Sobre “O soldado antropofágico”

Wilhelmina Barns-Graham, Jogos de Laranja e Limão, 1999
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Por NABIL ARAÚJO*

Três questões para Tales Ab’Sáber (e seus leitores)

Tendo lido e debatido, com o próprio autor, O soldado antropofágico: escravidão e não-pensamento no Brasil, livro impressionante em tantos aspectos e por tantas razões, encaminho, aqui, três questões, agora extensivas aos novos leitores que o texto merece ter, no sentido de reverberar e de explorar ambivalências que me chamaram a atenção desde uma primeira leitura da obra.

1.

Como professor e pesquisador do campo dos estudos literários, é natural que meu interesse pelo livro incida sobretudo no lugar ocupado e na função desempenhada pela literatura na arqueologia, ou genealogia, para empregar dois termos foucaultianos, empreendida por Tales Ab’Sáber no livro.

Arqueologia ou genealogia, bem entendido, do “não pensamento”, da estrutura escravocrata do “não pensamento” no Brasil, mas que se revelaria também, num sentido importante, uma arqueologia ou genealogia das condições de possibilidade da literatura no Brasil.

Evocando, pois, uma acepção mais foucaultiana do que kantiana da ideia de “condições de possibilidade”, poder-se-ia perguntar, com Tales Ab’Sáber: Quando (e por que) se tornam possíveis, no Brasil, Machado de Assis ou Joaquim Nabuco?

Quanto a isso, Tales Ab’Sáber está muito próximo da tradição de estudo literário que remonta a Antonio Candido e, sobretudo, a Roberto Schwarz, à qual, aliás, explicitamente se filia, e em consonância com a qual a “forma literária” é pensada, via de regra, em homologia com o “processo social”.

Não estranha, assim, que, na narrativa que se tece no livro, a obra literária apareça muito menos como um objeto e muito mais como índice – às vezes, mesmo, como um sintoma – de certa estrutura social, ou de certa estrutura de pensamento; mas em alguns momentos não é isso o que acontece.

E eu gostaria de chamar a atenção para os momentos em que Tales Ab’Sáber parece, de fato, complexificar sua ideia de literatura, de discurso literário e da função que isso teria tanto na história que ele quer contar como na economia do seu próprio discurso.

Parece-me que isso fica explícito, por exemplo, no prólogo do livro, intitulado “Somos contemporâneos de nossa escravidão”, no qual, a certa altura, fala-se de “seis principais modos de conceber a nossa escravidão” (AB’SÁBER, 2022, p. 28) – modos, bem entendido, para além do “discurso abolicionista acentuado gradualmente depois de 1860” (Ibid., p. 28), dentre os quais irá se destacar aquele relacionado ao “soldado antropofágico” do título do livro: o alemão Carl Schlichthorst.

Ao lado dele, outros três modos, num total de quatro, portanto, são denominados com nomes de escritores – Gonzaga, Gonçalves Dias, Alencar –, todos anteriores ao “momento decisivo” (para usar o termo de Antonio Candido) machadiano, à virada que serve de baliza, inclusive, para Tales avaliar o próprio valor da obra de seu protagonista, o dito “soldado antropofágico” alemão.

Tales Ab’Sáber nos fala, aí, portanto, em relação a tais escritores, de “modos de conceber a nossa escravidão”. Chamo a atenção para o verbo ora associado à produção literária visada pelo autor, que não é “representar”, ou “documentar”, ou “fotografar”, e sim “conceber”.

Bom, o verbo aponta para uma possibilidade de algo, dir-se-ia alguma potência do discurso literário, que não seria a de uma mera reprodução, mas a de uma verdadeira produção da “nossa escravidão”, aqui entendida, pois, como uma concepção do discurso poético ou narrativo, ou, melhor dizendo, concepções, a depender do “modo de conceber” em ação nesta ou naquela obra literária em consideração.

Há, assim, uma brecha no livro para se pensar a literatura produzindo alguma coisa que não estaria simplesmente prevista pela estrutura social, mas antes conformada por um dos referidos “modos de conceber”, ou, já que se trata aí de modalidades de discurso, “modos de dizer”, especifica Tales Ab’Sáber: “modos de dizer nossa vida popular que tinha contato com o povo trabalhador, escravizado e negro, africanos que se tornavam brasileiros à força” (Ibid., p. 28).

