O anti-Édipo

Dame Barbara Hepworth, Fenestração da Orelha, 1948, Óleo e lápis, 384 x 270mm

Por PEDRO PAULO ROCHA*

Considerações sobre o livro de Gilles Deleuze e Félix Guattari

O anti-Édipo não é um livro qualquer! Não é um livro para comentários sobre. Sua singularidade ruidosa ultrapassa os 50 anos de seu lançamento em 1972. Antes de comemorar – porque não há nada para comemorar – é necessário devorá-lo com a força de um desejo de transformação que pertence ao nosso momento. Seu labirinto de ideias nos lança no agora já sem volta para o passado ou viagem ao futuro.

Geralmente os livros são tratados como se fossem sagrados, detentores de uma mensagem pura, o eterno livro de Deus, contendo ideias eternas que seriam interpretadas, reveladas por nós para esclarecer o mundo. Mas no caso de O anti-Édipo seu processo de criação ultrapassa o conteúdo manifesto. Não é um livro de culto, é um livro iconoclasta.

E o que fazer com um livro? Na medida em que o lemos logo percebemos que este livro com suas agitações internas é construído enquanto um processo inseparável de nossa apropriação antropofágica dele. A frase “Nada a interpretar, tudo a experimentar” que sintetiza a esquizoanálise (termo práxis criado em O anti-Édipo) serve também para o uso do próprio livro enquanto processo e máquina do que podemos criar com ele.

Nossa participação ativa aqui é contingente para sair da história universal predeterminada pela sociedade e mergulhar nas forças de transformação desse tempo que vivemos. Não é possível se separar dos processos que já somos partes fragmentadas.

O anti-Édipo é um livro bomba, um livro explosivo, disruptivo, intempestivo em seu tempo. Seus destroços caem sobre nós de forma provocativa. É o rebento dos acontecimentos políticos culturais do maio francês de 1968. Ele detona os discursos institucionalizados da própria filosofia, psicanálise, linguística, antropologia, e da mentalidade geral da época.

Coloca em xeque uma série de crenças que constituíam os discursos universitários, acadêmicos-filosóficos, psicanalíticos, sociológicos , antropológicos, questionando o lugar de poder desses saberes hegemônicos. Entre o que se passou antes e o que se passou depois de 68 esse livro é ao mesmo tempo resultante desses acontecimentos mas também uma crítica radical à despontecialização que se sucedeu devido à rápida captura do imaginário de ruptura pelos novos territórios artificiais do capital.

É a memória sem memória e o futuro sem futuro que atravessam o agora do que aconteceu e do que pode acontecer. Um livro denso em sua Virtualidade e atualidade. Não está preso no seu tempo histórico porque o seu tempo histórico foi o tempo fora do tempo materializando a imaginação do futuro, acelerando a transformação.

Somente no agora de forma intempestiva-extemporâneo que é possível tirar da suas ideias sua máxima atualidade e virtualidade inseparáveis do que se agita na realidade.

O anti-Édipo é um livro de ataque e não de defesa! Dentre suas várias linhas de combate que se rebelam contra o Déspota, o Édipo psicanalítico, a linha de ataque ao Capitalismo e sua lógica microfascista é um de seus traços mais insurgentes. O capitalismo em conjunção  com a instituição psicanalítica clássica e família burguesa produz territórios artificiais de controle, impondo modos e leis, em forma de axiomas, levanta muros, gera culpas e servidões, cria bloqueios contra os desejos que não se reduzem aos seus limites. O capitalismo manifesta sua natureza necro ao absorver, transformar e controlar tudo que atravessa colocando em funcionamento sua máquina de matar.

Partindo dessas primeiras questões sobre O anti-Édipo, escrito pelos filósofos e esquizoanalistas Gilles Deleuze e Félix Guattari, desejo lançar nesse pequeno ensaio uma série de perguntas provocativas sem respostas porque não há mais respostas para nada sem uma ação possível dos corpos na paixão de seu desejo contra um mundo impossível de suportar.

Diante de todo o desejo fascista que nos ataca diariamente, qual é o nosso desejo de transformação? Qual é o nosso desejo?

Existe hoje no Brasil um desejo de transformação contido que é completamente diferente do desejo fascista que quer nos eliminar. É preciso afirmar esse outro desejo que não é o desejo fascista, esse desejo de destruição de uma revolução bolsonarista da terra plana propagada em ondas pela direita.

As perguntas feitas em O anti-Édipo em relação ao inominável da potência de destruição do capitalismo – “ Nós não vimos ainda nada até agora! até onde eles podem ir ? eles podem tornar isso tudo pior ?” pairam no ar pela força desse desejo fascista de si autoproduzir enquanto um processo constante de criação de realidade social. Assim, através de seu processo de produção do delírio, o desejo fascista vira realidade social. O desejo é uma produção de reais por mais louco que seja”.

Mesmo que a distopia criada pela dureza da vida nos últimos anos dos sucessivos golpes não cesse de avançar por cima dos corpos e das pessoas que se alimentam de osso, o outro desejo que não é o fascista tem também sua força de imaginação como vemos na arte, como no carnaval, e em nossas existências e resistências cotidianas, em nossos movimentos e grupos, em nossos sonhos.

Quais são esses desejos? Sem desejo é impossível! O que fazer com as ideias quando elas desejam transformar o próprio mundo mas elas parecem que não cabem nele? Ou ainda o que pensar quando o mundo já não é o mesmo, e as ideias não mais se encaixam? E que força tem esses desencaixes entre ideias e um mundo inseparável de seu simulacro ideológico? Qual é o limite entre reformar um velho mundo com todas suas injustiças e violências e o desejo coletivo de uma revolução molecular que provoque transformações comunitárias e micropolíticas dentro da vida comum? Existe algo para além do limite da vida social imposta pelo capital necropolítico?

Vivemos presos dentro de universos feito de jardins artificiais gerados pelo capital e a tecnologia social que vampiriza e privatiza nosso desejo para cada vez mais e mais nos fazer consumir até a destruição e o total esgotamento, paranoia e adoecimento. Somos peças dessas engrenagens? Chegou o momento em que todos são mercadorias do capitalismo cognitivo. Os sintomas se espalham. O vírus do capital contagia tudo. As peles, as telas e as superfícies. Pessoas são objetos de consumo, seu tempo, sua identidade, suas vidas, suas escolhas políticas. Pessoas globais formatadas para alimentar o consumo e a mais valia que explora nossa vida com seu acúmulo infinito de lucro.

O trabalho não cessa. Com emprego, ou sem, no tempo livre e até dormindo, o capitalismo se introjetou dentro da gente, entrou dentro dos poros, modulando nossa subjetividade ao ponto de seu fim nunca poder ser sequer imaginado. O tempo livre acabou. O lazer desaparece na constante mental do capital na nossa consciência.

É exatamente nesses jardins artificiais da necropolítica que as flores de plásticos da morte derretem com o calor da guerra cultural formando um lodo extremamente fértil para o nascimento de microfascismos.

Entre os mil platôs mil leituras possíveis sobre O anti-Édipo é importante destacar as tensões entre os limites e sua ultrapassagem do capitalismo que o desejo de transformação provoca. Tal tensão entre o desejo molecular e o social molar atravessa o livro que pode ser considerado umas das últimas obras da filosofia francesa para além de sua ideologia nos simulacros de transformações que nunca acontecem porque guetizadas em instituições.

O desejo é a personagem real desse livro-coisa como Michel Foucault o nomeou em umas de suas aulas sobre os acontecimentos de 1968 e sua relação com o saber. Desejo isto? O que desejamos?

O desejo que se reduz a um objeto idealizado, vira uma falta, um vazio – perde sua força concreta de tirar dos meios disponíveis uma diferença de potência. O desejo não é falta, ao desejo nada falta. O desejo nunca é individual, é sempre em dois, em muitos, em bandos. O desejo atravessa os muros. O desejo contagia. O desejo cria.

Mas é sobre o desejo que toda a repressão se articula. É preciso fazer do corpo um meio de mais valia para contê-lo e estocá-lo para o seu pior uso e gerar a máxima tensão do improdutivo de um corpo que não aguenta mais e a produção do capital. Nesse momento o desejo já é pura falta artificializada pela axiomática do capital. Até esvaziar todo o prazer da vida para que o desejo seja um desejo de servidão no limite de um desejo fascista de destruição como vemos hoje no Brasil.

A máquina neofascista no Brasil investiu nesse desejo coletivo em tensão com o social para proporcionar uma ruptura autoritária despótica e normatizar um Estado de Exceção permanente. Do gesto fascista ao ordenamento jurídico, sem o desejo fascista o fascismo não existiria, não seria essa dura realidade que nos atinge.

Contra o Édipo, personagem central da família empresa do capitalismo, o desejo se contrapõe com sua força de vida de afirmação de outras multiplicidades de viver o corpo e a relação com a natureza, com trabalho, máquinas e coletivos. A vida é um processo e o desejo é a máquina de invenção desse processo.

“ Isso funciona em toda parte (ainda funciona?): às vezes sem parar, outras vezes descontinuamente”. Isso ainda respira? Aquece? Isso ainda come? Intensidades, somos todos montagens, bricoleurs. Máquinas. Conexões. Pausas e Movimentos. Fragmentos de um kaoz crescente. Informação e contra informação. Conjunções e Disjunções. Corte Fluxo. Processo de processo. Registros Produção Consumo. Partes sem totalidade alguma. Partes de conjuntos, dispersos. Imagens. Sons. Ideias. Somos transversais. Conglomerados. Em linha de fuga. Fluxos e refluxo. Corpos Multidão. Povos, Devires. Artes. Terras. Nômades. Processos em permanente transformação. Virtuais prestes a se tornarem atuais.

Nossos desejos, afinal, nos levarão até onde? É possível evitá-los até quando? vendê-los? Bloqueá-los? Ou seremos mastigados pela mega máquina do capital que transforma todo desejo em desejo de acúmulo, lucro e visibilidade? Ou nosso desejo pode se intensificar mais ao desvencilhar-se das peças das máquinas de captura?

Nossa força de multitude coletiva não pode continuar submetida! Uma potência de revolução molecular transborda por todo lugares e coisas. Somente assim foi possível atravessar o impossível desses anos de derrota para o fascismo, tivemos que ocupar, existir e re-existir, nos espaços e redes, criando e fortalecendo movimentos.

O fato de sabermos o que não queremos é um primeiro movimento para afirmar o que esse desejo coletivo é capaz, porém não é o bastante, porque é preciso viver simultaneamente nosso desejo como um processo de maior transformação. A desaceleração do fascismo depende da velocidade de ruptura do que desejamos coletivamente transformar.

*Pedro Paulo Rocha é artista e esquizo-analista.

 

Referência


Gilles Deleuze e Félix Guattari. O anti-Édipo. Tradução: Luiz B. L. Orlandi. São Paulo, Editora 34, 560 págs.