O segredo das senhoras americanas

Dame Barbara Hepworth, Porthmeor, 1969

Por MARCELO RIDENTI*

Introdução abreviada do autor ao livro recém-lançado

Este livro trata de intelectuais – no sentido amplo que abarca também certos artistas e estudantes – que atuaram nas circunstâncias da Guerra Fria buscando o desenvolvimento pessoal e coletivo em sua atividade, com destaque no espaço público. Participando por exemplo do círculo internacional comunista, caso de Jorge Amado e seus camaradas da América Latina.

Ou, ao contrário, recorrendo a meios fornecidos pelo lado ocidental, como nos vínculos com o Congresso pela Liberdade da Cultura (CLC), sediado em Paris, patrocinador da revista Cadernos Brasileiros com fundos dos Estados Unidos. E ainda pela oportunidade dada a estudantes para conhecer gratuitamente a Universidade Harvard e o modo de vida americano em plenos anos rebeldes. Essas três passagens foram analisadas, uma em cada capítulo. Apesar de aparentemente secundárias e ainda pouco estudadas, permitem compreender o lugar do intelectual e a totalidade do processo que envolvia sua internacionalização e financiamento em meio à rápida modernização da sociedade brasileira.

Dar título a um livro não é tarefa simples. Como chamar a atenção para uma obra inteira em palavras sintéticas? A primeira ideia foi dar-lhe o nome Guerra Fria cultural: passagens internacionais do (sub)desenvolvimento. Assim, enfatizaria o tema da cultura no período da Guerra Fria em passagens específicas, abarcando conexões de intelectuais brasileiros no exterior para construir suas carreiras e romper com o subdesenvolvimento nacional, aproximando-se do campo liderado pelos Estados Unidos ou ousando optar pelo lado soviético, que ganharia uma outra perspectiva após a vitória da revolução cubana, a oferecer um viés novo à proposta comunista. Ou ainda aproveitando os embates entre as potências para negociar com os dois lados.

O (sub), entre parênteses no título antes do termo desenvolvimento, daria ideia da ambiguidade numa sociedade que se modernizava no Brasil, mas não conseguia romper com as desigualdades na periferia do capitalismo. Um país ao mesmo tempo desenvolvido e subdesenvolvido, moderno e atrasado, na chave do desenvolvimento desigual e combinado, tal como proposta, por exemplo, por Francisco de Oliveira (2003), em seu questionamento do dualismo para entender a sociedade brasileira, que comparou a um ornitorrinco, esse animal estranho a amalgamar características de várias espécies. Por sua vez, o termo “passagens” no subtítulo remeteria aos casos específicos abordados. Também daria ideia de trânsito, de algo que precisa passar, num caminho que entretanto não se mostra passageiro, repetindo-se como um sonho que é também pesadelo para artistas e intelectuais cindidos. No sentido do que Marshall Berman (1986) chamou de cisão fáustica dos intelectuais de países em desenvolvimento.

Entretanto, o plano inicial de título foi mudado, em parte porque era acadêmico em demasia. O livro pretende ir além de um público universitário, ainda que haja algo de ilusório nesse intento, pois as barreiras de comunicação e difusão são difíceis de romper. Nunca desisto da empreitada de manter o rigor acadêmico e ao mesmo tempo buscar atingir audiência e interlocução mais ampla. Por isso o uso excessivo de jargão sociológico foi evitado e tentei ser econômico nas notas de rodapé, que podem ser puladas pelos não especialistas sem prejuízo do entendimento, pois no essencial se referem à menção de fontes.

Surgiu, então, uma segunda possibilidade de título, Revolução, contrarrevolução e dinheiro: passagens da Guerra Fria cultural. Ele poderia iluminar o aspecto político envolvido: a busca da revolução brasileira – fosse nacional e democrática, ou então socialista – por certos sujeitos, enquanto outros seriam contra ela, almejando o desenvolvimento associado aos interesses dos Estados Unidos. Na luta por corações e mentes, as grandes potências apoiaram seus aliados. Com financiamento explícito no patrocínio soviético ao Conselho Mundial da Paz, de que Jorge Amado foi dirigente, como o primeiro capítulo aborda; patrocínio velado no caso do apoio dos Estados Unidos ao Congresso pela Liberdade da Cultura com verba secreta da Central Intelligence Agency (CIA), tema investigado no segundo capítulo sobre a revista Cadernos Brasileiros.

