razão. Sentimos, tanto eu como meus amigos, o anseio do farol. Si fôssemos tão carneiros a ponto de termos escola coletiva, esta seria por certo o “Farolismo”. Nosso desejo: alumiar. A extrema-esquerda em que nos colocamos não permite meio-termo. Si gênios: indicaremos o caminho a seguir; bestas: naufrágios por evitar”.

 

Desafio ao establishment

Sublinhei “dos meus amigos e de mim “ para evidenciar o grupo que influencia Mário de Andrade e se identifica com sua obra[xii]. Oswald de Andrade em artigo publicado chamara Mário de futurista, elogiando sua poesia. Mário lhe contesta no Prefácio Interessantíssimo[xiii].

A concatenação entre elaboração de Pauliceia Desvairada e realização da Semana da Arte Moderna bem pode ser comparada às fumaças de um vulcão entrando em erupção. Sob as aparências, nas profundezas das contradições sociais, moviam-se forças profundas.

O Modernismo foi expressão daquela sociedade onde escravizados e abandonados, migrantes recém-chegados e povos originários atacados em seus territórios aproximavam-se do proscênio histórico. A Semana de 1922 foi um dos estrondos por onde novos contingentes do povo passariam a ser representados ao longo dos anos subsequentes, espraiando-se pelas várias formas artísticas da pintura, música, escultura, teatro, influenciando o que veio depois. Dali em diante seria reconhecido como referência ineludível no campo das artes, da cultura nacional e da história, “alumiando caminhos”.

Sofrem de bairrismo grotesco aqueles “náufragos bestas” que reivindicam para São Paulo as glórias da Semana ou, ao contrário, se esfalfam por diminuir seu protagonismo. Terremotos tem epicentros. Os argumentos bairristas são facilmente anulados pelo fato de que tanto na Semana propriamente dita, como antes e depois, protagonizarem no proscênio, entre outros não-paulistas, o pintor baiano Di Cavalcanti[xiv], o maestro Villa Lobos, carioca da gema (gigante cuja obra de síntese da nacionalidade na música confraterniza com a de Mário de Andrade na literatura).

Pior que grotesco são os que contrapõem Mário de Andrade e Oswald de Andrade como se necessário fosse tomar partido entre o Sol e a Lua, ou entre duas grandes estrelas da galáxia da cultura daqueles anos. Fomentam um provincianismo estéril. Poderiam reconhecer que os modernistas em seu conjunto, e cada um a seu modo específico, expressaram e elaboraram uma obra sobre o Brasil que, longe de monolítica e uniforme, estabelecerão um movimento com reverberações e desdobramentos.

Ao invés de fazer a cartografia das realidades que trouxeram ao proscênio suas excelências os povos brasileiros, os cri-críticos flafluzistas[xv] como poderia chamá-los Odorico Paraguassu[xvi] exaltam o “quem brilha mais?”, disputa de vaidades. Fazem fuxico[xvii] na relação dos Andrades, de como, porque e quando se afastaram; claro que é assunto relevante para o entendimento da relação pessoal, das influências recíprocas e com terceiros, de um grupo social que protagonizou na cultura uma revolução necessária e inovadora.

Ao “Prefácio Interessantíssimo”, seguem-se os vinte e um versos e Pauliceia Desvairada se encerra com o “Oratório Profano: Enfibraturas do Ipiranga”, uma sátira crítica da sociedade cem anos depois da “independência” e trinta e poucos anos depois da “abolição” da “escravidão” e da fundação da “república”.

 

Premonição, pressentimento, premeditação, planejamento

Há premeditação da parte de Mário de Andrade e seus amigos. Importante perceber a organicidade e os movimentos. “Quem teve a ideia da Semana? Por mim não sei quem foi, só posso garantir que não fui eu. O mais importante era decidir e poder realizar a ideia. E o autor verdadeiro da Semana de Arte Moderna foi Paulo Prado. E só mesmo uma figura como ele e uma cidade como São Paulo, poderiam fazer o movimento modernista e objetivá-lo na Semana”.[xviii]

No decorrer de 1921, com a sociedade pulsando contradições que desaguariam no ano seguinte, incubaram-se a Semana de fevereiro de 1922 e os versos de Pauliceia Desvairada aos quais Mário de Andrade vai dando luz, inspirado pela cidade, numa linguagem revolucionária na forma e rica no conteúdo.

Os personagens de “As enfibraturas do Ipiranga (Oratório Profano)” têm nomes irônicos que representam o povo, os burgueses, os acadêmicos, os modernistas (“juvenilidades auriverdes”), classes e grupos sociais e o próprio Mario através do personagem denominado “Minha Loucura” [xix], tem orquestra e o número evidentemente absurdo de quinhentos e cinquenta mil cantores. Estava inspirado nas celebrações do “Centenário” da independência e pode ser lido como ópera-bufa ou uma sucessão de esquetes divertidos ou inspiração para o futuro.

Não vou dar spoiler aqui, mas não seria divertido participar no 7 de setembro de 2022- cem anos depois, das “Enfibraturas do Ipiranga”, reencenada? Poderia ficar assim:

Abre-se o espetáculo com a cena “Na aurora do novo dia”.

Juntamos nossa voz aos 550.000 cantores no Anhangabaú, entoamos hinos das torcidas organizadas, vamos Caminhando e cantando as velhas e novas canções revolucionárias, e, finalmente, em uníssono, marchando “ei Bolsonaro vai tomar no cú”. Em seguida, saímos dali para o Planalto, organizados em blocos de escolas de samba, pelotões e bandas.

 

Viva Mário de Andrade: outros rojões comemorativos

Impossível ler o “Prefácio Interessantíssimo” sem suspeitar da existência de pessoa extremamente organizada, que faz fichamentos e cataloga. Tais suspeitas são confirmadas por compilações de textos donde se extraem detalhes de quando e como fazia as fichas e como as teria usado, quando teria iniciado[xx] etc. e pela presença enorme das fichas no legado ora abrigado na Brasiliana USP e na Casa-Museu.[xxi] Guardam além da andradiana publicada, cartas e outros objetos que são em si mesmos uma coleção representativa de uma cultura onde passado e futuro se amalgamavam, e ele, Mário de Andrade, foi ao mesmo tempo pedreiro e massa dessa obra.

Desde cedo atendeu ao chamado interior que o levou a escrever e a se interessar por manifestações artísticas. É intelectual orgânico na mesma medida que a permanência de sua obra fala da vigência das buscas que realizou, seja como artista que escreveu obras-primas, seja como pesquisador, que se destacou na constituição de acervos relevantes, jogando no primeiro time, junto com Câmara Cascudo e com outros. Sua práxis incluiu além da escrita, atuação nos órgãos do Estado que, em 1935 fundou o Departamento (que depois se tornaria a Secretaria) de Cultura da Cidade semeando bibliotecas e jardins de infância e, depois, no governo Federal, no Serviço do Patrimônio Histórico Nacional. Além do mais um ser humano com muitos amigos; filho e sobrinho afetuoso, correspondente assíduo e prolífico, cuidadoso com seus arquivos.

Ao leitor que sinta o ímpeto de copiá-lo informa na abertura do Prefácio Interessantíssimo: “Leitor: Está fundado o Desvairismo” e dez páginas depois finaliza com: “E está acabada a escola poética. “Desvairismo”. Próximo livro fundarei outra. E não quero discípulos. Em arte: escola = imbecilidade de muitos para vaidade dum só. Poderia ter citado Gorch Fock. Evitava o Prefácio Interessantíssimo. “Toda canção de liberdade vem do cárcere””.

Assim termina o Desvairismo de Mário de Andrade que assume, na primeira pessoa do singular, os riscos do ridículo e afirma posições que serão adotadas pela vanguarda política e estética de sua época. Pessoa corajosa. Os anos seguintes mostrariam trajetória de incansável e qualificada contribuição para a causa da cultura e das artes.

