Cloroquina e outras drogas

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Por MOMTCHILO RUSSO*

A política atual do Ministério da Saúde em insistir na cloroquina e ser contra o isolamento social é respectivamente, uma charlatanice e uma excrescência quando comparada ao que se preconiza na OMS e na maioria dos países

O pior da pandemia viral atual (Covid-19) é a ignorância em não seguirmos as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e o que outros países europeus fizeram para evitar a catástrofe que ora se instala no Brasil, com o elevado número mortes.

Cloroquina e hidroxicloroquina são fármacos usados na prevenção e tratamento da malária, uma doença causada por um protozoário e transmitida pela picada de mosquitos.

Estes fármacos sintéticos foram baseados no princípio ativo do quinino, uma substância natural amarga extraída da casca de uma árvore encontrada no Peru.

Um fato anedótico que uso para ilustrar a aula de malária relaciona-se com os três problemas principais que os colonizadores ingleses tinham na Índia: mosquitos, calor e malária.

Então eles inventaram uma bebida que resolvia os três problemas de uma só vez.

Gin para deixar de se preocupar com as picadas dos mosquitos; água tônica com gelo para matar a sede e aplacar o calor; e quinino para matar o parasita causador da malária.

Ou seja, uma solução perfeita para os três problemas.

Em 1918, o uso de quinino foi recomendado para combater o vírus influenza responsável pela epidemia da gripe espanhola e posteriormente a cloroquina, nos surtos episódicos de influenza, sem terem a sua eficácia comprovada.

O uso de hidroxicloroquina na Covid-19 partiu de uma observação do médico francês Didier Rault, de Marselha, que notou melhora em alguns pacientes.

Baseado nesta observação, o grupo do Dr. Rault publicou um trabalho sobre o efeito benéfico do tratamento da hidroxicloroquina combinada com o antibiótico azitromicina na Covid-19, porém o trabalho foi feito com número reduzido de pacientes e com problemas na análise estatística devido à retirada de alguns pacientes na análise dos dados sofrendo críticas da comunidade científica que resultou, a pedido dos próprios autores, na retirada da publicação deste trabalho.

Um dos problemas iniciais com o uso da cloroquina é que faltavam relatos concretos sobre sua eficiência na Covid-19.

Como a maioria dos pacientes, quase 90% se recuperam da infecção, fica difícil determinar o efeito da cloroquina.

Este tipo de situação, quando não se tem certeza do que realmente funciona numa determinada doença, abre campo ao charlatanismo.

Hoje há vários estudos, que concluíram que tratamento com cloroquina ou hidroxicloroquina não é benéfico na Covid-19, pelo contrário, pode até ter um efeito deletério.

Portanto, recomendar o seu uso, como faz atualmente o Ministério da Saúde, fere um princípio básico da Medicina que é primum non nocere, ou seja, não infringir ao paciente danos desnecessários.

Há um ditado na Medicina que diz “o paciente pode se curar com, sem e apesar do médico”.

Apesar do médico se refere à possível ação iatrogênica, que são complicações resultantes do tratamento médico.

Por causa disto, os médicos atuais seguem protocolos baseados em evidências.

A recomendação do uso da cloroquina por três presidentes que compartilham a ignorância em relação ao mecanismo de ação da cloroquina é ilustrativa.

Em comum, os três não tem nenhuma formação profissional ou conhecimento científico para opinar na medida em que não entendem de vírus nem de terapia.

O presidente do Brasil segue o presidente Trump, que preconizava e tomava cloroquina.

Por outro lado, o presidente Maduro da Venezuela também defende o seu uso indicando que a defesa da cloroquina não é uma primazia de um tipo de governo.

A defesa da cloroquina lembra o caso Lysenko, ministro da agricultura na época do Josef Stalin. Lysenko estava convencido que a genética de Mendel (leis baseadas em cruzamento de plantas que determina a herança genética de pais para filhos) era uma teoria burguesa e demitiu todos os cientistas que a apoiavam.

A consequência disto foi sentida na agricultura da União Soviética, que colapsou.

Analogamente, foram afastados os ministros da Saúde do Brasil que se recusaram a indicar a cloroquina e/ou o fim distanciamento social e até hoje não foram substituídos, o que se traduziu num aumento exponencial no número de internações hospitalares em algumas cidades, levando ao colapso o Sistema Único de Saúde.

O uso da cloroquina no Brasil virou um problema ideológico até entre docentes e pesquisadores.

Há alguns meses, foi redigida um documento endereçado ao Ministro da Saúde e assinado por 31 pesquisadores pedindo urgência na aplicação da cloroquina.

Chama atenção é que os signatários dessa carta pertencem a um organismo denominado Docentes pela Liberdade (DPL) — como se houvesse professores e pesquisadores contrários a essa causa.

Em uma visita ao site do DPL, verifica-se que o grupo se auto-define como: apartidário, formado por docentes e profissionais de qualquer área, cujo interesse é recuperar a qualidade da educação no Brasil, romper com a hegemonia da esquerda e combater a perseguição ideológica.

Esse documento foi publicado no site “Brasil Sem Medo”, que tem em seu conselho editorial Olavo de Carvalho, guru do presidente e de seus filhos.

Não à toa, parte da diretoria do DPL foi contratada para trabalhar em diferentes postos do governo.

Ou seja, ao contrário do que afirma em seu site, DPL é um grupo partidário identificado com o governo atual.

Lamentavelmente, o governo brasileiro ignorou um achado importante feito pela médica Elnara Marcia Negri, do Hospital Sírio Libanês e da Universidade de São Paulo, mostrando o efeito benéfico da heparina, uma droga anticoagulante, na Covid-19.

Igualmente relegado foi o avanço do conhecimento na Covid-19 feito por pesquisadores brasileiros do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) coordenado pela Profa. Marisa Dolhnikoff, mostrando que o tromboembolismo (coagulação do exagerada do sangue) está associado com a patologia da Covid-19.

Inclusive, a orientação atual dos médicos — que também merecem ser destacados — do Hospital das Clínicas da FMUSP é utilizar heparina.

Vale lembrar que um tipo de heparina na Covid-19 foi também desenvolvida no Brasil pelo grupo da Dra. Helena Nader da UNIFESP.

Tampouco um teste que identifica a presença do vírus desde o primeiro dia da infecção, desenvolvido no Hospital Albert Einstein, foi destacado pelo governo.

Além dessas, inúmeras iniciativas inovadoras das universidades brasileiras foram ignoradas, incluindo as iniciativas do meu Instituto (ICB – USP), que estabeleceu um teste sorológico para Covid-19 ultra sensível.

Para finalizar, o presidente brasileiro cometeu um erro e um ato falho quando afirmou que — quem é de direita toma Cloroquina quem é de esquerda toma Tubaína – porque a esquerda não toma Tubaína, quem toma Tubaína é o povo.

Tubaína têm apelo popular devido ao baixo custo.

Ao associar a Tubaína ao que ele mais odeia que é a esquerda, o presidente revela por um ato falho o seu viés de classe, qual seja, o seu desprezo pelo povo brasileiro ao se referir à Tubaína de forma pejorativa.

A política atual do Ministério da Saúde em insistir na cloroquina e ser contra o isolamento social é respectivamente, uma charlatanice e uma excrescência quando comparada ao que se preconiza na OMS e na maioria dos países.

Essa orientação capitaneada pelo presidente levará o Brasil logo mais ao topo de óbitos.

A culpabilidade desta catástrofe deve ser imputada a alguém.

Quem é o responsável? Quem vai julgar a charlatanice da cloroquina? Quando os culpados serão julgados por atos necropolíticos? Qual tribunal irá julgá-los? O que precisamos fazer para reverter esse tragédia anunciada?

* Momtchilo Russo é professor titular do Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas da USP e do Departamento de Moléstias Infecciosas da Faculdade de Medicina da USP.

Publicado originalmente no site Viomundo.

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