Montaigne

Michelangelo Pistoletto, Vênus dos trapos, instalação, 1967.

Por AFRÂNIO CATANI*

Comentário sobre o livro “Uma temporada com Montaigne”, de Antoine Compagnon

“As palavras são metade de quem fala e metade de quem as ouve”

 

1.

Entre 12h45 e 13h00 o jogo radiofônico Le jeu des mille francs [O jogo dos mil francos] foi apresentado diariamente na emissora de rádio France Inter por Lucien Jeunesse (1918-2008), animador, cantor e ator, durante trinta anos, até 1995, quando se aposentou.

Antoine Compagnon (1950), professor de Literatura Francesa no Collège de France e docente no Blanche W. Knopf de Literatura Francesa e Comparada na Universidade de Columbia, Nova York, especialista em Marcel Proust, romancista e crítico, não perdia uma audição do Le jeu…na adolescência.

Pois bem, Philippe Val o convidou para, nesse mesmo horário e emissora, durante um verão tórrido, enquanto os franceses estavam tomando sol ou bebericando um aperitivo (ou talvez as duas coisas…), para falar todos os dias da semana sobre os Ensaios, de Michel de Montaigne (1533-1592). “A ideia me pareceu muito bizarra; e o desafio, tão arriscado que não ousei esquivar-me” (p. 7), disse Compagnon.

Ele faz sua mea culpa, talvez um pouco longa, mas acho que vale a pena registrar aqui: “Em primeiro lugar, reduzir Montaigne a extratos era absolutamente contrário a tudo o que eu aprendera, às concepções reinantes no meu tempo de estudante. Na época, atacava-se a moral tradicional extraída dos Ensaios em forma de sentenças e pregava-se o retorno ao texto em sua complexidade e suas contradições. Quem se atrevesse a trinchar Montaigne e servi-lo em pedaços teria sido imediatamente ridicularizado, tratado de minus habens, destinado às lixeiras da história como um avatar de Pierre Charron [1541-1603], autor de um Traité de la sagesse [Tratado da sabedoria] feito de máximas tiradas dos Ensaios. Desconsiderar uma proibição dessas ou encontrar um modo de contorná-lo era uma provocação tentadora” (p. 7-8).

Após a mea culpa, Antoine se pergunta como executar a empreitada. Ele mesmo vai tateando a resposta e especulando a respeito: “escolher quarenta passagens de algumas linhas a fim de comentá-las rapidamente e mostrar tanto sua profundidade histórica como seu alcance: o desafio parecia insustentável. Eu deveria escolher as páginas ao acaso, como Santo Agostinho abrindo a Bíblia? Pedir uma mão inocente que as designasse? Ou então, percorrer a galope os temas principais da obra, fazer um apanhado de sua riqueza e diversidade? Ou ainda limitar-me a escolher alguns de meus trechos preferidos, sem preocupação de unidade ou exaustividade? Fiz tudo isso ao mesmo tempo, sem ordem nem premeditação” (p. 8).

Antoine Compagnon utilizou Les essais de Michel de Montaigne (Le Livre de Poche) sob direção de Jean Céard, segundo a edição póstuma de 1595. Por sua vez, a tradução de trechos de Montaigne citados baseou-se na realizada por Rosemary Costhek Abilio, de 2000 (livros I e II) e 2001 (livro III), para a editora Martins Fontes.

 

2.

Na impossibilidade de realizar uma discussão envolvendo a enorme fortuna crítica sobre Montaigne, vou me valer da breve introdução de Conceição Moreira ao seu texto dedicado aos livros, onde lembra que ele “escreve na primeira pessoa do singular e, a partir dos 38 anos, vai escrevendo os Essais” (p. 8). Após a morte do pai, “herda o nome, o castelo e as terras que vai habitar. Dedica-se à escrita e adota a divisa ‘Que sais-je?’”(p. 9). Ele se assume como um homem livre – livre de agir, pensar e ler, sendo que a leitura se constitui no primeiro exercício de reflexão.

Para Montaigne, “a única forma de chegar ao conhecimento verdadeiro é a experiência de vida (…). Os Essais dão corpo ao projeto de refletir acerca de todos os aspectos da vida, numa perspectiva pessoal e individual. As experiências pessoais e cotidianas levam-no a pronunciar-se sobre os problemas religiosos, políticos e sociais do seu tempo, não com o objetivo de os solucionar, mas com a intenção de se descrever e conhecer-se melhor” (p. 10-11).