Voltando-nos, com o autor, para esses diferentes “modos de dizer” a escravidão no Brasil, podemos pensar, em termos de estudos literários, a partir de uma perspectiva que aborda o discurso narrativo e/ou poético antes como produção de imagens, portanto como certa performance imagética, do que como mera constatação, ou como reflexo, ou como índice, ou como sintoma.

Haveria, assim, segundo Tales Ab’Sáber: (i) o “modo do silêncio, ou o poder como ato e recusa simbólica”, a principal forma das elites “operar a cultura da escravidão, ao menos até o fim da década de 1850 no Brasil” (Ibid., p. 29); (ii) o “modo Vilhena, ou o poder contra o erotismo”, pautado pela “recusa afirmativa do valor da vida popular e da cultura que dela emana, controle estrito policial da vida dos pobres, controle político policial explícito dos espaços públicos das cidades” (Ibd., p. 30).

(iii) O “modo de Gonçalves Dias, ou a denúncia do não dito”, o qual teria se configurado em alguns poemas, mas sobretudo no diálogo “Meditação” (1846), texto que o poeta não publicará em nenhum de seus Cantos, e que antecipa abertamente, observa Tales (Ibid., p. 31), “o discurso abolicionista, Joaquim Nabuco e até Caio Prado Júnior”; (iv) o “modo Schlichthorst, ou gozo, erotismo e cultura”, caracterizado pela “ambivalência de um olhar que vê a exceção brasileira, do ponto de vista da onipresença da violência, goza de algo de seu racismo e da possessão dos corpos, mas também da necessidade da vida social viver e criar modos de existência, material e simbólica” (Ibid., p. 31).

(v) O “modo de Gonzaga, o reconhecimento à distância”, algo como uma “contemplação suspensa” da cultura popular de um ponto de vista “irônico e negativo, satírico, do alto”, a partir do qual “a cultura popular, de origem africana, poderia circular pelos circuitos híbridos da elite e do poder, desde que os pobres e negros continuem sempre bem postos em seu lugar original final” (Ibid., p. 32-33); (vi) o “modo Alencar, conservadorismo patriarcal e atraso”, que se confunde com “a emergência da voz reativa e seu projeto” diante da ascensão do abolicionismo forte no final do século XIX (Ibid., p. 33).

Minha primeira pergunta, então, tem a ver com essa dimensão, esses modos de dizer, de conceber, como potência performativa do discurso narrativo ou do discurso poético não simplesmente de reagir, ou reproduzir, ou somatizar, e sim de produzir alguma coisa mais ativamente.

Salvo engano, em todos os referidos modos de dizer pode-se notar uma bivalência: por um lado, há algo que poderíamos chamar de “evento”, no sentido mesmo de um “acontecimento histórico”: isso foi possível neste momento com o Gonçalves Dias; aquilo, noutro momento, com o Gonzaga, etc., etc.; por outro lado, Tales parece sugerir o que poderíamos chamar de “efeito de estrutura”, isto é, algo que permaneceria ativo, contemporaneamente, como linha de força do (não) pensamento no Brasil: numa certa linha, de Gonçalves Dias a Nabuco, a Caio Prado Jr e além; numa segunda linha, em franca tensão com a primeira, de Alencar até o bolsonarismo; numa terceira, de Gonzaga até a “nossa classe média culta e elite” quando vai “ao carnaval e à Bahia” e depois “retorna aos nossos salões culturais, onde pobres e negros continuam nos servindo” (Ibid., p. 33); numa quarta, que pareceria a Tales, antes de mais nada, uma linha de fuga, do “soldado antropofágico” alemão à moderna antropofagia brasileira.

Podemos, assim, em suma, nos perguntar em que medida os modos de dizer a cultura popular diacronicamente divisados por Tales Ab’Sáber não se deixariam perceber sincronicamente como linhas de força (num campo de forças) da produção, circulação e recepção dos discursos conformadores da alteridade (e da identidade) no Brasil contemporâneo.

