Retratos fantasmas

Fotograma do documentário Retratos Fantasmas
image_pdf

Por ANTONIO HENRIQUES LEMOS LEITE FILHO*

Comentário sobre o documentário de Kleber Mendonça Filho

Assistir Retratos fantasmas de Kleber Mendonça Filho é nos deparar com nossos velhos fantasmas, dos velhos cinemas e da forma de ocupação dos centros das cidades que vivi, e como dessas lembranças emergem meus fantasmas, e com certeza, de todos aqueles que viveram a vida dos cinemas dos centros de nossas cidades. Às vezes penso que minha primeira religião foi o cinema, depois vieram o catolicismo, o futebol e mais tarde o trotskismo. Uma vez lendo Trotsky, a certa altura ele descreve que no socialismo o cinema teria o papel da religião, na sociabilidade e no encantamento, e teríamos uma nova religião civil, como tantas que professamos ao longo da vida.

No entanto, os cinemas como esse espaço de encontro nas ruas das cidades foram declinando desde o fim do século passado. Eu cresci ao lado do Cine Roxy (outrora Cine Imperial), que fez partes dos negócios da família de meu avô, em Anápolis, e nele aconteceram minhas primeiras experiências com as cortinas vermelhas e a projeção na sala escura. Em muito menor medida também frequentei o Santana e o Santa Maria.

Mas no Roxy eu encontrei e me tornei íntimo de Mazzaropi, chorei (acho que pela primeira vez no cinema) quando o Lupa morreu em O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão, e fiquei extasiado quando meu pai negociou com o bilheteiro para eu entrar depois do início da sessão para ver Planeta dos Macacos (a censura nos impedia). O sons do cinema invadiam e faziam parte do cotidiano da casa da minha vó, que morava ao lado. Lembro como ela ficava triste com os sons das longas perseguições de moto em Chuva Negra de 1990, que a faziam lembrar de meu tio recém falecido, que era motociclista.

Tão marcante como as sessões do Roxy, foi meu pai ter me levado para assistir o Império Contra Ataca no cine Casablanca em Goiânia, e sentir o medo atávico de me deparar pela primeira vez com Darth Vader. Depois o Roxy reprisou o Guerra nas Estrelas (na época chamávamos somente assim), talvez o jedaismo e a força, tenham se tornado uma religião à parte. Quando, muitos anos mais tarde, levei meu filho no cinema pela primeira vez, vimos Ameaça Fantasma, senti que um ciclo da minha vida tinha se completado.

Ao nos mudarmos para Porto Velho passei a frequentar outros templos. O velho e imponente Cine Resky, os filmes de kung-fu no Cine Brasil, e o destino de nossas gazetas vespertinas, que exigiam que saíssemos correndo do recreio a tempo de pegar as matinês das 16 horas no Lacerda, onde assisti Ben-hur, Superman, Gandhi, Mad Max, Betty Blue, e centenas de filmes, dentre eles o primeiro pornô.

Voltando à Goiânia nos 1990 a maioria dos cinemas ainda estavam nas ruas do centro, e ainda havia um em Campinas (um bairro antigo), neste ano seriam inauguradas as salas do Bougainville, o segundo shopping com cinemas da cidade, e pouco a pouco fomos vendo os cinemas do centro fecharem, virarem igrejas e outros empreendimentos, e nossas cidades com os centros menos vivos e cinzas. E assim sumiram o Casablanca, o Astor, o Capri e tantos outros.

O Filme de Mendonça Filho, me fez lembrar vividamente das longas conversas com o projetista do Cine Cultura, esse ainda existe (mas não é propriamente um cinema de rua), que certa vez me disse que Cinema Paradiso era a estória da vida dele. Não há como assistir ao filme dele e os relatos ali mostrados sem lembrar do filme italiano.

E com o fim dos cinemas de rua, seguimos destruindo os centros de nossas cidades, aceitando as pressões do capital, que não aceita a ideia de preservação dos patrimônios, que fica cada vez mais arboricida, que faz cada vez mais uma cidade ser hostil a pedestres e ciclistas. Que não tem o humano como centro.

Os que tirarem um tempo para ver o filme de Mendonça Filho, vão ser confrontados com seus respectivos fantasmas. E como ele diz no filme, os melhores documentários são os filmes de ficção e as distopias são o melhor retrato do devir. E tudo ficou o dever de pensar o futuro de nossas queridas cidades, e seus cinemas (e da nossa cultura tão atacada).

O cine Ritz na rua 8 ainda resiste, junto a bares frequentados pela juventude, mas até quando?

*Antonio Henriques Lemos Leite Filho é professor do curso de direito do campus da cidade de Goiás da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Referência


Retratos fantasmas
Brasil, documentário, 2023, 93 minutos
Direção e roteiro: Kleber Mendonça Filho
Montagem: Matheus Farias
Direção de fotografia: Pedro Sotero


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
2
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
6
Além de Jürgen Habermas e Richard Rorty
19 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Ou nos parecemos com o que a Inteligência artificial e a internet nos fornece, ou não acreditamos na nossa própria realidade! Estamos no mundo, ontologicamente, se estamos na infosfera
7
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
8
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
9
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
10
Fernando Haddad entrevistado por Breno Altman
19 Mar 2026 Por RODRIGO PORTELLA GUIMARÃES: Há uma relação de trabalho muito diversa do operariado dos séculos XIX e XX, que implica um novo projeto de esquerda. Precisamos compreender na prática as novas frações de classe e desafios, provocação central ofertada por Fernando Haddad
11
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
12
A pornô-política
14 Jun 2020 Por RICARDO T. TRINCA: O político obsceno tem prazer pelo domínio, sob a forma de uma prestidigitação, algo que pode ser encontrado também nos mágicos
13
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
14
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
15
A arte ante o neoliberalismo - parte 1
17 Mar 2026 Por LUIZ RENATO MARTINS: De que modo a tônica pró-capitalista envolve e afeta as artes e o público hoje em processo de formação, e, principalmente, as novas gerações universitárias, que, em breve, assumirão posições proativas no quadro da cultura brasileira?
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES