As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

A economia do tempo

Imagem: Francesco Ungaro
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por GUILHERME PREGER*

A força da teoria marxista foi colocar o fundamento do valor social no emprego do tempo

Pela teoria dos sistemas, a economia é um sistema social autopoiético[i] cujo meio (medium) é o emprego, isto é, o emprego do tempo.[ii] A distinção do emprego do meio para a economia é entre tempo livre/ocupado. Esta concepção compatibiliza a teoria dos sistemas com a teoria marxista, pois é possível provar que, para Karl Marx, o “trabalho” (Arbeit) como fundamento da economia é basicamente uma variável temporal (horas trabalhadas).[iii]

No entanto, Marx vê o capitalismo como um sistema cuja principal forma é a mercadoria (e não o dinheiro, que é apenas uma das “metamorfoses” da mercadoria). A mercadoria para Marx é uma forma de dois lados. O lado de dentro (capitalista) é o “valor de troca”; o lado de fora (não capitalista) é o “valor de uso”. Assim, entendemos a produção técnica em Marx como uma interface do sistema capitalista com o “mundo de fora” do sistema capitalista, que é o mundo da vida do trabalhador, pois a técnica é aquilo que regula os valores de uso dos objetos produzidos. Karl Marx também associou o valor de uso ao tempo pelo seu “consumo”, mas com outra temporalidade.

Pela ideologia do sistema capitalista, todo “valor de troca” (o lado interno da forma-mercadoria) corresponde à troca de equivalentes. A equivalência das trocas é o principal argumento clássico para a tendência do mercado ao equilíbrio econômico e à justeza das transações. Boa parte de O capital se esforça em desmentir esta tese. É por isso que Marx elabora o conceito de “mais-valia”, assinalando com isso precisamente que não há equivalência nas trocas do sistema capitalista.

A razão é que o “tempo” é uma variável que não permite equivalência de troca. Pela segunda lei da termodinâmica o tempo não admite reversibilidade, o que significa que ele “não se conserva”; portanto, o capitalismo como sistema econômico baseado no emprego do tempo não pode estar baseado numa troca de equivalentes. Marx então prova a “falsidade” da tese liberal do equilíbrio econômico pela não equivalência das trocas.

A mais-valia é entendida em Marx de forma absoluta (exploração direta do trabalho) ou relativa (exploração pela produtividade do trabalho) pela absorção de valor das horas realmente trabalhadas pelo trabalhador. Tal valor reflete a resolução entre “tempo livre/ocupado” observada pelo lado do trabalhador (ou seja, pelo lado do mundo da vida). Porém, o sistema capitalista só reconhece a mercadoria e suas respectivas “metamorfoses” como suas formas básicas (BELLUZZO, 2013). Como o valor de troca é assumido o mesmo da produção ao consumo, a questão temporal interna ao sistema deve ser observada por outra perspectiva, aquela do capitalista.

A questão temporal pela perspectiva do sistema capitalista entra através da consideração da duração do circuito econômico (D-M-P-M’-D’),[iv] ou seja, o circuito se faz do investimento de capital (D) até a sua realização em dinheiro (D’). É interesse do capitalista reduzir ao máximo a duração desse circuito. Ao mesmo tempo, o reinvestimento de capital (D’-D) inicia outro ciclo. Portanto, a redução na duração do circuito individual permite maior número de ciclos anuais. Se um ciclo durava um ano, mas pelo desenvolvimento produtivo ele passa a ser realizado em seis meses, isso significa que no mesmo período de um ano quando havia um ciclo agora há dois. A redução temporal do circuito à metade duplicou a frequência dos ciclos. Quanto maior a quantidade de ciclos, maior a mais-valia acumulada, pois só após a realização completa do circuito é que o capitalista tem o retorno de seu investimento (D’).

No entanto, este processo tem a sua “contradição”. Exatamente porque a redução temporal de um circuito unitário aumenta a frequência dos ciclos, isso gera uma sobrecarga sobre o setor de realização, que basicamente é o setor terciário de comercialização. É esta contradição que gera os problemas da “superprodução”. Um ciclo não deveria começar antes de outro terminar, e a sobreposição dos ciclos satura (“estressa”) o setor terciário responsável por sua realização.

