Sementes de violência

Imagem: Oloruntoba John
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Por FRANCISCO DE OLIVEIRA BARROS JÚNIOR*

Quando um professor terá salário de deputado e prestígio de jogador de futebol?

1.

Professores (as), no contexto escolar, fornecem experiências para serem filmadas. Colégios e escolas ambientam narrativas na história do cinema. As relações humanas, no contexto do ensino, são desvendadas pelas lentes cinematográficas. Em diferentes momentos históricos, as instituições escolares apresentam as suas complexidades, consensos e tensões. São campos socializadores nos quais são reveladas as diversas facetas dos seus sujeitos. Os anos passam e algumas questões permanecem presentes nos cotidianos colegiais.

Na tela, vemos Sementes de violência (1955), dirigido por Richard Brooks. Na focalização de uma específica instituição escolar, o filme é iniciado com a exposição da justificativa e do sentido para a sua realização. Vejamos o discurso introdutor do texto fílmico focalizado: “Nos EUA somos afortunados por termos um sistema de educação que é um tributo às nossas comunidades e nossa fé na juventude americana. Hoje, nos preocupa a delinquência juvenil, suas causas e seus efeitos. Nos preocupa especialmente quando esta delinquência chega às escolas. As cenas e incidentes aqui mostrados são fictícios. Entretanto, acreditamos que a conscientização pública é o primeiro passo para remediar qualquer problema. Foi com este espírito e com esta fé que realizamos Sementes de violência”.

Filmes transmitem conteúdos propagandísticos e ideológicos, daí a importância de lê-los criticamente. São produtos com implicações políticas e estão ligados a diferentes interesses. Da “ficção”, partimos para refletir sobre os nossos cenários cotidianos. As precárias condições salariais dos trabalhadores da educação mostram a desvalorização profissional dos educadores. Profissionais que desenvolvem trabalhos de inquestionável relevância social, mas esta não é valorizada do ponto de vista salarial.

Ao pluralizarmos a palavra violência, ampliamos a visão das várias manifestações das violências. Dentre estas, os precários salários pagos aos desvalorizados docentes. O professor Richard Dadier subjetiva a sua insatisfação salarial. Em Sementes de violência, ele emite o seu desconforto diante do descaso financeiro com o seu trabalho: “…Quem se importa com os professores? …Os professores ganham $ 2 por hora, não é? …Um congressista e um juiz ganham $ 9,25 por hora. Policiais e bombeiros, $ 2,75. Carpinteiros, 2,81. Encanadores, $ 2,97. Instaladores de gesso, $ 3,21. Um cozinheiro ganha mais dinheiro que nós, além de casa e comida. Sim, eu sei, um professor ganha o mesmo que uma baby-sitter ou um balconista. Dois dólares a hora, para um professor”.

 Com 12 anos de atividades no estabelecimento de ensino em que Richard Dadier é novato, um de seus colegas revela: “Duas condecorações e nenhum aumento de salário”. Em um dos grupos de WhatsApp, leio a mensagem de uma professora, na qual duas corujas emitem pérolas: “Professor, te desejamos um salário de deputado…”, diz uma delas. A outra completa: “…e um prestígio de jogador de futebol!”.

Filmes, em especial, demandam por leituras críticas. São atravessados por interesses político-ideológicos. Na sala de aula, usamos textos fílmicos de diversas correntes cinematográficas para trabalharmos conceitos sociológicos. Destaco o conceito de ideologia, na concepção marxista. Algumas obras mascaram fatos e acontecimentos, servindo aos detentores do poder.

Os aparelhos ideológicos do Estado, incluindo arte e educação, a serviço dos interesses das classes dominantes. Ideologia conceituada como o ocultamento da realidade social. Neste contexto de dominação, o cinema pode ser manipulado a serviço dos dominadores. Eis uma chave de leitura fílmica, entre outras. Um filme é uma obra aberta para a análise de múltiplos olhares. Na “anatomia do tempo”, dissecado pela “linguagem secreta do cinema”, projetamos um objetivo: “utilizar o filme do ponto de vista sociológico” (CARRIÈRE, 2014, p.131).

Em Sementes de violência, a disciplina escolar é afrontada pela constante tensão entre educadores e educandos. Um clima hostil, de disputas e asperezas atrapalham a relação pedagógica. Gangues juvenis em conflitos, levam para dentro da escola, frequentada por rapazes, as suas confusões e acertos de contas. Em lugar barulhento, tumultuado, os professores, em conversas entre si, subjetivam suas inquietudes e desassossegos. O que fazer para estimulá-los? Como chamar as suas atenções para os conteúdos ministrados? Levar música para a aula de matemática? Artes visuais para gerar debates e sensibilizá-los para as linguagens artísticas?

Perguntas disparadas a partir da visão de Sementes de violência. Os tempos históricos mudam, com seus progressos e regressões. Na sociedade em rede dos dias de hoje, as suas virtualidades e digitações carregam fascínios e terrores. Os aparelhos celulares acompanham os discentes nas salas de aula. Na companhia dos avanços tecnológicos, indagamos sobre as novas manifestações das violências nos espaços escolares da atualidade. A partir das provocações imagéticas de um trabalho artístico, trazemos indagações para pensarmos sobre as “sementes de violência” espalhadas nos campos escolares dos nossos ásperos e bárbaros dias. A delicadeza do tempo poético pede oxigenação.

 Na seleção do repertório fílmico, escolhemos obras com potencial reflexivo. As violências nos cotidianos escolares apresentam diversas faces. Sutis ou estridentes, demandam enfrentamentos. Bullying, preconceitos variados, agressões físicas, assédios e outras indelicadezas fazem parte dos shows colegiais. Ontem e hoje, nos espaços públicos e privados, afetam docentes, discentes, servidores e diretores educacionais. As ações violentas refletem as condições socioeconômicas e afetivas experimentadas pelos nossos estudantes. Quais os múltiplos fatores, externos e internos à escola, geradores de práticas violentadoras? Tornamo-nos violentos. As violências são construídas socialmente e provocadas por diversas causas.

Em Sementes de violência, Richard Dadier, professor de inglês, vai atuar em um espaço no qual os alunos são vistos como “delinquentes”, ocupando uma “lata de lixo do sistema educacional”. Vamos refletir sobre as profundas e complexas raízes da delinquência vista? Quem são os responsáveis pelas suas manifestações? Para a reflexão sobre tais questionamentos, o professor que ensina as operações matemáticas vai necessitar de teorias sociológicas e pensá-las ao som de “Rock Around The Clock”, com Bill Haley and his comets.

2.

O docente Josh revela estar decepcionado com a indisciplina dos seus alunos. Em conversa com Richard Dadier, um dos seus colegas de docência, externaliza a sua decepção pedagógica: “Então por que eles não me deixam ensinar?” Inquietante indagação na travessia de tempos históricos nos cotidianos escolares e que ainda hoje inquieta os trabalhadores da educação. A viagem cinematográfica foi promovida pelo filme Sementes de violência.

A pergunta antes formulada chega ao ano de 2023 e ecoa sobre os educadores e seus desassossegos pedagógicos. Estes, vivem em outro contexto histórico, na “era da informação”, da “transformação social na sociedade em rede”. “Mudança multidimensional e estrutural”, em época confusa, agônica, incerta e conturbada. Paradoxos e ambivalências “do planeta das redes globais”, com seus avanços e retrocessos (CASTELLS, 1999). Com a “revolução digital”, a sociabilidade transformada, as “comunidades virtuais” e a “nova economia” dos “negócios eletrônicos”, habitamos “a galáxia da internet” (CASTELLS, 2003). Na “realidade social da virtualidade” internética, o ato de ensinar é impactado e levanta questões sobre como lecionar sob um governo internético.

Em um cenário de luzes e breus, ministramos as nossas atuais aulas e atualizamos as inquietudes professorais do educador Josh Edwards. Este, no objetivo motivacional de chamar a atenção dos discentes, propõe o uso da música na sala de aula: “vou trazer minha coleção de discos e os tocarei para eles, na aula”. Imaginação pedagógica dialogal, propondo a quebra de barreiras que separam os diferentes campos do saber. Na fundamentação metodológica, ele argumenta: “…a música é baseada na matemática”. No seu repertório, “Invention for guitar and trumpet, com Stan Kenton and his orchestra” e “The jazz me blues”, nos toques de Bix Beiderbecke and his gang. Os músicos pensam, raciocinam e especulam, em particular, sobre as “paixões humanas”. Não limitados “à prática das notas e de certas exibições de canto”, trilham o antigo músico Orfeu, situado entre “os antigos músicos” que “eram poetas, filósofos, oradores de primeira ordem” (ROUSSEAU, 2021, p.125).

Como usar as artes nos espaços escolares? Como potências motivadoras, elas auxiliam o professor Richard Dadier a solucionar o seu interesse de chegada aos alunos, de tocá-los para que tenha condições de desenvolver o seu trabalho educativo. Atento a uma “educação visual”, leva imagens fílmicas para uma aproximação com os seus educandos. Insistente e sem perder a motivação, subjetiva a sua esperança: “deve haver alguma forma de… tem de haver um jeito de chegarmos a eles”. E chegou através da exibição de um filme, seguido de um debate sobre o conteúdo fílmico exibido.

*Francisco de Oliveira Barros Júnior é professor titular do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

Referências


CARRIÈRE, Jean-Claude. A Linguagem Secreta do Cinema. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014.

CASTELLS, Manuel. A Sociedade em rede: A era da informação: economia, sociedade e cultura; vol.1. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

CASTELLS, Manuel. A Galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Dicionário de música. São Paulo: Editora Unesp, 2021.


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