As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Narrativa econômica e idealismo

Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

Nossa expectativa em relação à economia é construída pela mente humana, mas também por uma realidade independente dela

Robert Shiller, laureado com o Prêmio Nobel de Ciência Econômica em 2013, é pesquisador e divulgador da economia comportamental. Em janeiro de 2017, logo após a vitória da narrativa populista de direita na eleição para presidente dos Estados Unidos, publicou um texto com muita repercussão entre interessados em sua linha de pesquisa.

Intitulado Economia narrativa, parte do princípio de o cérebro humano ser altamente sintonizado com narrativas, sejam factuais ou não, para justificar ações em andamento, mesmo ações econômicas básicas como gastar e investir. As estórias motivam e conectam atividades a valores e sentimentos de necessidades. Elas “viralizam” e espalham-se em redes sociais pelo mundo. Têm impacto econômico.

Robert Shiller entende a Economia Narrativa como o estudo da disseminação dinâmica das narrativas populares, particularmente, aquelas de interesse e emoção humana. Mostra como elas mudam ao longo do tempo e propiciam entender as flutuações econômicas.

Uma recessão, por exemplo, é um momento quando muitas pessoas decidiram gastar menos. Percebendo essa atitude, empreendedores adiam a abertura de um novo negócio ou a ampliação de um negócio existente com a contratação de trabalhadores. Muitos ficam impressionados e expressam apoio à narrativa de austeridade fiscal.

Em processo de retroalimentação, tomam essas decisões em reação à própria recessão. No entanto, para entender por qual razão uma recessão começou, essa teoria de feedback ou multiplicador econômico é inconsistente.

A teoria sobre epidemias de doenças fornece uma estrutura realista para a compreensão da dinâmica das doenças infecciosas. Seu modelo mais simples divide a população em três compartimentos: suscetíveis, infecciosos e recuperados.

Suscetíveis são pessoas ainda sem pegar a doença e, por isso, vulneráveis. Infectados têm a doença e a espalham ativamente. Recuperados tiveram a doença e superaram, ficaram imunes e não são mais capazes de pegar a doença novamente ou espalhá-la. Nesse modelo SIR, a soma deles atinge o total da população.

A ideia-chave dessa teoria matemática de epidemias de doenças era, em uma população completamente misturada, a taxa de aumento de agentes infecciosos em uma epidemia de doença ser igual a uma taxa de contágio constante vezes o produto do número de suscetíveis. Se o número de infectados tivesse uma taxa de recuperação constante, cada vez quando um suscetível encontrasse um infeccioso, haveria uma chance de infecção.

O número de tais encontros por unidade de tempo depende do número de pares suscetíveis-infecciosos na população. A recuperação da doença é assumida com uma forma de decaimento exponencial, em vez de um cronograma fixo para a doença.

Robert Shiller usa o mesmo modelo SIR para descrever a transmissão boca a boca de uma ideia. No caso, a taxa de contágio é a fração do tempo de encontro entre um infeccioso, uma pessoa interessada e receptiva a uma estória (ou “teoria conspiratória”), efetivamente convence o suscetível o suficiente da narrativa para espalhá-la ainda mais.

Muitos encontros talvez sejam necessários antes de uma determinada pessoa ser infectada. A taxa de remoção pode ser descrita como a taxa de esquecimento, de simples decaimento de memórias, mas também há esquecimento por conta de ostracismo.

Essa remoção também ocorre enquanto o repertório de outras estórias mais atuais evolui para longe daquela passada. Surgem indícios de declínio, para a memória coletiva, por aquela narrativa parecer menos conectada ou menos adequada.

Diante da atualidade, fica superada por novas teorias ou preconceitos. Por exemplo, na política brasileira, após todo o armamentismo, o golpismo e a destruição do patrimônio público, o bolsonarismo “já era”. A estupidez teve seu auge e entrará em declínio fatal.

Em economia, o modelo multiplicador keynesiano com suas “múltiplas rodadas de gastos” é uma espécie de modelo epidêmico com a taxa de contágio dada pela propensão marginal a consumir (PMC) e a taxa de remoção zero. É um modelo de feedback teoricamente atraente.

Qualquer estímulo à atividade econômica, aumentaria a renda de alguém. Esse indivíduo então gastaria essa renda, de acordo com sua propensão marginal a consumir, gerando renda para outro a também gastar pela propensão marginal a consumir, e assim por diante. Ao fim e ao cabo, a renda nacional aumentaria, gradativamente, até contaminar o resultado da renda nacional.

Na prática, segundo Robert Shiller, a forma puramente keynesiana de contágio é limitada. Algumas estimativas do multiplicador são muito baixas. Logo, esse tipo de contágio não é tão importante quanto parecia à primeira vista.

A “hipótese da renda permanente” sugere o contágio keynesiano ser muito baixo se as pessoas não acreditarem na narrativa. Se o surto de renda não for permanente, a propensão marginal a consumir será muito baixa e o multiplicador pouco diferente de um.

Em uma bolha de ativos, o contágio se propaga pela atenção do público aos aumentos rápidos de preços. Aumentam a taxa de contágio de narrativas populares justificadoras desses aumentos, elevando a demanda pelos ativos e ainda mais os preços.

O impacto da “epidemia” especulativa no retorno do ativo dependeria de sua velocidade em relação à taxa de desconto para trazer o retorno esperado ao valor presente. Se a velocidade for muito baixa, haverá muito pouco impacto nos retornos de curto prazo. Então, as mudanças nos preços dos ativos encontrariam pouca correlação serial de curto prazo ao longo do tempo. A profecia autorrealizável não provocaria aumento de gastos.

Quando li essa narrativa de Robert Shiller, lembrei-me das lições do Padre Henrique de Lima Vaz, criador da AP (Ação Popular) e meu professor de Hegel. Segui seu curso sobre a Enciclopédia das Ciências Filosóficas, na FAFICH-UFMG, como “aluno especial” há quase ½ século.

A Economia Narrativa resvala na filosofia idealista. A ontologia é o estudo filosófico da natureza da realidade, das entidades existentes e das relações entre elas, buscando entender as categorias fundamentais de ser e as leis de movimento da existência.

O idealismo ontológico postula a realidade fundamental ser de natureza mental ou espiritual. A mente, a consciência ou o espírito são as entidades primárias. O mundo material seria derivado ou dependente dessa realidade mental. O idealismo dá primazia à ideia, ao pensamento ou à mente em relação à matéria. As ideias e os conceitos são fundamentais na compreensão e na interpretação da realidade. A mente desempenha um papel ativo na construção e na percepção do mundo.

Segundo o idealismo epistemológico, o conhecimento é construído e dependente da atividade mental. Ele não é uma representação direta e objetiva da realidade, mas uma construção interpretativa, baseada nas estruturas e nos processos mentais. O idealismo rejeita a ideia de a matéria ser a realidade fundamental ou o mundo físico ser independente da mente. Para ele, a matéria é uma construção da mente ou uma manifestação da consciência.

Daí enfatiza a importância da subjetividade e da experiência individual na compreensão da realidade. A interpretação e a percepção são influenciadas pelos estados mentais, pelas crenças, pelos valores e pelas experiências individuais. O idealismo valoriza a liberdade e a autonomia do indivíduo. Enfatiza a capacidade da mente humana de criar, de transformar e de moldar a realidade de acordo com seus propósitos e ideais.

Quanto à natureza da realidade, na época do curso (1974), eu era adepto do “materialismo histórico”. Achava a base fundamental para entender a sociedade e a história eram a análise das condições materiais de existência, como as relações de produção, as classes sociais e as forças produtivas. Enfatizava a importância das forças econômicas e das relações de poder na formação das estruturas sociais e históricas.

Entendia a consciência e a ideia como produtos da atividade material e social. A forma como as pessoas pensam, compreendem e interpretam o mundo seria influenciada pelas condições materiais nas quais vivem.

Com o amadurecimento intelectual, passei a questionar a visão da história apenas como resultado das lutas de classes e das mudanças nas condições de produção. Não cheguei ao extremo de plena rejeição do materialismo, mas agora reflito sobre as narrativas.

No mesmo semestre, estudei a filosofia de Immanuel Kant. Supera algumas limitações do empirismo e do racionalismo com uma abordagem chamada de “idealismo transcendental”. Nosso conhecimento é construído pela mente humana, mas também reconhece a existência de uma realidade independente dela.