Contudo, a obra não é um instrumento de glorificação do autor, mas sim, acima de tudo, constitui-se em um “espaço de reflexão de um homem inquieto, alguém que tem coragem de expor ao público o seu pensamento e sujeitá-lo à crítica” (p. 11). Montaigne parece não se importar de nos revelar as suas dúvidas e hesitações, construindo um discurso erudito que é perpassado de citações e ao mesmo tempo marcado pela sua experiência de vida. O estilo que domina os Ensaios é bem coloquial, “constitui o diálogo do autor com outros autores, consigo mesmo e ainda com o leitor” (p. 11-12).

Conceição Moreira acrescenta que o conjunto de suas reflexões vem a ser uma “obra de crise”, sendo as mesmas “destruidoras e libertadoras”, pois “destroem os preconceitos e os pressupostos da cultura europeia do século XVI. Libertam a razão, o homem, mostram que não há apenas um caminho, um critério, uma verdade” (p. 13).

Por fim, para o que interessa ser destacado no presente artigo, a comentarista de Montaigne entende que o mesmo “não poderia antever o curso da história”, embora tenha adivinhado alguns de seus equívocos. “Percebeu que não há saber sem atenção e paixão; só uma relação pessoal e crítica com os livros produz homens verdadeiramente livres; percebeu que não podemos ler todos os livros e que a relação com o saber é um exercício individual. Exercício de leitura, reflexão e recriação. Exercício estético também. Ele ‘sentia’ os seus autores favoritos. Podemos imaginá-lo procurando a citação ideal, escrevendo latim como se fosse francês e ler em voz alta a frase acabada de escrever. Vemo-lo passar os dedos pelo papel, sentir a sua textura, o cheiro da tinta” (p. 14).

 

3.

Cada uma das intervenções de Antoine Compagnon não ultrapassa quatro páginas, aí incluídas transcrições de trechos dos escritos de Montaigne, paráfrases e interpretações. Todavia, a exemplo dos dilemas enfrentados pelo professor e expostos no item inicial, também tive que realizar algumas opções e discutir aqui apenas parte das várias dimensões trabalhadas nas 40 falas pronunciadas ao longo das oito semanas do escaldante verão.

Em “Um homem engajado” Montaigne escreve que, quando um homem público mente uma vez, nunca mais lhe darão crédito. Interpretando o pensador, Antoine Compagnon escreve: “escolheu um expediente contra o tempo e, portanto, fez um mau cálculo” (p. 11). Acrescenta que, segundo o filósofo, “a sinceridade, a fidelidade à palavra dada é uma conduta bem mais compensadora. Se a convicção moral não nos impelir à honestidade, então a razão prática deveria fazê-lo” (p. 12).

“Tudo se move” refere-se ao capítulo “Sobre o arrependimento”, do livro III, onde Montaigne constata que “o mundo não é mais que um perene movimento. Nele todas as coisas se movem sem cessar” ( p. 17). Tudo flui: “Retrato a passagem; não a passagem de uma idade para outra ou de sete em sete anos, como diz o povo, mas de dia para dia, de minuto para minuto”. Ele se limita a anotar como tudo muda o tempo todo. “É um relativista. Pode-se até falar de “perspectivismo”: a cada momento tenho um ponto de vista diferente sobre o mundo. Minha identidade é instável. Montaigne não encontrou um ‘ponto fixo’, mas nunca parou de procurar. Uma imagem expressa sua relação com o mundo: a da equitação, do cavalo sobre o qual o cavaleiro mantém seu equilíbrio, seu assento precário. Assento, eis a palavra. O mundo se move, eu me movo: cabe a mim encontrar meu assento no mundo” (p. 19-20).

“Uma queda do cavalo” é uma das páginas mais comoventes dos Ensaios, com ele no chão, desacordado, longe de seu cinto e de sua espada. “Graças a essa queda de cavalo, Montaigne, antes de Descartes, antes da fenomenologia, antes de Freud, antecipa vários séculos de inquietude sobre a subjetividade, sobre a intenção; e concebe sua própria teoria da identidade – precária, descontínua. Quem já tiver caído do cavalo o compreenderá” (p. 28).

A morte está sempre rondando seus pensamentos, ele sempre retoma esse tema. “Envelhecer apresenta pelo menos uma vantagem: não se morrerá de uma vez só, mas pouco a pouco, parte por parte (…) O dente que cai (…) torna-se um indício de envelhecimento e uma antecipação da morte. Ele o compara com outras falhas que estão afetando seu corpo, uma das quais, como dá a entender, atinge seu ardor viril. Montaigne, antes de Freud, associa o dente e o sexo como sinais de potência – ou de impotência -, quando vem a faltar” (“A perda de um dente”, p. 38).

