O capital no Antropoceno

Michelangelo Pistoletto, Vênus dos trapos, instalação, 1967.
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Por KOHEI SAITO*

Introdução do autor e Conclusão do livro recém-editado

Introdução: Os objetivos de desenvolvimento sustentável são o “ópio do povo”!

O que você está fazendo para combater o aquecimento global? Comprou uma ecobag para reduzir o uso de sacolas de mercado? Anda com sua garrafinha de água para reduzir o consumo de embalagens? Trocou o carro a gasolina por um elétrico?

Falando sério: só essa boa vontade não tem sentido. Mais ainda, essa boa vontade chega a ser danosa.

Por qual motivo? Porque, ao pensar que está fazendo algo para combater o aquecimento global, você deixa de realizar as ações mais ousadas que são realmente necessárias. É um comportamento consumidor que funciona como uma desculpa e nos permite escapar do remorso e desviar os olhos do perigo real, sendo facilmente engolido pela greenwashing (lavagem verde) do capitalismo sob o disfarce de preocupação ambiental.

Serão os objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS), estabelecidos pelas Nações Unidas e promovidos por governos e grandes corporações, capazes de mudar o ambiente global? Não, isso também não funcionará. Mesmo que os governos sigam as diretrizes dos objetivos de desenvolvimento sustentável, as mudanças climáticas não irão parar. Os objetivos de desenvolvimento sustentável são como álibis, e seu único efeito é o de desviar a atenção do perigo iminente.

Certa vez, Marx criticou a religião como o “ópio do povo”, devido ao alívio que proporciona ao sofrimento causado pela dura realidade do capitalismo. Os objetivos de desenvolvimento sustentável são, genuinamente, a versão moderna do “ópio do povo”.

Em vez de fugir para o ópio, temos que enfrentar a realidade de que nós, humanos, alteramos a existência do planeta de uma forma que não tem volta.

O impacto da atividade econômica humana no planeta é tão grande que o ganhador do Prêmio Nobel de Química Paul Josef Crutzen disse que, do ponto de vista geológico, a Terra entrou em uma nova era que ele nomeou de Antropoceno, em referência à era em que os vestígios de atividade humana cobriram a superfície da Terra.

De fato, a Terra está coberta por edifícios, fábricas, estradas, campos agrícolas, barragens, entre outros; e nos oceanos há uma grande quantidade de microplásticos flutuando. Objetos feitos pela humanidade estão mudando de forma drástica o planeta. Dentre os fatores que se somam, o dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, que aumenta drasticamente por ação humana.

Como se sabe, o CO2 é um dos gases de efeito estufa. Esses gases absorvem o calor irradiado da superfície terrestre e aquecem a atmosfera. Graças a esse efeito, a Terra se mantém em uma temperatura adequada para que os humanos e outros seres vivos consigam sobreviver.

No entanto, desde a Revolução Industrial, os humanos passaram a utilizar grandes quantidades de carvão e combustíveis fósseis, como o petróleo, e a emitir enormes quantidades de CO2. A concentração desse gás na atmosfera antes da Revolução Industrial era de 280 ppm, e, em 2016, ultrapassou os 400 ppm na Antártida pela primeira vez em 4 milhões de anos. Esse número segue subindo.

Durante a era do Plioceno, há 4 milhões de anos, as temperaturas eram 2 ºC a 3 ºC mais elevadas do que hoje, as camadas de gelo na Antártida e Groenlândia estavam derretendo e os níveis do mar eram 6 metros mais elevados. Alguns estudos apontam a possibilidade de terem sido de 10 a 20 metros mais altos.

Será que as mudanças climáticas do Antropoceno se aproximarão da mesma situação do passado? De qualquer maneira, não resta dúvida de que a civilização que a humanidade construiu representa um risco para sua própria continuidade.

O crescimento econômico através da modernização havia prometido uma vida próspera. Entretanto, o que está para ser revelado pela crise ambiental no Antropoceno é, ironicamente, o fato de que o crescimento econômico vem arruinando as bases da prosperidade humana.

Mesmo que as mudanças climáticas avancem rapidamente a partir de agora, a camada ultrarrica que vive nos países desenvolvidos poderia continuar a levar a vida egoísta de antes. Porém, a maioria de nós, pessoas comuns que não têm margem para manobras no cotidiano, perderá o modo de vida e terá que procurar desesperadamente uma alternativa para sobreviver. Esse fato deveria ter ficado claro com a pandemia de coronavírus.

Neste contexto, aumentam as vozes que clamam para que se repense fundamentalmente a forma como as coisas têm sido feitas, que aumenta a desigualdade e destrói o meio ambiente global. A proposta da reunião de Davos para um “grande reinício” é provavelmente simbólica.

