Nota sobre os “debates”

Imagem: Anna Shvets
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por MARCELO GUIMARÃES LIMA*

No atual contexto naturalizar a extrema direita e seu Führer é naturalizar o regime golpista sob o qual vive e padece a maioria.

Sobre os recentes debates tenho lido variadas apreciações, sobretudo no campo progressista que revelam alguma frustração com a performance “comedida” de Lula frente ao Inominável líder (por quanto tempo ainda?) da extrema direita brasileira. Quer me parecer que a maioria destas avaliações assumem como dado aquilo que é no meu entender o essencial da questão: o próprio debate na sua forma e conteúdo.

A rede de televisão e suas associadas que promoveram o último debate dos candidatos a presidente (17/10) se congratulam repetidamente do (seu) triunfo da “democracia” brasileira. Qual democracia? A pergunta seria talvez interessante ou talvez seria uma pergunta simplória, ingênua, a ser portanto evitada.

O escarcéu de jornalistas pavoneando abertamente o narcisismo espetacular do espetáculo midiático serve ao menos para deixar claro que o sujeito efetivo destes debates não é “o processo político, a democracia, a opinião pública”, mas é a mídia monopolizada ela mesma que se substitui àquilo que aparenta simplesmente apresentar tal e qual.

Na histórica subdemocracia brasileira, o papel essencial da chamada grande mídia, os monopólios familiares da comunicação de massas, é contribuir para naturalizar a pseudopolítica, a ilusão geral do poder dito representativo, que o é certamente no que diz respeito à minoria dos donos da nação. Jair Bolsonaro, não custa repetir mais uma vez, é o retrato escarrado, sem firulas e sem retoques, da classe dominante brasileira. O mitômano e seus cúmplices expõem demasiado abertamente a fratura, o apartheid social-racial brasileiro, a violência sem tréguas das relações de classe no Brasil hoje.

Daí talvez a necessidade de parte da burguesia de “abrandar” a face abjeta da exploração, de retirar o Capitão do Baixo-Clero da presidência para que a espoliação do povo e da nação possa continuar “neoliberalmente”. A Faria Lima, a ala “moderna” do agronegócio, os juristas ciosos das suas prerrogativas, entre tantos outros, parecem reconhecer finalmente que os tradicionais representantes da cleptocracia nativa ao unirem-se alegre e afoitamente ao aventureiro neofascista deram um passo maior que as pernas e correm o risco de pôr a perder o regime golpista atual nos desafios da crise brasileira e mundial.

No atual contexto naturalizar a extrema direita e seu Führer é naturalizar o regime golpista sob o qual vive e padece a maioria. Este é o papel da mídia, de seus jornalistas amestrados e demais colaboradores face às dificuldades que se apresentam interna e externamente para a continuidade do atual regime fraturado entre os vários bandos de assaltantes e parasitas do tesouro nacional que competem entre si.

Em tal cenário, acreditar que o debate poderia dar outros frutos é esperar demasiado, é talvez desconhecer ou menosprezar as imposições do contexto e das estruturas vigentes. As quais, por não serem eternas, procuram adaptar-se aos ventos contraditórios que sopram dentro e fora do país, mudando para que tudo continue igual.

*Marcelo Guimarães Lima é artista plástico, pesquisador, escritor e professor.

 

Veja neste link todos artigos de

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

__________________
  • 40 anos sem Michel Foucaultveneza 13/07/2024 Por VINÍCIUS DUTRA: O que ainda permanece admirável na forma de Foucault de refletir é sua perspicácia em contestar ideias intuitivamente aceitas pela tradição crítica de pensamento
  • Que horas são no relógio de guerra da OTAN?José Luís Fiori 17/07/2024 Por JOSÉ LUÍS FIORI: Os ponteiros do “relógio da guerra mundial” estão se movendo de forma cada vez mais acelerada
  • A Unicamp na hora da verdadecultura artista palestina 13/07/2024 Por FRANCISCO FOOT HARDMAN: No próximo dia 6 de agosto o Conselho Universitário da Unicamp terá de deliberar se susta as atuais relações com uma das instituições empenhadas no massacre em Gaza
  • A disputa de Taiwan e a inovação tecnológica na ChinaChina Flag 20/07/2024 Por JOSÉ LUÍS FIORI: A China já é hoje a líder mundial em 37 das 44 tecnologias consideradas mais importantes para o desenvolvimento econômico e militar do futuro
  • Carta de Berlim — a guerra e o velho diaboFlávio Aguiar 2024 16/07/2024 Por FLÁVIO AGUIAR: Há um cheiro de queimado no ar de Berlim. E não há nenhum Wald (bosque) em chamas, apesar do calor estival. O cheiro de queimado vem mesmo da sede do governo Federal
  • A produção ensaística de Ailton Krenakcultura gotas transp 11/07/2024 Por FILIPE DE FREITAS GONÇALVES: Ao radicalizar sua crítica ao capitalismo, Krenak esquece de que o que está levando o mundo a seu fim é o sistema econômico e social em que vivemos e não nossa separação da natureza
  • A radicalidade da vida estéticacultura 04 20/07/2024 Por AMANDA DE ALMEIDA ROMÃO: O sentido da vida para Contardo Calligaris
  • Depois do neoliberalismoELEUTERIO2 18/07/2024 Por ELEUTÉRIO F. S. PRADO: A incapacidade de pensar o capitalismo como um sistema social formado por relações sociais estruturantes
  • Um ciclo interminávelpalestina rua gente 16/07/2024 Por BRUNO HUBERMAN: A esquerda sionista ataca a luta palestina por descolonização
  • Marxismo e política — modos de usarLuis Felipe Miguel 15/07/2024 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Introdução do autor ao livro recém-publicado

PESQUISAR

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES