Vacina e negacionismo

Imagem: Cottombro
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Por SEAN PURDY*

Comparar o passaporte de vacinação com os nazistas é uma forma de negacionismo do Holocausto

“Explorar a tragédia de todas as pessoas que sofreram entre 1933-1945, que foram humilhados, torturados e assassinados pelo regime totalitário da Alemanha Nazista para argumentar contra vacinação que salva vidas humanas é um sintoma triste de decadência moral e intelectual”. (Auschwitz Memorial, Twitter, 3 de dezembro de 2021).

Entre os mais absurdos argumentos da turma anti-vacina e bolsonarista é que o passaporte de vacinação é igual às políticas nazistas na Alemanha contra judeus e outras pessoas durante os anos 1930 e 1940. Não é simplesmente historicamente errado e ignorante das reais práticas nazistas, mas constitui uma forma de negacionismo do Holocausto pois faz uma tremenda equivalência falsa, minimizando e banalizando a escala da tragédia da Shoah, a matança de 6 milhões de judeus pelos nazistas, sem falar da longa história de antissemitismo.

No Brasil, os bolsonaristas têm propagado essa absurda mentira desde o início da introdução das vacinas em 2021. A maioria nem consegue identificar a Alemanha num mapa, mas levanta símbolos como a Estrela de Davi, imagens de judeus perseguidos pelos nazistas e o código Nuremberg, os comparando com as intervenções de saúde pública baseadas em evidências cientificas para combater a pandemia de Covid-19. Comprovadamente, vacinas salvaram milhões de vidas no último ano e lockdowns, isolamento social, o uso de máscara e a exigência de comprovação de vacinação em lugares públicos são medidas sanitárias baseadas em evidências cientificas que funcionam.

O exemplo mais recente é um artigo publicado no bizarro site negacionista francês, France Soir, pelo brasileiro, Filipe Rafaeli. Sem nenhuma fonte de historiador, ele compara a ascensão dos nazistas na Alemanha com a exigência de comprovação de vacinação, argumentando que a aceitação dos nazistas pela população alemã é igual à aceitação da vacina e outras medidas sanitárias pela vasta maioria da população não só no Brasil, mas no mundo inteiro.

Um aviador, cineasta e publicitário, Filipe Rafaeli ganhou notoriedade entre bolsonaristas durante a pandemia com sua fanática promoção de tratamento precoce com hidroxicloroquina e ivermectina, duas drogas cuja ineficácia contra o Covid-19 já foi cientificamente comprovada. Erradamente se identificando como esquerdista, ele promove nas suas redes sociais e publicações todo tipo de pseudociência, promovendo falaciosos estudos publicados em revistas cientificas marginalizadas por uma minoria de médicos e cientistas negacionistas. Também apoiou a farsa do “comboio de liberdade” no Canadá e regularmente divulga a pseudociência de pessoas criminosas como a médica norte-americana, Simone Gold, que foi envolvido na invasão do Capitólio em Washington no 6 de janeiro de 2021 e Didier Raoult, o médico e cientista francês que já foi pego por fraude científica várias vezes.

Rafaeli presume falsamente que os nazistas simplesmente enganaram a população com mentiras, sem levar em conta que toda a resistência ampla no país contra os nazistas – sindicatos, partidos e organizações da esquerda – foi esmagada nos primeiros meses após a tomada de poder pelo Hitler. Aliás, foi uma política tolerada se não apoiada pelos poderes capitalistas no Ocidente. Ignora também que o regime foi sustentado por repressão brutal contra qualquer tipo de resistência até o fim da Segunda Guerra Mundial.

Os mais conceituados historiadores de nazismo (para mencionar só alguns) – Claudia Koontz, Detlev Peukert, Donny Gluckstein, Timothy Snyder, Martin Gilbert e Tim Mason – rejeitariam qualquer comparação do passaporte de vacinação atual com nazismo, principalmente porque os nazistas relaxaram a exigência de vacinação para varíola e outras doenças, por exemplo, – uma política no país por décadas – com o objetivo de deixar morrer a população não desejada, isto é, judeus, eslavos, pessoas com deficiências, etc. As políticas da vacinação dos nazis na Alemanha eram abertamente eugênicas, racistas e antissemitas. De fato, o regime nazista estava contra o passaporte de vacinação.

