Os bilionários do ano

Imagem: Min An

Por VANDERLEI TENÓRIO*

Batman e a infame lista anual de bilionários da revista Forbes

Em 5 de abril, foi divulgada a esquecível, ultrajante e infame lista anual de bilionários da revista Forbes. Entre os 236 novatos (abaixo do recorde de 493 em 2021), estão recém-chegados como: a estrela pop barbadense Rihanna (US$ 1,7 bilhão), o cineasta neozelandês Peter Jackson (US$ 1,5 bilhão) e o empresário ucraniano Lonid Radvinsky (US$ 1,2 bilhão) – Radvinsky é do ramo de conteúdo pornô, sendo o principal acionista da famosa plataforma OnlyFans.

Geograficamente falando, esses recém-chegados vêm de 34 países diferentes. Nessa perspectiva, a China gerou 62 novos bilionários (incluindo dois de Hong Kong), os Estados Unidos têm o segundo maior número de recém-chegados (50) e a Índia completa os três primeiros, com 29 novos bilionários.

Em números, a Forbes listou 2.668 bilionários, um total menor do que em 2021: 329 pessoas tiveram um “downgrade”, o maior número de quedas desde 2009. O jornal Valor Econômico apurou que a fortuna somada dos bilionários também encolheu para US$ 12,7 trilhões, contra US$ 13,1 trilhões em 2021.

Como esperado, o ranking é liderado por Elon Musk, cuja fortuna estimada em março era de US$ 219 bilhões. Apesar de já aparecer em outras listas, como da Bloomberg, como o homem mais rico do mundo, é a primeira vez que Musk encabeça o levantamento da Forbes. Musk superou Jeff Bezos, criador da Amazon, que viu sua fortuna encolher em US 6 bilhões na lista atual.

Curiosamente (ou não), dois brasileiros se destacam por serem os mais jovens entre os novatos da lista. Pedro Franceschi, de 25 anos, e Henrique Dubugrass, de 26 anos, são cofundadores da startup de cartão de crédito Brex, que, em janeiro, foi avaliada em US$ 12,3 bilhões por investidores. Eles têm, cada um, fortuna de US$ 1,5 bilhão.

Aproveitando a deixa, recentemente, um bilionário fictício ganhou os holofotes mundiais. Trata-se de ninguém menos que, o playboy, magnata de negócios, filantropo (via Fundação Wayne) e dono da corporação Wayne Enterprises, Bruce Wayne.

Bom, desde que Batman foi introduzido em Detective Comics #27, de 1939, ele se estabeleceu como um rico magnata dos negócios. Em quase todas as representações, Bruce Wayne é o herdeiro da corporação multibilionária da família Wayne, suas holdings e os pedaços dos principais imóveis de Gotham City. Todos os gadgets de Batman vêm dos recursos aparentemente infinitos à disposição de Bruce Wayne, e todas as suas habilidades são o resultado do interminável tempo livre de Wayne.

Não é segredo para ninguém que o universo da Detective Comics (DC) está cheio de heróis que podem voar, levantar tanques e quebrar a barreira do som com nada além de seus corpos, mas o Batman continua sendo o herói mais popular da DC de longe porque ele tem o superpoder que toda pessoa parece querer: vasta riqueza combinada com zero obrigações.

Sendo prático, o dinheiro do Batman é tão essencial para o personagem quanto sua máscara de orelhas pontudas e capuz, então poucas adaptações de tela tentaram alterar ou omitir essa parte sobre ele. Mas enquanto a riqueza de Batman pode ser um fator imutável nos filmes, na vida real, a concepção e relacionamento do público com a riqueza está mudando constantemente. Após a crise financeira de 2008 e o movimento Occupy Wall Street de 2011, um número crescente de americanos identificou a desigualdade de renda como uma questão política central e, após a pandemia do COVID-19, mais pessoas começaram a questionar a sociedade sobre o papel e responsabilidades dos bilionários. Se você é um indivíduo de mentalidade cívica, é provável que já tenha algum tipo de posição sobre a questão de saber se os bilionários devem existir ou não, porque essa conversa se tornou onipresente.

Há muito tem havido debates sobre o que separa a classe alta da classe média e o que constitui uma fortuna “auto-criada”. Nesse ensejo, nos quadrinhos, a fortuna de Bruce Wayne já chegou a US$ 100 bilhões. Ao passo que, a versão cinematográfica ostenta uma fortuna de US$ 9 bilhões. Monetariamente falando, ele só perde para os seguintes personagens: Tio Patinhas (US$ 44,1 bilhões), Carlisle Cullen (U$ 36,2 bilhões), Riquinho Rico, Jr. (US$ 9,7 bilhões), Anthony Edward Stark “Tony Stark” (US$ 9,4 bilhões) e o dragão Smaug (US$ 8,6 bilhões).

Além do que, nossa suspeita coletiva de bilionários da vida real não se traduziu exatamente em desconfiança dos fictícios, vendo como Batman e seu colega bilionário Homem de Ferro continuam sendo heróis emblemáticos em seus respectivos rótulos. Mas de algumas maneiras, esses heróis precisam se adaptar ao clima ao seu redor – algo que Batman sempre fez. Não defendendo Wayne, mas ele está longe de ser o único super-herói rico e soberbo. Na história do cinema, temos espécimes como: o já mencionado Homem de Ferro, Arqueiro Verde, Besouro Azul II e muito mais.

O inesquecível e dúbio Batman fez sua estreia na tela através de seriados e filmes da versão do Batman de 1943. O personagem já foi interpretado por: Lewis Wilson (1943), Robert Lowery (1949), Adam West (1966), Kevin Conroy (apenas voz) (1992-2016), Michael Keaton (1989, 1992 e 2022), Val Kilmer (1995), George Clooney (1997), Christian Bale (2005-2012), Ben Affleck (2016-2017), Iain Glen (2019) e Robert Pattinson (2022).

Produzido durante o auge da Segunda Guerra Mundial – quando o governo dos EUA tinha mais controle sobre as indústrias privadas do país do que nunca – os primeiros seriados retratavam Batman como um agente do governo, uma vez que o Código de Produção Cinematográfica proibia representações heroicas de vigilantismo no tempo.

Entretanto, mesmo com as limitações da censura e um orçamento apertado, os seriados fizeram questão de incluir a mansão palaciana de Bruce Wayne e seu leal mordomo, Alfred. Esses seriados abriram o caminho para o mainstream do show do Batman dos anos 1960 e, a partir desse ponto, as riquezas do Batman foram dadas em adaptações para as telas do cinema.

Nesse sentido, as produções de TV e filmes de ação ao vivo dos anos 1960, 1980 e 1990 pintaram a fortuna de Wayne com uma brilhante sensação de diversão. Desses trabalhos, apenas os filmes de Tim Burton apontaram para uma crítica à riqueza de Wayne, ao conceber Wayne Manor como uma fortaleza moribunda e isolante. Dada a política entusiasticamente pró-capitalista da Guerra Fria que informava a mídia popular americana naquela época, a falta de visão crítica oferecida pelas eras de Adam West, Burton e Schumacher não é surpreendente.

Por conseguinte, a trilogia Cavaleiro das trevas, de Christopher Nolan, fez pouco para avançar o discurso nessa área, mesmo seguindo os passos dos quadrinhos mais corajosos do Batman do final dos anos 1980, que tinham uma visão mais subversiva do poder de Batman como um indivíduo privado.

Analisando economicamente, a última parte da trilogia de Nolan, O cavaleiro das trevas ressurge, foi o primeiro filme do Batman a ser feito após a recessão global, e também é o primeiro filme do Batman a apoiar a ideia de que a riqueza privada maciça e inerentemente prejudicial.

A primeira metade do filme é construída em torno de retirar Bruce Wayne (Christian Bale) de seus bens e gadgets, forçando-o a uma situação em que ele deve aprender a ser heroico sem a rede de segurança da riqueza enquanto sua empresa e sua adorada e tecnológica Batcaverna está sendo usada contra a população de Gotham. Vale comentar que, os filmes de Nolan Batman usaram Gotham de forma bastante eficaz para refletir sobre os medos pós-11 de setembro e o desejo potencialmente corruptor de segurança do Ocidente, mas os filmes não tinham nada de substantivo a dizer sobre o conflito de classes.

Dado o que veio antes, fica claro que The Batman, de Matt Reeves, é um filme para criticar o acúmulo de riqueza dos Waynes mais diretamente. Sejamos sinceros, a fasquia já estava baixa, e qualquer novo filme do Batman teria que aumentá-la porque, desde o final da trilogia de Nolan, houve uma enxurrada de comentários apontando como o método escolhido por Batman de limpar a cidade pode não ser o mais politicamente correto ou útil.

Fica a questão: se Bruce Wayne tem dinheiro suficiente para combater o crime com Batarangs, então ele deve ter dinheiro suficiente para usar a filantropia para alcançar os mesmos resultados, certo?

Para nossa ‘alegria’, The Batman contorna esse argumento girando a maior parte de sua trama em torno do fundo de renovação de US$ 1 bilhão da cidade de Thomas Wayne. Muito antes do Wayne de Pattinson se tornar Batman, os Waynes já tentaram jogar dinheiro nos problemas de Gotham, e tudo o que resultou foi maior massa de corrupção e menos recursos para os pobres e órfãos de Gotham, dando origem ao Charada. O refrão “Renovação é uma mentira” destaca o fracasso dos ricos e poderosos de Gotham em efetuar mudanças por meios tradicionais.

Pois é meus amigos, logo de cara (trocadilho não intencional rs), The Batman coloca Bruce Wayne em uma posição irônica. Tendo testemunhado a ineficácia do fundo de renovação para reparar Gotham, Bruce ficou alienado de sua herança e das finanças da família Wayne. Nesse aspecto, à medida que o longa noir avança, Bruce descobre algumas das maneiras pelas quais a riqueza de sua família foi a fonte da disfunção de Gotham. O fundo de renovação acabou financiando o império criminoso de Falcone.

Em resumo, sendo realista, uma desconstrução completa do capitalismo na forma de um blockbuster de super-herói provavelmente não é possível, tanto porque tal coisa nunca seria financiada por um grande estúdio, quanto pelo fato de ter sido feito para gerar centenas de milhões de dólares para sua controladora corporativa.

Mesmo assim, os gestos que o Batman de Robert Pattinson faz nessa direção falam de algumas das atuais ansiedades culturais sobre riqueza e desigualdade, pelo menos um pouco melhor do que os privilegiados Bruce Waynes (Keaton, Kilmer, Clooney e Bale) do passado.

*Vanderlei Tenório é jornalista e bacharelando em geografia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL).