Por VINÍCIUS DE OLIVEIRA PRUSCH*
Comentário sobre o livro de Marco Maurizi
“Leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi” (Torquato Neto).
1.
Vegano há seis anos e sem comer carne há nove, há algum tempo vem me causando desconforto o tipo de luta que o movimento vegano geralmente propõe. Trata-se, é claro, de uma luta baseada em hábitos de consumo. O caso é que, sendo também um marxista, e um marxista que estudou por algum tempo o neoliberalismo, isso me parece bastante inócuo. Autores como Niklas Olsen (2019), por exemplo, demonstram como a ideologia neoliberal forjou a ideia do consumidor soberano, que, dizem, “comanda” o mercado a partir de suas escolhas pessoais. Uma farsa, é claro.
Simultaneamente, contudo, como ávido leitor de Theodor Adorno e Max Horkheimer, sempre me pareceu que algo no veganismo estava correto. A filosofia dos autores, cujo um dos focos é a relação do ser humano com a natureza, deixava bastante claro para mim que uma transformação social radical era necessária no que diz respeito à forma como tratamos os animais.
Foi uma surpresa muito positiva, portanto, quando me deparei com Para além da natureza: libertação animal e socialismo, de Marco Maurizi, um livro que propõe um novo entendimento do “especismo” justamente a partir de Karl Marx e da Escola de Frankfurt. Seu ponto de partida: a noção de que há um lastro comum entre a opressão de humanos e não-humanos, e de que, assim, anticapitalismo e antiespecismo podem e devem se transformar em uma luta só.
Marco Maurizi fala, já na introdução do livro, na ideologia da libertação animal. Ideologia, aqui, tem o sentido marxista: um conjunto de ideias falsas que se sobrepõem a contradições históricas reais. Seu alvo em termos filosóficos é Peter Singer e seus seguidores, que, segundo ele, tendem a ver o especismo como, em primeiro lugar e fundamentalmente, um preconceito moral, e que propõem como resposta a ele o “estilo de vida” vegano, ou seja, uma escolha moral individual. O movimento pelos direitos dos animais moderno, diz o autor, tem natureza apolítica, a-histórica, conservadora e individualista.
O caso é que, para Marco Maurizi, o especismo precisa ser encarado como uma estrutura social material. Theodor Adorno, Max Horkheimer e Herbert Marcuse demonstram que uma sociedade sem classes precisa necessariamente envolver a libertação da natureza, pois a origem da violência contra humanos e contra animais tem uma raiz comum. “Essa raiz é nosso ódio animal por nós mesmos, ou seja, o fato de que desprezamos nosso ser animal” (Maurizi, 2024, p. 38). Também nós, assim, somos animais, mas tendemos a reprimir nossa animalidade de modo similar a como oprimimos a natureza externa a nós. Somente seremos um tipo diferente de animal quando extinguirmos a exploração animal.
2.
Adentrando a parte 1 do livro, intitulada “Crítica da ideologia da libertação animal”, começamos a pensar mais profundamente sobre qual o significado do especismo. Marco Maurizi não nega que haja um preconceito que justifica a exploração animal. A questão, para ele, é que esse preconceito não está na origem do problema. Começamos a explorar os animais antes de os considerarmos inferiores, e somente os consideramos inferiores para fazer parecer que essa exploração é justa.
O autor propõe, assim, um conceito histórico de especismo, que deve substituir o conceito metafísico do movimento vegano hegemônico. Não podemos, segundo ele, desconstruir a classe e a dominação da natureza, porque elas não são preconceitos, mas estruturas materiais de opressão. Elas precisam ser abolidas, também materialmente.
Na Idade Neolítica, com o surgimento da agricultura e da domesticação de animais, produziu-se a possibilidade material da ideologia especista, que, contudo, somente surgiria muito depois, quando uma ideia de humanidade compartilhada por todos os não-animais se tornou possível. Começamos a explorar animais, assim, antes de nos entendermos como diferentes deles.
