O desejo realizado

Imagem: David Pinheiro
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Por MARCELO GUIMARÃES LIMA*

O desejo ardente da elite empresarial brasileira de se integrar ao sistema econômico global como sócio menores resultou em uma espoliação intensificada, onde a dependência econômica agora ameaça sua própria sobrevivência

1.

É claro como o sol do meio dia que a classe dominante brasileira não tem, nem nunca teve, “visão de mundo”. O entendimento de seu contexto e seu papel, interno e externo, sempre se restringiu a uma “visão de quintal”, quer dizer, de foco restrito nos seus interesses mais imediatos ocupando de modo exclusivo a mente e o coração do empresariado brasileiro.

Lendo na imprensa as queixas de setores do empresariado contra Jair Bolsonaro e os seus, e o incrível imbroglio, digamos assim, que o ativismo estabanado do capitão do golpe da extrema direita brasileira e de seus filhos criou para o país e para os negociantes maiores do país, entre eles o setor agrícola exportador, nos vem uma certa perplexidade: não sabiam afinal estes pragmáticos senhores com quem estavam lidando?

Estes empresários e seus representantes nas estruturas de poder, na mídia, etc., que deram corda para Jair Bolsonaro esticar e esticar mais e mais em falcatruas, com a sua incompetência reiteradamente demonstrada, em esquemas de corrupção nas esferas estatais, e a subversão das precárias estruturas políticas do país, esperavam o que exatamente?

Tanto esticou a corda o capitão do caos, que ela hoje serve para enforcar a si, bem como a todos que apoiaram ou participaram de vários modos da aventura neoliberal-neofascista desta primeira metade do século XXI. Choram pelo leite derramado estes negociantes que, como “drogadictos” da ideologia, não mediram a aposta que faziam. Too late now!.

É certo que a direita como um todo tem a capacidade de criar crises para reter seu poder, sempre que este é ameaçado de fato ou na fantasia antecipadora (melhor prevenir, etc.), mas não tem os instrumentos mentais e conceituais para entender a dinâmica das crises que promovem.

Tal qual o aprendiz de feiticeiro do conto, produzem crises como instrumento de gerenciamento sobre a sociedade como um todo, mas o todo se mostra muitas vezes caprichoso, o todo sobrepassa a visão e a capacidade de entendimento e controle de uma de suas partes, parte interessada, por vezes não muito interessante apesar de seu poder de fato de causar enormes danos correndo o risco de se vitimar na destruição que pensam controlar ad aeternum. A presidência do sr. Trump é, na atualidade, um exemplo gritante disto.

“Fi-lo porque qui-lo”, frase gramaticalmente incerta, atribuída ao saudoso mestre demagogo da política brasileira, o antigo presidente Jânio Quadros, equivale ao “Faço porque posso” atribuída hoje ao “proprietário exclusivo do mundo”, o bem-sucedido demagogo e negociante várias vezes falido, mister Donald Trump, presidente dos EUA.

Do mesmo modo, o sr. Netanyahu, cujo nome de família original era Mileikowsky (de origem polonesa), líder da extrema direita sionista e eterno primeiro ministro do muy democrático Estado de Israel, comanda o genocídio do povo palestino em Gaza porque quer e pode fazê-lo, certamente com a indispensável cumplicidade moral e material dos EUA e da União Europeia. Na crise mundial presente, a noção do “monopólio da violência legítima”, como Max Weber definiu o poder do estado, se transforma: o poder da máquina estatal, poder de fato nas mãos dos Trumps e Netanyahus dispensa quaisquer preocupações com a legitimidade.

2.

A classe dominante brasileira, esteio da ditadura militar que produziu um personagem menor chamado Bolsonaro, alçado ao poder como recurso de última hora contra o poder popular representado, de modo ou de outro, por Lula, se vê hoje desafiada em seu papel tradicional de subordinação interessada e “amigável” junto aos donos do poder global.

Estes exigem hoje a capitulação completa, a recolonização do país e entrega completa de sua economia aos mestres, antes “sócios”, estrangeiros. Ora, ora, senhores da Fiesp e outras entidades patronais, e agora? Parece que o desejo ardente, recorrente, de integração como sócios menores ao sistema da economia global administrada se mostra hoje um caminho não para o enriquecimento mais fácil e garantido, mas para a espoliação intensificada.

Na praia-Brasil, o peixe gordo patronal se alimenta costumeiramente dos indefesos peixinhos trabalhadores, mas agora corre o risco de ser engolido pelo tubarão que vem de longe, faminto e sem disposição pra conversas e “negociações”.

Um antigo provérbio chinês, atribuído ou adaptado por Goethe, diz: “Cuidado com aquilo que você deseja ardentemente, pois seu desejo pode se realizar¨. O desejo tem várias faces, e o desejo realizado pode trazer consequências inesperadas. O político da extrema direita, popularmente conhecido com sr. Bananinha, escapou para os EUA buscando junto ao poder trumpista exercer pressão e impor sanções econômicas contra o Brasil para blindar seu papai do processo e da esperada punição legal contra a fracassada conspiração golpista que Bolsonaro pai liderou.

Conseguiu o que queria do poder norte-americano? Sim, e, no entanto, complicou a vida para a extrema direita e a direita brasileira, incluindo seu papai. Tal qual um “digníssimo” porta-voz da Banana Republic do Brasil, mister Bananinha foi buscar lã e saiu tosquiado, ainda que até o momento não tenha se dado conta do fato.

O poder norte-americano não tem amigos, tem interesses, como reza a conhecida e perspicaz formulação. É de se perguntar qual a razão de mister Bananinha ainda não ter entendido que, neste roteiro de segundo escalão, ele é o manipulado e sua reputação entre os seus pares e seus apoiadores no empresariado está profundamente abalada. Dissonância cognitiva, dirão. Diz a sabedoria popular: “o apressado come cru”. O desejo realizado, segundo a milenar sabedoria chinesa, corre o risco de se revelar um prato muito indigesto.

Assim como mister Bananinha hoje, o empresariado (anti) nacional brasileiro sempre desejou e lutou pela dependência do país. A oportunidade se apresenta agora de modo completo e, potencialmente, irreversível, com a política da paulada sem o atrativo da cenoura, própria do governo de Donald Trump. A dependência hoje, surpreendentemente, dói no bolso dos empresários ditos nacionais. “E agora, José?”, perguntou o poeta, “e agora?”.

*Marcelo Guimarães Lima é artista plástico, pesquisador, escritor e professor.


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