Para além da natureza – libertação animal e socialismo

Tony Cragg, Seis garrafas (grandes), Estado 1 1988
image_pdf

Por VINÍCIUS DE OLIVEIRA PRUSCH*

Comentário sobre o livro de Marco Maurizi

“Leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi” (Torquato Neto).

1.

Vegano há seis anos e sem comer carne há nove, há algum tempo vem me causando desconforto o tipo de luta que o movimento vegano geralmente propõe. Trata-se, é claro, de uma luta baseada em hábitos de consumo. O caso é que, sendo também um marxista, e um marxista que estudou por algum tempo o neoliberalismo, isso me parece bastante inócuo. Autores como Niklas Olsen (2019), por exemplo, demonstram como a ideologia neoliberal forjou a ideia do consumidor soberano, que, dizem, “comanda” o mercado a partir de suas escolhas pessoais. Uma farsa, é claro.

Simultaneamente, contudo, como ávido leitor de Theodor Adorno e Max Horkheimer, sempre me pareceu que algo no veganismo estava correto. A filosofia dos autores, cujo um dos focos é a relação do ser humano com a natureza, deixava bastante claro para mim que uma transformação social radical era necessária no que diz respeito à forma como tratamos os animais.

Foi uma surpresa muito positiva, portanto, quando me deparei com Para além da natureza: libertação animal e socialismo, de Marco Maurizi, um livro que propõe um novo entendimento do “especismo” justamente a partir de Karl Marx e da Escola de Frankfurt. Seu ponto de partida: a noção de que há um lastro comum entre a opressão de humanos e não-humanos, e de que, assim, anticapitalismo e antiespecismo podem e devem se transformar em uma luta só.

Marco Maurizi fala, já na introdução do livro, na ideologia da libertação animal. Ideologia, aqui, tem o sentido marxista: um conjunto de ideias falsas que se sobrepõem a contradições históricas reais. Seu alvo em termos filosóficos é Peter Singer e seus seguidores, que, segundo ele, tendem a ver o especismo como, em primeiro lugar e fundamentalmente, um preconceito moral, e que propõem como resposta a ele o “estilo de vida” vegano, ou seja, uma escolha moral individual. O movimento pelos direitos dos animais moderno, diz o autor, tem natureza apolítica, a-histórica, conservadora e individualista.

O caso é que, para Marco Maurizi, o especismo precisa ser encarado como uma estrutura social material. Theodor Adorno, Max Horkheimer e Herbert Marcuse demonstram que uma sociedade sem classes precisa necessariamente envolver a libertação da natureza, pois a origem da violência contra humanos e contra animais tem uma raiz comum. “Essa raiz é nosso ódio animal por nós mesmos, ou seja, o fato de que desprezamos nosso ser animal” (Maurizi, 2024, p. 38). Também nós, assim, somos animais, mas tendemos a reprimir nossa animalidade de modo similar a como oprimimos a natureza externa a nós. Somente seremos um tipo diferente de animal quando extinguirmos a exploração animal.

2.

Adentrando a parte 1 do livro, intitulada “Crítica da ideologia da libertação animal”, começamos a pensar mais profundamente sobre qual o significado do especismo. Marco Maurizi não nega que haja um preconceito que justifica a exploração animal. A questão, para ele, é que esse preconceito não está na origem do problema. Começamos a explorar os animais antes de os considerarmos inferiores, e somente os consideramos inferiores para fazer parecer que essa exploração é justa.

O autor propõe, assim, um conceito histórico de especismo, que deve substituir o conceito metafísico do movimento vegano hegemônico. Não podemos, segundo ele, desconstruir a classe e a dominação da natureza, porque elas não são preconceitos, mas estruturas materiais de opressão. Elas precisam ser abolidas, também materialmente.

Na Idade Neolítica, com o surgimento da agricultura e da domesticação de animais, produziu-se a possibilidade material da ideologia especista, que, contudo, somente surgiria muito depois, quando uma ideia de humanidade compartilhada por todos os não-animais se tornou possível. Começamos a explorar animais, assim, antes de nos entendermos como diferentes deles.

“Um animal que se esquece que é um animal”: assim Marco Maurizi (2024, p. 85) define o ser humano. Quando começamos a nos esquecer disso? Desde o início, diz ele. Na cultura mágico-animista das sociedades nômades, contudo, a oposição entre humano e não-humano ainda era fraca. A passagem do nomadismo para o sedentarismo é, portanto, fundamental. A grande questão é que é nesse momento que se originam formas de hierarquia social.

O contraste forte entre humanos e animais surge aqui, mas não por parte dos humanos em geral, mas sim por força daqueles que estão no topo da pirâmide social. “As opressões humanas e animais estão tão intimamente relacionadas que é apenas por meio de sua interação que surge o fenômeno que Singer chama de ‘especismo’”, diz Marco Maurizi (2024, p. 92), que, logo à frente, completa: “Sem exploração animal não há sociedade de classes, mas sem sociedade de classes não há especismo” (Maurizi, 2024, p. 92, frisos do autor).