“Um animal que se esquece que é um animal”: assim Marco Maurizi (2024, p. 85) define o ser humano. Quando começamos a nos esquecer disso? Desde o início, diz ele. Na cultura mágico-animista das sociedades nômades, contudo, a oposição entre humano e não-humano ainda era fraca. A passagem do nomadismo para o sedentarismo é, portanto, fundamental. A grande questão é que é nesse momento que se originam formas de hierarquia social.
O contraste forte entre humanos e animais surge aqui, mas não por parte dos humanos em geral, mas sim por força daqueles que estão no topo da pirâmide social. “As opressões humanas e animais estão tão intimamente relacionadas que é apenas por meio de sua interação que surge o fenômeno que Singer chama de ‘especismo’”, diz Marco Maurizi (2024, p. 92), que, logo à frente, completa: “Sem exploração animal não há sociedade de classes, mas sem sociedade de classes não há especismo” (Maurizi, 2024, p. 92, frisos do autor).
Já havia, é claro, alguma forma de violência contra animais desde muito antes, mas somente com o nascimento da luta de classes é que a exploração animal se transforma em algo sistemático.
É por isso que o argumento que ouço frequentemente de veganos que não são anticapitalistas – os animais já eram explorados antes do advento do capitalismo, logo, não faz sentido relacionar necessariamente o fim da exploração animal ao fim do capitalismo – não vale: o problema não surge com o capitalismo, é verdade, mas surge com a sociedade de classes, e é o comunismo que pode dar fim à sociedade de classes.
3.
O grande problema da abordagem atual do movimento pelos direitos dos animais, logo, é centralizar o combate ao preconceito contra animais no lugar da exploração material deles. Os veganos exageram o poder tanto da discussão moral quanto da proteção legal. Seria necessário pensar não em um padrão moral alternativo, mas em um modelo social alternativo. “Qualquer tentativa de viver uma vida não-violenta agora não pode ser senão uma paródia muito imprecisa de um mundo liberto” (Maurizi, 2024, p. 127).
Isso não quer dizer, é claro, que não devemos ser veganos. Quer dizer, contudo, que uma mudança significativa somente pode ser alcançada com uma transformação no nível do modo de produção. “Com certeza, podemos trazer alguma centelha de libertação ao mundo em nossos pequenos gestos diários, mas nunca poderíamos viver plenamente as possibilidades de um mundo liberto” (Maurizi, 2024, p. 142).
A parte 2 do livro, intitulada “Marxismo e libertação animal”, inicia argumentando que é inútil criticar a “frieza” dos marxistas. O marxismo não segue um ideal moral by design. Não se trata, na história, de uma questão de bondade ou maldade. Capitalistas não precisam odiar os trabalhadores para serem capitalistas. Não precisam ser vilões. A injustiça é resultado de um modo de produção que se tornou obsoleto e que, portanto, deve ser superado por outro mais justo. Marx e Engels, portanto, nunca utilizariam argumentos morais para justificar a superioridade dos humanos. Eles são animais diferentes, sim, mas por questões históricas. Por conta de sua capacidade de determinar a própria história. Isso não é especismo.
Marco Maurizi admite, entretanto, que Marx e Engels nunca pensaram nos animais como passíveis de serem libertos no comunismo. Isso, porém, não é fundamental, porque as opiniões dos dois sobre os animais não são “uma consequência necessária da teoria marxista como tal” (Maurizi, 2024, p. 170).
O marxismo considera o uso de animais uma necessidade histórica, este é outro fato. Mas o caso é que as necessidades históricas podem ser suplantadas a partir do progresso social, como foi o caso da escravidão humana. Não há, portanto, razão marxista para não libertarmos os animais de sua opressão, pois ela não é mais historicamente necessária.
