Por FRANCISCO DE OLIVEIRA BARROS JÚNIOR*
Palma de Ouro e Oscar consagraram uma visão francesa edulcorada do Rio, transformando a tragédia grega em espetáculo tropical que o próprio Brasil questionou
O Brasil brilhando nas telas globais. O cinema brasileiro sendo aplaudido e premiado nos mais importantes festivais. A mostra planetária do talento artístico dos nossos cineastas, projetores das imagens dos brasis diversos pelas lentes profissionais de artistas reconhecidos pelos críticos e espectadores. Em 2025, com o filme Ainda estou aqui, foi a vez de Walter Salles ser oscarizado. Em 2026, O agente secreto, de Kleber Mendonça Filho, fulgurou em Cannes, no Globo de Ouro e entrou nas disputas do Oscar. Dois diretores brasileiros pensando, de diferentes ângulos, um país de contrastes, desigualdades e paradoxos.
1.
Em outro contexto histórico, uma visão estrangeira, francesa, sobre uma realidade brasileira, também conquistou a Europa, Estados Unidos e o mundo telânico da conjuntura histórica do seu lançamento. Estou trazendo memórias de Orfeu negro (1959), dirigido por Marcel Camus, obra premiada e controvertida sobre uma das vitrines brasileiras: a cidade do Rio de Janeiro.
A “ficção dramática” Orfeu negro é citada no verbete “cinema”, em dicionário da história social do samba (LOPES & SIMAS, 2021). O filme em tela, dirigido por Marcel Camus, é uma versão cinematográfica do mito grego de Orfeu. Um “poema dramático” filmado no morro carioca e ancorado na obra Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes. Os sambistas marcam presença cênica por serem os ritmistas de um drama contextualizado no carnaval da cidade do Rio de Janeiro.
Sambas narram as dores e os gozos amorosos. Cartola dá a prova musical. Eros e Tânatos em uma trágica história de amor no desfile da “Unidos de Babilônia”. Orfeu e Eurídice formam o casal protagonista da relação amorosa poética e dramática. O cinema atualiza a atemporalidade mítica dos Orfeus e Eurídices em suas dimensões afetivas de ontem, hoje e amanhã.
A cada nova olhada a descoberta de novos elementos, detalhes não vistos em uma primeira ou segunda visões. Em se tratando da obra de um grande diretor, a necessidade de relê-la é um imperativo para quem objetiva estudá-la. Um texto fílmico complexo exige a imersão do seu espectador, um mergulho nas entranhas da criação fílmica.
Em escrito de 1951, Vinicius de Moraes afirmou ter visto oito vezes a película Ivan, o terrível, de Serguei Eisenstein. Ver e rever para estudá-lo nas suas “perspectivas íntimas” e comunicativas. Imagens projetadas com qualidade artística e “sentido social e humano”. Filme no qual se vê um “estudo em profundidade de um homem e sua época”. Estudar a obra de arte na sua simbologia. Um mergulhar profundo que equivale a “um curso de cinematografia”. Reconhecimento do valor artístico de “uma obra de cultura social” (MORAES, 1991, p.226).
2.
Orfeu, nas suas várias versões cinematográficas, apresenta potencial para ser lido por diferentes óticas. Quando ele sobe o morro da pobreza carioca e é identificado como Orfeu negro, amplia os seus marcadores identitários e exemplifica interseccionalidades: homem pobre, de cor negra, habitante do Brasil carnavalizado dos sambistas. Dados fílmicos reveladores de um trabalho artístico de relevância antropossociológica.
Orfeu negro é pensado no livro O negro brasileiro e o cinema. A partir das imagens fílmicas projetadas, são lançados alguns questionamentos: “O que é um negro, afinal?” Que arquétipos e caricaturas aparecem em cena? O “negão” e a “mulata boazuda” têm voz e vez? E o “negro revoltado”? A narrativa fílmica reforça olhares do cinema colonialista? São vistas “máscaras brancas”? Os atores negros são os protagonistas? (RODRIGUES, 2011).
“Música, cinema do som” e “a força da beleza musical num filme” (MENDES, 2013). A pagela do calendário registra: 15 de janeiro é o “dia internacional do compositor”. Da mitologia grega para uma favela carioca, trabalho com o filme Black Orpheus (Orfeu negro), destacando os artistas envolvidos com as composições para a sua trilha sonora. Luiz Bonfá e Tom Jobim formam a dupla artística responsável pelas canções fílmicas da obra de Marcel Camus. Nas imagens cinematográficas, a manhã de carnaval é trilhada por uma batucada nos ritmos e balanços do samba, da macumba e do frevo orfeicos. O amor de Orfeu e Eurídice é sonorizado por uma bateria de poéticas tonalidades jobinianas. A “Felicidade” (Antônio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes), cantada por Agostinho dos Santos, dá uma aula de antropossociologia sobre um dos sentidos das festas carnavalescas e a efemeridade dos momentos felizes:
“…A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia de rei
Ou de pirata, ou jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira…”.
Um Brasil da alegria e exótico, no período momino, colorido e turístico do carnaval carioca. Uma lente europeia dos nossos usos e costumes, a partir de uma “visão fotogênica” do Rio. Uma “declaração de amor pelo Brasil” na mistura de “folclore, exotismo, música, carnaval, samba”. Uma “visão eufórica” do país caloroso, alegre e aquarelado. O mito antigo de Orfeu e Eurídice renasce “na comunidade negra brasileira”. Com a audácia de trabalhar com um “elenco exclusivamente negro”, o diretor Marcel Camus recebeu críticas pelo “mal-entendido” de ter criado um “Rio mítico”, uma “tragédia carioca” projetada como uma celebração da “população negra dos morros e das favelas do Rio” (DESBOIS, 2016, p.113).
Não dando “as costas para suas mazelas”, “uma nova estética da miséria ganha as telas” com o “cinefavela”. Sem mitificações, o cinema brasileiro no século 21 exibe a favela como cenário de filmes que retratam a pobreza real e os trágicos problemas sociais dos favelados (BALLERINI, 2012, p.69).
3.
Na “odisseia do cinema brasileiro”, Orfeu negro mostra uma “transcendência poética de uma realidade metamorfoseada”. Metamorfose para revelar a face ensolarada, tropical e carnavalizada da paisagem brasileira. Poesia na ótica de um olhar europeu gerador de um “impacto exótico-folclórico” para turistas apreciarem um lado feliz, festivo e caricatural dos nossos brasis.
Um filme a ser lido e situado no “contexto histórico-colonial, humano e racial” dos habitantes dos morros da “cidade maravilhosa”, vitrine e cartão-postal das imagens para francês ver (DESBOIS, 2016). Com fundamentos antropossociológicos, “caricatu-rindo” e “virando a tristeza pelo avesso”, a G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro cantou, em 1983, o samba-enredo “Traços e Troças”, dando a sua aula cultural: “O carnaval é a maior caricatura / Na folia, o povo esquece a amargura”.
Orfeu negro “é o paradigma da visão dos estrangeiros sobre o Brasil” (VELOSO, 2024, p.355). Daí ter a eles agradado, “mas não aos brasileiros”. Os corações destes não foram arrebatados pelas “cores fantasiosas” da projeção realizada sobre um Rio de Janeiro fotogênico, mitificado, eufórico e europeizado. Com “irrealismo e ingenuidade”, o Brasil é pensado entre uma dupla mitológica: “Orfeu e a democracia racial”. Interessado nos “modos dos estrangeiros nos verem”, Caetano Veloso, em seus escritos sobre cinema, amplia e complexifica o debate sobre um filme questionado: “exotismo para turista?”
Marcel Camus é apresentado entre os “mestres do cinema mundial”. Maestria na direção de Orfeu negro, considerado como a sua “obra-prima”, ganhadora da Palma de Ouro em Cannes e do Oscar e Globo de Ouro de filme estrangeiro. Premiações para um trabalho artístico a ser pensado quando o tema da reflexão é “o negro brasileiro e o cinema”. Atores e técnicos negros e mestiços em uma filmografia brasileira básica e mundial. Hollywood, África, Europa e Caribe na abordagem do preconceito racial, questões étnicas e uma “black exploitation” nas telas.
No elenco, as atuações negras são protagonistas ou figurantes em narrativas fílmicas nas quais são personagens principais ou participantes secundários e caricaturados, em um campo atravessado por vertentes colonialistas e anticolonialistas. Quem são os novos cineastas negros?
4.
Orfeu negro recebeu palmas e estatuetas douradas para a glória artística do cineasta francês exibir “arquétipos e caricaturas” da negritude favelada. É exibida uma “visão paternalista e ingênua” do favelado, habitante de um “mundo irreal de alegria”. Irrealidade na qual os “problemas passionais” “passam longe do problema social”. Uma sublimação oposta de uma linha realista dos que vivem em uma favela, local distante da “mais absoluta felicidade” imaginada por Marcel Camus. Imaginação cinematográfica de um leitor europeu “levemente inspirado” em Orfeu da Conceição (1956), dramaturgia teatral dos parceiros Vinicius de Moraes e Antonio Carlos Jobim (RODRIGUES, 2011, p.40).
A trilha sonora original de Orfeu negro foi gravada no Rio de Janeiro e em São Paulo, de fevereiro de 1958 a março de 1959, com direção artística de Antonio Carlos Jobim e músicas jobinianas e do violonista Luiz Bonfá. As letras de Vinicius de Moraes e Antonio Maria poetizaram o trabalho fonográfico vocalizado com as participações luxuosas dos cantos de Elizeth Cardoso e Agostinho dos Santos. No instrumental, o realce do violão de Roberto Menescal. No batuque orquestrado dos ritmos carnavalescos, as batidas e toques das baterias de escola de samba e banda de frevo.
Em 1956, as músicas da peça teatral Orfeu da Conceição, com cenário de Oscar Niemeyer, geraram os primeiros passos da parceria histórica de Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes. Aberto o piano, “sai uma revoada de pássaros”. O mitológico “monólogo de Orfeu” é entoado com o “lamento no morro” carioca.
Em 1959, canções do amor de Orfeu e Eurídice compuseram o repertório dos “anos oficiais e mais férteis da nova música” (CASTRO, 2016, p.420). “A Felicidade” (Jobim-Vinicius de Moraes), “Manhã de Carnaval” (Luiz Bonfá-Antonio Maria) e “Samba de Orfeu” (Luiz Bonfá-Antonio Maria) na “cançãografia” da Bossa Nova, “um novo jeito de tocar e compor” de uma turma “cheia de blues”, desafinados com a visão da montanha, do sol e do mar emoldurando a garota de Ipanema. Uma viagem sonora para o Rio dos anos 50 e 60. Um sonho geracional em uma “usina de beleza” musical.
*Francisco de Oliveira Barros Júnior é professor aposentado do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Piauí (UFPI).
Referência
Orfeu negro (Orfeu do carnaval).
França, Brasil, Itália. 1959, 100 minutos.
Direção: Marcel Camus.
Roteiro: Jacques Viot, Marcel Camus, Vinícius de Moraes.
Trilha sonora: Tom Jobim e Luís Bonfá.
Elenco: Breno Mello, Léa Garcia, Mira de oliveira, Marpessa Dawn, Agostinho dos Santos, Elizeth Cardoso.
Bibliografia
BALLERINI, Franthiesco. Cinema brasileiro no século 21: reflexões de cineastas, produtores, distribuidores, exibidores, artistas, críticos e legisladores sobre os rumos da cinematografia nacional. São Paulo: Summus, 2012.
CASTRO, Ruy. Chega de saudade: a história e as histórias da Bossa Nova. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
DESBOIS, Laurent. A odisseia do cinema brasileiro: da Atlântida a Cidade de Deus. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
LOPES, Nei; SIMAS, Luiz Antonio. Dicionário da história social do samba. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2021.
MENDES, Gilberto. Música, cinema do som. São Paulo: Perspectiva, 2013.
MORAES, Vinicius de. O cinema de meus olhos. São Paulo: Companhia das Letras: Cinemateca Brasileira, 1991.
RODRIGUES, João Carlos. O negro brasileiro e o cinema. Rio de Janeiro: Pallas, 2011.
VELOSO, Caetano. Cine Subaé: escritos sobre cinema (1960-2023). São Paulo: Companhia das Letras, 2024.






















