Quem tem medo dos movimentos sociais?

Foto: Vlada Karpovich
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Por CARLOS ZACARIAS DE SENA JÚNIOR & MAÍRA KUBÍK MANO*

Quando mulheres, negras e negros, pessoas LGBTs e Pessoas com Deficiência acusam alguém, é improvável que o façam sem critério

Em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo no último domingo, 15/09, o professor Rodrigo Perez Oliveira, nosso colega da UFBA, argumenta que professores universitários têm sido alvos de ataques à direita e à esquerda. Segundo Rodrigo Perez Oliveira, em meio às guerras culturais, os professores universitários seriam as vítimas, porém capazes de enfrentar os ataques da extrema direita, que vem de fora da academia.

Contudo, estariam vulneráveis frente à investida de movimentos sociais que, no interior da universidade, “agenciam a justa pauta da defesa dos direitos das minorias sociais para dar verniz de reparação histórica às suas ofensivas”. O colega elenca quatro casos, bastante distintos entre si, para exemplificar “práticas de cancelamento à revelia de qualquer processo administrativo”.

O argumento de Rodrigo Perez Oliveira não é exatamente uma novidade. Na verdade, a “acusação” de fragmentar lutas coletivas por meio da mobilização de identidades está presente há décadas para os movimentos feminista, LGBTQIA, negro, mas se intensifica conforme há uma agudização das disputas políticas na sociedade, como a que vivemos atualmente.

Mais recentemente, em 2021, a revista Piauí publicou artigo intitulado “Parece revolução, mas é só neoliberalismo”, que partia do mesmo pressuposto utilizado hoje pelo professor Rodrigo Perez Oliveira. O texto de 2021 pretendia denunciar as investidas de militantes organizados pelo “identitarismo” que tornavam impossível a vida do pobre professor universitário.

Argumentando nos mesmos termos do colega da UFBA, Benamê Kamus Albudrás, na verdade o pseudônimo de um provável professor que estaria sob risco de ser cancelado pela esquerda universitária, partia da mesma tese sobre a necessidade de combater a direita, para alvejar o movimento estudantil e as maiorias minorizadas que tornam-se uma ameaça quando se organizam e agem em função de interesses coletivos.

Não vamos entrar no mérito dos casos citados por Rodrigo Perez Oliveira, porque nos parece óbvio que eventualmente excessos são cometidos e colegas são vitimados por gente mal intencionada e disposta a destruir reputações com interesses, no mais das vezes, inconfessáveis. Ademais, o clima de fascistização social presente hoje no país inevitavelmente contamina todas as esferas da vida cotidiana, incluindo nossas relações interpessoais e também os movimentos sociais.

Não obstante, é impossível supor que a universidade seja um espaço da harmonia e que os docentes são intocáveis e incólumes à crítica e à contestação, mesmo do alunado, de modo que não deveria ser motivo de melindre de nossa parte as formas de interpelação e questionamento.

O conhecimento acadêmico e a universidade são regidos por normas hierárquicas e por formas de meritrocracia que distinguem o conjunto dos membros da comunidade universitária, isso não está em questão. Entretanto, sendo um espaço que abriga o conflito e a contradição, que são a essência do conhecimento que precisa ser crítico, não se pode desejar que as universidades não produzam barulho.

É justamente esse barulho, ou “balbúrdia”, como disse o ex-ministro Weintraub, que ouvido parcialmente pela sociedade é usado de forma distorcida pela extrema direita para lhe atacar.

Dito isso, parece-nos que ao estabelecer uma falsa equivalência entre esquerda e direita quanto ao tema da universidade, o professor Rodrigo Perez Oliveira questiona a legitimidade de estudantes que se organizam e se movem no sentido de combater as opressões de que são vítimas fora da universidade e também em seu interior. Dizemos falsa equivalência, porque na maioria das vezes não vemos o movimento estudantil se organizar para atacar docentes apenas porque esses cumprem o seu dever.

São raros os casos de “cancelamentos” de professores e professoras que não ajam cotidianamente de forma opressiva e intimidadora, de modo que muito dificilmente vemos docentes que não sejam reincidentes serem alvos dos movimentos sociais. Quando mulheres, negras e negros, pessoas LGBTs e Pessoas com Deficiência se movem para acusar alguém a quem enxergam como opressor/assediador/autoritário, é improvável que o façam sem critério.

É preciso notar ainda que, na última década, com a adoção efetiva da política de cotas, o perfil da universidade pública mudou no Brasil: temos hoje instituições mais diversas, com um corpo estudantil que traz diferentes experiências de vida, e isso reverbera na sala de aula. Há, por parte do alunado, uma reivindicação para diversificação de epistemologias e didáticas, que tem contribuído para uma universidade mais aberta, crítica e plural. Seria ingênuo pensar que tal transformação não viria sem conflito por parte daqueles que estão acomodados em suas certezas.

No momento em que a universidade, em seu conjunto, é mais uma vez atacada pela extrema direita, inclusive com o questionamento ao direito a cotas, parece ser um grave erro apontar o dedo para quem comumente é a vítima.

Podemos não ter a universidade que desejamos, mas uma instituição pautada por variadas formas de hierarquia e meritocracia, não precisa enrijecer suas relações emulando tensões e dourando a pílula para quem torna o ambiente universitário insalubre. A educação precisa ser um caminho e uma prática para a liberdade e isso não combina com assédio e nenhuma forma de preconceito.

*Carlos Zacarias de Sena Júnior é professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

*Maíra Kubík Mano é professora do Departamento de Estudos de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA).


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