Já havia, é claro, alguma forma de violência contra animais desde muito antes, mas somente com o nascimento da luta de classes é que a exploração animal se transforma em algo sistemático.

É por isso que o argumento que ouço frequentemente de veganos que não são anticapitalistas – os animais já eram explorados antes do advento do capitalismo, logo, não faz sentido relacionar necessariamente o fim da exploração animal ao fim do capitalismo – não vale: o problema não surge com o capitalismo, é verdade, mas surge com a sociedade de classes, e é o comunismo que pode dar fim à sociedade de classes.

3.

O grande problema da abordagem atual do movimento pelos direitos dos animais, logo, é centralizar o combate ao preconceito contra animais no lugar da exploração material deles. Os veganos exageram o poder tanto da discussão moral quanto da proteção legal. Seria necessário pensar não em um padrão moral alternativo, mas em um modelo social alternativo. “Qualquer tentativa de viver uma vida não-violenta agora não pode ser senão uma paródia muito imprecisa de um mundo liberto” (Maurizi, 2024, p. 127).

Isso não quer dizer, é claro, que não devemos ser veganos. Quer dizer, contudo, que uma mudança significativa somente pode ser alcançada com uma transformação no nível do modo de produção. “Com certeza, podemos trazer alguma centelha de libertação ao mundo em nossos pequenos gestos diários, mas nunca poderíamos viver plenamente as possibilidades de um mundo liberto” (Maurizi, 2024, p. 142).

A parte 2 do livro, intitulada “Marxismo e libertação animal”, inicia argumentando que é inútil criticar a “frieza” dos marxistas. O marxismo não segue um ideal moral by design. Não se trata, na história, de uma questão de bondade ou maldade. Capitalistas não precisam odiar os trabalhadores para serem capitalistas. Não precisam ser vilões. A injustiça é resultado de um modo de produção que se tornou obsoleto e que, portanto, deve ser superado por outro mais justo. Marx e Engels, portanto, nunca utilizariam argumentos morais para justificar a superioridade dos humanos. Eles são animais diferentes, sim, mas por questões históricas. Por conta de sua capacidade de determinar a própria história. Isso não é especismo.

Marco Maurizi admite, entretanto, que Marx e Engels nunca pensaram nos animais como passíveis de serem libertos no comunismo. Isso, porém, não é fundamental, porque as opiniões dos dois sobre os animais não são “uma consequência necessária da teoria marxista como tal” (Maurizi, 2024, p. 170).

O marxismo considera o uso de animais uma necessidade histórica, este é outro fato. Mas o caso é que as necessidades históricas podem ser suplantadas a partir do progresso social, como foi o caso da escravidão humana. Não há, portanto, razão marxista para não libertarmos os animais de sua opressão, pois ela não é mais historicamente necessária.

É aí que entra a Escola de Frankfurt. Segundo ela, a dominação da natureza externa ao ser humano não pode ser separada de uma dominação similar da natureza interna. Alienação e dominação da natureza são coisas conectadas, portanto. Além disso, a reificação “inclui a nossa relação com os animais que somos” (Maurizi, 2024, p. 241, frisos do autor). O domínio da natureza representa, em alguns sentidos, avanço, mas também explica, para estes autores, a barbárie nazista, por exemplo. Não há, dizem eles, que aprenderam com Hegel, dominação sem que o próprio dominador seja alterado negativamente. Portanto, é necessário que demos luz a uma sociedade livre de dominação.

4.

A parte 3 do livro é sua conclusão, intitulada “Para além da natureza”. Uma ideia fundamental presente aqui é a de que, num comunismo ecológico, os animais poderiam ser libertos e, simultaneamente, daria-se voz à animalidade humana, liberando também, portanto, o corpo, o inconsciente, a sexualidade e a arte.

Algo que penso que falta em Para além da natureza é uma reflexão mais aprofundada da identidade, tema fundamental para Theodor Adorno e Max Horkheimer. Para os dois, a identidade tem a ver com o valor. Assim como o valor iguala todas as mercadorias e todos os tipos de trabalho, a identidade é uma força que iguala ideias e objetos no pensamento. Não se trata apenas de um paralelismo, mas de uma relação íntima entre as duas coisas. Isso é importante aqui porque a identidade nos distancia do diferente, nos fazendo repetir as mesmas fórmulas ad infinitum.

Como o diferente por excelência é o animal, a identidade nos distancia também de nós mesmos, de nossa animalidade. Ou seja, existe uma relação íntima entre o valor, força capitalista fundamental, e a dominação da natureza. Levar em conta essa relação fortaleceria o argumento de Marco Maurizi.