É aí que entra a Escola de Frankfurt. Segundo ela, a dominação da natureza externa ao ser humano não pode ser separada de uma dominação similar da natureza interna. Alienação e dominação da natureza são coisas conectadas, portanto. Além disso, a reificação “inclui a nossa relação com os animais que somos” (Maurizi, 2024, p. 241, frisos do autor). O domínio da natureza representa, em alguns sentidos, avanço, mas também explica, para estes autores, a barbárie nazista, por exemplo. Não há, dizem eles, que aprenderam com Hegel, dominação sem que o próprio dominador seja alterado negativamente. Portanto, é necessário que demos luz a uma sociedade livre de dominação.
4.
A parte 3 do livro é sua conclusão, intitulada “Para além da natureza”. Uma ideia fundamental presente aqui é a de que, num comunismo ecológico, os animais poderiam ser libertos e, simultaneamente, daria-se voz à animalidade humana, liberando também, portanto, o corpo, o inconsciente, a sexualidade e a arte.
Algo que penso que falta em Para além da natureza é uma reflexão mais aprofundada da identidade, tema fundamental para Theodor Adorno e Max Horkheimer. Para os dois, a identidade tem a ver com o valor. Assim como o valor iguala todas as mercadorias e todos os tipos de trabalho, a identidade é uma força que iguala ideias e objetos no pensamento. Não se trata apenas de um paralelismo, mas de uma relação íntima entre as duas coisas. Isso é importante aqui porque a identidade nos distancia do diferente, nos fazendo repetir as mesmas fórmulas ad infinitum.
Como o diferente por excelência é o animal, a identidade nos distancia também de nós mesmos, de nossa animalidade. Ou seja, existe uma relação íntima entre o valor, força capitalista fundamental, e a dominação da natureza. Levar em conta essa relação fortaleceria o argumento de Marco Maurizi.
É importante ressaltar também que sou doutorando em literatura. Logo, meus interesses estão no marxismo e na libertação animal, sim, como Marco Maurizi, mas também e especialmente no lugar da arte. Nesse sentido, chama-me a atenção a seguinte passagem da Teoria estética: “A arte é refúgio do comportamento mimético. Nela, o sujeito expõe-se, em graus mutáveis da sua autonomia, ao seu outro, dele separado e, no entanto, não inteiramente separado. A sua recusa das práticas mágicas, dos seus antepassados, implica participação na racionalidade. Que ela, algo de mimético, seja possível no seio da racionalidade e se sirva dos seus meios, é uma reação à má irracionalidade do mundo racional enquanto administrado. Pois, o objetivo de toda a racionalidade, da totalidade dos meios que dominam a natureza, seria o que já não é meio, por conseguinte, algo de não-racional. Precisamente, esta irracionalidade oculta e nega a sociedade capitalista e, em contrapartida, a arte representa a verdade numa dupla acepção: conserva a imagem do seu objetivo obstruída pela racionalidade e convence o estado de coisas existente da sua irracionalidade, da sua absurdidade. [Adorno, 1993, p. 68]
Ou seja, a arte transporta ao presente algo de nossa relação mais antiga com a natureza, antes da dominação se tornar estrutural. Em alguns sentidos, de forma bastante curiosa, é como se a arte (a arte que interessa a Theodor Adorno, a arte autônoma) fosse uma espécie de voz indireta dos animais. Penso que essa leitura foi pouco explorada pela crítica até hoje, e o livro de Marco Maurizi nos ajuda a pensá-la.
Vinícius de Oliveira Prusch é doutorando em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Referência

Marco Maurizi. Para além da natureza: libertação animal e socialismo. Tradução: Maila Costa. São Paulo, LavraPalavra, 2024. [https://encurtador.com.br/kMpv]
Bibliografia
ADORNO, Theodor. Teoria estética. Tradução de Artur Morão. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
OLSEN, Niklas. The sovereign consumer: a new intellectual history of neoliberalism. Londres: Palgrave Macmillan, 2019. (Consumption and Public Life)




