2.

Enfoquemos, agora, a ambivalência concernente ao grande protagonista do livro, Carl Schlichthorst, o paradoxal “soldado antropofágico” de Tales Ab’Sáber, assim apresentado por Tiago Ferro na orelha do volume: “Moderno, atualizado e aberto, livre dos pactos da conciliação silenciosa dos interesses escravocratas,  Schlichthorst enxerga e vive (e decifra e devora!)  a cultura urbana elaborada por escravizados que, de acordo com a análise de Tales, vai desembocar, cerca de cem anos depois, na matriz mestiça de boa parte de nossa melhor produção do século XX, incluídas aí as saídas culturalistas ideológicas que tiveram seu último suspiro com os tropicalistas liderados por Caetano Veloso. As implicações da hipótese são inúmeras”.

Aí se destaca o lado mais solar, por assim dizer, do soldado mercenário alemão que circulou pelo Rio de Janeiro entre 1824 e 1826, tendo registrado mais tarde suas impressões acerca do que ora viu e viveu num volume intitulado O Rio de Janeiro como é,publicado em 1829 na Alemanha e em 1943 no Brasil, e que será objeto da detida atenção de Tales em seu livro, sobretudo o relato quase onírico do tal soldado acerca do impacto nele gerado pela aparição casual, numa praia carioca, de uma jovem negra vendedora de doces que então canta e dança diante dele.

Lembremos, contudo, que, logo de partida, ao tratar do “modo de Schlichthorst”, Tales reputa a esse olhar a: “Origem da nossa ambivalência erótico-cultural, positiva como lugar de reconhecimento do ato popular, mas controladora dos limites da ação política dos pobres neste continente erótico-simbólico-interessado e, sendo assim, também sexista, machista e perversa em outro grau de compromisso. Campo cultural gozoso, a partir de formas estéticas ligadas ao corpo, com seu fundo de violências e de resistência. Ou, noutras palavras, relação sexual cultural, produtiva, politicamente enquadrada, controlada e orientada” (Ibid., p. 32).

Essa forte ambivalência permanecerá, via de regra, nas referências de Tales a Schlichthorst e a sua obra sobre o Rio de Janeiro. Nelas, sentimos, por vezes, pesar-se um pouco a mão na tentativa de se desenhar a figura do primeiro escritor relevante do século XIX brasileiro. Ainda assim, a ambivalência prevalece: Tales Ab’Sáber não conclui seu livro endossando alguma imagem pacificadora desse pretenso precursor oitocentista da antropofagia e do tropicalismo; longe disso.

Perto do fim, Tales se pergunta: “A ação sexual de senhores e escravizadas na rua e na vida das cidades diminuía a dor violenta do cativeiro, como gesto micropolítico utópico do encontro, movido a prazer que quer purificar a ordem do terror… ou…, a aumentava… como produção de cultura do reconhecimento e subjetivação somente desde aí, restrita este desejo, sublimando forçosamente os terrores mais gerais na medida em que se tornou nova ordem de cativeiro, biopolítico?” (Ibid., p. 283-284).

E ainda: “Podemos considerar o jogo degradado de sedução na sociedade inteiramente deformada pela escravidão algo que pertence ao contemporâneo direito político ao corpo e à afirmação erótica feminina – e negra –, ou nele de fato tudo é corrosão do caráter, perversão e uso e abuso do corpo escravizado?” (Ibid, p. 286).

E ainda: “É possível responder definitivamente a este jogo social de paradoxos, definidos por uma estrutura de poder violenta, mas que evoca o poder criador do sexual, plasmado em arte – uma sublimação que mantém viva o arco do desejo – como uma fonte de possibilidades, humanas concretas e sociais, de um modo desconhecido e de confronto, mesmo que sutil, da formação sexual europeia tradicional, ao mesmo tempo que tudo ao redor o aliena?” (Ibid., p. 287).

Em face dessa ambivalência indissolúvel, que lugar ocupa, afinal, o soldado alemão na história que Tales quer nos contar acerca da escravidão e do “não pensamento” no Brasil, inclusive na história da literatura brasileira que da primeira se desdobraria?