“O Novo Mundo” mostra que ele acabara de ler os primeiros relatos de crueldade dos colonos espanhóis no México e de “como destruíram selvagemente uma civilização admirável. É um dos primeiros críticos do colonialismo” (p. 44). Entende que o contato com o Velho Mundo “acelerará a evolução do Novo rumo à sua decrepitude, sem rejuvenescer a Europa (…) Não foi sua superioridade moral que conquistou o Novo Mundo, foi sua força bruta que o subjugou” (p. 43).

“Os pesadelos” recupera um pequeno capítulo do livro I, “Sobre a ociosidade”, em que Montaigne descreve as desventuras que se seguiram ao seu afastamento da vida pública  em 1571, aos 38 anos, conforme já mencionado anteriormente. Renunciou ao cargo de conselheiro no Parlamento de Bordeaux e colocou a vida contemplativa acima da vida ativa. Na solidão, “em vez de encontrar seu ponto fixo”, encontrou a angústia e a inquietude. “Essa doença espiritual é a melancolia, ou a acédia – a depressão que atingia os monges na hora da sesta, a hora da tentação” (p. 47). Procurando a sabedoria na solidão, esteve a dois passos da loucura. “Salvou-se, curou-se de suas fantasias e alucinações anotando-as. A escrita dos Ensaios deu-lhe o controle de si mesmo” (p. 48).

“Se fosse para buscar o favor do mundo, eu me teria paramentado com belezas de empréstimo. Quero que me vejam aqui em minha maneira simples, natural e habitual, sem esmero nem artifício: pois é a mim que retrato” (“A boa-fé”, p. 51). Os Ensaios se apresentam assim como um autorretrato, ainda que esse não fosse o projeto inicial do autor, quando se retirou para as suas terras.

A sua biblioteca, em Saint-Michel de Montaigne, na Dordonha, perto de Bergerac, uma larga torre redonda do século XVI, é tudo o que resta do castelo construído por seu pai (p. 57). Lá ele passava a maior parte do tempo que podia – “sua biblioteca era seu refúgio contra a vida doméstica e civil, contra a agitação do mundo e as violências da época” (p. 57). Adorava folhear um livro, e não ler, ditar seus devaneios, e não escrever, “tudo isso sem planejamento, sem sequência nas ideias”. Montaigne “defendia uma leitura versátil, borboleteante, distraída, uma leitura de capricho e de caça furtiva, pulando sem método de um livro para outro, pegando aqui e ali aquilo que queria, sem se preocupar demais com as obras das quais tomava emprestado para guarnecer seu próprio livro. Este, Montaigne insiste, é produto do devaneio, não de um cálculo” (p. 59).

Antoine Compagnon não deixa de mencionar em “O amigo” o encontro de Montaigne com Étienne de La Boétie, em 1558, e a amizade que se seguiu até a morte de La Boétie em 1563 (p. 69). O escritor, em “O outro”, cunhou duas frases que considero lapidares. Se ele olha nos livros, se os comenta, não é para valorizar-se, mas porque se reconhece neles: “Digo os outros somente para assim me dizer mais” – capítulo “Sobre a educação das crianças” (livro I), p. 81. A outra frase encontra-se no último capítulo dos Ensaios: “As palavras são metade de quem fala e metade de quem as ouve” (p. 82).

“A cabeça bem-feita”, para Montaigne, se constitui no oposto à cabeça “bem-cheia”. Ele já protestava contra o “abarrotamento das cabeças” pela escola nos capítulos “Sobre o pedantismo” e “Sobre a educação das crianças”, no livro I dos Ensaios, recriminando o ensino de sua época” (p. 93-94). Antoine Compagnon sintetiza em poucas palavras o pensamento do autor: “a educação (…) visa à apropriação dos saberes: a criança deve torná-los seus, transformá-los em seu juízo” (p. 95). Na emissão radiofônica “Um filósofo fortuito”, aqui transcrita, já na primeira linha pode-se ler que “Montaigne não confiava na educação excessivamente escolar” (p. 97).

No capítulo “Sobre três relacionamentos” compara os três gêneros de convivência que ocuparam a mais bela parte de sua vida: as “mulheres belas e honestas”, as “amizades raras e refinadas” e por fim os livros, “que considera mais proveitosos, mais salutares que as duas primeiras” (p. 105).

Montaigne não gostava dos médicos, dizendo que aqueles que seguem as prescrições dos doutores são mais doentes que os outros, pois “os médicos impõem remédios ou regimes que fazem mais mal do que bem; aos inconvenientes da doença acrescenta os do tratamento; os médicos tornam as pessoas doentes para garantir seu poder sobre elas; os médicos são sofistas que travestem a saúde de prenúncio de uma doença. Em resumo, mais vale ficar longe deles se esperamos permanecer saudáveis” (p. 122).