Tão grande é sua obra e tantos são os estudiosos dedicados a ela que obrigo a revelar-me como amador recém-chegado. Mesmo assim peço licença aos conhecedores para recomendar a safra de 1927-28 em que, entre outras publicações, saíram Amar: verbo intransitivo,[xxii] O turista aprendiz,[xxiii] e o (nunca suficientemente celebrado, lido e conhecido, como é engraçado e multifacetado) Macunaíma.[xxiv]

Faleceu em 1945, dia 25 de fevereiro, em meio a elaboração de Meditações sobre o Tietê. Bem que a gente podia fazer deste próximo 25 o Macunaíma Day…

*Roberto Regensteiner é professor, escritor, e consultor em Gestão & Tecnologia de Informação.

 

Notas


[i] Carvão e pastel sobre papel, c.i.d.; 45,50 cm x 61,00 c ;

Coleção de Artes Visuais do Instituto de Estudos Brasileiros – USP https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra1372/o-homem-amarelo-1-versao

[ii] https://pt.wikipedia.org/wiki/Paranoia_ou_Mistifica%C3%A7%C3%A3o%3F

[iii] Paiva, Theotonio, Nota Introdutória In: https://outraspalavras.net/sem-categoria/a-exposicao-anita-malfatti/#sdendnote2sym.

[iv] “O artigo “contra” de Monteiro Lobato, embora fosse apenas uma baladilha zangadinha, sacudiu uma população, modificou uma vida”, https://outraspalavras.net/sem-categoria/a-exposicao-anita-malfatti

[v] https://outraspalavras.net/poeticas/o-movimento-modernista-20-anos-depois/.

[vi] Sublinho para enfatizar o psicológico subjacente entre um pseudônimo e o próprio nome. Em 1917 havia publicado Há uma gota de sangue em cada poema sob o pseudônimo de Mário Sobral.

[vii] “A curta mensagem datilografada [de Monteiro Lobato] em papel timbrado, datada de 17 de setembro de 1921, exagera na justificativa da recusa. Elogia de modo enviesado, estrategicamente, livrando-se do compromisso apalavrado: “fiquei sem coragem de editá-la. Está uma coisa tão revolucionária que é capaz de indignar a minha clientela burguesa e fazê-los lançar terrível anátema sobre todas as produções da casa, levando-nos à falência. Não sou dos menos corajosos, mas confesso que neste caso a coragem falece-me por completo… Acho que o melhor é tu mesmo editares o vermelho grito de guerra” (p.180). In: Moraes, Marcos Antonio de. Pauliceia desvairada nas malhas da memória. In O eixo e a roda, Belo Horizonte, pp 178-179. v. 24, n.2, p. 173-193, 201

[viii] https://livreopiniaoportal.files.wordpress.com/2015/06/baud_pauliceia.jpg.

[ix] Moraes, Marcos Antonio de. Idem, ibidem

[x] V. http://casamariodeandrade.org.br/morada-coracao-perdido/# site imperdível com excelente organização do material sobre Mario, inclusive desenhos e fotos do artista e com ele.

[xi] Magalhães, Hilda Gomes Dutra. Tradição e modernismo em Prefácio Interessantíssimo de Mário de Andrade (UFMT) in: https://core.ac.uk/download/pdf/229911964.pdf

“Como se pode observar, a estética de Mário de Andrade é engendrada através de um processo altamente dialógico, em que artistas e teóricos das Letras, da Música e da Pintura são resgatados com o fim de servir à legitimação da obra de vanguarda do poeta. Seja através de alusões, seja através de citações, povoam as páginas de “Prefácio interessantíssimo” os nomes Delacroix, Whistler, Rafael, Ingres, Grecco, Rodin, Debussy, Palestrina, João Sebastião Bach, Maomé, Alá, São João Evangelista, Walt Whitman, Mallarmé, Verhaeren, Leonardo, Laurindo de Brito, Martins Fontes, Paulo Setúbal , Vicente de Carvalho, Francisca Júlia, Marinetti, Oswald de Andrade, Watteau, João Epstein, Edislas Milner, Shakeaspeare, Taine, Luis Carlos (Prestes), Anita Malfatti, Emílio Bayard, Rafael, Beethoven, Machado de Assis, Fichte, Musset, Pedro Álvares Cabral, Virgílio, Homero, Adão, Victor Hugo, Rigoletto, Galli, Pitágoras, G. Migot, Bilac, Gorch Fock, Heine, Gonçalves Dias, Rostand, Amadeu Amaral, Ribot, Renan, Wagner, Freud, Nun’Álvares, Gourmont, Rui Barbosa, João Cocteau. São relembradas também as obras Memórias póstumas de Brás Cubas, I-Juca-Pirama, Promenades Littèraires, La noce massacrèe, Tarde e Só quem ama. (Olavo Bilac).

Além dos referenciais acima, vale ressaltar que são discutidas no prefácio teorias do Futurismo, Impressionismo, Modernismo, Parnasianismo, Surrealismo, bem como conceitos já conhecidos sobre o feio e o belo estético”.

[xii] “E eram aquelas fugas desabaladas dentro da noite, na cadillac verde de Osvaldo de Andrade, para ir ler as nossas obras-primas em Santos, no Alto da Serra, na Ilha das Palmas… E os nossos encontros à tardinha na redação de Papel e Tinta… E a falange engrossando com Sérgio Milliet e Rubens Borba de Morais, chegados da Europa… E a adesão, no Rio, de um Manuel Bandeira… E as convulsões de idealismo a que nos levava o Homem e a Morte de Menotti del Picchia… E o descobrimento assombrado de que existiam em São Paulo, quadros de Lasar Segall, já muito querido através de revistas de arte alemãs… E Di Cavalcanti, um dos homens mais inteligentes que conheci, com os seus desenhos já então duma acidez destruidora. Tudo gênios, tudo obras-primas geniais… Apenas Sérgio Milliet punha um certo mal-estar no incêndio com a sua serenidade equilibrada… E o filósofo do grupo, Couto de Barros, pingando ilhas de consciência em nós, quando no meio da discussão, perguntava mansinho: – Mas qual é o critério que você tem da palavra “essencial”, ou – ‘Mas qual é o conceito que você faz do “belo horrível”…” In: https://outraspalavras.net/poeticas/o-movimento-modernista-20-anos-depois/

[xiii] “Não sou futurista (de Marinetti). Disse e repito-o. Tenho pontos de contacto com o futurismo. Oswald de Andrade, chamando-me de futurista, errou. A culpa é minha. Sabia da existência do artigo e deixei que saísse…” e adiante: “Marinetti foi grande quando redescobriu o poder sugestivo, associativo, simbólico, universal, musical da palavra em liberdade. Aliás: velha como Adão. Marinetti errou: fez dela sistema. É apenas auxiliar poderosíssimo. Uso palavras em liberdade. Sinto que o meu copo é grande demais para mim, e inda bebo no copo dos outros”

[xiv] O que seria de São Paulo sem os baianos ? Obrigado Tom Zé pelo “…meu amor”, obrigado Caetano pela canção, obrigado Gilberto Gil e todos os baianos aqui chegados.

[xv] Exemplo desta postura rebaixada é o texto de Ruy Castro: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2022/01/a-semana-um-menos-um.shtml

[xvi] Personagem imortal de Dias Gomes encarnado pelo inigualável Paulo Gracindo.

[xvii] Destaca-se nesta seara o sr. Ruy Castro com seus artigos na p. 2 da Folha de São Paulo onde dá curso a comentários rasos mais apropriados à Revista Caras.

[xviii] https://outraspalavras.net/poeticas/o-movimento-modernista-20-anos-depois/ Cap.1.

[xix] “Minha Loucura” é uma voz presente também em vários momentos, nos versos que antecedem esse gran finale que encerra o livro do artista cuidadoso com os detalhes.