O grupo de mulheres que organizou a Associação Universitária Interamericana (AUI), analisado no terceiro capítulo, nunca escondeu que parte de seus fundos vinha de empresas multinacionais, nem que houve algum suporte oficial dos Estados Unidos, mas souberam guardar segredo sobre o montante do financiamento e sua procedência específica, pois sabiam que a descoberta afastaria o interesse de participação de estudantes de esquerda a quem pretendiam cativar com a estada de cerca de um mês em seu país.

Essa possibilidade de título também foi descartada, pois enfatizaria demais a questão política em torno da revolução e da contrarrevolução, quando o foco está sobretudo na internacionalização de intelectuais, indissociável das disputas da Guerra Fria pela hegemonia ideológica, quando se ofereceram oportunidades aproveitadas pelos principais atores analisados. Eles estavam longe de ser fantoches, antes participaram das disputas do período, dentro de seus limites de atuação.

Prevaleceu a escolha do título O segredo das senhoras americanas, que é também o do capítulo final. Busca levar à curiosidade para descobrir quem eram as senhoras americanas, qual o seu segredo. Remete também à sensação de mistério envolvida na Guerra Fria, bem como ao encanto da cultura dos Estados Unidos, inseparável da tentação de contestar o “imperialismo sedutor”, na expressão feliz de Tota (2000). Explicitam-se no subtítulo – Intelectuais, internacionalização e financiamento na Guerra Fria cultural – as palavras-chave a que o livro se refere. O título também revela o peso maior dado à análise do lado ocidental da Guerra Fria, em parte porque já tratei dos comunistas em outras obras, mas sobretudo porque a influência cultural, política e econômica dos Estados Unidos foi e é muito mais expressiva na sociedade brasileira. Isso não significa perder de vista seus antagonistas, que aparecem o tempo todo como interlocutores e personagens nos dois capítulos finais e mais longos.

O uso do substantivo “segredo” no título não implica compactuar com certo reducionismo comum nos estudos sobre a Guerra Fria cultural, bem apontado por David Caute (2003). É preciso evitar enquadrar o tema em equações simples, por exemplo, como se tudo se explicasse pelas ações encobertas das grandes potências, e o trabalho de pesquisa devesse restringir-se a descobrir quem financiou as ações, quem estava por trás delas. Conhecer esse aspecto é fundamental, mas não suficiente, cabe analisar todo o contexto e verificar como se articulava com os sujeitos, que não eram meras marionetes ou inocentes úteis; eles atuavam individual e coletivamente com base em suas ideias, ideais, ideologias e utopias situadas em certo momento histórico.

O livro aborda um período fértil da história de intelectuais em suas relações com a política, em escala nacional e internacional. Busca avançar na compreensão tanto da experiência dos agentes na formação e no amadurecimento de um campo intelectual no Brasil, como de sua inserção na indústria cultural que se consolidava, tudo em meio a um processo internacional de desenvolvimento do capitalismo e de contestação a ele. Era um tempo de “relativa hegemonia cultural de esquerda” que ameaçava a ordem em âmbito local e mundial, mas também fazia parte dela, para citar Roberto Schwarz (1978), num artigo clássico publicado pela primeira vez em 1970, não por acaso durante seu exílio na França, na prestigiosa revista de Sartre, Les Temps Modernes.

Ou, melhor dizendo, um tempo de esboço consistente de contra-hegemonia ou de hegemonia alternativa, para usar termos de Raymond Williams (1979), inspirado em Gramsci (2002). Isso envolve a compreensão da cena cultural em seu conjunto e as relações entre intelectuais no contexto da Guerra Fria, entendida como a polarização política entre soviéticos e norte-americanos a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, que teve influência em todos os domínios da vida social no período. Sendo uma guerra “fria”, isto é, travada em grande medida ideologicamente, sem o uso de armas – pois uma guerra entre as potências com armamento atômico levaria à destruição mútua –, suas implicações no domínio da cultura ganharam particular relevância nas disputas para conquistar adeptos, o que se convencionou chamar de Guerra Fria cultural, termo usado já na época estudada, como no título de um conhecido artigo de Christopher Lasch (1967).