No entanto, para salvar o futuro deste planeta, não devemos deixar a ação apenas para a elite, aos políticos e aos especialistas. “Deixar para os outros” só acabará dando privilégios aos ultrarricos. Portanto, para escolher um futuro melhor, cada cidadão deve se levantar, falar e agir como parte interessada. Ainda assim, levantar a voz e agir cegamente não fará com que as coisas corram bem e será grande desperdício de um tempo precioso. É crucial rumar para a direção correta e com uma estratégia apropriada.

Para descobrir a direção correta, é necessário retornar às causas da crise climática. Quem possui a chave para a causa não é ninguém menos que o capitalismo. Isso acontece porque as emissões de CO2 só começaram a aumentar significativamente após a Revolução Industrial, ou seja, desde que o capitalismo ganhou força. Logo após isso, houve um filósofo que pensou além do capitalismo: o alemão Karl Marx.

Este livro analisa o entrelaçamento do capital, da sociedade e da natureza no Antropoceno, com base em O capital de Marx. É claro que não tenho a menor intenção de relembrar o marxismo do passado. Pretendo escavar e desenvolver novos pensamentos marxianos que estiveram adormecidos durante cerca de 150 anos.

Este livro libertará nossa imaginação para criar uma sociedade melhor numa era de crise climática.

Conclusão: para evitar que a história acabe

Marx e decrescimento? Ficou maluco? Comecei a escrever este livro sabendo que essas críticas viriam de todos os lados.

De acordo com o senso comum da esquerda, Marx não defendia o decrescimento. E a direita zomba questionando se vamos repetir os erros da União Soviética. Além disso, a antipatia pelo termo “decrescimento” está profundamente enraizada entre os liberais.

Mesmo assim, não pude deixar de escrever sobre isso. Ao analisar a relação entre a crise climática e o capitalismo com base nos últimos resultados das pesquisas de Marx, descobri que o objetivo dele nos seus últimos anos era o comunismo de decrescimento, e tive a certeza de que é a única forma de superar a crise do Antropoceno.

Espero ter conseguido convencê-lo de que o “comunismo de decrescimento” é a única opção para a humanidade superar a crise ambiental e concretizar uma “sociedade sustentável e justa”.

Assim como já foi discutido anteriormente em detalhes na primeira metade, nem os objetivos de desenvolvimento sustentável, nem o Green New Deal, nem a geoengenharia podem parar as mudanças climáticas.

O “keynesianismo climático” em busca do “crescimento econômico verde” apenas leva a uma maior penetração do “estilo de vida imperialista” e do “imperialismo ecológico”. O resultado é um agravamento da crise ambiental global ao mesmo tempo em que aumenta ainda mais a desigualdade.

É impossível resolver os problemas causados pelo capitalismo preservando ao mesmo tempo a causa principal, que é o próprio capitalismo. Para preparar o caminho para uma solução, é necessário criticá-lo profundamente, pois ele é a causa das mudanças climáticas.

Além disso, o capitalismo, que gera escassez ao mesmo tempo que obtém lucros, é o que traz escassez para as nossas vidas. O comunismo de decrescimento, que reconstrói o “comum” que foi desmantelado pelo capitalismo, deve tornar possível viver uma vida mais humana e abundante.

Se tentarmos prolongar a vida do capitalismo, a sociedade estará condenada a regressar à barbárie no meio do caos provocado pela crise climática. Imediatamente após o fim da Guerra Fria, Francis Fukuyama afirmou que era o “fim da história”, e a pós-modernidade declarou o fim da “grande narrativa”. Entre tanto, como ficou claro nos trinta anos que se seguiram, o que o cinismo que ignora o capitalismo prepara é o “fim da história” completamente inesperado, sob a forma de “fim da civilização”. É por isso que devemos nos unir para puxar o freio de emergência do capital e estabelecer o comunismo de decrescimento.

Mesmo assim, ficamos tão imersos na vida capitalista que acabamos habituados a ela. Muitas pessoas se sentirão perdidas, sem saber o que fazer diante do enorme desafio de transformação do sistema, mesmo que concordem com a filosofia e conteúdo apresentados por este livro.

É claro que não é uma história tão fácil quanto comprar ecobagsou garrafinhas de água reutilizáveis; estamos lutando contra os 1% ultrarricos que nos controlam. Não há dúvida de que será uma “batalha” difícil. Você pode ficar desanimado, pensando que é impossível mobilizar 99% das pessoas para um plano que não sabe se vai funcionar.

Contudo, temos um número aqui, 3,5%. Você sabe o que significa esse número? De acordo com a pesquisa de Erica Chenoweth et al., cientista política de Harvard, se 3,5% das pessoas se levantarem seriamente de uma forma não violenta, a sociedade mudará significativamente[i].

