Quem precisa de Karl Marx em 2025?

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Por YANIS VAROUFAKIS*

A liberdade no século XXI exigirá desmantelar o tecnofeudalismo, um sistema que converteu o progresso tecnológico em um mecanismo de controle sem precedentes sobre a vida e o pensamento

1.

Uma jovem que conheci recentemente comentou que não era tanto a maldade pura que a tirava do sério, mas sim as pessoas, ou instituições, com a capacidade de fazer o bem que, em vez disso, prejudicavam a humanidade. Sua reflexão me fez pensar em Karl Marx, cuja querela com o capitalismo era precisamente essa: não tanto por ser explorador, mas por nos desumanizar e alienar, apesar de ser uma força tão progressista.

Sistemas sociais anteriores podem ter sido mais opressivos ou exploradores que o capitalismo. No entanto, somente sob o capitalismo os seres humanos foram tão completamente alienados de seus produtos e de seu ambiente, tão divorciados de seu trabalho, tão despojados de qualquer pingo de controle sobre o que pensam e fazem.

O capitalismo, especialmente depois de passar para sua fase tecnofeudal, transformou todos nós em alguma versão de Caliban ou Shylock – mônades em um arquipélago de eus isolados, cuja qualidade de vida é inversamente proporcional à abundância de geringonças que nossa maquinaria moderna produz.

Os jovens sentem isso. Mas a reação violenta contra os imigrantes, as políticas de identidade, sem mencionar a distorção algorítmica de suas vozes, os paralisa. Mas aqui reaparece Marx com conselhos sobre como superar essa paralisia – bons conselhos que jazem enterrados sob as areias do tempo.

Tomemos o argumento de que as minorias que vivem no Ocidente deveriam se assimilar para que não acabemos como uma ‘sociedade de estranhos’. Aos 25 anos, Karl Marx leu um livro de Bruno Bauer, um pensador que ele respeitava, defendendo que, para se qualificarem para a cidadania, os judeus alemães deveriam renunciar ao judaísmo. O argumento de Bruno Bauer era que os alemães não tinham liberdade. Então, ele perguntou: “Como havemos de libertá-los, judeus?” Como alemães, continuou ele, os judeus tinham o dever de ajudar a emancipar os alemães, e a humanidade de forma mais ampla – não agitar por seus direitos como judeus. Marx ficou furioso.

Embora o jovem Marx não tivesse tempo para o judaísmo, e na verdade para nenhuma religião, sua demolição apaixonada do argumento de Bruno Bauer é um colírio para os olhos[i]: “Nós fazemos a pergunta inversa: o ponto de vista da emancipação política dá o direito de exigir do judeu a abolição do judaísmo e do homem a abolição da religião?… Assim como o Estado evangeliza quando… adota uma atitude cristã em relação aos judeus, o judeu age politicamente quando, embora judeu, exige direitos cívicos.”

2.

O truque que Marx nos ensina aqui é como combinar um compromisso com a liberdade religiosa, de judeus, muçulmanos, cristãos etc., com a rejeição total da presunção de que, em uma sociedade de classes, o Estado pode representar o interesse geral. Sim, judeus, muçulmanos, pessoas de crenças que talvez não compartilhemos ou das quais não gostemos muito devem ser emancipados imediatamente.

Sim, mulheres, negros, pessoas LGBT+ devem ter direitos iguais bem antes que qualquer revolução socialista apareça no horizonte. Mas a liberdade exigirá muito mais do que isso.

Passando para a questão dos trabalhadores imigrantes que suprimem os salários dos trabalhadores locais, outro campo minado para os jovens de hoje, uma carta que Marx enviou em 1870 a dois associados em Nova York oferece pistas brilhantes sobre como lidar não apenas com os Nigel Farages do mundo, mas também com alguns esquerdistas que também morderam a isca anti-imigração.

Em sua carta, Marx reconhece plenamente que os empregadores americanos e ingleses exploravam propositalmente a mão de obra barata de imigrantes irlandeses, colocando-os contra os trabalhadores nativos e enfraquecendo a solidariedade trabalhista.