Não há como tratar da Guerra Fria cultural sem se remeter à internacionalização dos sujeitos sociais e políticos. Destacam-se a politização, a circulação e as conexões transnacionais de intelectuais. Internacionalização, note-se, não é sinônimo de circulação internacional, pois pode ocorrer sem que necessariamente os agentes circulem por outros países, como advertiram Blanco e Brasil (2018) ao analisar a Faculdade de Filosofia da USP nos anos 1940 e começo dos 1950, onde a internacionalização se dava sobretudo pela presença elevada de professores europeus e norte-americanos, sem que necessariamente os alunos e colegas locais circulassem em intercâmbios acadêmicos no exterior. Aqui será tratada com ênfase a circulação internacional – de Jorge Amado e seus companheiros, dos participantes da revista Cadernos Brasileiros e da Associação Universitária Interamericana –, como parte de um processo mais amplo de internacionalização que demandou intercâmbio de ideias, mercadorias e pessoas em conexões transnacionais indissociáveis dos fenômenos sociais e políticos do período.

A hipótese central é que, tanto do lado norte-americano como do soviético, vários intelectuais – em suas vidas e suas obras – participaram ativamente da disputa das grandes potências, apesar de não estarem a par de todos fatos e de não dominarem todas as regras do jogo. Não se pode dizer que seriam inocentes úteis; foram usados pelas potências e suas instituições, por certo. Contudo, também souberam intervir e atuar pessoal e coletivamente, sem necessariamente se definir por um dos lados na contenda, criticando-os e também negociando com eles. Trata-se de ajudar a compreender as modalidades de colaboração, disputa e circulação internacional de profissionais atuantes tanto nos âmbitos especializados da atividade cultural como na vida política, vinculando-se ou não a partidos e movimentos de esquerda ou de direita no período da Guerra Fria. Então amadureceu na sociedade brasileira um sistema intelectual diferenciado, em paralelo com a ampliação da esfera cultural, o crescimento da mídia e da indústria cultural, associados à rápida urbanização e industrialização.

Redes internacionais poderosas de difusão, abrigando intelectuais e artistas, mobilizaram recursos e apoios dos dois lados na Guerra Fria. Os comunistas atuaram num contexto de ascensão política e ideológica a partir da vitória contra o nazifascismo – num pós-guerra em que foi expressiva a presença de artistas latino-americanos exilados em Paris –, com forte influência soviética; a seguir integraram diferentes vertentes identificadas com a própria União Soviética, ou a China, posteriormente Cuba e outros países do Terceiro Mundo. Por outro lado, eram ainda maiores as possibilidades de acesso a redes não comunistas ou anticomunistas financiadas direta ou indiretamente pelos Estados Unidos, como nos casos da revista Cadernos Brasileiros e da Associação Universitária Interamericana (AUI), tratados adiante.

Havia um jogo complexo de reciprocidade que não só viabilizava a projeção local e internacional dos beneficiários da chancela soviética ou norte-americana, mas também reforçava a legitimidade política e simbólica dos patrocinadores. Não se tratava do suposto uso indevido da arte e do pensamento social para fins que lhes seriam alheios, relativos à política pró-soviética ou pró-americana, mas de uma relação intrincada com custos e benefícios para todos os agentes envolvidos – fossem pesquisadores, artistas, estudantes ou instituições –, que implicava ainda uma dimensão ideológica ou utópica que não se reduzia ao cálculo racional.