É importante ressaltar também que sou doutorando em literatura. Logo, meus interesses estão no marxismo e na libertação animal, sim, como Marco Maurizi, mas também e especialmente no lugar da arte. Nesse sentido, chama-me a atenção a seguinte passagem da Teoria estética: “A arte é refúgio do comportamento mimético. Nela, o sujeito expõe-se, em graus mutáveis da sua autonomia, ao seu outro, dele separado e, no entanto, não inteiramente separado. A sua recusa das práticas mágicas, dos seus antepassados, implica participação na racionalidade. Que ela, algo de mimético, seja possível no seio da racionalidade e se sirva dos seus meios, é uma reação à má irracionalidade do mundo racional enquanto administrado. Pois, o objetivo de toda a racionalidade, da totalidade dos meios que dominam a natureza, seria o que já não é meio, por conseguinte, algo de não-racional. Precisamente, esta irracionalidade oculta e nega a sociedade capitalista e, em contrapartida, a arte representa a verdade numa dupla acepção: conserva a imagem do seu objetivo obstruída pela racionalidade e convence o estado de coisas existente da sua irracionalidade, da sua absurdidade. [Adorno, 1993, p. 68]

Ou seja, a arte transporta ao presente algo de nossa relação mais antiga com a natureza, antes da dominação se tornar estrutural. Em alguns sentidos, de forma bastante curiosa, é como se a arte (a arte que interessa a Theodor Adorno, a arte autônoma) fosse uma espécie de voz indireta dos animais. Penso que essa leitura foi pouco explorada pela crítica até hoje, e o livro de Marco Maurizi nos ajuda a pensá-la.

Vinícius de Oliveira Prusch é doutorando em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Referência


Marco Maurizi. Para além da natureza: libertação animal e socialismo. Tradução: Maila Costa. São Paulo, LavraPalavra, 2024. [https://encurtador.com.br/kMpv]

Bibliografia


ADORNO, Theodor. Teoria estética. Tradução de Artur Morão. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

OLSEN, Niklas. The sovereign consumer: a new intellectual history of neoliberalism. Londres: Palgrave Macmillan, 2019. (Consumption and Public Life)

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Psol – coligação sim, federação não
11 Feb 2026 Por VALERIO ARCARY: Há uma dialética inteligente em lutar pela construção de um partido socialista que vai além dos limites do PT e, ao mesmo tempo, lutar ao lado do PT e do governo Lula contra o bolsonarismo. A ideia de que deve existir um só partido de esquerda parece atraente, mas não é progressiva
2
Fascismo histórico e novo fascismo
11 Feb 2026 Por JALDES MENESES: Encontramo-nos diante de novas causalidades e de um fenômeno politicamente distinto, embora familiar em seu ethos: um "novo fascismo". Esta categoria merece aprofundamento
3
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
4
A prova nacional docente
11 Feb 2026 Por ALLAN ALVES: Quando um ministro da Educação vem a público e conclama a categoria profissional que ele representa a buscar oportunidades de ingresso no magistério, é razoável esperar a existência de uma política. No entanto, tal política não se materializou
5
O contradissenso de Douglas Barros
10 Feb 2026 Por RAFAEL PANSICA: A crítica de Douglas Barros perde sua força quando adota o mesmo tom debochado e elitista que pretende combater, tornando-se exemplo do que ataca
6
O livro de Fernando Haddad
09 Feb 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O livro de Haddad revela uma desconexão entre o ministro experiente e o acadêmico: falta a reflexão madura sobre a simbiose entre capital financeiro e capitalismo de plataforma que ele vive no dia a dia
7
Capitalismo superindustrial
06 Feb 2026 Por FERNANDO HADDAD: Apresentação do autor ao livro recém-lançado
8
A tragédia está morta?
10 Feb 2026 Por TERRY EAGLETON: Primeiro capítulo do livro recém-traduzido “Tragédia”
9
Palestina, terra santa
10 Feb 2026 Por JEAN TIBLE: Palestina emerge como metáfora e chave de leitura para as lutas globais, conectando a máquina de morte israelense às violências contra indígenas e periféricos no Brasil
10
Para além de Hannah Arendt e Antonio Gramsci
04 Feb 2026 Por DYLAN RILEY: Arendt erra ao diagnosticar a atomização como causa do totalitarismo; a análise ganha rigor com Gramsci, para quem a crise é disputa de hegemonia na sociedade civil organizada
11
Assassinatos por meio da fome e do frio
11 Feb 2026 Por YURI PIVOVAROV: O que Joseph Stalin conseguiu apenas parcialmente, Vladimir Putin decidiu concluir. Ele já demonstrou sua habilidade, causando uma nova “ruína” à Ucrânia. Mais precisamente, uma devastação
12
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
13
Os quatro cavaleiros do apocalipse
11 Feb 2026 Por MATHEUS DALMOLIN GIUSTI: Ao tratar da ideologia que guiou a redação legislativa e orienta a interpretação do texto dela resultante, está-se a versar sobre o próprio direito positivo. A manifestação da política brasileira de ciência se dá, especialmente, no plano jurídico, junto do econômico e do institucional
14
A Escola de Campinas
09 Feb 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: A abordagem heterodoxa da Escola de Campinas, com seu projeto desenvolvimentista e crítico à financeirização, enfrenta a hostilidade do mercado e da mídia neoliberal
15
Walter Benjamin, o marxista da nostalgia
21 Nov 2025 Por NICOLÁS GONÇALVES: A nostalgia que o capitalismo vende é anestesia; a que Benjamin propõe é arqueologia militante das ruínas onde dormem os futuros abortados
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES