As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Faroestes

Imagem: Jan van der Zee
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO*

O gênero deu frutos para além do cinema norte-americano

O grande Akira Kurosawa da saga samurai confessava buscar inspiração nos faroestes norte-americanos – sem falar em muito Shakespeare também, é claro. O caubói, como é sabido, encarna um dos mitos do American dream: individualismo, iniciativa privada, exercício pessoal da violência, um simulacro de liberdade nas cavalgadas sem rumo pelos ermos etc.

Mas depois do extraordinário sucesso de Akira Kurosawa, Hollywood passou a fazer releituras de seus filmes, revertendo influências. O primeiro impacto, causado por Os sete samurais (1954), seria perdurável. Surgiriam muitos filmes como Os 47 ronins, com Keanu Reeves, e O último samurai, com Tom Cruise, este mais um peculiar entrecho de branco que chega lá no Japão e derrota todos os japoneses nas artes marciais que eles inventaram e praticam…

Afora o japonês, o faroeste deu frutos no cinema italiano e no brasileiro. Sergio Leone, criador do spaghetti western, dinamitou e ao mesmo tempo renovou o gênero. Clint Eastwood de poncho, mascando suas cigarrilhas, closes de rostos, a aba do chapéu subindo devagar para revelar o olhar coruscante, grandes silêncios e amplos espaços vazios, a câmera às vezes ao nível das botas que avançam passo a passo. E tudo sublinhado pela maravilhosa trilha sonora de Ennio Morricone, que musicou seis dos sete filmes do diretor.

No Brasil, onde o gênero mostra notável vitalidade, já foram feitos e carinhosamente alcunhados de nordesterns cerca de 60 deles, conforme levantamento do pesquisador Luiz Felipe Miranda. E desde píncaros da arte, como Deus e o Diabo na terra do sol e O dragão da maldade contra o santo guerreiro, clássicos de Glauber Rocha, até bobagens de Os Trapalhões. Recente ciclo intitulado Nordestern – bangue-bengue à brasileira, na Cinemateca de São Paulo, reconheceu o realce e a permanência do gênero. Manifestação pioneira foi o famoso curso sobre cangaço, assistido por vários cineastas em embrião, ministrado na Faculdade de Filosofia da rua Maria Antonia, sob os auspícios do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), em 1966.

Mas às vezes o faroeste pode surgir no cinema de ação de Hong Kong, célebre pelos filmes de kungfu, especialmente aqueles estrelados por Bruce Lee, e outros campeões de bilheteria em toda a Ásia. Em Era uma vez na China e na América, cujo título homenageia Sergio Leone, há três grupos de personagens no Velho Oeste: os brancos, os indígenas e os chineses. E, com muito humor, faz um chinês com amnésia ser adotado pela tribo e tornar-se um pele-vermelha. Os bonzinhos são os “de cor”, isto é, os indígenas e os chineses, enquanto os vilões são todos brancos, com exceção de um, que se alia aos bonzinhos. O filme é muito divertido e, como seria de esperar, capricha nas cenas de luta, em que chineses e brancos se enfrentam, os primeiros alçando vôo e rodopiando no karatê, os segundos firmes no boxe.

O protagonista é um ator exemplar, Jet Li, quase tão popular quanto Jackie Chan em toda a Ásia. Não exclusivo das artes marciais, Jet Li atua sob a batuta de diretores premiados em Cannes, Berlim e Veneza, como é o caso de Heroi, dirigido por Zhang Yimou. Um dos maiores cineastas do mundo, pudemos apreciar seus talentos na TV, quando dirigiu o espetacular show de abertura das Olimpíadas de Pequim em 2008.

Contingentes de chineses vieram trabalhar nas Américas entre o final do séc. XIX e o início do XX, especialmente na expansão das redes ferroviárias, como a Western Pacific nos Estados Unidos e a Madeira-Mamoré no Brasil, mas também em outros países em que deixaram sua marca, como Peru e Cuba. Essa diáspora resultou em Chinatowns nas metrópoles do Ocidente – menos, curiosamente, no Brasil. Temos um bairro japonês em São Paulo, a Liberdade, mas nenhuma Chinatown. As condições de trabalho nas ferrovias correspondiam às de escravizados e as estatísticas mostram que os cules morriam como moscas.