A medicina na época era tosca e incerta – portanto, Montaigne tinha motivos suficientes para não confiar nela e evitá-la. Entretanto, “uma única técnica médica merecia sua benevolência: a cirurgia, porque cortava o mal pela raiz quando este era incontestável (…) Quanto ao restante, ele não fazia grande distinção entre a medicina e a magia…” (p. 122). Em nome da natureza, Montaigne “elimina a fronteira entre a doença e a saúde”. As doenças fazem parte da natureza; tem sua duração, seu ciclo de vida, ao qual é mais prudente submeter-se em vez de procurar contrariá-lo. A recusa da medicina faz parte da submissão à natureza, portanto, Montaigne modifica o menos possível seus hábitos quando está doente” (p. 123).

Em “A finalidade e o final” recupera-se o que o pensador escreveu no livro I acerca da morte, compreendida como “a finalidade de nossa caminhada”, “e o objeto necessário de nossa mira; se ela nos assusta, como é possível dar um passo à frente sem temor ?” (p. 125). Para ele, o sábio deve controlar suas paixões e, assim, o medo da morte. Antoine Compagnon completa: “Já que é inevitável, é preciso ‘domesticá-la’, habituar-se a ela, pensar nela sempre, a fim de dominar o pavor que esse adversário implacável inspira” (p. 126). Montaigne ironiza essa luta perdida de antemão: “se fosse um inimigo que pudéssemos evitar, eu aconselharia a adotar as armas da covardia”, isto é, fugir (p. 127). Mas, “dividido entre a melancolia e a alegria de viver”, ele tergiversou e voltou a expressar o que já falara no livro I: “Quero (…) que a morte me encontre plantando minhas couves” (p. 128).

“A caçada e a captura” (p. 133-136) dedica-se a trabalhar um aspecto que lhe é bastante caro: “sem expectativa e sem desejo não avançamos com proveito” (p. 135). Então, o prazer de caçar não está na captura, e sim na própria caçada e em tudo que a envolve: “o passeio, a paisagem, a companhia, o exercício. Um caçador que pensa apenas na presa é o que chamam de predador. E Montaigne diria o mesmo de muitas outras atividades (…) tais como a leitura ou o estudo, essas caçadas espirituais das quais às vezes julgamos voltar sem nada, quando na verdade os bons frutos se acumularam ao longo de todo o caminho. Nossa escola, como diz Montaigne, é a do lazer, do otium do homem livre e letrado, do caçador de livros que pode dedicar seu tempo a uma outra ocupação sem objetivo imediato” (p. 135-136).

“O tempo perdido” é o último programa de rádio de Antoine Compagnon que comento aqui. Ele recupera uma passagem do livro II em que Montaigne escreve a seguinte preciosidade: “Ao modelar sobre mim esta figura, tantas vezes tive de me pentear e me arrumar para transcrever-me que o molde se consolidou e de certa maneira formou a si mesmo. Ao pintar-me para os outros, pintei em mim cores mais nítidas do que eram as minhas primeiras. Não fiz meu livro mais do que meu livro me fez” (p. 161).

Para Antoine Compagnon, Montaigne sente certo orgulho de “haver obtido êxito num empreendimento sem precedentes, visto que nenhum outro autor já ambicionara realizar essa identidade total entre o homem e o livro” (p. 162-163). Ele sabe que o fato de escrever, “de se escrever, mudou-o, interiormente e com relação aos outros” (p. 163). Para ele a escrita, acima de tudo, “foi uma distração, um remédio contra o tédio, um socorro contra a melancolia” (p. 164).

Uma temporada com Montaigne é maravilhoso e, talvez, a exemplo de Rayuela [O jogo da amarelinha] (1963), de Julio Cortázar, o livro de Antoine Compagnon pode ser lido de forma “desordenada”, sem um caminho ou sequência ideal. Antoine Compagnon nos mostra o prazer que Montaigne experimenta enquanto escreve os Ensaios, conforme foi destacado em várias oportunidades em meu comentário. O ato de se movimentar, de pesquisar, de flanar entre os livros e as ideias é tão ou mais importante que sua escrita. Não chega a ser um exagero recuperar, acerca do labor de Montaigne, uma afirmação do escritor uruguaio Juan José Morosoli (1899-1957), para quem “as viagens só começam depois que a gente volta” (p. 73).

*Afrânio Catani é professor aposentado da Faculdade de Educação da USP e, atualmente, professor sênior na mesma instituição. Professor visitante na Faculdade de educação da UERJ, campus de Duque de Caxias.

 

Referência


Antoine Compagnon. Uma temporada com Montaigne. Tradução: Rosemary Costhek Abilio. São Paulo, Editora WMF Martins Fontes, 2015, 168 págs.