Por ANDRÉ VERETA-NAHOUM*
O gesto de deslocar a análise da política para a identidade, da ação para a origem, opera por meio de uma fantasia de agência extraordinária que historicamente alimentou o repertório do antissemitismo
1.
Conta-se que, em algum anexo mal ventilado onde outrora viveram indígenas, funciona o “Instituto nacional de julgamentos definitivos”. Trata-se de uma instituição dedicada a resolver, de uma vez por todas, os problemas do mundo. Nas paredes, há quadros dos antepassados dos membros, respeitáveis senhores sesmeiros e responsáveis pelas mais diversas transações desde os tempos de Tomé de Souza até os dos delírios de Ernesto Geisel, sempre devidamente apagadas da memória nacional. Seus membros descobriram recentemente um método revolucionário: em vez de analisar fenômenos complexos, basta nomeá-los moralmente.
Numa de suas sessões mais produtivas, decidiram classificar os países do mundo. Após breve deliberação, chegaram à conclusão de que existe, sim, “o pior país do mundo”. A descoberta foi celebrada como um avanço metodológico: finalmente, a geopolítica fora reduzida a um adjetivo. Mas o entusiasmo não parou aí.
Em dado momento, um dos membros sugeriu que talvez fosse possível ir além dos países e classificar também os povos. “E se identificássemos traços morais essenciais?”, perguntou, com a segurança de quem nunca teve de testar uma hipótese.
Foi então que a discussão enveredou por um terreno ainda mais fértil: a mediocridade. Não a mediocridade banal, cotidiana, estatisticamente distribuída, que seria pouco útil, mas uma mediocridade seletiva, atribuível a certos grupos, convenientemente isolados do restante da humanidade. Ou pior: alçados à condição de “inimigos da humanidade”.
É aqui que um convidado inesperado poderia ter prestado algum serviço: Francis Galton, aquele excêntrico vitoriano obcecado por medir a humanidade, que pensava a mediocridade não como um insulto, mas uma propriedade estatística. Francis Galton produziu uma conclusão bastante desinteressante: todos os povos são, em média, igualmente ordinários. A mediocridade não distingue. Ela nivela. E depois disso influenciou os discursos eugenistas de seu tempo.
Talvez os respeitados intelectuais do Instituto tenham um horizonte de propósitos práticos semelhante. Mas para isso, até a conclusão de Francis Galton deveriam abandonar, pois teriam de converter o universal em particular e o banal em estigma, aplicado ao grupo correto.
2.
É exatamente esse movimento que aparece em recentes manifestações de certos intelectuais que, no afã de discutir crimes e agressões da maior importância, deslocam a retórica para julgamentos coletivos contra judias e judeus. Refiro-me a um artigo “O Pior País do Mundo” publicado no site A Terra é Redonda por Paulo Nogueira Batista Jr. e às recentes manifestações digitais de Jessé Souza.
Ao sugerir a mediocridade de judeus, não como indivíduos, mas como coletivo indistinto, o argumento de Paulo Nogueira Batista Jr. abandona qualquer pretensão analítica e ingressa num repertório bastante conhecido: o da essencialização moral de um povo. Não se trata mais de criticar políticas, decisões de governo ou estratégias militares, mas de atribuir uma qualidade intrínseca a uma coletividade inteira (que sequer é nacional). Evidentemente, é possível condenar práticas de Estado sem associá-las a uma coletividade difusa ou a pretensas características morais inerentes.
Isso ocorre pouco tempo depois de Jessé Souza utilizar lentes conspiratórias para analisar a rede misógina de pedofilia mantida por Jeffrey Epstein. Ao fazê-lo, não se limitou a analisar redes concretas de poder ou responsabilidade; preferiu insinuar conexões entre os crimes do financista e um suposto “lobby judaico” ou “sionismo”, deslocando o problema do plano das práticas e instituições para o da identidade coletiva. Essas afirmações não apenas carecem de evidências empíricas, como fazem uso do clássico recurso de substituir uma imputação situada para uma generalização difusa.
Jeffrey Epstein e seus associados não são agentes de seus crimes. São receptáculos inertes de uma força irresistível. Suas vítimas desaparecem como algo colateral. O recuo posterior, com a alegação de confusão terminológica entre “judaico” e “sionista”, serve apenas como ato falho e pouco altera a estrutura do argumento, que permanece assentada na mesma operação de deslocamento e essencialização.
