O cínico

Imagem: Stela Grespan
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Por RONALDO TADEU DE SOUZA*

Comentário ao artigo de Demétrio Magnoli publicado no jornal Folha de S. Paulo de 22 de agosto de 2020

Cinismo como característico da sociedade brasileira ganhou forma literária e social nos romances de Machado de Assis e na crítica literária de Roberto Schwarz. O atributo estetizado na obra machadiana conseguiu com perfeição descrever a elite periférica nacional, e aqueles que a circundavam no cotidiano de nossa vida pública. A personalidade e/ou comportamento cínico é o que define ainda hoje nossa dita elite econômica, política e social, e os que ainda persistem em margear seus interesses. Demétrio Magnoli é um desses que a margeiam.

Se estivéssemos em outra sociedade, mesmo uma com formação periférica como a nossa, sua desfaçatez seria constrangedora – mas, infelizmente, estamos no Brasil. Seu artigo de 22/08/2020 na Folha de São Paulo(O lado bom do cancelamento), abordando o texto de Rosane Borges também publicado na Folha de São Paulo (Crítica de Lilia Schwarcz a ‘Black is King’: procure o erro) em 16/08/2020 em que faz lucidas e ponderadas críticas (construtivas até) ao artigo de Lilia Schwarcz sobre Beyoncé, é uma peça talhada no cinismo típico dos que rodeiam as elites dominantes no país. Aqui é sugestivo certo momento analítico. Ou como se diz por aí, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Se boa parte do que podemos nomear sem muita precisão sociológica e política por movimento negro leu o artigo de Lilia Schwarcz como uma intervenção equivocada por ela ser, na argumentação daquele, uma mulher branca privilegiada sem o entendimento do significado do filme Black is King; um grupo de negros e negras divergiram deste padrão de crítica feitas a ela. Wilson Gomes, em texto publicado na mesma Folha de São Paulo de 16/08/2020 e quem escreve estas linhas se encontram neste grupo. Com posições distintas expressaram vozes dissonantes – Gomestratou do mercado epistêmico e os interesses que mobiliza (via redes sociais e circuitos culturais). Minha compreensão foi no sentido de sustentar, a partir de Frantz Fanon e Deivison M. Faustino, a desconfiança sobre a ingênua e deletéria busca pelo historicamente negado em detrimento do presente. (Não há um saco histórico-cultural para se colocar todos os negros e negras.)

Neste aspecto ainda, as intervenções de Maria Rita Kehl e Leonardo Avritzer na “disputa,com textos publicados aqui nas páginas do A terra é redondaem 10/08/2020 e 12/08/2020,foram com o objetivo de apresentar à discussão sobre o debate-Lilia o entendimento de advertência da perspectiva de esquerda concernente à maneira como foi recepcionada a crítica de Schwarcz ao filme de Beyoncé. Um debate no campo da esquerda, ou se se preferir, no campo progressista. Mesmo o artigo cáustico de Wilson Gomes está nestes horizontes políticos, bem como pelo reverso a maioria da crítica (negra) à crítica de Lilia Schwarcz.

Estamos em um momento da história política do país que necessitamos urgentemente definir com quem lutamos e contra o que e contra quem lutamos. É imperioso sabermos aqueles e aquelas que estarão lutando as nossas batalhas; que são e serãoárduas dado o golpe de 2016 ao governo de Dilma Rousseff (que sim tinha problemas e cometeu equívocos, obviamente da perspectiva de esquerda e dos subalternos, como por exemplo nomear Joaquim Levy ministro da fazenda e dar um “verdadeiro cavalo de pau” na política econômica na feliz expressão de André Singer), às eleições de 2018 e o projeto de destruição do frágil e ambíguo Estado construído em 1988 que tem na figura grotesca de Paulo Guedes seu artífice. Estes eventos recentes lançaram a esquerda, em um “plano racionalmente elaborado” na alcova haja vista o cerco articulado da Lava Jato-Sérgio Moro, da mídia, da elite econômica e movimentos de direita, no abismo político. A subida deste está nos custando muito. Com efeito, delinear quem é quem será primordial nos próximos períodos de disputa política: tanto para a esquerda, os progressistas e o movimento negro em sentido amplo.

Demétrio Magnoli, definitivamente, não lutará as nossas lutas. Há muito suas lealdades foram estabelecidas – mesmo seu cinismo tentando demostrar o contrário. Seu artigo (O lado bom do cancelamento) se esforça, mas obviamente não consegue – ao menos para os leitores arejados e que não se encantam com facilidade pelas artimanhas da verve retórica de péssima qualidade do jornalista – desqualificar a intervenção de Rosane Borges na Folha de São Paulo/Ilustríssima de 16/0/2020. (Não concordo com pontos significativos do texto de Borges,mas isso não vem ao caso aqui.) Entretanto, Magnoli se tivesse o mínimo de comprometimento com o debate de ideias, público,sério, fraternal mesmo e democrático sentiria pudor se relesse as linhas que escreveu. O artigo crítico de Rosane Borges está disponível para os que queiram lê-lo e tirar suas próprias conclusões intelectuais e políticas.