Na atual virada digital da economia pela sua “plataformização”, a duração temporal de um ciclo individual foi substancialmente reduzida pela economia de tempo obtida pela racionalização da logística digital, e pela maior adequação entre a oferta e a demanda dos produtos.[v] A consequência desse avanço técnico é o aumento da frequência dos ciclos, gerando maiores sobrecargas no setor varejista.

É possível especular que o aumento da intensidade da reprodução dos ciclos sobre o setor varejista e sua saturação é uma das principais causas do recrudescimento da extrema direita em termos políticos globais, pois esse movimento, como muitos estudos demonstram, é composto sobretudo pela assim chamada classe “pequeno-burguesa”, que basicamente é a classe dos comerciantes. No caso brasileiro, a ascensão da burguesia varejista no bolsonarismo é caso notável e pacífico. Não desenvolverei essa tese neste artigo; no entanto, observo que tal setor do capitalismo costumava ser o menos privilegiado na acumulação de capital, mas ganhou maior importância sistêmica face justamente ao aumento da frequência dos ciclos produtivos.

Outra consequência antevista do aumento na “rotação” dos ciclos é simplesmente aquilo que entendemos pela “aceleração” do sistema. O sistema está “rodando” mais rápido. Mas essa aceleração tem um custo de entropia que prejudica a questão do “aquecimento global”. Quanto mais rápida é a rotação do sistema capitalista pela frequência de seus ciclos de produção, maior a entropia despejada no ambiente por esse processo. Como o sistema é “alimentado” majoritariamente por combustíveis fósseis, isso se traduz em aquecimento global. Tal é uma preocupação ecológica resultante da aceleração do sistema que merece um artigo exclusivo.

O que importa aqui assinalar como conclusão é que o sistema capitalista literalmente “consome tempo social”. Se a economia é de fato a organização do emprego do tempo, como defendi no início deste artigo, a repetição contínua e mais acelerada dos ciclos econômicos capitalistas mantém a permanente “ocupação” do tempo do trabalho. A produtividade técnica deveria reduzir o tempo ocupado e ampliar o tempo livre dos trabalhadores, mas não é isso o que acontece. Pela mais-valia absoluta, o tempo livre se transforma em desemprego; pela mais-valia relativa (aumento de produtividade), o tempo ocupado do trabalhador permanece o mesmo enquanto a produção aumenta.

O desemprego se torna o problema central do sistema econômico, pois significa que a sociedade não está alocando racionalmente seus recursos temporais, que são finitos pois limitados pela jornada diária de vinte quatro horas. O trabalhador não tem como opção determinar a forma de seu tempo livre; todo seu tempo é “ocupado” pelo desemprego (isto é, na luta pela subsistência).

Karl Marx entendeu o chamado “reino da liberdade” com base em sua concepção de tempo livre. Friedrich Engels famosamente afirmou que a liberdade é o conhecimento da necessidade. A força da teoria marxista foi colocar o fundamento do valor social no emprego do tempo, isto é, pela capacidade de distinguir entre o tempo da liberdade e o da necessidade. Por tal razão, sustento que, ao contrário da voga “aceleracionista”, o comunismo na concepção marxista não significa o aumento irrestrito da riqueza social e a justa distribuição dos maiores excedentes produtivos pelo domínio do aparato técnico pelos trabalhadores.

O comunismo representaria antes uma sociedade sem excedentes, na qual só se produziria o necessário. Ou seja, seria a redução pelo ganho da produtividade técnica do “tempo ocupado” na vida dos trabalhadores. A ausência de desemprego numa sociedade comunista seria o direito social a cada trabalhador de administrar seu tempo livre, minimizado seu tempo ocupado, isto é, seu tempo de trabalho socialmente necessário.

*Guilherme Preger é doutor em teoria da literatura pela UERJ. É autor de Fábulas da Ciência: discurso científico e fabulação especulativas (Ed. Gramma).

Referências


BACHUR, João Paulo. Às portas do labirinto. Para uma recepção crítica da teoria social de Niklas Luhmann. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2010.

BELLUZZO, Luiz Gonzaga. O Capital e suas metamorfoses. São Paulo: Unesp, 2013.

