Silvio Meira

Imagem: Joshua Sortino
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Por RENATO DAGNINO*

A universidade não será o lugar que questiona a IA enquanto for refém da elite científica que, em nome da neutralidade, há muito capitulou ao capitalismo cognitivo

1.

Pretendo aqui indagar de colegas que leram o instigante artigo de uma das maiores autoridades de nossa universidade pública no tema Inteligência artificial sobre a probabilidade de uma resposta positiva à pergunta que ele faz ao final: “a universidade terá coragem de fazer o mesmo [que fez Diderot] com Inteligência artificial e seus reis? De recusar-se a ser mera plataforma de distribuição corporativa [leia-se as Bigtechs] e reimaginar-se como lugar onde a Inteligência artificial é questionada, dissecada, desautorizada?”.

Para alinhavar uma resposta, Silvio Meira indica alguns requisitos. Segundo ele, teríamos que: (i) “insistir que a universidade, não a corporação [leia-se as Bigtechs], define que conhecimento conta e por quê”; (ii) “reafirmar a função pública – a universidade nasceu como lugar onde discordância era sagrada”.

E reagir contra a tendência que leva a que a (iii) “liberdade epistêmica [vá] cedendo lugar a controle corporativo [leia-se as big techs]”. E, para tanto, observar que (iv) “Não há decreto contra o pensamento crítico. Há apenas um sistema que torna mais fácil copiar que pensar, mais eficiente aceitar que questionar”.

Para examinar aquela a probabilidade, seguindo o fio da meada, vou comentar…

Em relação ao requisito (i), vou convidar quem me lê a substituir o termo “corporação” que ele usa para referir-se as big techs pelo conceito que tenho utilizado em vários textos para me referir ao ator que hegemoniza nossa política cognitiva (de Educação e de CTI): a “elite científica e seus tecnocratas”. Meu convite-provocação, deve-se aos seguintes motivos:

(a) é esse ator hegemônico que, baseado no que denomino “mito transideológico da neutralidade da tecnociência capitalista”, vem moldando o lugar que trata o autor. É na universidade onde se dá a elaboração (formulação, implementação, avaliação) dessa política e onde, através da manutenção de agendas de ensino, pesquisa e extensão, se definem os currículos explícitos e ocultos que fazem com que seus egressos contribuam para a manutenção de uma sociedade economicamente desigual, socialmente injusta, e ambientalmente suicida.

(b) é esse ator, portanto, e não “a universidade”, tal como ela é por ele reificada de modo oportunista (para defender seus valores e interesses e encobrir sua hegemonia disfarçando o consentimento a que submete pela via daquele inquestionável mito transideológico as trabalhadoras e trabalhadores do conhecimento que nela operam o potencial tecnocientífico viabilizado pelo imposto dos mais pobres), que “define que conhecimento conta e por quê”.

(c) é esse ator que, arvorando-se em demiurgo da modernidade, serve como correia de transmissão cultural, ideológica e política (policy e politics) de um modelo, primeiro eurocêntrico, depois imitativo do american way of life e cada vez mais imperialista e belicoso que tem como ponta-de-lança a tecnociência capitalista. Justamente aquela que ela insiste em considerar contra todas as evidências como universal e neutra (no sentido que pode alavancar qualquer projeto político) e segue reproduzindo e professorando.

2.

Em relação ao requisito (ii), sem entrar em detalhes: (a) vale lembrar quem entende a universidade capitalista, desde a sujeição de modos de produção pregressos, como o repositório do conhecimento expropriado da classe trabalhadora, outrora coletivo e tácito, que a classe proprietária codifica e monopoliza para poder seguir explorando-a.

(b) e, nossa universidade periférica, como um enclave ainda menos dotado de capacidade de transbordamento social, a serviço da conquista do território e da manutenção daquelas características de nossa sociedade e do nosso Estado.

(c) e, em consequência, revisar, à luz da evidência histórica, a noção de que “a universidade nasceu como lugar onde discordância era sagrada”. Só assim será possível entender que o que hoje se percebe como o tsunami da Inteligência artificial não é, qualitativamente, uma novidade e, sim, um resultado dessas duas características da nossa universidade e daquele ator que, aqui mais do que nos países centrais, hegemoniza sua trajetória.

Em relação ao requisito (iii), substituindo novamente a referência às big techs que o autor associa ao termo corporativo pela noção de corporação intrínseca à elite científica e seus tecnocratas:

(1) vale recordar que o “controle corporativo” exercido por esse ator tem tolhido a “liberdade epistêmica” que poderia ter dado lugar, no plano institucional, a reformas universitárias que, ainda que tardias quando se toma como referência a América Latina, desde o início dos anos 1960 têm tentado alterar aquelas duas características.

(2) e, no plano mais específico das agendas de ensino, pesquisa e extensão, tem impedido a discussão de propostas focadas no reprojetamento e adequação sociotécnica da tecnociência capitalista orientadas à satisfação das demandas cognitivas embutidas nas necessidades coletivas insatisfeitas que o marco analítico-conceitual e social e os instrumentos metodológico-operacionais da Tecnociência Solidária vem desenvolvendo.

3.

Em relação ao requisito (iv), e mais uma vez de modo provocativo, alterando o foco do argumento do autor, lembrar:

(a) que os elementos da trajetória das últimas cinco décadas na universidade pública recém apontados têm de fato levado a que não seja necessário nenhum “decreto contra o pensamento crítico”.

(b) e que alterar esse “sistema que torna mais fácil copiar que pensar, mais eficiente aceitar que questionar” na direção de uma alternativa radical coerente com a proposta da Tecnociência Solidária é provavelmente o único caminho para, prolongando nossa vida neste planeta, enfrentar o desafio das “insurgências epistêmicas no século XXI”.

Concluindo, e de forma ainda mais provocativa, mas voltando à pergunta do Silvio Meira sobre a probabilidade de que a universidade se torne capaz de “se reimaginar como lugar onde a Inteligência artificial é questionada, dissecada, desautorizada”, eu diria que, além de considerar o que procurei descrever até aqui, será necessário, pelo menos, evitar cometer erros pueris.

Dentre tantos, que todos nós experimentamos e com os quais o autor “por dever de ofício” conhece de perto, indico um que tem muito a ver com o assunto do artigo.

Há menos de dez anos, nossa elite científica, com plena consciência do que estava por vir, levou nossa universidade pública, mediante “sua” política cognitiva, a desativar seus servidores de e-mail e se pendurar no Google. Para muitos, começou aí a capitulação às big techs que prenunciou a perda de controle sobre nossos nossos dados.

Segundo eles, olhando para a imagem da universidade que projeta o autor, duas questões merecem atenção. Por que as ações que a elite científica demanda do governo contra a “Inteligência artificial-serpente” ameaçadora em nome da consigna da soberania digital não se iniciaram eliminando-a quando ela era ainda era um “ovo”? Por que, pelo contrário, a universidade ajudou a chocar esse “ovo”?

Será que ações lideradas por expoentes dessa elite científica, como a “Cátedra inteligência artificial responsável” recém-criada pela maior universidade brasileira, a USP, em parceria com uma das maiores empresas de tecnologia e domínio de inteligência artificial do mundo, a Google, nos autorizam a pensar que a universidade de que nos fala o autor poderia se tornar o “lugar onde a Inteligência artificial é questionada, dissecada, desautorizada”?

Ou será que a universidade que temos, para começar a “se reimaginar”, não precisaria considerar a proposta contra-hegemônica da Tecnociência solidária?

*Renato Dagnino é professor titular no Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp. Autor, entre outros livros, de A indústria de defesa no governo Lula (Expressão Popular). [https://amzn.to/4gmxKTr]

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