Uma estranha aliança

Imagem: Anthony Beck

Por CAMILO GODOY PICHÓN*

A conveniência de um suposto “progressismo” que se alinha aos interesses dos Falcões dos Estados Unidos e da OTAN

Em momentos normais, em momentos de paz, nós os vemos desfilando em programas de televisão, tirando selfies com seus fãs, comparecendo a “talk shows” [1]. Sendo reconhecidos como referências por alguns partidários da socialdemocracia latino-americana, em vários momentos tão colonizada pela matriz eurocêntrica e anglo-saxã. Jacinda Ardern, Justin Trudeau e Pedro Sánchez são em geral destacados pela imprensa hegemônica como alguns de seus mandatários mais jovens em nível internacional.

No entanto, durante os últimos dias de conflito entre Rússia e Ucrânia, esse ar inofensivo ficou de lado. Os últimos três mandatários, assim como alguns dos países escandinavos como Suécia e Finlândia, que costumam se apresentar tão corriqueiramente em nossos países como “exemplos a seguir”, alinharam-se rapidamente com a linha belicista e imperialista da OTAN e dos interesses dos Estados Unidos. O discurso único oficial parecia ser condenar “a loucura de Putin” em contraposição à “razoabilidade das pessoas no resto da Europa”. Ou, como assinala Sánchez, que, ao invadir a Ucrânia, Putin “no fundo, ataca a Europa” [2].

Mas, por que focamos nesses atores? Precisamente porque são aqueles que costumam passar despercebidos pelo seu estilo anódino; por seu suposto progressismo em termos ideológicos ou por seu carisma. Ao mesmo tempo, pela proximidade em termos de discurso do presidente Gabriel Boric, do Chile, com alguns deles (Trudeau e o ex-governo do Podemos entre eles). Nessa semana Boric condenou pelo Twitter a invasão russa e Putin, em um tom que lembra, uma vez mais em suas palavras a linha ideológica da mídia da direita internacional.

Isso nos leva a questionar sobre que tipo de progressismo será hasteado nas próximas conjunturas. As últimas também nos fazem recordar que um “progressismo” que não seja anti-imperialista e anticapitalista possui sérias limitações em suas pretensões transformadoras. Isso já foi dito por Michael Parenti sobre Bernie Sanders: que era um político bem-intencionado, mas se limitava a um discurso meramente localista e não questionava o modelo capitalista em seu conjunto. Em termos de política externa, não nos esqueçamos de que Bernie (outro ícone da social-democracia; figura interessante dentro do universo conservador eleitoral dos EUA, mas sem esquecer sua complexidade), apoiou a invasão à Iugoslávia na década de noventa, que deixou entre 489 e 528 civis mortos como produto dessa Guerra [3], o que provocou, naquela época, a renúncia de seu assessor Jeremy Brecher e seu distanciamento definitivo de Parenti. Sanders, “se bem é certo que votou contra a Guerra do Iraque, votou a favor de autorizar fundos para essa guerra e a do Afeganistão.

Mais recentemente, [no ano de 2015], votou a favor de um pacote de ajuda de um bilhão de dólares para o governo golpista da Ucrânia e apoiou a tomada de assalto de Israel a Gaza. Assim, em uma palestra, admitiu que Israel pode ter “reagido exageradamente”, mas culpou o Hamas por todo o conflito. Em seguida, quando um membro do auditório lhe perguntou por que se negava a condenar as ações de Israel, disse a seus críticos: “Desculpe! Cale-se! O microfone não está com você”.

Pois bem, vamos revisando caso a caso esses novos líderes: O caso mais extremo é o de Justin Trudeau, Primeiro-Ministro reconhecido como “liberal” por parte da socialdemocracia internacional, mas muito próximo dos interesses e ideias do conservadorismo e dos Falcões de Washington [4].

Não nos esqueçamos de que Trudeau foi um dos rostos por trás do chamado “Grupo de Lima”, tentativa interestatal pan-americana que buscava promover uma realização de eleições livres na Venezuela, sancionando internacionalmente a figura de Nicolás Maduro e promovendo Guaidó como interlocutor validado pela comunidade internacional, gerando a perfeita plataforma regional e ideológica para as sanções em relação ao país llanero e, inclusive, abrindo a possibilidade de uma eventual invasão estadunidense para esse fim.

No caso da Ucrânia, Trudeau combinou de maneira direta uma estratégia bélica com sanções econômicas à Rússia. Segundo a Infobae, “O Canadá subsidiará à Ucrânia sistemas de armas antitanque e munição melhorada, e proibirá todas as importações de petróleo cru procedentes da Rússia (…) essa ajuda se somará aos três embarques anteriores de equipamentos letais e não letais. O Canadá anunciou na semana passada que enviaria novos carregamentos de suprimentos militares, incluindo coletes a prova de bala, capacetes, máscaras antigás e óculos de visão noturna. Além disso, Trudeau anunciou segunda-feira que seu país proibirá “toda importação de petróleo cru” russo [5] e hoje anunciou o fechamento de portos e mares canadenses para navios russos. Tudo isso, complementado com um discurso que convocava ao fim da guerra. Mas se enviam armas para que uma guerra acabe?

Este alinhamento do Canadá com a OTAN e contra a Rússia não é novo, pois uma nota de setembro de 2016 advertia sobre o que dissemos anteriormente: “O Canadá – sob o governo de Trudeau – também liderou o confronto da OTAN com a Rússia, enviando uma força de manutenção de paz de mil efetivos para a Letônia, perto da fronteira russa, colocando a nação em pé de guerra”. Na ocasião, ao explicar a medida, o Ministro da Defesa, Sajjan, disse aos jornalistas que se tratava de “enviar uma mensagem correta de coesão dentro da OTAN, dar confiança aos Estados membros e mostrar o quão importante é a dissuasão para que possamos voltar a um diálogo responsável” [6].

No caso da Espanha, Pedro Sánchez durante as últimas horas “retificou” e assinalou que a Espanha enviará armamento para a resistência ucraniana, em virtude das desigualdades que existem no país frente à invasão de uma potência, segundo suas próprias palavras. Isso gerou uma fissura em seu próprio gabinete, diante da oposição do Unidas Podemos [7] e fora do nível governamental, do partido basco EH Bildu em relação às posturas belicistas de Sánchez.

Segundo Sánchez: “Isso é o que o Putin teme, na realidade. Teme a construção e o fortalecimento de uma potência geopolítica, a União Europeia, na porta das suas fronteiras. Putin teme a Europa porque teme a democracia. Por isso ataca a Europa” – sustentou. As bombas sobre a Ucrânia, dessa forma, simbolizam a “luta encarniçada entre dois modelos antagônicos de ser e estar no mundo”. Mas Putin encontrou diante de sua agressão uma Europa “mais unida e determinada que nunca”.

No fragmento anterior, é evidente a polarização e binarização entre bons e maus. Ao mesmo tempo, é evidente que a democracia estaria do lado da União Europeia; tese claramente anti-Russa por parte do Presidente e da qual pode se deduzir certo racismo e a negação do outro, tão característicos da guerra.

Nesse ponto, nada justifica a invasão bélica da oligarquia russa, no entanto, é necessário fazer algumas precisões. Precisamente, inclusive, vários dos atores mais conservadores da política estadunidense reconheceram, com o decorrer das horas, que o conflito russo-ucraniano poderia ter sido evitado, se os EUA e a OTAN se abstivessem do seu expansionismo em direção à Rússia [8]. Isso é assinalado até mesmo por Henry Kissinger, o famoso secretário de Estado de Nixon por trás do golpe contra Salvador Allende, que em 2014 apontava que “Os EUA precisam evitar tratar a Rússia como um ente aberrante ao qual é preciso ensinar as regras de conduta que são estabelecidas por Washington”.

Pois bem, o último caso mencionado: Jacinta Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia. Seu alinhamento com o discurso de Washington, ainda que seja um tanto mais sutil que o do caso canadense e o espanhol, localiza-se dentro daquilo que Vijay Prashad denominou como “guerras híbridas”, quer dizer, não abrir diretamente fogo contra outros países, mas promover sanções a eles, questão que, no caso do Irã ou da Venezuela, claramente afetou a população mais pobre, assim como em Cuba ou Nicarágua. Cabe recordar que já se tinha documentado que Ardern não supunha uma grande mudança para a classe trabalhadora da Nova Zelândia, no nível da política doméstica [9].

Assim, para o caso do conflito russo-ucraniano, segundo a rede Swissinfo, Ardern assinalou que seu governo “imporá proibições de viagens para um número ainda não determinado de funcionários russos e para outras pessoas vinculadas à invasão da Ucrânia, assim como proibirá as exportações de insumos para as forças militares e de segurança do país” [10], o que, segundo ela, “envia um claro sinal de apoio à Ucrânia”. A Primeira-Ministra neozelandesa, tal como pode se atribuir a Trudeau, dentro de certo pragmatismo, já vinha há algum tempo se aproximando das posições dos EUA e mostrando distância em relação à China – enquanto essas não interviessem em seus interesses comerciais [11], mencionando unilateralmente os problemas deste país em matéria de Direitos Humanos, mas não fazendo o mesmo em relação aos EUA.

Tudo o que foi dito nos obriga ao questionamento sobre a conveniência de um suposto “progressismo” que se alinha aos interesses dos Falcões dos Estados Unidos e da OTAN. Uma visão anti-imperialista do Século XXI, nesse sentido, claramente não pode pretender que o bem-estar se aloje somente em certos territórios nacionais, dando, ao mesmo tempo, suporte em termos de política externa à guerra aberta ou às guerras híbridas. Para maiores dúvidas, comparemos a reação de países socialistas – com todas as suas imperfeições – com esse outro leque de governos autoproclamados “progressistas”. Assim, diante da invasão do Iraque e da possível execução de Saddam Husseim em 2007, o governo cubano dizia, por exemplo, o seguinte: “é um disparate político, um ato ilegal, em um país que foi conduzido para um conflito interno no qual milhões de cidadãos se exilaram ou perderam a vida” [12]. Ao mesmo tempo, também defendia que “já é hora de que também deixem de morrer ou sofrer as sequelas da guerra centenas de milhares de jovens norte-americanos”.

Não será então o discurso único, muito menos o envio de armas ou as sanções, impregnadas de uma retórica de justificação imperialista o que ajudará no desarmamento e na paz, senão o anti-imperialismo e a solidariedade de classe com aqueles que mais sofrem as consequências das guerras: os pobres do mundo. Não será Putin o mais afetado pelas sanções, assim como tampouco será Zelensky o mais afetado pelos bombardeios. Por isso, qualquer discurso ou figura progressista que se preze, não merece esse epíteto enquanto se proponha alimentar o complexo militar industrial da OTAN, da União Europeia ou dos EUA; ou promover sanções que afetem os cidadãos da classe trabalhadora de outros países.

É urgente então, a partir da esquerda latino-americana e do Sul Global em geral promover uma visão diferente, que concilie ao mesmo tempo o antibelicismo e o anti-imperialismo e que seja uma alternativa a esse tipo de lideranças e práticas. Já se escreveu sobre o papel da Escandinávia no imperialismo global [13], sustentando pequenos oásis de igualdade e social democracia “para dentro” de seus países e militarismo “para fora”; esperamos, nessa linha, que Ardern, Trudeau e Sánchez deixem de ser referência ou sejam vistos como representantes de qualquer tipo de esquerda. Tal como no caso de Bernie, de que vale promover um sistema de saúde gratuito para os estadunidenses se se respalda a invasão e a continuidade do imperialismo em outros países?

As posturas de China ou Cuba, de não respaldar nem a invasão nem as sanções, aceitando a soberania de ambos os povos, estabelecendo, ao mesmo tempo, que a principal responsabilidade da eclosão do conflito é dos Estados Unidos e da OTAN, parece uma alternativa sensata ao imperialismo de face humana; tão comprometido com a manutenção do status quo e a manutenção das diferenças de poder no cenário internacional.

*Camilo Godoy Pichón é graduado em sociologia pela Universidade do Chile.

Tradução: Francisco Prandi.

 

Notas


[ 1 ] Prime Minister Jacinda Ardern Explains Why The UN Laughed At Trump – https://www.youtube.com/watch?v=aYsZv9JXmio

[ 2 ] Finlandia y Suecia insisten en su derecho a entrar en la OTAN – https://www.niusdiario.es/internacional/finlandia-suecia-insisten-derecho-entrar-otan_18_3290445083.html

[ 3 ] Bernie Sanders’ Troubling History of Supporting U.S. Military Violence Abroad – https://www.alternet.org/2015/05/bernie-sanders-troubling-history-supporting-us-military-violence-abroad/

[ 4 ] Justin Trudeau Is Not Your Friend – https://jacobinmag.com/2016/09/justin-trudeau-unions-environment-arms-saudi-arabia

[ 5 ] Canadá enviará más armas a Ucrania y prohibirá la importación de petróleo ruso – https://www.infobae.com/america/mundo/2022/02/28/canada-enviara-mas-armas-a-ucrania-y-prohibira-la-importacion-de-petroleo-ruso/

[ 6 ] Justin Trudeau Is Not Your Friend – https://jacobinmag.com/2016/09/justin-trudeau-unions-environment-arms-saudi-arabia

[ 7 ] Podemos acusa a Sánchez de contribuir a la escalada bélica – https://www.elperiodico.com/es/politica/20220302/podemos-acusa-sanchez-contribuir-escalada-belica-rusia-ucrania-13310533

[ 8 ] EU y Europa desestimaron avisos sobre la crisis en Ucrania – https://www.jornada.com.mx/notas/2022/03/02/politica/eu-y-europa-desestimaron-avisos-sobre-la-crisis-en-ucrania/

[ 9 ] Jacinda Ardern Is Not Your Friend – https://www.jacobinmag.com/2021/02/jacinda-ardern-new-zealand-labour-prime-minister

[ 10 ] Nueva Zelanda anuncia sanciones a Rusia por la invasión de Ucrania – https://www.swissinfo.ch/spa/ucrania-guerra_nueva-zelanda-anuncia-sanciones-a-rusia-por-la-invasi%C3%B3n-de-ucrania/47379230

[ 11 ] Ardern’s Foreign Policy Address Was Pro-US, But Not Necessarily Anti-China – https://thediplomat.com/2021/07/arderns-foreign-policy-address-was-pro-us-but-not-necessarily-anti-china/

[ 12 ] Cuba considera un “disparate político” la ejecución de Saddam Husein y reclama el fin de la guerra en Irak –  https://www.europapress.es/internacional/noticia-cuba-considera-disparate-politico-ejecucion-saddam-husein-reclama-fin-guerra-irak-20070101203046.html

[ 13 ] Scandinavia’s Covert Role in Western Imperialism. By: Carlos Cruz https://www.europapress.es/internacional/noticia-cuba-considera-disparate-politico-ejecucion-saddam-husein-reclama-fin-guerra-irak-20070101203046.html