O Iluminismo em tempos de sombras

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Por CARLOS EDUARDO ARAÚJO*

O Iluminismo, que foi e continua sendo uma ode ao conhecimento, à ciência e ao progresso, desempenhou um papel inestimável nessa caminhada da humanidade

“Há bastante luz para os que só desejam ver, e bastante obscuridade para os que têm uma disposição contrária” (Pascal).
“Há duas maneiras de espalhar a luz: ser a vela ou o espelho que a reflete” (Edith Wharton).
“Ouse saber (sapere aude)” (Kant).

1.

Início estas reflexões com a provocação de Steven Pinker: “Quem poderia ser contra a razão, a ciência, o humanismo ou o progresso? São palavras doces, expressam ideais inatacáveis. Definem as missões de todas as instituições da modernidade: escolas, hospitais, entidades beneficentes, agências de notícias, governos democráticos, organizações internacionais. Esses ideais precisam mesmo de defesa?”

A resposta, infelizmente, é afirmativa. Vivemos um tempo em que tais conquistas – celebradas com entusiasmo no século XVIII – encontram oposição explícita. Multiplicam-se vozes negacionistas da ciência, da história, das artes e do conhecimento, movidas por fundamentalismos políticos, religiosos e culturais. Assistimos, perplexos, a um retrocesso que resgata fantasmas obscurantistas e que, sem pudor, tentam reabilitar formas de dogmatismo que a própria modernidade supunha superados.

Não é descabido falar em retorno a uma “idade das trevas” – expressão imprecisa para designar a Idade Média, mas apropriada como metáfora do momento presente. Justamente por isso, os valores iluministas precisam ser revisitados, reafirmados e defendidos com vigor.

Será ingênuo ou utópico aspirar a tal tarefa? Seriam ainda fecundos os valores da razão, da crítica, do esclarecimento e da liberdade de pensamento em sociedades marcadas por fluxos digitais vertiginosos, saturadas de informações contraditórias, vulneráveis às manipulações da pós-verdade?

Em 1686, antes mesmo do auge iluminista, Charles Gildon já advertia: devemos eleger a razão como guia soberana, “a luz que ilumina as coisas, impedindo que vaguemos às cegas”. Charles Gildon reconhecia seus limites, mas sustentava que toda violação ao livre exercício da razão equivaleria a um atentado contra a própria humanidade. Não por acaso, qualificava seus opositores como “inimigos da humanidade”.

O homem, é certo, não se reduz à razão. Mas tudo o que lhe diz respeito – instituições políticas, sistemas filosóficos, comportamentos éticos, crenças religiosas – pode e deve ser interrogado por ela. O Iluminismo, ou a Ilustração, foi precisamente esse movimento que apostou na capacidade crítica da razão para interrogar tradições, desmascarar preconceitos e emancipar consciências. Não à toa, em alemão, Aufklärung significa esclarecimento, desvelamento, a superação das trevas da ignorância e do preconceito.

2.

Kant, em seu célebre texto de 1784, Resposta à pergunta: Que é o Iluminismo?, definiu-o como emancipação intelectual, processo de saída da “menoridade” do pensamento, isto é, da incapacidade de pensar por conta própria. Essa menoridade não é natural: é cultivada, imposta, até mesmo desejada. Padres, governantes, autoridades políticas e religiosas perpetuam-na, alimentando a dependência intelectual. O Iluminismo surge como apelo à coragem: sapere aude – ousa pensar!

Mas Kant não se iludia quanto às dificuldades. “É difícil ao homem libertar-se da menoridade que para ele se tornou quase uma natureza”, advertia. A servidão do espírito ganha o aspecto de hábito confortável; o peso da autonomia assusta. A preguiça e o medo, dizia, são os maiores obstáculos à liberdade de pensamento.

As lições que emanam do texto kantiano ainda hoje se mostram clarividentes e vitais. Podemos colher de suas reflexões frutos preciosos, especialmente em tempos em que o solo do conhecimento, da ciência e da cultura parece marcado pela aridez e pela salinidade, dificultando o plantio e a colheita.

Giovanni Reale e Dario Antiseri, em sua prestigiada História da filosofia, lembram que, para os iluministas – como também para Kant –, somente o crescimento da consciência pode libertar as mentes de sua servidão espiritual, de sua sujeição a preconceitos, ídolos e erros evitáveis (para usar a expressão de Karl Popper). A confiança na razão humana não era ingênua, mas firme: um uso crítico, lúcido, capaz de libertar os homens dos dogmas metafísicos, dos preconceitos morais, das superstições religiosas, das tiranias políticas e das relações sociais desumanas. Eis a marca distintiva do Iluminismo.