[xx] Figueiredo, Tatiana Longo “As primeiras fichas do modernista Mário de Andrade” Mário de Andrade “determinou, em uma carta-testamento ao irmão, que a correspondência por ele recebida fosse fechada e lacrada por cinquenta anos depois de sua morte, que ocorreu em 1945. Arquivo, biblioteca e coleção de artes do escritor foram adquiridos pela Universidade de São Paulo em 1968 e conservados no Instituto de Estudos Brasileiros. A partir de 1995, decorrido o prazo da interdição, a equipe coordenada pela Profª. Telê Ancona Lopez realizou o processamento arquivístico da Série Correspondência de Mário de Andrade, tendo em vista a sua extroversão, em pesquisas subvencionadas pelo BID, VITAE, CAPES e FAPESP

[xxi] Excelente o cuidado, manutenção e educativo constatados na visitação à Casa-Museu na Rua Lopez Chavez na Barra Funda, bem como o próprio site http://casamariodeandrade.org.br/ com excelente integração dos assuntos e fotografias fantásticas. Muitíssimo útil a Cronologia Mário de Andrade: vida e obra, por Telê Ancona Lopez e Equipe Mário de Andrade do IEB-USP integrando os fatos e recuperando a referência aos mesmos dentro da obra.

[xxii] Amar – verbo intransitivo um bom romance que deu bom filme. O título é provocativo (Será que o verbo amar não precisa de objeto? Que amor é esse de que fala Mário de Andrade ?). A trama expõe retrato fidedigno de comportamentos que colhido nos interiores das casas abastadas e remediadas das famílias com quem conviveu nas moradias da Rua Aurora, Largo Paissandu, Barra Funda no início do século XX, e nas aulas de alemão com uma jovem senhora. Talvez tenha ela lhe contado casos. Seja como for, o enredo expõe as cenas e situações em que uma Fraulein é contratada por um respeitável burguês para iniciar sexualmente seu primogênito a fim de evitar que fosse presa fácil de alguma aventureira interesseira e casadoira que ameaçasse o patrimônio. Tal iniciação se daria sob as aparências de ser ela uma professora particular. O romance traz farto material para se constatar a hipocrisia que dissocia amor e sexualidade em nome do interesse patrimonial, que caracteriza certo capitalismo machista em que o homem quer submeter a mulher mediante o uso do dinheiro, mas isto é conversa para outro capítulo.

[xxiii] O turista aprendiz, também de 1927, relatando viagens ao Rio Grande do Norte, ao Pará, ao Amazonas . No RN confraternizou com Câmara Cascudo, outro campeão da cultura, que dicionarizou e historicizou dos gestos à mitologia passando pela comida com sua maravilhosa História da Alimentação. O encontro daqueles dois deve ter sido o da fome com a vontade de comer. Diz-se que Câmara levou-o a todas as partes e melhor guia que ele não poderia haver.

Nas viagens o vanguardista Mário de Andrade experimentou com fotografia e captação de sons. Vi em algum lugar que, muito tempo depois, no segundo lustro dos anos 1930, durante ou depois de sua passagem como secretário de cultura de SP, Mário de Andrade doaria o que era então a maior coleção de discos do hemisfério sul (onde estará sendo cuidada tamanha preciosidade?). O Turista foi publicado primeiro como coluna de jornal, e depois como livro. Retrata, em texto e fotografias (atividade na qual foi precursor) a viagem ao Pará, ao (maravilhoso Mercado) Ver-o-Peso, a viagem de semanas ao longo do Amazonas por barco até o Peru, as populações ribeirinhas, as criancinhas indígenas, colecionando fotos, registrando fichas, um ser atentíssimo ao entorno, garimpeiro de palavras, suas etimologias e pronúncias.

[xxiv] Sobre Macunaíma. Não sei ao certo quando MdA teve contato com a obra do alemão Theodor Koch-Grunberg, que “Viajou várias vezes pelo Brasil, a primeira delas em 1896, como membro da expedição liderada por Hermann Meyer, que buscava alcançar a foz do Rio Xingu. Entre 1903 e 1905 explorou o Rio Japurá e o Rio Negro, chegando até a fronteira da Venezuela. Essa viagem está documentada e ilustrada com inúmeras fotografias nos dois volumes da obra Zwei Jahre Unter Den Indianern. Reisen in Nord West Brasilien, 1903-1905. (Dois anos entre os índios. Viagens no noroeste do Brasil, 1903-1905). Sua segunda expedição importante começou em 1911, partindo de Manaus até o Rio Branco e de lá para a Venezuela. Em 1913 chegou ao Rio Orinoco depois de explorar nesse percurso, a pé e de canoa, várias regiões ainda hoje de difícil acesso. Ao voltar a Manaus, escreveu seu livro mais importante, Vom Roraima Zum Orinoco (De Roraima ao Orinoco), publicado em 1917.

Sua contribuição é fundamental para o estudo dos povos indígenas da Amazônia, seus mitos e suas lendas. Suas observações e relatos de viagem constituem uma importante fonte para a antropologia, a etnologia e a história indígena”. In: https://www.oexplorador.com.br/theodor-koch-grunberg-foi-um-grande-etnologo-e-explorador-da-america-do-sul/.

Sei que já em 1923 MdA teve aulas particulares de alemão e antes disto iniciou suas leituras nessa língua. Estava interessado em vários autores como se depreende do Prefácio Interessantíssimo de 1922. O fato é que Macunaíma é obra-prima. Cada um que faça sua leitura e escolha as camadas do enredo e suas narrativas dentro de um universo denso de possibilidades interpretativas. Minha leitura é a de um personagem-síntese, ser mitológico brasileiro em que MdA amalgamou fortes fragmentos da multifacetada nacionalidade, das cosmogonias várias e misturadas, com destaque para as indígenas; que percorre todos os biomas, escancara as sexualidades desenvergonhadas e por aí vai desnudando a alma e os falares.

A cereja do bolo é o herói da nossa gente e seu bordão “Ai, que preguiça!”, representação de um povo ancestral genialmente personificada por Grande Otelo no filme de 1969. O “sem nenhum caráter” do herói pode ser compreendido como o de um caráter em formação, da constituição de um povo brasileiro ideal. Macunaíma oferece um banquete de temas para reflexão. Mostra uma excelência de autor de alto-padrão. Razões não faltam para que tenhamos “fins de semana Mário de Andrade” assim como anualmente há a celebração de Joyce.

Faço uma ressalva a MdA, quando afirma ter escrito Macunaíma em 6 dias na chácara do Tio Pio, em Araraquara, para onde levara apenas o essencial, que escrevera num jorro só aquele livro com mais de cem páginas… Me é difícil acreditar em tanta produtividade mesmo considerando que tenha levado prontos muitos fichamentos, entre os quais saborosíssimas coleções de sinônimos espargidas pelo livro como saborosos temperos.

Dou aqui, de aperitivo, aos leitores, sinônimos de dinheiro (alguns ainda em voga a despeito da inflação e das mudanças de moeda) oferecidos ao leitor quando Macunaíma e seus irmãos adentram: “…terras do igarapé Tietê adonde o bourbon vogava e a moeda tradicional não era mais cacau, em vez chamava arame contos contecos milréis borós tostão duzentorréis quinhentorréis cinquenta paus, noventa bagarotes e pelegas cobras xenxéns caraminguás selos bico-de-coruja massuni bolada calcáreo gimbra siridó bicha e pataracos assim, adonde até liga pra meia ninguém comprava nem por vinte mil cacaus. Macunaíma ficou muito contrariado. Ter de trabucar, ele, herói…. Murmurou desolado: -Ai! que preguiça!…” (Cap V).

Para quem gosta de sinônimos e dos linguajares brasileiros Macunaíma traz pratos cheios.