A Revolução do Poder do Povo que derrubou a ditadura de Marcos nas Filipinas (1986) e a Revolução das Rosas (2003), na Geórgia, que forçou o presidente Eduardo Shevardnadze a renunciar, tiveram uma participação de 3,5% e são alguns dos exemplos de desobediência civil não violenta que causaram mudanças sociais.

Tanto o movimento Occupy Wall Street em Nova York como o protesto em Barcelona começaram com um pequeno número de pessoas. A greve estudantil de Greta Thunberg é “de apenas uma pessoa”. O número de participantes realmente ativos dos protestos do movimento Occupy Wall Street, que deu origem ao slogan “1% vs. 99%”, foi de apenas alguns milhares.

Ainda assim esses protestos ousados tiveram um enorme impacto na sociedade. As manifestações podem chegar de dezenas de milhares a centenas de milhares de pessoas. Isso equivaleria a milhões de votos em uma eleição. Este é o caminho para a mudança.

Não começou a parecer que é possível reunir 3,5% de pessoas que estão seriamente interessadas nos problemas causados pelo capitalismo e nas mudanças climáticas e que estarão fortemente empenhadas na luta? Na verdade, é mais provável que haja mais pessoas indignadas com as disparidades e a destruição ambiental do capitalismo e com imaginação para lutar pelas gerações futuras e pelo Sul global. Essas pessoas, com uma determinação ousada, começarão a tomar as atitudes por aqueles que não podem por algum motivo.

Pode ser em uma cooperativa de trabalhadores, em uma greve escolar, pode ser com a agricultura orgânica. Pode tentar se tornar membro do governo local. Também pode trabalhar nas ONGs ambientais. Pode começar uma empresa cidadã de eletricidade com os colegas. E, é claro, pedir para a empresa em que trabalha atualmente que tome medidas ambientais mais rigorosas também é um grande passo. As cooperativas de trabalhadores são a única forma de reduzir as horas de trabalho e democratizar a produção.

Além disso, deveríamos começar a recolher assinaturas para a declaração de emergência climática e lançar campanhas para exigir que os mais ricos paguem pelos encargos. Dessa forma desenvolveremos uma rede de ajuda mútua e a fortaleceremos.

Não faltam coisas que podem e devem ser feitas imediatamente. Portanto, não devemos usar o fato de que a reforma do sistema é um desafio enorme como desculpa para não fazer nada. A participação de cada pessoa é fundamentalmente decisiva para os 3,5%.

Porque estivemos indiferentes até agora, o 1% mais ricos e a elite mudaram as regras como bem entenderam, criando estruturas sociais e interesses que se adequassem aos seus próprios valores.

Entretanto, está na hora de dizermos um Não bem claro. Vamos deixar o cinismo e mostrar o poder dos 99%. Para conseguir isso, a chave é que os 3,5% comecem a agir agora mesmo. Se esse movimento ganhar impulso, o poder do capital será limitado, a democracia será renovada e uma sociedade descarbonizada será, sem dúvida, concretizada.

No início deste livro, expliquei que o Antropoceno é uma época em que a Terra foi coberta com os objetos humanos criados pelo capitalismo, isto é, com os fardos e contradições. Contudo, o capitalismo está destruindo o planeta; nesse sentido, pode ser mais correto chamar a era atual de Capitaloceno em vez de Antropoceno.

Entretanto, se as pessoas puderem unir forças e agir solidariamente para proteger o planeta, sua única terra natal, da tirania do capital, então poderemos chamar positivamente essa nova era de Antropoceno. Este livro pretendeu ser uma leitura de O capital para nosso tempo, numa análise detalhada do capital para encontrar um raio de luz para o futuro.

É claro que esse futuro depende de você, que leu este livro, decidir aderir aos 3,5%.

*Kohei Saito é professor de filosofia na Universidade da Califórnia-campus Santa Bárbara. Autor, entre outros livros, de Karl Marx in the Anthropocene (Cambridge University Press).

Referência


Kohei Saito. O capital no Antropoceno. Tradução: Caroline M. Gomes. São Paulo, Boitempo, 2024, 226 págs. [https://amzn.to/3Cajluh]

Nota da tradutora


[i] Erica Chenoweth e Maria J. Stephan, Why Civil Resistance Works: The Strategic Logic of Nonviolent Conflict (Nova York, Columbia University Press, 2012). Como conclusão: David Robson, “The ‘3.5% Rule’: How a Small Minority Can Change the World”, BBC, 13 maio 2019. Disponível neste link. A pesquisa de Chenoweth et al. tem um impacto direto na Extinction Rebellion.


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