A revolução cubana de 1959 colocou novos aspectos em disputa no xadrez geopolítico internacional da Guerra Fria, atraindo artistas e intelectuais da América Latina. Em resposta, os Estados Unidos procuraram dar maior atenção à região, por exemplo, ao criar a Aliança para o Progresso em 1961. Um caso exemplar de ação cultural norte-americana durante a Guerra Fria – analisado no capítulo sobre a internacionalização cultural liberal – revelava-se no apoio ao Congresso pela Liberdade da Cultura (CLC), fundado em 1950 na Europa. Somente depois da revolução cubana o CLC passou a dedicar-se mais à América Latina em geral, e ao Brasil em particular, onde financiou a revista Cadernos Brasileiros, que teve várias fases em sua trajetória, de 1959 a 1970, tema do capítulo mais longo do livro. O Congresso fazia um contraponto ao Conselho Mundial da Paz (CMP), patrocinado pelos soviéticos. O CMP contou com a participação de Jorge Amado e seus camaradas da América Latina, como se verá no capítulo sobre a internacionalização cultural comunista. Outra ação cultural na Guerra Fria foi a criação de intercâmbios estudantis universitários para latino-americanos, de que a AUI constitui um exemplo expressivo, tratado no capítulo final.

Os episódios analisados, sem financiamento do governo brasileiro, compuseram a vida intelectual extra-acadêmica ou para-acadêmica imediatamente anterior à criação de um sistema público de pós-graduação nacional que passou a predominar no campo intelectual, envolvendo também enorme aumento de estudantes no exterior subsidiados pelo Estado. Por exemplo, nos anos 1950 e 1960, apenas “cerca de 879 brasileiros receberam bolsas da Capes e do CNPq para realizar estudos e pesquisas nos principais centros científicos do mundo”. O volume aumentaria vertiginosamente de 1970 a 1998, quando “o número de bolsistas pode ser estimado em 17.000 estudantes”, segundo Afrânio Garcia e Leticia Canedo (2004-2005, p.29). Outra agência pública essencial para a internacionalização científica, a Fapesp, só foi criada em 1962.

São três casos do momento de passagem no Brasil da predominância de certo tipo de intelectual – boêmio, sem a segurança de uma carreira, relativamente diletante, inserido no cotidiano das cidades, voltado à intervenção na esfera pública com uma produção ensaística – para o predomínio de um tipo profissionalizado, com vida institucional na universidade, trabalhando no campus, dirigido sobretudo aos pares como interlocutores qualificados, buscando a objetividade e a universalidade.

Algo similar ao ocorrido em outros países, inclusive aqueles com uma tradição universitária muito mais antiga e consolidada, como os Estados Unidos, analisado por exemplo por Jacoby ([1987] 1990), que lamentou o enclausuramento e a domesticação do intelectual na academia, lugar onde por sinal ele mesmo trabalhava ao redigir a obra. Ou a França, onde o Homo academicus foi criticado de outro ponto de vista, de dentro da instituição universitária e com seus próprios critérios de cientificidade por Bourdieu ([1984] 2013).  Já este livro está centrado nos antecedentes imediatos – especialmente no que se refere à internacionalização e ao financiamento – do profissional acadêmico que passou a prevalecer, ocupando posições num sistema universitário brasileiro que parece sólido e naturalizado, mas tem sua historicidade, sem garantia de perenidade.

As três passagens expressaram lutas de distintas correntes intelectuais nas décadas de 1950 e 1960, constituintes de elites ou contraelites predominantemente de classe média, masculinas e brancas que entretanto buscaram pensar a sociedade brasileira e seus problemas como um todo. Explicitar desde logo essa composição social não desmerece sua contribuição – afinal, não é critério para atestar a validade da produção de conhecimento –, embora deva ser levada em conta para entender seus alcances e limites, contradições, ideologias e utopias que marcaram uma época cuja herança segue viva. Nos dois primeiros casos, dos comunistas e de Cadernos Brasileiros, Paris fazia a mediação cultural na relação dos intelectuais com as duas grandes potências. No último, da AUI, a capital francesa já não fazia parte do jogo, indicando a influência preponderante dos Estados Unidos no meio intelectual brasileiro, que viria a crescer ainda mais nos anos seguintes.

Fruto de pesquisa realizada em boa parte no exterior, com resultados parciais apresentados em eventos acadêmicos em diversos países, este livro não deixa de acompanhar a tendência crescente nas ciências humanas de enfoque internacional para os temas investigados, particularmente os estudos sobre os anos 1960, com um olhar menos centrado na Europa e nos Estados Unidos, mas conectado com eles. Um exemplo é a coletânea The Routledge Handbook of the Global Sixties: Between Protest and Nation Building (Jian et al., 2018). A obra traz no título a complexidade da empreitada: usa ao mesmo tempo os termos consagrados, “protesto” e “construção nacional”, e a denominação difundida nos últimos anos, os “60 globais”, que acentua as conexões transnacionais dos fenômenos do período, conforme proposta de autores como Eric Zolov (2014).

A pertinência desse tipo de abordagem não deve esconder que também ela tem sua historicidade, está vinculada ao tipo de conhecimento criado na atualidade de sua produção. Num contexto de internacionalização do conhecimento que incentiva o intercâmbio de alunos e professores, era de se esperar que também as investigações ganhassem uma dimensão mundializada, ainda mais que o próprio objeto é carregado de articulações internacionais. Trata-se tanto de uma demanda do objeto – já que as conexões internacionais eram muitas e complexas durante a Guerra Fria –, como uma percepção típica do sujeito do conhecimento no tempo da chamada globalização econômica e cultural, emaranhada com o imperialismo, que segue a seu modo, ressituado, assim como os estados nacionais, na lógica mundial do capitalismo.

Estar na universidade mundializada favorece a mirada dos aspectos internacionais, mas corre-se o risco de perder de vista a especificidade daquele momento, muito fortemente marcado também pelas lutas de libertação nacional. Vários investigadores reconhecem esse dado, tanto que o subtítulo da coletânea referida sobre os “60 globais” remete ao tema da “construção nacional” (Jian et al., 2018). A expressão global sixties tem a vantagem de condensar o foco nas conexões transnacionais, mas prefiro não a utilizar, para evitar a armadilha do anacronismo e não perder de vista os condicionamentos locais específicos. Afinal, os estados-nação – ainda mais naquele tempo – continuaram a ter um papel relevante nos espaços internacionalizados que, entretanto, não deveriam ser eclipsados por miradas locais ou nacionais, mas vistos em conexão com elas como parte de um mesmo todo.

Nos anos 1960, o mundo já se tornara uma “aldeia global”, na expressão célebre de Marshall McLuhan (1962). Ou seja, a tendência atual de estudos internacionais não significa que aquela época não tenha sido pensada desde logo em termos de conexões exteriores, até mesmo pelo senso comum conservador, que acusava, por exemplo, a esquerda brasileira de ser fantoche da União Soviética, de Cuba, da China ou dos estudantes de Paris. Ou pelos que detectavam a influência do governo dos Estados Unidos nos vários golpes militares na América Latina, tendendo a explicá-los por esse fator. Cabe evitar a tendência a reduzir a ação política na sociedade brasileira a emanações do exterior, embora elas devam ser consideradas.

O processo de internacionalização e circulação cultural existe a seu modo há muito tempo, até num país tão grande como o Brasil, com inclinação a se imaginar autônomo no mundo e, ao mesmo tempo, a importar ideias dos grandes centros que por vezes se apresentam “fora do lugar” numa sociedade de classes herdeira do escravismo. São conhecidas desde o Império as missões estrangeiras no Brasil e as incursões de artistas e intelectuais ao exterior, com recursos próprios, de algum mecenas ou mais tarde financiados pelo governo. O intercâmbio cultural e científico internacional tem uma longa história. Aqui serão tratados apenas alguns de seus episódios no contexto dos anos 1950 e 1960, quando se ampliavam as experiências transnacionais.

O livro tampouco tem a pretensão de esgotar o tema da internacionalização de brasileiros na Guerra Fria cultural. Ele é imenso e multifacetado, apresenta muitos aspectos a investigar, como a participação em congressos mundiais da juventude e outros promovidos por países comunistas e seus homólogos ocidentais, em festivais de teatro, cinema, música, literatura, dança e artes, além de intercâmbios estudantis pelo mundo afora, congressos científicos, cursos de formação política ou profissional, estágios institucionais de funcionários do Estado no exterior, incluindo políticos e militares, em disputas veladas ou expressas para ganhar corações e mentes.

Foi um tempo que testemunhou ainda a emergência dos países do chamado Terceiro Mundo em lutas de libertação nacional, que estabeleceram relações entre eles, envolvendo também aspectos culturais, intercâmbios e viagens que merecem ser estudados. Embora não seja seu eixo, este livro dá pistas para pensar as relações horizontais que se delinearam no período na América Latina, como propuseram por exemplo Aldo Marchesi (2018), Karina Jannello (2014), e Vania Markarian (2020). Abordaram-se as conexões entre os latino-americanos comunistas exilados em Paris no pós-Segunda Guerra, também o esboço de rede acadêmica na América do Sul por intermédio do Instituto Latino-Americano de Relações Internacionais (Ilari), ligado ao CLC, escapando às vezes dos limites da relação predominante entre centro e periferia.

Em suma, o tema é amplo, não haveria como dar conta dele em todos os aspectos neste livro. Versões iniciais de trechos da pesquisa já haviam sido publicadas como artigos, agora retrabalhados e bem ampliados, formando um novo todo, inédito em sua maior parte. O objetivo é analisar sociologicamente passagens históricas que podem iluminar a compreensão da Guerra Fria cultural naquele momento de modernização da sociedade brasileira. Então se contava cada vez mais com a participação de intelectuais e artistas para alcançar o desenvolvimento, como se pretendia na época, cujas grandes questões estruturais – abarcando as lutas entre capitalistas e comunistas, capitaneados pelos Estados Unidos e pela União Soviética, depois também por Cuba – foram abordadas a partir de experiências de pessoas e grupos que constituíram suas relações e redes de sociabilidade.

Não se trata de fazer julgamento moral ou de qualquer ordem sobre esses sujeitos, mas de compreender aspectos de sua inserção no contexto da Guerra Fria, o que envolve sobretudo sua ligação com a política e as lutas sociais nos anos 1950 e 1960, no turbilhão de um processo acelerado de modernização e internacionalização das propostas de desenvolvimento. Lido sob a lente da estrutura social, esse processo gerou classes médias intelectualizadas, a transitar entre o paraíso dos círculos de poder na Guerra Fria e o inferno reservado aos inimigos. Estrutura que se encarnou na vida de personagens dessa história, negociando dentro daquelas circunstâncias, equilibrando-se na corda bamba para realizar seus projetos de integração, mudança ou revolução.

Surgem atores centrais e uma miríade de coadjuvantes, desde figuras públicas famosas – como Jorge Amado, Pablo Neruda, Glauber Rocha, Afrânio Coutinho, Nélida Piñon, Golbery do Couto e Silva, Robert e John Kennedy, Henry Kissinger, Elizabeth Bishop, Robert Lowell, Ilya Ehrenburg, Alexandre Fadeiev, Louis Aragon, Pablo Picasso, Raymond Aron, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Ignazio Silone, Frida Kahlo, Diego Rivera, Nicolás Guillén, Mario Pedrosa, Celso Furtado, Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, ministros, reitores e membros da Academia Brasileira de Letras – até outras também importantes, apesar de menos lembradas.

Pessoas diversas que, não raro, parecem personagens de ficção: um poeta haitiano que circulou pela França, Cuba e Brasil, conquistando corações. Uma filha de família tradicional que se comprometeu com a política nacionalista, conheceu um líder marinheiro negro e foi com ele exilada para Cuba, onde tiveram um filho, depois retornou ao Brasil e trabalhou com o pai em revista do Congresso pela Liberdade da Cultura. Um escritor americano, agente do serviço secreto, que entretanto pedia ajuda para libertar intelectuais perseguidos pela ditadura militar no Brasil, juntando-se a um anarquista que lutara na Guerra Civil Espanhola e depois foi dirigente do CLC para a América Latina. Aparece ainda certa senhora de Boston ligada aos Kennedy, amiga de Kissinger e atuante no círculo empresarial paulista, dirigindo atividade de intercâmbio estudantil. E outra esposa de milionário norte-americano que largou a carreira para acompanhar o marido ao Brasil, dedicou-se à difusão cultural e acabou morrendo de câncer ainda jovem, como tantos engajados no projeto nuclear dos Estados Unidos em que trabalhara.