“Olhar estrangeiro, livro 100% brasileiro”, sentencia o autor (Ibid., p. 137).

O risco permanente aqui não seria mesmo o de uma leitura que no limite dissolvesse a incômoda ambivalência do protagonista de O soldado antropofágico rumo à fetichização do personagem como uma espécie de grande precursor de tudo e de todos, isto é, de uma tradição outra em face da escravidão como “sonho limite de nossos autoritários” (Ibid., p. 22)?

3.

Eis-nos, instalados, pois, no dilema de como, afinal, ler Schlichthorst hoje.

Dilema que exorbita, como se percebe, aquele do lugar de fala do autor em questão (quem é que fala o que, e sobre o que, e por quê?) em direção ao de um lugar de escuta do discurso por ele proferido, e do qual, então, nos ocupamos, criticamente, dois séculos depois.

O leitor Tales Ab’Sáber parece consciente do dilema. A certa altura de seu livro avulta, explicitamente, aquilo que se poderia chamar de um “contrato de leitura”, em vista do qual, bem entendido, se estabeleceriam as condições de possibilidade para se ler Schlichthorst como ele então o faz, à luz, inclusive, da possibilidade de que o autor alemão seja lido de maneira diversa da sua, isto é, não necessariamente como um admirável “soldado antropofágico”.

Ei-lo, o contrato: “Ele [Schlichthorst] pode falar explicitamente da barbárie perversa tornada cultura dos senhores da atração sexual liberada por meninas negras muito jovens, sem pruridos, que lhes eram ofertadas em fazendas do interior, revelando com nitidez e atualidade um aspecto sempre ocultado da civilização escravocrata e da natureza ilimitada dos gozos senhoris, de um modo que, para parte da consciência crítica atual, praticamente invalida o seu trabalho. Elementos verdadeiramente desprezíveis de uma realidade amplamente desprezível pontuam, aqui e ali, e com frequência, o seu trabalho. Ao lermos suas memórias brasileiras precisamos conseguir tolerar que o mesmo narrador que revela e esclarece aspectos abjetos da vida nacional dos primeiros tempos também os vive como privilégios disponibilizados a homens como ele, e goza do Brasil que revela, estranha e quase denuncia” (Ibid., p. 140-141).

Eis as condições: à revelia de certa “parte da consciência crítica atual” para a qual o trabalho do alemão automaticamente soaria como inválido, seria preciso “conseguir tolerar” a ambivalência constitutiva do modo de conceber-dizer de Schlichthorst a fim de podermos aquilatar, em sua integralidade, aquilo que o soldado, entre o gozo e o estranhamento, “quase denuncia”.

Voltando-nos, com o alerta de Tales Ab’Sáber em mente, para o próprio texto de Carl Schlichthorst, mais especificamente para a tradução de Emmy Dodt e Gustavo Barroso que consta da edição brasileira de O Rio de Janeiro como é citada em O soldado antropofágico, haveríamos de nos deter, então, numa passagem como esta: “Doze anos é a idade em flor das africanas. Nelas há, de quando em quando, um encanto tão grande que a gente esquece a cor. As negrinhas são geralmente fornidas e sólidas, com feições denotando agradável amabilidade, e todos os movimentos cheios de graça natural, pés e mãos plasticamente belos. Lábios vermelhos-escuros e dentes alvos e brilhantes convidam ao beijo. Dos olhos se irradia um fogo tão peculiar e o seio arfa em tão ansioso desejo que é difícil resistir a tais seduções. Até o digno Clapperton muitas vezes compartilhou as mesmas sensações que me assaltavam no momento, sem disso se envergonhar. Por que deverei eu me deixar influenciar pela soberba europeia e negar um sentimento que se não originava em baixa sensualidade, mas no puro agrado causado por uma obra prima da Criação? A menina que se achava à minha frente era, a seu modo, uma dessas obras primas e, para ela, eu me podia servir das palavras do inglês: “a beautiful negro lady” (SCHLICHTHORST, 1943, p. 203-204).