Seu “idealismo transcendental” difere do “idealismo absoluto” de Hegel. Enquanto para este tudo é uma manifestação da mente, Kant evita a visão puramente subjetiva da realidade.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP).


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Carlos Tautz Milton Pinheiro Marcelo Guimarães Lima Dênis de Moraes Airton Paschoa Valério Arcary Michael Löwy Everaldo de Oliveira Andrade Fernão Pessoa Ramos Leda Maria Paulani Vanderlei Tenório Ricardo Abramovay Kátia Gerab Baggio Marcos Silva Maria Rita Kehl Marcos Aurélio da Silva Otaviano Helene Denilson Cordeiro Luiz Roberto Alves Luciano Nascimento Rubens Pinto Lyra Ari Marcelo Solon Manuel Domingos Neto Luis Felipe Miguel Afrânio Catani Lucas Fiaschetti Estevez Bruno Machado Luiz Marques Luiz Carlos Bresser-Pereira Tadeu Valadares Plínio de Arruda Sampaio Jr. Boaventura de Sousa Santos Ricardo Fabbrini Igor Felippe Santos Henry Burnett Luiz Bernardo Pericás Marilena Chauí Daniel Costa Fábio Konder Comparato Luiz Renato Martins Tarso Genro Daniel Brazil Renato Dagnino Liszt Vieira Claudio Katz Jean Marc Von Der Weid Osvaldo Coggiola José Luís Fiori Jorge Luiz Souto Maior Mariarosaria Fabris Anselm Jappe Sergio Amadeu da Silveira Berenice Bento Roberto Bueno Eduardo Borges Antonino Infranca Salem Nasser José Machado Moita Neto Rodrigo de Faria Bento Prado Jr. Armando Boito Dennis Oliveira Yuri Martins-Fontes Ronaldo Tadeu de Souza Andrew Korybko Antônio Sales Rios Neto Jean Pierre Chauvin Paulo Capel Narvai Eugênio Bucci João Carlos Salles Michael Roberts Henri Acselrad Valerio Arcary Alysson Leandro Mascaro Juarez Guimarães Francisco Pereira de Farias José Micaelson Lacerda Morais Thomas Piketty Tales Ab'Sáber Lorenzo Vitral Ladislau Dowbor Alexandre Aragão de Albuquerque André Singer Francisco de Oliveira Barros Júnior Leonardo Avritzer Ricardo Antunes Antonio Martins Paulo Martins João Lanari Bo Gerson Almeida Jorge Branco Samuel Kilsztajn João Feres Júnior Eliziário Andrade Elias Jabbour Ronald León Núñez Carla Teixeira Celso Frederico Luiz Eduardo Soares Eleutério F. S. Prado Atilio A. Boron Chico Whitaker Rafael R. Ioris Caio Bugiato Annateresa Fabris José Geraldo Couto Paulo Nogueira Batista Jr Walnice Nogueira Galvão Alexandre de Freitas Barbosa Flávio Aguiar Vladimir Safatle João Adolfo Hansen João Carlos Loebens Leonardo Boff Luís Fernando Vitagliano Priscila Figueiredo Fernando Nogueira da Costa Manchetômetro Daniel Afonso da Silva Eugênio Trivinho Paulo Fernandes Silveira Francisco Fernandes Ladeira Flávio R. Kothe Bruno Fabricio Alcebino da Silva Luiz Costa Lima Paulo Sérgio Pinheiro Sandra Bitencourt Marcus Ianoni Ronald Rocha Celso Favaretto Marjorie C. Marona Lincoln Secco Luiz Werneck Vianna Slavoj Žižek Alexandre de Lima Castro Tranjan Érico Andrade João Sette Whitaker Ferreira Benicio Viero Schmidt Roberto Noritomi Gabriel Cohn Bernardo Ricupero Eleonora Albano Remy José Fontana José Raimundo Trindade Ricardo Musse José Costa Júnior André Márcio Neves Soares José Dirceu Marcelo Módolo Chico Alencar Leonardo Sacramento Julian Rodrigues Gilberto Maringoni Mário Maestri Marilia Pacheco Fiorillo João Paulo Ayub Fonseca Vinício Carrilho Martinez Gilberto Lopes Anderson Alves Esteves Heraldo Campos

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada