Tempos dramáticos nos aguardam

Imagem: ArtHouse Studio
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Por LEONARDO BOFF*

Como Hitler e Mussolini, Trump foi eleito democraticamente – mas seu projeto é a destruição da democracia. Seu narcisismo patológico e ‘America First’ são a receita para uma tragédia global sem precedentes

1.

Não tenho faculdades divinatórias ou de áugure. Mas sempre me tenho perguntado qual o projeto que se oculta atrás das políticas visíveis de um chefe de estado. Assim em fevereiro de 2020 escrevi um texto sobre Donald Trump (governou de 2017-2021) e os tempos dramáticos que poderíamos esperar.

Agora na sua reeleição me dou conta do que escrevi. Se era dramático agora virou trágico para toda a humanidade.

Estamos todos sob várias ameaças: a nuclear, a escassez de água potável em vastas regiões do mundo, o aquecimento global crescente, as consequências dramáticas da Sobrecarga dos bens e serviços naturais, indispensáveis à vida (the Earth Schoot Day).

A estas ameaças se acrescenta uma outra não menos perigosa, aventada já por vários analistas mundiais como os prêmios Nobel Paul Krugman e Joseph Stiglizt e reforçadas agora em 2025 por Noam Chomsky e Jeffrey Sachs. Ninguém sabe em que vai parar a guerra comercial entre os EUA e a China. Segundo Noam Chomsky, a guerra comercial “normalmente culmina com uma guerra real que agora seria letal e final”.

Recentemente um economista ítalo-argentino, Roberto Savio, co-fundador e diretor geral da Inter Press Service (IPS), agora emérito, escreveu um artigo que nos deve fazer pensar sob o título: “Donald Trump veio para ficar e mudar o mundo” (ALAI-America Latina en Movimiento de 20 junho de 2018). Efetivamente pôs o mundo de pernas para o ar.

Roberto Savio afirma que Donald Trump não é uma causa da nova desordem mundial. Ele é um sintoma. O sintoma de tempos em que os valores civilizatórios que davam coesão a um povo e às relações internacionais, são simplesmente anulados. O que conta é o voluntarismo narcisista de um poderoso chefe de Estado, Donald Trump, que no lugar destes valores colocou o dinheiro e os negócios pura e simplesmente. São estes os que definitivamente contam. O resto são perfumarias dispensáveis para o domínio do mundo.

O “America first” deve ser interpretado como “só a América” conta e seus interesses globais. Em nome deste propósito, já pré-anunciado em sua campanha, Donald Trump rompeu tratados comerciais com velhos aliados europeus, a Aliança do Transpacífico e abriu uma arriscada guerra comercial com seu maior rival a China, impondo sobretaxas de importação de produtos que somam bilhões de dólares, além de cobrar taxas sobre o aço e outros produtos a outros países como o Brasil.

2.

É próprio de figuras autoritárias e narcisistas fazerem pouco das legislações. Quando lhes convêm passam por cima delas sem dar maiores razões. Para Donald Trump vale mais a invenção de “uma verdade” do que a verdade factual mesma. Os “fake news” são um recurso presente em seus twitters. Segundo Fact Schecker, desde que assumiu a presidência em 2017 disse cerca de 3.000 mentiras. Verdade e mentira valem na medida que respaldam seus interesses. Curiosamente em 2024 venceu os principais pleitos e tem a aprovação de parte da opinião pública do Partido Republicano.

Não tolera críticas e cercou-se se assessores súcubos que lhe dizem para tudo “sim” sob o risco de serem sumariamente demitidos. Cercou-se da pessoa mais rica do mundo, Elon Musk, das mais arrogantes e vazias de pensamento e de sentimento.

Reeleito, fez com que o estilo de governo e a negação de toda ética poderão tornar-se irreversíveis. Não esqueçamos que Hitler e Mussolini também foram eleitos e criaram as suas mentiras vendidas à la Goebels como “verdades” para todo um povo. Face a um mundo marcado pela xenofobia, pela exclusão de milhões de judeus, de milhares e milhares de imigrantes e refugiados e pela afirmação exacerbada dos valores nacionais em desprezo dos demais roça a zona da barbárie.

Tais atitudes transformadas em políticas oficiais podem ser fonte de graves conflitos, cujo “crescendo” pode até ameaçar a espécie humana. Cerca de 1300 psicanalistas e psiquiatras norte-americanas denunciaram desvios psicológicos graves na personalidade de Donald Trump.

Como será o destino da humanidade, entregue a um narcisista deste jaez, cujo paralelo só se encontra em Nero que se divertia assistindo o incêndio de Roma, com a diferença de que agora não se trata de um incêndio qualquer, mas da inteira Casa Comum? Como é imprevisível e a toda hora pode mudar de posição, assistimos, assustados e estarrecidos, quais serão os futuros passos.

Que Deus que se anunciou como “o apaixonado amante a vida” (Sabedoria 11, 24) nos livre de tragédias que poderão ocorrer, dada a irracionalidade de alguém que anuncia “um só mundo, um só império e a América em primeiro lugar” (o império norte-americano).

*Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor. Autor, entre outros livros, de Cuidar da Casa comum: pistas para protelar o fim do mundo (Vozes). [https://amzn.to/3zR83dw]


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