Guimarães Rosa não se furtou a tornar um deles, desgarrado no sertão, protagonista de um belo conto, “Orientação” (Tutaméia). Repleto de humor e graça, deriva esses atributos da fricção entre a alta civilização do chinês e a rusticidade de sua amada sertaneja. Vale a pena conferir.

*Walnice Nogueira Galvão é professora Emérita da FFLCH da USP. Autora, entre outros livros, de Lendo e relendo (Sesc\Ouro sobre Azul).


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Atilio A. Boron Luís Fernando Vitagliano Heraldo Campos Samuel Kilsztajn Berenice Bento Anselm Jappe João Paulo Ayub Fonseca Jean Marc Von Der Weid Eleonora Albano Antonino Infranca Elias Jabbour Leda Maria Paulani Luiz Renato Martins Benicio Viero Schmidt Armando Boito Mário Maestri João Feres Júnior Vinício Carrilho Martinez Rubens Pinto Lyra Maria Rita Kehl Bernardo Ricupero Plínio de Arruda Sampaio Jr. Walnice Nogueira Galvão José Luís Fiori Ronald Rocha Henry Burnett Igor Felippe Santos Marcos Silva Osvaldo Coggiola André Singer João Carlos Salles Flávio Aguiar Anderson Alves Esteves João Sette Whitaker Ferreira Celso Frederico João Adolfo Hansen Leonardo Avritzer Valério Arcary Chico Whitaker Priscila Figueiredo Flávio R. Kothe José Micaelson Lacerda Morais Luiz Costa Lima Bruno Fabricio Alcebino da Silva Paulo Sérgio Pinheiro Tadeu Valadares Paulo Martins Lincoln Secco Ronaldo Tadeu de Souza Francisco Pereira de Farias Alexandre de Freitas Barbosa Sergio Amadeu da Silveira Rodrigo de Faria Alexandre Aragão de Albuquerque Paulo Capel Narvai Luis Felipe Miguel Dennis Oliveira Manuel Domingos Neto Luiz Carlos Bresser-Pereira Eduardo Borges Remy José Fontana Paulo Fernandes Silveira Ricardo Fabbrini Thomas Piketty Luiz Bernardo Pericás Eugênio Trivinho José Costa Júnior Afrânio Catani Marilia Pacheco Fiorillo Chico Alencar Milton Pinheiro Henri Acselrad Roberto Bueno Juarez Guimarães Bruno Machado Francisco Fernandes Ladeira José Raimundo Trindade Ari Marcelo Solon Luiz Werneck Vianna Fábio Konder Comparato Eliziário Andrade Jean Pierre Chauvin Celso Favaretto João Carlos Loebens André Márcio Neves Soares Gilberto Lopes Ladislau Dowbor Alysson Leandro Mascaro Andrew Korybko Marcelo Módolo Valerio Arcary Daniel Afonso da Silva Michael Roberts Renato Dagnino Vladimir Safatle Ricardo Antunes Luiz Marques Boaventura de Sousa Santos Gabriel Cohn Luciano Nascimento Julian Rodrigues Otaviano Helene Michael Löwy Kátia Gerab Baggio Lucas Fiaschetti Estevez Carla Teixeira Lorenzo Vitral Leonardo Boff Marcus Ianoni Ricardo Abramovay Everaldo de Oliveira Andrade Antônio Sales Rios Neto Mariarosaria Fabris Luiz Roberto Alves Vanderlei Tenório Denilson Cordeiro Airton Paschoa Yuri Martins-Fontes Dênis de Moraes Claudio Katz Daniel Costa Bento Prado Jr. Caio Bugiato Marilena Chauí Tales Ab'Sáber Francisco de Oliveira Barros Júnior Fernando Nogueira da Costa José Dirceu Daniel Brazil Manchetômetro Alexandre de Lima Castro Tranjan Jorge Luiz Souto Maior Paulo Nogueira Batista Jr Érico Andrade Salem Nasser José Geraldo Couto Annateresa Fabris Jorge Branco Gilberto Maringoni Roberto Noritomi José Machado Moita Neto Fernão Pessoa Ramos Marjorie C. Marona João Lanari Bo Eugênio Bucci Gerson Almeida Liszt Vieira Marcos Aurélio da Silva Rafael R. Ioris Marcelo Guimarães Lima Leonardo Sacramento Carlos Tautz Sandra Bitencourt Tarso Genro Slavoj Žižek Luiz Eduardo Soares Eleutério F. S. Prado Ricardo Musse Ronald León Núñez Antonio Martins

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada