Tempos de exceção

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Por OLGARIA MATOS*

Na lógica da segurança que governa a desordem, a alienação não é mais apenas do trabalho, mas da própria condição de existir no tempo — e só a reabertura do futuro como promessa, não como ameaça, que se pode interromper a regressão para o reino das emoções primárias

1.

O Estado de exceção moderno, teorizado entre o final da Primeira Guerra Mundial e a Segunda,[i] se inscreve na crise na democracia liberal e de suas instituições, do Parlamento à educação, da justiça à família, de igrejas a sindicatos, entre outras. Menos coercitivas do que no passado, essas instituições são, também, menos protetoras, podendo se desfazer a qualquer momento. Descrença ainda na representação política, em que se separaram os representantes dos representados.

Tais circunstâncias se associam ao esgarçamento do Estado-nação como referência simbólica de pertencimento e de suas prerrogativas de bem-estar social, a política se convertendo em gestão, e as instituições públicas em empresas, submetidas a avaliações e performances, produzindo competições que rompem vínculos profissionais de confiança e amizade.

As instituições se tornam, assim, incompreensíveis, e a política é esvaziada do sentido da cidadania, de valores e direitos comuns e compartilhados, resultando na indiferenciação entre fato e direito, entre a aplicabilidade da lei e sua suspensão, o que faz vacilar o princípio de realidade social e subjetivo.

É assim que o conceito de alienação abrange diferentes figurações. Pois, se alienação provém de alienus, alheio, estranho, quando referido por Karl Marx ao mundo do trabalho – no qual o trabalhador não se reconhece a si mesmo quando está no trabalho, mas se sente fora de si e só está junto a si quando fora do trabalho –,o conceito hoje amplia seu alcance, no sentido em que a alienação contemporânea como estado de exceção é a própria maneira de habitar o mundo, na dispersão do Eu na exterioridade, com o enfraquecimento da capacidade de julgar, de avaliar acontecimentos na condição de maioridade intelectual, “ sem a direção de outrem”.

Eis por que a alienação como estado de exceção significa também a colonização do mundo interno, o que se manifesta em pensamentos homogêneos e unidimensionais de grupos isolacionistas, no declínio da capacidade de pensar, de discriminar, de duvidar – prevalecendo o “valor de exibição”, no desejo fusional das massas, em um universo de identificações imediatas e de sociabilidade empática, de amor ou ódio aos governantes.

Concorre, para tanto, a universalização do mercado para todas as esferas da vida, em particular na introdução do marketing político, da indústria cultural, da obsolescência permanente de valores e comportamentos. O que significa, na vida em comum, a deslegitimação permanente de instituições constituídas em uma tradição, que entrecruzava sua arché e o futuro. Deste modo, a ruptura com o passado foi o pressuposto da expansão do capitalismo global: “o dispositivo teórico da Economia Política […] é o de abolir tudo o que, nos costumes, nos hábitos e nas leis existentes, sejam obstáculo ao ‘ jogo natural’ do mercado, isto é, a seu funcionamento sem entraves nem tempos mortos,[…] cuja validade teórica e prática depende da propensão real dos indivíduos para funcionarem como a teoria exige[…], a saber, sem filiação, sem pertencimentos ou enraizamento”.[ii]

2.

A política encontra-se sob os auspícios da tecnologia, da burocracia e da economia – que impõem a aceleração do tempo, o que se traduz no liberalismo econômico, tudo resultando no liberalismo libidinal da ilimitação, da fantasia de poder ter fazer e ter tudo. Sem referências estáveis e estabilizadoras, as experiências do passado não são mais de valia como comunicação entre as gerações, advindo diversas formas de insegurança e de medo.

Pois se a democracia promete o máximo de sobrevivência, segurança, justiça e liberdade, ela o faz sempre no horizonte de sua incompletude, mas ao mesmo tempo de esperança.

Mas quando o presente é de incerteza e de desordem psíquica e política, o futuro não representa mais uma possibilidade, e a política manifesta seus elementos de exceção, pretendendo instaurar uma ordem que perdeu sua dimensão fundamental: “A segurança como paradigma de governo não nasce para instaurar a ordem, mas para governar a desordem.É neste sentido que a segurança, juntamente com o estado de exceção, é o paradigma fundamental da política mundial”.[iii]

Neste horizonte, desenvolvem-se mecanismos de controle, em sociedades que se mostram incontroláveis, como o atestam as redes sociais e a Inteligência Artificial nos diferentes campos em que passam a ser utilizadas. No que diz respeito a seu impacto na democracia, não se trata mais da formação de cidadãos pelas instituições a partir da educação pública e humanista, tampouco de eleitores referidos a associações, sindicatos, partidos políticos, porém de votantes “formados” pela lógica do “facebook” e da economia digital, que se instalam na exibição de si e no culto à facilidade e à imediatez do presente.

