Europa – um futuro norte-americano?

Imagem: Justin Hamilton

Por BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS*

A crescente integração da Europa no universo ideológico dos EUA tem muitas outras dimensões no plano cultural e político

Os EUA possuem o maior PIB do mundo: 23 triliões de dólares. Das 10 maiores empresas de capital financeiro, 3 têm sede nos EUA. Aí surgiu, no Silicon Valley, a tecnologia que transformou as nossas vidas. A indústria global de entretenimento e da mídia é predominantemente norte-americana. A produção científica deste país trouxe avanços extraordinários em múltiplos domínios, nomeadamente na área da saúde.

Em contraste com tudo isto, o nível das desigualdades sociais nos EUA supera o de qualquer país europeu desenvolvido; a esperança de vida (77 anos) é inferior à de Portugal (81 anos); 11.4 % da população, isto é, 37 milhões de pessoas, vivem abaixo do nível de pobreza; 6 milhões de crianças vivem em lares com insegurança alimentar; os estudantes acumulam dívidas impagáveis (1.7 trilhões de dólares); os EUA não possuem trens de alta velocidade nem serviço universal de saúde; foi o país com um dos desempenhos mais medíocres na proteção da saúde e da vida durante a crise pandémica; as suas infraestruturas são deficientíssimas, a precisar de reparação urgente; várias cidades do Midwest estão a sofrer cortes de energia rotativos, típicos das cidades dos países menos desenvolvidos; o nível geral dos salários está há quatro décadas praticamente estagnado; cerca de 100.000 pessoas morrem anualmente por overdose de drogas; o país tem a mais alta taxa de encarceramento/institucionalização do mundo: quase 2 mil milhões de pessoas, sendo que a taxa de encarceramento dos jovens negros é cinco vezes mais alta do que a dos jovens brancos; só nos primeiros seis meses de 2022 já morreram 277 pessoas em tiroteios com armas de guerra.

Os EUA estão armadilhados numa espiral incontrolável de gastos militares. Na medida em que a Europa se identificar com os desígnios norte-americanos, é provável que algo semelhante venha a passar-se na Europa. Como os orçamentos são finitos, o que se gastar em armas não se gasta em escolas e hospitais. Para além da dimensão socioeconômica, a crescente integração da Europa no universo ideológico dos EUA tem muitas outras dimensões no plano cultural e político que devem ser tomadas em atenção. Centro-me nas ideologias, bem consciente de que a prática dos países que as professam é muitas vezes bem diferente.

 

As metamorfoses da sociedade civil

Na Europa social-democrata a sociedade civil forte é a precondição de um Estado social forte, enquanto nos EUA a sociedade civil forte é considerada incompatível com o Estado social forte. A diferença reside em que, enquanto na Europa a sociedade civil é concebida como um vasto espectro de organizações sociais (o chamado terceiro sector), nos EUA, sobretudo desde os anos de 1980, os interesses da sociedade civil foram-se metamorfoseando em interesses do mercado, isto é, da economia privada. O crescimento global da extrema-direita tem contribuído para o avanço desta metamorfose na Europa. Até onde pode ir é uma incógnita.

 

Do liberalismo ao neoconservadorismo

A década de 1960 foi a década áurea do liberalismo nos EUA. Eis algumas características do seu ideário: a natureza humana não é fixa e tem potencial para construir uma sociedade mais justa; os seres humanos são essencialmente racionais; os obstáculos ao progresso são a ignorância e as instituições defeituosas; não há hierarquias essenciais entre os seres humanos; a negociação e o compromisso devem prevalecer sobre o conflito e a guerra; o Estado deve ser secular e assentar no governo democrático e no reformismo social. Estas ideias, que parecem senso comum a qualquer europeu, são hoje minoritárias nos EUA.

A partir da década de 1980, o pensamento conservador iniciou um ataque radical ao liberalismo e paulatinamente foi inculcando ideias simetricamente opostas. Com a chegada da segunda geração de conservadores no final da década de 1990, emergiram os neoconservadores que se, por um lado, radicalizaram as ideias conservadoras, por outro lado, modificaram-nas num tema essencial: enquanto os conservadores eram isolacionistas, os neocons são imperialistas.

A supremacia branca dos conservadores no plano interno transformou-se na supremacia dos EUA sobre todos os outros países, sendo legítimo tudo o que for necessário para a manter. Os neocons dominam a política externa dos EUA desde os tempos do Presidente Bill Clinton. A arrogância com que hoje se fala em Bruxelas sobre a necessidade de continuar a guerra, arrasar a Rússia e neutralizar a China é coerente com a agenda neocon e soa a nostalgia imperial.

 

Aliados democráticos ou pró-ocidentais?

Durante a curta vigência do liberalismo assumia-se, em geral, que os governos democráticos eram aliados naturais dos EUA. A autodeterminação dos povos era defendida com alguma credibilidade. Com a viragem conservadora, os aliados naturais dos EUA passaram a ser os que defendessem os valores judaico-cristãos ocidentais e os interesses geoestratégicos dos EUA, qualquer que fosse o seu regime político. Para os conservadores dos anos de 1960, Francisco Franco em Espanha e António Salazar em Portugal eram aliados porque eram pró-ocidentais e o colonialismo europeu devia ser defendido por ser a luta da civilização ocidental contra a barbárie.

O mesmo se dizia de ditadores pró-ocidentais, ainda que se reconhecesse que alguns eram particularmente cruéis, caso de Fulgêncio Batista em Cuba. Por outro lado, ao contrário dos liberais, que defendiam a coexistência pacífica com o comunismo, os conservadores defendiam ser obrigação dos EUA libertar os povos do “jugo comunista” e fazer recuar o bloco soviético. Criticavam, por isso, a inação dos EUA durante a revolta da Hungria de 1956 e achavam mesmo que, na crise do canal do Suez desse ano, os EUA tinham traído os seus aliados ocidentais, a Inglaterra e a França, abrindo as portas à expansão do comunismo. A agenda neoconservadora domina hoje a política externa dos EUA e, se vier a dominar na Europa, ocorrerá uma viragem de paradigma. Por exemplo, Viktor Orbán não será criticado por ser autoritário, mas por ser pró-russo, isto é, antiocidental. E a Bielorrússia ou a Geórgia serão países a desestabilizar para os libertar do jugo russo.

 

Anticomunismo sem comunismo

O medo do perigo comunista, que emergira nas décadas de 1920 e 1930, transformou-se depois da Segunda Guerra Mundial numa ideologia que atravessou todo o espectro da política norte-americana. Com o Maccartismo dos anos de 1950, a caça aos filo-comunistas atingiu níveis inauditos. Os melhores escritores, académicos, jornalistas ou realizadores de cinema foram acusados de filo-comunismo com consequências por vezes trágicas para a sua vida e carreira. Esta ideologia era partilhada por liberais e conservadores, ainda que com as diferenças que mencionei acima. Mas enquanto na década de 1960 os liberais consideravam que o perigo do comunismo interno fora neutralizado, os conservadores continuaram a ver manifestações do comunismo em qualquer agenda de reforma social, por mais moderada que fosse – incluindo as políticas pela igualdade racial ou pelos direitos reprodutivos das mulheres.

Para os conservadores, o comunismo passou a ser um significante vazio e funciona hoje como arma de arremesso para demonizar adversários políticos, justificar o seu cancelamento nas redes sociais e promover o discurso do ódio. A tradição europeia de partidos comunistas (apesar da crise que estes atravessam e de muitos terem deixado de existir) pode ser um travão contra esta avalanche que na Europa surge por via da extrema-direita. Por quanto tempo? Para já, o ódio anti-russo contém subliminarmente a intensidade do ódio anticomunista, mesmo sabendo-se que o partido comunista é muito minoritário na Rússia e que Putin é um político de direita, amigo da extrema-direita europeia.

 

O nazismo é uma ameaça menor que o comunismo

O nazismo tem uma longa tradição nos EUA com raízes no Partido Nazi Americano fundado em 1960, e está hoje disseminado no país através de muitas organizações extremistas, todas elas adeptas da supremacia branca e preparadas para “a guerra racial”, envolvendo por vezes treino militar. Violência e terrorismo são os meios privilegiados do “acelaracionismo do poder branco”. A sua presença no assalto ao Capitólio em 6 de Janeiro de 2021 foi notória. Talvez mais importante que registar este tenebroso movimento é ter em mente que o nazismo foi sempre mais tolerado nos EUA que o comunismo.

Mesmo depois da Segunda Guerra Mundial, os EUA adoptaram uma política de cooperação pragmática com alguns sectores do nazismo derrotado. Um dos casos mais significativos foi a proteção e acolhimento no país dos cientistas alemães nazis. Foi a “Operação Clip” descrita por Annie Jacobsen em Operation Paperclip: The Secret Intelligence Program That Brought Nazi Scientists to America (Little Brown, 2014). O livro é perturbador ao mostrar em que medida as políticas públicas podem ser ocultadas do público em nome da segurança nacional. Depois da rendição da Alemanha, 1600 cientistas e técnicos alemães vieram para os EUA e rapidamente se tornaram cidadãos norte-americanos. Tratava-se dos cientistas que ajudaram Hitler a produzir armamentos (mísseis, armas químicas e biológicas, medicina espacial para aumentar o desempenho dos pilotos, etc.) que mataram os soldados e as populações dos países aliados. O livro incide sobre 21 cientistas que estiveram ao serviço de Hitler, a maioria deles com prémios concedidos pelo Führer, sendo o mais conhecido Wernher von Braun, e estando entre eles o cirurgião geral do Terceiro Reich.

Alguns chegaram a ser julgados no Tribunal de Nuremberg, mas foram pouco depois contratados pelo governo norte-americano. Foi criada uma secção no Pentágono – a Joint Intelligence Objectives Agency – especificamente dedicada a recrutar e contratar cientistas nazis. Um ano antes de Hiroshima e Nagasaki, o Pentágono discutia a necessidade de os EUA se prepararem para uma “guerra total” contra os comunistas, uma guerra atómica, química e biológica, e todos os meios para a tornar possível eram legítimos. O extremo pragmatismo desta política fez com que, embora muitos destes cientistas pudessem ser considerados criminosos de guerra, a utilidade deles fez esquecer os seus crimes, quando não lhes concedeu recompensa. A Operação Paperclip é o sintoma de algo mais geral: a aversão ao nazismo foi sempre muito menos intensa que a aversão ao comunismo. Afinal, os nazis apenas radicalizam algumas das ideias conservadoras dominantes e sempre foram fiéis adeptos do capitalismo.

Este complexo ideológico conservador não avança sem resistência mesmo dentro dos EUA, como ficou demonstrado pelo movimento “A Nossa Revolução”, animado pelo senador socialista democrático Bernie Sanders, que por algum tempo entusiasmou os jovens norte-americanos, tal como anos antes se tinham envolvido no movimento Occupy Wall Street em nome dos 99%. É bom, no entanto, que os democratas europeus vão tomando conta do que estará em causa se a Europa perder o que a distingue dos EUA e acolher acriticamente o que tem de comum com eles.

*Boaventura de Sousa Santos é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Autor, entre outros livros, de O fim do império cognitivo (Autêntica).