Esse gesto tem história. Ele ecoa uma tradição que, ao longo do tempo, projetou sobre judeus uma dupla imagem tão conveniente quanto contraditória: ora a da inferioridade moral, ora a de um poder desmesurado de controlar processos econômicos e sociais. É essa segunda vertente, a hipérbole conspiratória, que reaparece, por exemplo, quando se questiona a presença de indivíduos de origem judaica em posições de destaque como se isso, em si, fosse indício de algo a ser explicado. A tragédia europeia do antissemitismo construiu boa parte de sua força precisamente nessa fantasia de agência extraordinária.
É uma das figuras célebres invocadas por Paulo Nogueira Batista Jr. que nos ensina que quando esse repertório retorna hoje, ele não o faz como farsa.
3.
Aqui, o paralelo é instrutivo. Em A sagrada família, Karl Marx já ironizava a “crítica crítica”: uma forma de pensamento que, incapaz de apreender as mediações concretas de um conflito social, refugia-se em julgamentos abstratos e grandiloquentes. A farsa contemporânea consiste precisamente nisso: a reedição, em chave empobrecida, de velhos esquemas explicativos que substituem análise por imputação.
É nesse ponto que a figura do bode expiatório entra em cena, teorizada por outro intelectual extraordinário. Lewis Coser (Ludwig Cohen) mostrou como conflitos sociais frequentemente são deslocados para alvos simbólicos, permitindo que tensões reais sejam expressas sem jamais serem enfrentadas. O mecanismo é conhecido: personaliza-se, simplifica-se, moraliza-se. E, ao final, tem-se a confortável sensação de ter dito algo importante, quando, na verdade, apenas se redistribuiu a carga afetiva do problema.
Talvez isso ajude a entender um detalhe curioso: a centralidade quase obsessiva atribuída a “intelectuais de origem judaica” em textos que, em tese, tratariam de Estados e de conflitos geopolíticos. É um deslocamento revelador. Quando a análise escorrega da política para a origem, da ação para a identidade, algo já saiu do eixo. Aqui, quem talvez pudesse oferecer alguma pista adicional é Sigmund Freud: há fixações que dizem menos sobre o objeto visado do que sobre a estrutura do olhar que insiste em visá-lo.
Mas há um elemento adicional que não pode ser ignorado e que diz respeito não apenas aos autores, mas aos circuitos que os autorizam. Quando meios de comunicação e instituições que se pretendem espaços de debate público passam a acolher reiteradamente esse tipo de formulação em que coletividades são essencializadas e reduzidas a traços morais não estão apenas hospedando opiniões controversas. Estão conferindo legitimidade discursiva a um repertório historicamente associado a formas de racismo. Ao fazê-lo, não apenas falham em distinguir entre crítica política e estigmatização coletiva, como contribuem para normalizar essa confusão.
E a consequência é previsível. Uma vez atravessado esse limiar, a lógica tende a se expandir: se é aceitável aqui, por que não ali? O que se inaugura não é um debate mais franco, mas um rebaixamento do próprio espaço público, onde o ódio pode circular sob a forma respeitável de “opinião”, e a aniquilação simbólica passa a ser exercida com a chancela da publicação. E se é aceitável com uns, porque não com outros? Daí porque o silêncio de intelectuais e suas associações frente a essas manifestações de seus membros pode ser tão custoso.
No fim, o que se apresenta como diagnóstico (a mediocridade de um grupo) revela-se mais como sintoma. Não de qualquer característica intrínseca aos outros, mas de uma dificuldade bastante conhecida: a de sustentar a complexidade sem recorrer ao atalho confortável da generalização. Quando interpelados, recorrem ao expediente usual de invocar as exceções à regra que proclamam (alguns bons judeus) ou lembram com afeto de algum conhecido (“tenho até amigos”).
Paulo Nogueira Batista Jr. é, inclusive, reincidente na farsa: ele já empregou semelhante retórica para expressar seu ressentimento diante da nomeação de um economista israelense-brasileiro à presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento.
E, nesse sentido, talvez não estejamos diante de um problema de “mediocridade alheia”, mas de algo mais banal e, como Galton lembraria, muito mais bem distribuído. Inclusive entre aqueles que se arrogam o direito de medi-la.
*André Vereta-Nahoum é professor do Departamento de Sociologia da USP.






