Bem entendidas as coisas, algumas críticas e comentários à antropóloga e historiadora, sem dúvida, foram lamentáveis e lastimáveis enquanto debate teórico e político. Não é este o caso do ensaio de Borges: escrito com o refinamento e sofisticação do melhor da crítica cultura (Benedict Anderson, Bell Hooks e Fredric Jameson). Insisto, o leitor pode conferir por si mesmo lendo o texto.

Mas Demétrio Magnoli com toda sua estilística não viu assim. Em um único texto ele conseguiu articular “expurgos dos partidos marxistas”, “lugar de fala”, “Sérgio Camargo” e, claro, a senha do conservadorismo brasileiro “aparato estatal totalitário”: isto tudo para tentar criticar Rosane Borges. Este é o patamar dos escribas da direita encapuçada brasileira. Ele, Magnoli,pretendeu reunir aquelas expressões e a senha de alerta de seus seguidores para dizer que o sério texto de Borges sobre questões de cultura, raça/racismo e dos modos mais adequados de se intervir neste tipo de debate público acerca destes problemas é “caudaloso” e “balofo”. É isso mesmo; não é uma piada. Mas este é o artigo de um colunista e comentador político que passa suas noites proferindo análises bem pensantes no programa Globo News em Pauta(que vá lá tem bons jornalistas como Mônica Waldvogel, Flávia Oliveira e Guga Chacra)e sua esplendorosa diversidade de opiniões. Ainda não satisfeito em cultivar seus leitores com aquela erudição maciça como um biscoito de polvilho de dar inveja a Tremenbó, ele como se estivesse em algum lugar sabe Deus onde, menos no Brasil de Bolsonaro, de Paulo Guedes, da polícia militar do PSDB, de bandas paramilitares que assassinam mulheres negras a mando, diz que vivemos em uma sociedade em que o “princípio da divergência civilizada”, o “intercâmbio democrático de pontos de vista” e o “debate plural na imprensa” prevalecem. E exercitando estes valores humanista-liberais de convivência defende que os que usam as redes sociais devem viver apenas neste espaço (de “cancelamento”) como bem lhes convier e deixar aqueles valores e instituições para os verdadeiros democratas.

Poderíamos aqui mobilizar as esplendorosas intervenções (textos, entrevistas, livros, comentários) de Demétrio Magnoli no auge do debate sobre ações afirmativas demonstrando seu compromisso com os valores que defende. No entanto, isto é passado. Podemos ficar com o Magnoli dos artigos Impeachment, já (Folha de São Paulo, 12/03/2016)(em que encontramos a seguinte formulação, “temos um judiciário independente. A polícia e as forças armadas são leais a suas funções constitucionais, não a um partido”) eFormação de quadrilha (Folha de São Paulo, 26/06/2016) na qual com ares de censura admoesta um grupo de historiadores por defenderem legitimamente a tese do golpe de 2016; ou com o Magnoli de frases e formulações ímpares típicas de um democrata “anticancelamento” como estas: “professores universitários brasileiros saem da toca para celebrar o terror”na ocasião em que se refletia para entender as motivações dos ataques à revista Charlie Hebdona França em 2015 (Raqqa, aqui, Folha de São Paulo, 12/01/2015),e ainda “a lógica férrea do vandalismo do bem conduz a um programa de terra arrasada. O rastilho de fogueiras purificadoras nada poupará, a não ser as novas estátuas esculpidas pelos próprios vândalos do bem, que virão a ser derrubadas por seus futuros seguidores. O presente perpétuo – eis a perigosa ambição dessa seita de iconoclastas” (Folha de São Paulo, 26/06/2020), aqui muito provavelmente sua mão formigou e o fez pegar a pena e condenar jovens por defenderam a derrubada de estátuas como a de Cecil Rhodes e Borba Gato, figuras centrais na organização da opressão (de raças e povos) que cruelmente extirpou vidas humanas por séculos.

Assim, Rosane Borges e Maria Rita Kehl, Djamila Ribeiro e Leonardo Avritzer, Lilia Schwarcz e Wilson Gomes ainda que com pontos de vista distintos de abordar os problemas fazem parte do mesmo campo político e intelectual de esquerda e progressista. Demétrio Magnoli por hora goza da boa companhia de Merval Pereira, José Nêumanne Pinto, Gustavo Franco, Hélio Beltrão, Fernando Schuler, Leandro Narloch, Samuel Pessoa, Rodrigo Constantino e Guilherme Fiuza – e se faltou alguém quem se interessar pode conferir as páginas doInstituto Millenium[i].

*Ronaldo Tadeu de Souza é pesquisador de pós-doutorado no Departamento de Ciência Política da USP.

Nota


[i] Mesmo possuindo pesquisadores sérios e de serviços prestados às nossas ciências sociais como os cientistas políticos Marcus Melo, Carlos Pereira e Bolívar Lamounier, o Instituto Millenium é um Think tanks conservador que foi e está sendo fundamental na reorganização recente da direita brasileira, representando interesses muito bem definidos desde 2006 de quando da sua criação (claro que para além do cinismo de alguns dos seus membros não há problema algum na existência do instituto). Isto para dizer o mínimo. Sobre o Instituto Millenium ver Camila Rocha. “Think Tanks Ultraliberais e a Nova Direita Brasileira”. In:  Le Monde Diplomatique Brasil, nº124, 2017 e “Quem São e o Que Querem”. In: Revista Brasileira de Cultura-CULT, nº 234, 2018.

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