É a passagens como essa, infere-se, não raras nas memórias brasileiras de Schlichthorst, que se refere Tales Ab’Sáber, quando nos insta a “conseguir tolerar” a abjeção a um só tempo gozada e estranhada pelo soldado alemão, que quase a denuncia. Mas a edição brasileira de O Rio de Janeiro como é nos dá mais o que pensar.

A tradução lusófona do texto alemão assinada, em pleno Estado Novo getulista, pelo integralista simpatizante do nazismo Gustavo Barroso (e sua esposa) é permeada por comentários do próprio Barroso em notas de pé de página. Interessa, sobretudo, a Gustavo Barroso, a história militar contada pelo soldado alemão, isto é, seu livro como um documento para a história militar no Brasil.

Em face das passagens do livro que interessam mais de perto a Tales Ab’Sáber, essas em que se fala da escravidão no Brasil, das meninas negras, etc., chamam a atenção os comentários de Gustavo Barroso.

Diante, por exemplo, da defesa de Schlichthorst (Ibid., p. 80) de que “é justamente a mistura de sangues o que mais convém sob o céu tropical”, Barroso (apud SCHLICHTHORST, 1943, p. 80) comenta, em tom de recriminação: “Neste e em outros locais do livro, o autor, apesar de alemão, faz contínua profissão de fé antirracista”.

Noutro ponto, em que o soldado alemão, referindo-se ao efeito da “alimentação abundante” e do “bom tratamento” aos “negros recém-chegados” ao Brasil, observa: “A pele como que se renova e adquire um negror brilhante, os olhos se enchem de vida e fulgor, e em todos os seus gestos as jovens africanas demonstram uma graça natural, que comumente falta à gente da Europa” (Ibid., p. 131), Barroso (apud SCHLICHTHORST, 1943, p. 80) retruca: “O autor não perde vasa em elogiar negras e negrinhas …”

No trecho acerca da “idade em flor das africanas” que citei acima, Barroso (apud SCHLICHTHORST, 1943, p. 204) insiste: “Sempre a sedução das negras…”

Podemos entrever, com isso, como que um espectro hermenêutico, por assim dizer, pelo qual se distribuiriam as diversas leituras possíveis das memórias brasileiras de Schlichthorst.

Num extremo do espectro, a franca recriminação, abertamente racista, da “profissão de fé antirracista” do autor (“apesar de alemão”), que padeceria da “sedução das negras”, recriminação cujos ecos integralistas-militaristas no discurso da extrema direita brasileira hoje nos fariam pensar na longa duração de um provável “modo de Gustavo Barroso, ou o racismo sexual nazificante”…

No outro extremo do espectro, a recriminação, no limite o cancelamento, por assim dizer, do autor alemão por “parte da consciência crítica atual” para a qual a hipersexualização racializada dos corpos das mulheres negras automaticamente invalidaria seu trabalho.

Em algum lugar do espectro, entre um extremo e outro, uma leitura destemida como a de Tales Ab’Sáber se arrisca a apresentar a ambiguidade do “soldado antropofágico” e de seu modo de conceber-dizer a escravidão no Brasil, a pensar e a problematizar a produtividade e a ressonância de sua “quase denúncia”.

E não seria, afinal, sobre a natureza intervalar desse “quase”, entre o gozo e o estranhamento, que se faz necessário, então, refletirmos com mais vagar, a título de uma pulsão ambivalente e controversa a atravessar o que de melhor, talvez, se tenha produzido na moderna cultura brasileira?

*Nabil Araújo é professor de Teoria Literária na UERJ. Autor, entre outros livros, de Sobre o Perdão e a Solidariedade dos Viventes  (Editora Alameda). [https://amzn.to/4cd4qft]

Referência


Tales Ab’Sáber. O soldado antropofágico: escravidão e não-pensamento no Brasil. São Paulo, n-1; Hedra, 2022. [https://amzn.to/3VmQo4c]

Bibliografia


SCHLICHTHORST, Carl. O Rio de Janeiro como é (1824-1826). Trad. de Emmy Dodt e Gustavo Barroso. Rio de Janeiro: Getúlio Costa, 1943.


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