DANTAS, Marcos et alii. O Valor da Informação. De como o capital se apropria do trabalho social na era do espetáculo e da internet. São Paulo: Boitempo, 2022.

HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005.

LUHMANN, Niklas. Social Systems. Stanford, California. Stanford University Press, 1995.

MENDONÇA DA SILVA, Edson. Para uma constituição da categoria capital: comentários sobre as metamorfoses e os ciclos do capital no Livro II de O Capital de Marx. Anais do XXIII Encontro Nacional de Economia Política, 2019. Disponível em https://sep.org.br/anais/2019/Sessoes-Ordinarias/Sessao1.Mesas1_10/Mesa1/013.pdf.

PREGER, Guilherme. Da economia circular à ecologia das redes: as vantagens comparativas da transformação digital para a Economia Solidária. Anais do XVIII Colóquio Habermas e IX Colóquio de Filosofia da informação, 2022. Disponível em https://www.academia.edu/93413690/DA_ECONOMIA_CIRCULAR_%C3%80_ECOLOGIA_DAS_REDES_AS_VANTAGENS_COMPARATIVAS_DA_TRANSFORMA%C3%87%C3%83O_DIGITAL_PARA_A_ECONOMIA_SOLID%C3%81RIA.

Notas


[i] A Teoria dos Sistemas Sociais é uma teoria ampla, em geral atribuída ao nome de Talcott Parsons. Sua versão autopoiética se refere particularmente à extensa obra de Niklas Luhmann (1995).

[ii] Esta afirmação, de minha autoria, é heterodoxa e controversa na recepção da obra luhmaniana. Luhmann caracteriza o subsistema funcional da economia tendo como medium o dinheiro e a distinção básica entre pagamento/não pagamento. Na minha perspectiva isso reduziria o sistema econômico ao sistema monetário. Adicionalmente, não considero que a variável dinheiro seja “autopoiética”, capaz de se autorreproduzir. A caracterização do sistema econômico como sistema monetário torna a obra de Luhmann incompatível com a perspectiva marxista. Esta relação é estudada por João Paulo Bachur (2010). Bachur considera que a diferenciação funcional e o capitalismo se equivalem como descrições históricas. Este artigo é uma contestação desta posição. Se o medium do sistema econômico, no entanto, for considerado como o emprego do tempo, neste caso torna-se possível compatibilizar Luhmann e Marx. A variável tempo é naturalmente autorreferencial, pois a distinção para o emprego do tempo consome tempo. Daí que seja possível distinguir um sistema autopoiético baseado na distinção entre tempo livre e ocupado, que é precisamente a distinção do emprego.

[iii] Desenvolvo essa tese em recente artigo (PREGER, 2022). Embora não explicitamente, Marx considera o trabalho como variável principal da economia de maneira diferente daquela do modelo ricardiano em que se baseou. Para David Ricardo e a teoria clássica, o trabalho é observado pela primeira lei da termodinâmica como transformação de energia e, portanto, é uma variável que se conserva ao longo do processo produtivo. Mas Marx considera que o trabalho é antes relação e não substância. Esta relação é temporal (baseada nas horas trabalhadas). Com isso, Marx chegou à conclusão de que o valor do trabalho não se conserva na produção. Apesar de não ter explicitado a dependência de sua concepção da segunda lei da termodinâmica (que ainda estava em formulação enquanto Marx escrevia sua obra magna), o trabalho é observado na teoria marxista como fonte de organização social e, portanto, como redução da entropia. Como sabido, pela segunda lei da termodinâmica a entropia não se conserva, apenas aumenta. O trabalho assim contraria a tendência do aumento de entropia. O tempo é a variável entrópica por excelência, pois quanto mais o tempo passa maior é a entropia.

[iv] Descrição do circuito clássico da teoria marxista, onde D é o dinheiro investido na aquisição de mercadorias (M). P é o processo de produção que realiza a transformação M-M’. D’ é o acréscimo de dinheiro obtido na realização do circuito. D-D’ é a transformação relativa à mais-valia, como acumulação de capital. Conferir MENDONÇA DA SILVA, 2019.