Mas a modernidade trouxe também as suas sombras. Theodor Adorno e Max Horkheimer, pensadores da chamada Escola de Frankfurt, publicaram em 1947 a obra que se tornou referência crítica obrigatória: Dialética do esclarecimento. A experiência do nazismo e do Holocausto levou-os a desconfiar do otimismo iluminista em relação à razão e ao progresso. Perguntavam: como a razão, destinada a libertar, pôde converter-se em instrumento de dominação, servindo à barbárie?

Suas reflexões permanecem de uma atualidade perturbadora em tempos de obscurantismo protofascista. Como escreveram: “No sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e de investi-los na posição de senhores” – e, contudo, este mesmo processo produziu novas formas de servidão.

Em outro momento da obra, recordam palavras de Francis Bacon, que já no século XVI percebia que “a superioridade do homem está no saber, disso não há dúvida. Nele muitas coisas estão guardadas que os reis, com todos os seus tesouros, não podem comprar, sobre as quais sua vontade não impera, das quais seus espias e informantes nenhuma notícia trazem, e que provêm de países que seus navegantes e descobridores não podem alcançar”.

O saber, contudo, não é neutro. Francis Bacon, citado por Theodor Adorno e Max Horkheimer, adverte que o entendimento que vence a superstição pode também dominar a natureza de forma implacável: “O saber que é poder não conhece barreira alguma, nem na escravização da criatura, nem na complacência em face dos senhores do mundo”.

A crítica de Adorno e Horkheimer desnuda a ambiguidade fundamental da modernidade: o mesmo esclarecimento que prometeu emancipar pode se degradar em técnica de opressão, em cálculo frio a serviço do poder. Não é sem razão que muitos acusaram o Iluminismo do século XVIII de um otimismo pueril diante da razão, da cultura e do progresso. O século XX, com suas guerras e genocídios, foi o desmentido cruel dessa confiança ilimitada.

Ainda assim, a herança iluminista não deve ser descartada, mas repensada. O psicólogo e linguista Steven Pinker, em obras recentes, retoma e intensifica o otimismo do século XVIII, defendendo que, apesar de todos os retrocessos, o projeto da razão crítica continua a produzir avanços inegáveis em ciência, saúde, direitos humanos e democracia. Seu texto oferece uma mensagem alvissareira, um contrapeso aos tempos sombrios – ainda que, como um Voltaire às avessas, não caiba aqui o otimismo simplista de Pangloss, mas sim uma confiança vigilante na capacidade humana de aprender, corrigir e progredir.

3.

Hoje, dois séculos depois, a advertência de Kant ecoa com uma atualidade inquietante. Se, no século XVIII, a luta era contra dogmas religiosos e absolutismos políticos, hoje o embate se trava contra a desinformação digital, as manipulações algorítmicas, as fake news, a polarização tóxica e a captura da política pelo ressentimento. Vivemos em sociedades em que muitos renunciam voluntariamente ao uso da razão, preferindo o abrigo confortável de narrativas simplificadoras e de líderes que prometem certezas fáceis.

Com o intuito de lançar luzes à questão, Giovanni Reale e Dario Antiseri recordam que o Iluminismo não deve ser compreendido como um sistema doutrinário fechado, compacto e homogêneo, mas antes como um movimento cultural amplo, plural, em cuja base repousa uma confiança decidida – ainda que não ingênua – na razão humana.

Para os iluministas, o desenvolvimento da razão representa, ao mesmo tempo, o progresso da humanidade e sua libertação frente aos vínculos cegos da tradição, à ignorância cultivada, às superstições paralisantes, ao mito e às formas diversas de opressão.

Parece-me, pois, que se faz urgente resgatar esse ideário em nossos dias, em meio à expansão de absurdos que se naturalizam, de falácias políticas e religiosas que conquistam a mente dos irrefletidos, da ofensiva crescente contra a liberdade, contra a educação, contra a cultura e contra as artes. Todas essas dimensões da vida humana vão sendo definhadas, em um processo aviltante e deprimente, alimentado não apenas pelo discurso fundamentalista, mas também pela supressão de recursos e pelo desmonte deliberado de instituições culturais.