Mas, para Marx, era autodestrutivo para os sindicatos se voltarem contra os imigrantes irlandeses e adotarem narrativas anti-imigração. Não, a solução nunca foi banir os trabalhadores imigrantes, mas organizá-los. E se o problema é a fraqueza dos sindicatos, ou a austeridade fiscal, a solução nunca pode ser usar os trabalhadores imigrantes como bode expiatório.

Falando em sindicatos, Marx também tem conselhos esplêndidos para eles. Sim, é crucial aumentar os salários para reduzir a exploração do trabalhador. Mas não nos deixemos levar pela fantasia de salários justos. A única maneira de tornar o local de trabalho justo é acabar com um sistema irracional baseado na separação estrita entre aqueles que trabalham, mas não possuem, e a pequena minoria que possui, mas não trabalha.

Em suas palavras: “Os sindicatos funcionam bem como centros de resistência contra as usurpações do capital. [Mas] [eles] geralmente fracassam por se limitarem a uma guerra de guerrilha contra os efeitos do sistema existente, em vez de também tentarem mudá-lo.”

Mudar para quê? Uma nova estrutura corporativa baseada no princípio de um-funcionário-uma-ação-um-voto – o tipo de pauta que pode realmente inspirar os jovens que anseiam por liberdade tanto do estatismo quanto das corporações movidas pelos resultados financeiros de empresas de private equity ou de um proprietário ausente que talvez nem saiba que possui parte da empresa para a qual trabalham.

Por fim, o frescor de Marx brilha quando tentamos entender o mundo tecnofeudal em que as big techs, juntamente com as grandes finanças e nossos Estados, nos encerraram sub-repticiamente. Para entender por que isso é uma forma de tecnofeudalismo,[ii] algo muito pior que o capitalismo de vigilância, precisamos pensar como Marx pensaria em nossos smartphones, tablets etc.

Vê-los como uma mutação do capital, ou capital-nuvem[iii], que modifica diretamente nosso comportamento. Compreender como avanços científicos alucinantes, redes neurais fantásticas e programas de Inteligência artificial que desafiam a imaginação criaram um mundo onde, enquanto a privatização e o private equity expropriam toda a riqueza física ao nosso redor, o capital-nuvem se ocupa de expropriar nossos cérebros.[iv]

Somente através das lentes de Marx podemos realmente entender: que para possuirmos nossas mentes individualmente, devemos possuir o capital-nuvem coletivamente.

*Yanis Varoufakis é ex-ministro das Finanças da Grécia. Autor, entre outros livros, de Tecnofeudalismo: O que matou o capitalismo (Crítica, 2025). [https://amzn.to/4o8JzjN]

Tradução: Ricardo Kobayaski.

Publicado originalmente no The Guardian

Notas do tradutor


[i]A sight for sore eyes” – “um colírio para os olhos” (expressão idiomática equivalente em português)

[ii] O tecnofeudalismo, segundo Yanis Varoufakis, é o novo sistema socioeconômico que sucedeu o capitalismo. Ele é caracterizado pela ascensão do capital-nuvem – a infraestrutura digital das Big Techs – que se tornou o principal meio de extração de riqueza. Nesse sistema, os mercados foram substituídos por plataformas digitais privadas (feudos na nuvem), e o lucro foi substituído pela renda de plataforma (um tipo de aluguel digital). A sociedade se reorganizou em uma nova hierarquia: os suseranos da nuvem (donos das plataformas), os capitalistas vassalos (empresas tradicionais dependentes) e os servos da nuvem (usuários que produzem dados gratuitamente). O resultado é um sistema que gera estagnação econômica, polarização social e um controle comportamental sem precedentes, representando uma ameaça ainda maior à liberdade e à prosperidade humana do que o próprio capitalismo.

[iii] “Cloud capital” – “capital-nuvem” (neologismo que preserva a força conceitual do original).

[iv] “Asset-strip our brains” – “expropriar nossos cérebros” (termo mais preciso no contexto político-econômico).


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