Sem contar um estudante pernambucano que denunciou torturas sofridas após o golpe de 1964 em visita à Organização das Nações Unidas (ONU) com seu grupo da AUI, e mais tarde viria a ser um desaparecido político. Enfim, são só exemplos de tantas vidas que circulam nas páginas deste livro, habitantes dos círculos intelectualizados, moldadas nos contornos da Guerra Fria, fazendo sua história como puderam nos limites socialmente estabelecidos em sua época. Em casos extremos, pagando caro por ousar tentar romper com eles.

Uma questão metodológica importante na análise dos intelectuais e de sua produção diz respeito aos aspectos de texto e de contexto, aos fatores internos e externos envolvidos na investigação das obras, como já expôs por exemplo Skinner (1969), advertindo para o problema de assumir posições ortodoxamente internalistas ou externalistas, bem como para o risco do anacronismo ao analisar obras e conceitos fora de seu contexto histórico. Vários investigadores são propensos à análise que se concentra no texto, dentre os quais os mais interessantes para esta pesquisa são aqueles que reconhecem a historicidade da obra, como Antonio Candido (1976) e Roberto Schwarz (1978), pois buscaram compreender a trama social presente no interior de cada criação literária.

Leva-se em conta a contribuição desses autores, mas o tema do livro exige enfrentar o desafio sociológico de compor analiticamente fatores internos e externos, indo além da análise das criações. Desafio que tem sido enfrentado a seu modo por diferentes autores de diversas tradições teóricas, que não se limitam ao diálogo conceitual entre as variadas obras, tentando compreender especialmente o contexto social e histórico de sua produção, os imperativos da ordem social mais abrangente, que por vezes estão fora da consciência dos agentes, como bem apontou Heloísa Pontes (1997).

Foram usadas diversas fontes que se alimentam reciprocamente e serão explicitadas ao longo dos capítulos: documentos oficiais, processos judiciais, troca de correspondência e outros materiais depositados em arquivos no Brasil, na França e especialmente nos Estados Unidos; jornais e revistas de época; biografias; filmes; livros, memórias e outros textos produzidos pelos autores analisados; bem como inúmeras entrevistas que fornecem um contraponto subjetivo aos demais documentos, revelando aspectos cotidianos e de bastidor raramente disponíveis por outros meios. Além, é claro, de diversas fontes bibliográficas sobre a Guerra Fria cultural, que já conta com uma tradição de estudos acadêmicos, envolvendo um sem-número de pesquisas, inclusive na América espanhola. Mas o tema ainda é relativamente pouco estudado, especialmente no Brasil, e merece mais investigação, num esforço analítico coletivo com o qual este livro pretende contribuir.[i]

Quanto ao tema das trajetórias biográficas – no caso dos latino-americanos exilados em Paris após a Segunda Guerra, bem como dos participantes de Cadernos Brasileiros e da AUI –, o livro procura incorporar a contribuição de Bourdieu (1996, 1998), que realçou as constrições sociais nas histórias de vida, aspecto desenvolvido com enfoque próprio e original por Elias (1995), em sua obra sobre Mozart. Em contraponto e complementaridade com essas abordagens, procurou-se dar espaço à agência individual, às respostas criativas dos sujeitos diante de pressões e limites socialmente constituídos de que falava Williams (1979), que é a referência decisiva a fim de compreender a realidade como um todo complexo e contraditório em movimento, na tradição marxista também de autores como Michael Löwy (1979). Assim, por outra via teórica, chega-se à proposição desenvolvida por Passeron (1990), ao falar em “compreender o devir biográfico como produto de uma interação entre a ação dos indivíduos e o determinismo das estruturas” (1990, p.3). Ou, como já propunha a formulação clássica inspiradora, os homens fazem sua história nas circunstâncias com que se defrontam, legadas pelo passado (Marx, [1852] 1974, p.335).

Ou seja, este livro pode ser lido à luz do entendimento de Raymond Williams (1979) acerca do problema da determinação. Isso requer compreender a cultura não como fenômeno secundário, mero reflexo superestrutural das determinações econômicas, mas sim como constituinte da própria estruturação da sociedade como um todo. Determinação significaria – numa formulação sintética – exercer pressão e impor limites à ação, que entretanto tem margem para dar respostas diferenciadas às constrições sociais, na tradição do autor britânico analisado por Maria Elisa Cevasco (2001). Assim, nas circunstâncias da Guerra Fria, veremos como certos artistas, pesquisadores e estudantes encontraram respostas criativas para realizar seus projetos, dentro do possível diante do contexto local e do embate entre as duas grandes potências no cenário internacional, do qual participaram a seu modo. As circunstâncias restringiam a margem de atuação e exerciam pressão sobre ela, mas a ação por sua vez ajudava a moldar a estruturação da sociedade.

As três passagens também envolvem a reconstituição dos fatos, dilemas e esperanças a partir dos pós-Segunda Guerra, especialmente relativas aos intelectuais nos anos 1960, buscando um lugar dentro da ordem a ser preservada ou reformada, no limite apontando para a ruptura com ela. Assim, ganham vulto sua atuação nas conjunturas de mobilização pelas chamadas reformas de base no pré-1964, a seguir o golpe de Estado, o florescimento cultural até 1968 e o recrudescimento da repressão após a edição do Ato Institucional n.5 (AI-5), em conexão com os acontecimentos internacionais do período, como a revolução cubana e o prestígio do terceiro-mundismo, a escalada da Guerra do Vietnã, a rebeldia mundial juvenil e dos trabalhadores, indissociável dos movimentos de 1968, do assassinato dos Kennedy, do Black Power. Ou seja, pelo viés dos três episódios estudados, é possível reconstituir e compreender os chamados anos rebeldes.

*Marcelo Ridenti é professor titular do Departamento de Sociologia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de O fantasma da revolução brasileira (Unesp).

 

Referência


Marcelo Ridenti. O segredo as senhoras americanas: intelectuais, internacionalização e financiamento na Guerra Fria cultural. São Paulo, Unesp, 2022, 422 págs.

O lançamento virtual do livro será no dia 7 de maio, sábado, às 17 horas, com a participação, além do autor, de Rodrigo Patto Sá Motta, Felipe Loureiro e a mediação de Daniela Vieira dos Santos.

Transmissão nos canais da Editora Unesp no Youtube e no Facebook.

 

Nota


[i] Algumas pesquisas têm trabalhado mais diretamente com aspectos culturais da Guerra Fria no Brasil, sobretudo na relação com os Estados Unidos, caso das publicações de Elizabeth Cancelli (2017), Dária Jaremtchuk (2014) e Lidiane Rodrigues (2020). Também há uma série de contribuições ao estudo das relações internacionais do Brasil com o “irmão do norte” e suas instituições, especialmente nos anos 1960, em obras de autores como James Green, Carlos Fico, Sergio Miceli, Matias Spektor, Rodrigo Patto Sá Motta, Felipe Loureiro e outros. O mesmo vale para a União Soviética, em particular nas pesquisas envolvendo o Partido Comunista, conforme referências com as quais se dialoga no primeiro capítulo. Não obstante, o termo “Guerra Fria cultural” tem sido pouco usado, com frequência bem menor do que na literatura estrangeira. Há uma bibliografia considerável sobre a Guerra Fria cultural na América Latina desenvolvida em universidades norte-americanas, que geraram livros como o de Patrick Iber (2015) A formação do campo intelectual e da indústria cultural no Brasil foi o tema de um projeto temático da Fapesp de que fiz parte, cujas discussões contribuíram para a formulação inicial da pesquisa que deu origem a este livro (cf. Miceli; Pontes, 2014), que contou também com apoio de outras agências: CNPq, Capes-Cofecub, Funcamp e Fulbright.

 

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