Importa lembrar que não se pode falar em um iluminismo, no singular, pois o que houve foram iluminismos, com características próprias nas tradições francesa, inglesa, alemã e italiana. Todavia, como notam Reale e Antiseri, é possível identificar traços comuns, “semelhanças de família”, que permitem pensar no Iluminismo como movimento global.

Entre essas convergências, está a defesa da razão como salvaguarda do conhecimento científico e da técnica, entendidas como instrumentos de transformação do mundo e de elevação das condições espirituais e materiais da humanidade; a defesa da tolerância ética e religiosa; a luta pelos direitos naturais e inalienáveis do homem e do cidadão; a rejeição de dogmatismos metafísicos e de superstições religiosas; e, por fim, a crítica às tiranias e privilégios. São esses os pilares que sustentaram a aventura iluminista e que permanecem, ainda hoje, como tarefas inacabadas.

Não é razoável, portanto, que depositemos na lata do lixo da história o resultado de séculos de esforços, de erros e acertos, de acúmulo paciente de saberes. Somos, em pleno século XXI, herdeiros de milhares de anos de descobertas e invenções, de teorias criadas, refutadas e reconstruídas, no interminável processo humano de busca da verdade.

Steven Pinker recorda que somos Homo sapiens, “o homem que sabe”: espécie que se sustenta na aquisição, no acúmulo e na transmissão de informações, por meio da linguagem, da observação, do ensino, do gesto e da palavra. Em alguns momentos cruciais, esse processo conheceu saltos exponenciais – a invenção da escrita, a difusão da imprensa, o advento da mídia eletrônica e digital. Cada um desses marcos multiplicou a difusão do conhecimento, ampliando horizontes e transformando sociedades inteiras.

4.

É certo que as incertezas permanecem colossais, mas também é inegável que alcançamos consensos duradouros, construídos sobre provas, contraprovas e verificações incessantes. O pecúlio do conhecimento humano cresce gradativamente, mesmo que o terreno do incognoscível se expanda em proporções semelhantes. Saber mais sobre nossa história e nosso país; sobre a diversidade de culturas e costumes; sobre o microcosmo das células e dos átomos; sobre o macrocosmo dos planetas e das galáxias; sobre o mundo incorpóreo da lógica, dos números e dos padrões – esse saber, como observa Steven Pinker, nos eleva a um patamar superior de consciência.

O Iluminismo, que foi e continua sendo uma ode ao conhecimento, à ciência e ao progresso, desempenhou um papel inestimável nessa caminhada da humanidade. Ele representou não apenas a defesa do uso autônomo da razão, mas também um chamado constante ao exercício da crítica, à vigilância contra os grilhões dos preconceitos e das crenças paralisantes.

Hoje, quando tais crenças e preconceitos retornam com força e truculência inimagináveis, em pleno século XXI, o legado iluminista mostra-se ainda mais necessário. Sua ambição era — e deve continuar sendo — a de estender a crítica a todos os domínios da vida humana, guiando-nos pelas luzes da razão em nossas práticas políticas, éticas, científicas e culturais.

Trata-se, contudo, de um conhecimento que deve permanecer aberto ao questionamento, em um contínuo repensar de si mesmo. O iluminismo não é dogma, mas processo: uma disposição permanente de autocrítica e aperfeiçoamento. E é precisamente nessa tarefa incessante de nos emanciparmos pelo pensamento, sem cair nas armadilhas da ingenuidade ou da arrogância, que repousa a grandeza e a atualidade de seu legado.

Mais que nunca, o Iluminismo não deve ser visto como uma herança morta, mas como tarefa inacabada. Cabe a nós – professores, escritores, pensadores, cidadãos – manter acesa a vela da razão e refletir sua luz, mesmo quando os ventos do obscurantismo ameaçam apagá-la. A defesa da ciência, do humanismo, da liberdade crítica e da tolerância não é luxo intelectual: é imperativo ético e político.

As sombras se adensam. Mas é nas noites mais escuras que a chama da vela se faz indispensável.

*Carlos Eduardo Araújo é mestre em Teoria do Direito pela PUC-MG.

Referências


Adorno, Theodor W.; Horkheimer, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

Kant, Immanuel. A Paz Perpétua e outros opúsculos. Textos Filosóficos. Lisboa: Edições 70, 2002.

Pinker, Steven. O novo Iluminismo: Em defesa da razão, da ciência e do humanismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

Reale, Giovanni; Antiseri, Dario. História da Filosofia. São Paulo: Paulinas, 1990.

Rovighi, Sofia Vanni. História da Filosofia. São Paulo: Loyola, 1999.


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