O próprio Hitler, segundo seu tenente, Martin Boorman, disse em 1942: “No campo de saúde pública não há necessidade alguma para estender às raças submetidas os benefícios do nosso próprio conhecimento. Isto só resultaria num aumento enorme nas populações locais, e eu absolutamente proíbo a organização de qualquer tipo de campanhas de higiene ou limpeza nesses territórios. Vacinação compulsória será confinado aos alemães só, e os médicos nas colônias alemãs estarão lá somente para o proposito de cuidar de colonistas alemães. É estupidez impulsar felicidade em pessoas contra seus desejos. Odontologia, também, deve permanecer um livro fechado para elas”.

Como Edna Bonhomme escreveu na revista The Atlantic em maio de 2021, as políticas de saúde pública na Alemanha têm uma longa história de antissemitismo desde a peste bubônica no século XIV. A culpa por epidemias foi atribuída aos judeus na Europa toda por 600 anos. As políticas nazistas de vacinação seguiam essa longa história de racismo. E como o cirurgião e especialista no movimento anti-vacina nos Estados Unidos, David Gorski, escreveu recentemente, a comparação de vacinação com os nazistas já apareceu no movimento anti-vacina nos anos 1980 nos Estados Unidos e foi ressuscitada durante a pandemia de Covid.

Comparar a exigência de vacinação – que salva vidas – com o assassinato em massa da população judia na Europa pode aparecer tão absurdo que ninguém acreditaria, mas tem sido cada vez mais comum entre a pequena, mas barulhenta, minoria anti-vacina no mundo.

Ao se compararem às vítimas do Holocausto, os militantes anti-vacina e anti-máscara como Filipe Rafaeli querem que acreditarmos que o encorajamento ou exigência de se vacinar no meio de uma pandemia que matou 640.000 mil pessoas no Brasil e mais que 5 milhões no mundo inteiro é igual ao genocídio nazista de perseguir e exterminar judeus, eslavos, o povo Roma, a comunidade LGBT, etc. Como Gorski enfatiza, comparando um bem objetivo (vacinação) a um dos atos mais horrorosos perpetrados na história é tão ridícula que acaba promovendo a ideia dos negacionistas que o Holocausto não foi tão ruim. As inconveniências da exigência de vacinação não são na mesma liga da perseguição horrorosa que judeus e outras vítimas de nazismo sofriam durante o Holocausto.

Na Washington Post de 1 de junho de 2021, a historiadora, Sarah Bond, da Universidade de Iowa, argumenta: “Ao apropriar símbolos profundos de dor judaica, esses péssimos atores minam não só a gravidade, nuance e sofrimento do Holocausto, mas também séculos de antissemitismo histórico… [esses ativistas anti-vacinas] se juntam a uma longa história de emprestar a dor de outras para apoiar” seus falsos argumentos. A dúbia comparação do passaporte de vacinação com nazismo, Bond continua, “fez você pensar que o Holocausto tem peso igual a uma vacina opcional ou a exigência de usar máscaras. A função mais insidiosa dessa equivalência falsa é como ela pode corroer a gravidade do mal original. Quando não judeus apropriam a Estrela de Davi amarela para seus próprios objetivos, elas contribuem ao apagamento do sofrimento histórico dos judeus – da época medieval até os tempos modernos. O problema aqui não é só o grosso uso indevido de um símbolo histórico, é o impacto no sofrimento explicito judaico associado com aquele símbolo.”

Tais como a farsa de tratamento precoce, a política anti-vacina do governo Bolsonaro e seu programa de minar o combate ao vírus, temos que colocar essa forma de negacionismo do Holocausto na lixeira de história onde pertence.

*Sean Purdy é professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP). Autor, entre outros livros, de História dos Estados Unidos – das origens ao século XXI (Contexto).

 

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