Neste confinamento no presente há perda de espera e de esperança, estabelecendo-se uma espera sem horizonte de espera, que é a reificação do futuro: “trata-se de uma espera muito específica no momento atual da mundialização. Enquanto o capital se propaga, a força de trabalho das populações em perpétua peregrinação é compartimentada e comprimida por uma gama variada de coerções, a mais sutil e onipresente de todas sendo a espera, quer dizer, a disciplinarização pela espera[…], a imobilização no interior de uma máquina de compressão e aceleração[…], em uma degradação filosófica da espera. No imediato pós-guerra, o olho clínico de Samuel Beckett [em Esperando Godot ou em Fim de partida] lhe permitiu fazer um diagnóstico, quando ele viu que este seria a marca do novo curso do mundo”.[iv]

3.

Tempo patológico, nele o futuro não é mais promessa, mas ameaça. Por isso, ao analisar as relações entre os indivíduos em uma comunidade em “estado de emergência”, Sigmund Freud referia-se ao Nebenmensch,[v] o próximo, o semelhante que seria familiar e protetor, subitamente irrompendo como estranho e hostil, conformando uma alteridade radical e um corpo estranho, inassimiláveis no interior do Sujeito. Como perigo angustiante, ele é “informe”: “este Outro inassimilável não pode ser [objeto de resiliência], pois arrisca sempre surpreender de novo e de nos precipitar do alto de sua aparição, deixando-nos sem defesa. O que causa o trauma é a alteridade absoluta, para além de qualquer inter-subjetividade[…]. Ela marca a ausência de proteção e abrigo, pois a aparição do Outro precede o ato de visá-lo, já que ele não se deixa preceder por nenhum sinal precursor, surpreendendo sem que se tenha tempo de se proteger”.[vi]

Medo e angústia trazem de volta o “reino das emoções primárias, do culto de ídolos, uma situação propícia a manipulações e à demagogia, induzindo à ansiedade que provoca uma regressão psicológica para disposições paranoides, arcaicas, sobretudo ideologias e doutrinas maniqueístas de vingança e de extermínio: “Este fenômeno propriamente falando é anormal, assinala a entrada no que é legítimo denominar uma patologia social”.[vii]

Reaver o ideário de origem da democracia é acolher, reabrindo-o, o futuro. Pois, se a democracia e a cultura não são capazes de estabelecer uma sociedade ideal, ao menos permitem criar uma sociedade capaz de idealização.

*Olgaria Matos é professora titular de filosofia na Unifesp e do Departamento de filosofia da USP. Autora, entre outros livros, de Palíndromos filosóficos: entre mito e história (Editora da Unifesp) [https://amzn.to/3RhfKz9].

Notas


[i] Cf. Carl Schmitt, Teologia Política,trad. Elisete Antoniuk, ed Del Rey, Belo Horizonte, 2006.

[ii] Michéa, L`enseginement de l ´Ignorance, ed. Climats, Paris, 2006, p. 21-22 e 23. Pertencer significa reconhecer-se com a referência a limites no interior dos quais se fazem experiências e se formam identidades.

[iii] Agamben, G., “A Política da Profanação”, in Folha de S. Paulo, 18/09/2005, Caderno mais!. Com respeito ao estado de exceção generalizado, Francisco de Oliveira escreveu: “o mutirão é a autoconstrução como exceção nas cidades, o trabalho informal é exceção da mercadoria, o patrimonialismo é exceção na concorrência entre os capitais, a coerção estatal é exceção da acumulação privada” (Oliveira, Francisco, Crítica da Razão dualista, Boitempo, 2018, p. 131).

[iv] Cf. Arantes, Paulo Eduardo. O novo tempo do mundo, Boitempo, 2014, p 182.

[v] Cf. Freud, Para além do Princípio do Prazer, trad. Paulo César Souza, Companhia das Letras, p. 56. Cf. também, Simon Critchley,“Das Ding: Lacan and Levinas”. In: Research in Phenomenology 28, 1998.

[vi] Salmona, Muriel, in Gérer la Dissociation d´origine traumatique, org. Susette Boon, Kathy Steele, Onno van der Hart, trad. Manoëlle Hopchet et allii, ed De Boeck Supérieur, Louvain, 2017, p.12.

[vii] Cf. Pagès, M., “Massification, regression, violence dans la société contemporaine”, in L´individu hiper moderne, org Nicole Aubert, ed érès, Paris, p. 233-236.

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