[v] Conferir a análise de DANTAS, 2022 sobre os efeitos da digitalização das plataformas sobre a redução do circuito econômico capitalista.

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Yuri Martins-Fontes Flávio Aguiar Dênis de Moraes Daniel Afonso da Silva Marcelo Guimarães Lima Armando Boito Alexandre de Lima Castro Tranjan Denilson Cordeiro Fábio Konder Comparato Tarso Genro Julian Rodrigues Michael Löwy Jorge Luiz Souto Maior Ricardo Fabbrini Tadeu Valadares Paulo Capel Narvai Marcos Aurélio da Silva Eliziário Andrade Henry Burnett Walnice Nogueira Galvão Eugênio Trivinho Plínio de Arruda Sampaio Jr. Marcelo Módolo Lincoln Secco Carlos Tautz Francisco Fernandes Ladeira José Luís Fiori Antonio Martins Antônio Sales Rios Neto Leonardo Avritzer Luiz Werneck Vianna Luiz Eduardo Soares Marilena Chauí Jorge Branco João Lanari Bo Benicio Viero Schmidt Samuel Kilsztajn Vinício Carrilho Martinez Sergio Amadeu da Silveira José Dirceu Eugênio Bucci Henri Acselrad Ronald Rocha Alexandre de Freitas Barbosa Michael Roberts Atilio A. Boron Sandra Bitencourt Osvaldo Coggiola Jean Marc Von Der Weid Thomas Piketty Luis Felipe Miguel João Paulo Ayub Fonseca Claudio Katz Heraldo Campos Rodrigo de Faria José Machado Moita Neto Francisco Pereira de Farias André Márcio Neves Soares João Carlos Salles José Micaelson Lacerda Morais Marjorie C. Marona Lucas Fiaschetti Estevez Leonardo Boff Daniel Costa Fernando Nogueira da Costa Ricardo Antunes Celso Frederico Luciano Nascimento José Costa Júnior Roberto Noritomi Paulo Nogueira Batista Jr Vladimir Safatle Luiz Costa Lima Fernão Pessoa Ramos João Feres Júnior Paulo Sérgio Pinheiro Ari Marcelo Solon José Raimundo Trindade Manchetômetro Afrânio Catani Milton Pinheiro Bruno Machado Francisco de Oliveira Barros Júnior Vanderlei Tenório Annateresa Fabris Luiz Carlos Bresser-Pereira Érico Andrade Flávio R. Kothe Valério Arcary Luiz Roberto Alves Bernardo Ricupero Liszt Vieira André Singer Manuel Domingos Neto Mariarosaria Fabris Priscila Figueiredo Tales Ab'Sáber Alysson Leandro Mascaro Ricardo Musse Ronald León Núñez Gilberto Maringoni Lorenzo Vitral João Sette Whitaker Ferreira Gerson Almeida Valerio Arcary Boaventura de Sousa Santos Maria Rita Kehl Otaviano Helene João Carlos Loebens Salem Nasser Marcos Silva Rubens Pinto Lyra Ladislau Dowbor Caio Bugiato Berenice Bento Marcus Ianoni Leonardo Sacramento Alexandre Aragão de Albuquerque Rafael R. Ioris Anselm Jappe Renato Dagnino Celso Favaretto Luiz Bernardo Pericás Antonino Infranca Daniel Brazil Jean Pierre Chauvin Eleutério F. S. Prado Eduardo Borges Marilia Pacheco Fiorillo Airton Paschoa Igor Felippe Santos Bruno Fabricio Alcebino da Silva Chico Alencar Dennis Oliveira Luiz Renato Martins Mário Maestri Juarez Guimarães Slavoj Žižek Ricardo Abramovay João Adolfo Hansen Luís Fernando Vitagliano Roberto Bueno Elias Jabbour Bento Prado Jr. Leda Maria Paulani Chico Whitaker Eleonora Albano Anderson Alves Esteves Everaldo de Oliveira Andrade Remy José Fontana Andrew Korybko Gilberto Lopes Carla Teixeira Luiz Marques Paulo Martins José Geraldo Couto Kátia Gerab Baggio Paulo Fernandes Silveira Ronaldo Tadeu de Souza Gabriel Cohn

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada